terça-feira, 3 de setembro de 2013

Pedaço do apocalipse

Já está tarde e frio.

Calçada molhada, risadas, sussurros.

Ele está deitado, coberto pelo vento que corta sua pele.

Mas nada disso importa.

Não, ele não faz parte da história.

Não, ele não tem nome, nem lar.

Sapatos bem lustrados andam a passos largos.

Há um charme naqueles transeuntes.

O ar gelado, fumaça blasé das bocas que nada têm a dizer.

Os trapos estão fora da última moda, embora alguns sintam prazer em vesti-los para criar uma imagem e adentrar o clube dos pés descalços e das unhas bem feitas.

Mas ele o faz por necessidade.

Não, ele não tem destino.

Não, ele não escolheu este enredo.

Coberto por jornais que não sabe ler.

Buscando calor nas manchetes e fotos de gente fria que apenas finge se importar.

Ele é um pedaço do apocalipse, uma fração recortada do mundo que o cerca.

Deixando as gotas purificarem o corpo e a alma que apodrecem sem que ninguém perceba.

Estão muito distraídos e ocupados.

São importantes demais para olhar para o chão. 

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