segunda-feira, 29 de julho de 2013

Kurt (6): a carta de suicídio

Carta de suicídio de Kurt Cobain:

"Falando a língua de um simplório experiente que obviamente seria antes um queixoso castrado, infantil. Este bilhete deve ser muito fácil de entender. Todas as advertências feitas nas aulas de punk rock 101 ao longo dos anos, desde minha primeira introdução à, digamos assim, ética envolvida na independência e o abraçar de sua comunidade, se mostraram muito verdadeiras. Faz muitos anos agora que não sinto entusiasmo ao ouvir ou fazer música, bem como ao ler e escrever. Minha culpa por isso é indescritível em palavras. Por exemplo, quando estamos nos bastidores e as luzes se apagam e o rugido maníaco da multidão começa, isto não me afeta do modo como afetava Freddie Mercury, que parecia amar, saborear o amor e a adoração da multidão. Algo que eu totalmente admiro e invejo. O fato é que eu não posso enganar vocês, nenhum de vocês. Simplesmente não é justo para vocês nem para mim. O pior crime que eu posso imaginar seria enganar as pessoas, sendo falso e fingindo que estou me divertindo cem por cento. Às vezes sinto como se eu devesse marcar o cartão de ponto antes de sair para o palco. Eu tentei tudo que estava em meu poder para gostar disto, e eu gosto, Deus, acredite-me, eu gosto, mas não é o bastante. Me agrada o fato de que eu e nós influímos e distraímos muita gente. Devo ser um desses narcisistas que só gostam das coisas quando elas se acabam. Eu sou sensível demais. Preciso ficar ligeiramente entorpecido para recuperar o entusiasmo que eu tive uma vez quando criança. Em nossas últimas três excursões, tive uma avaliação muito melhor sobre todas as pessoas que conheço pessoalmente e como fãs de nossa música, mas ainda não consigo superar a frustração, a culpa e a empatia que sinto por todos. Existe o bom em todos nós e acho que simplesmente amo demais as pessoas. Tanto que isto me faz sentir também terrivelmente triste. O triste, sensível, insatisfeito, pisciano, pequeno homem de Jesus! Por que você simplesmente não aproveita? Eu não sei. Eu tenho uma esposa que é uma deusa, que transpira ambição e empatia e uma filha que me lembra demais de como eu costumava ser, cheia de amor e alegria, beijando cada pessoa que ela encontra porque todo mundo é bom e não vai fazer nenhum mal a ela. E isso me apavora a tal ponto que eu mal consigo funcionar. Não posso suportar a ideia de Frances se tornando o triste, o autodestrutivo e mórbido roqueiro que me tornei. Eu tive muito, muito mesmo, e sou grato por isso, mas desde os sete anos de idade passei a odiar todos os seres humanos em geral. Apenas porque parece tão fácil às pessoas conviver e sentir empatia. Empatia! Só porque eu amo e sinto demais por todas as pessoas, eu acho. Obrigado a todos do fundo do poço do meu nauseado e ardente estômago por suas cartas e preocupação nos últimos anos. Eu me pareço muito com um bebê errático e mal-humorado! Não tenho mais a paixão e, portanto, lembrem-se, é melhor queimar do que se apagar aos poucos."

(Fonte: CROSS, Charles R. Mais pesado que o céu: uma biografia de Kurt Cobain. São Paulo: Globo, 2002.)

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