quarta-feira, 31 de julho de 2013

Noite fria

É noite fria.

O vento uiva congelando as nossas vidas.

Cobertas, cobertas e mais cobertas.

O sono não passa de utopia.

E os sonhos são somente isso, sonhos, que vão embora com os primeiros raios de sol.

O corpo permanece gelado.

E a alma torna-se cada vez mais fria.

A solidão nunca termina.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Kurt (6): a carta de suicídio

Carta de suicídio de Kurt Cobain:

"Falando a língua de um simplório experiente que obviamente seria antes um queixoso castrado, infantil. Este bilhete deve ser muito fácil de entender. Todas as advertências feitas nas aulas de punk rock 101 ao longo dos anos, desde minha primeira introdução à, digamos assim, ética envolvida na independência e o abraçar de sua comunidade, se mostraram muito verdadeiras. Faz muitos anos agora que não sinto entusiasmo ao ouvir ou fazer música, bem como ao ler e escrever. Minha culpa por isso é indescritível em palavras. Por exemplo, quando estamos nos bastidores e as luzes se apagam e o rugido maníaco da multidão começa, isto não me afeta do modo como afetava Freddie Mercury, que parecia amar, saborear o amor e a adoração da multidão. Algo que eu totalmente admiro e invejo. O fato é que eu não posso enganar vocês, nenhum de vocês. Simplesmente não é justo para vocês nem para mim. O pior crime que eu posso imaginar seria enganar as pessoas, sendo falso e fingindo que estou me divertindo cem por cento. Às vezes sinto como se eu devesse marcar o cartão de ponto antes de sair para o palco. Eu tentei tudo que estava em meu poder para gostar disto, e eu gosto, Deus, acredite-me, eu gosto, mas não é o bastante. Me agrada o fato de que eu e nós influímos e distraímos muita gente. Devo ser um desses narcisistas que só gostam das coisas quando elas se acabam. Eu sou sensível demais. Preciso ficar ligeiramente entorpecido para recuperar o entusiasmo que eu tive uma vez quando criança. Em nossas últimas três excursões, tive uma avaliação muito melhor sobre todas as pessoas que conheço pessoalmente e como fãs de nossa música, mas ainda não consigo superar a frustração, a culpa e a empatia que sinto por todos. Existe o bom em todos nós e acho que simplesmente amo demais as pessoas. Tanto que isto me faz sentir também terrivelmente triste. O triste, sensível, insatisfeito, pisciano, pequeno homem de Jesus! Por que você simplesmente não aproveita? Eu não sei. Eu tenho uma esposa que é uma deusa, que transpira ambição e empatia e uma filha que me lembra demais de como eu costumava ser, cheia de amor e alegria, beijando cada pessoa que ela encontra porque todo mundo é bom e não vai fazer nenhum mal a ela. E isso me apavora a tal ponto que eu mal consigo funcionar. Não posso suportar a ideia de Frances se tornando o triste, o autodestrutivo e mórbido roqueiro que me tornei. Eu tive muito, muito mesmo, e sou grato por isso, mas desde os sete anos de idade passei a odiar todos os seres humanos em geral. Apenas porque parece tão fácil às pessoas conviver e sentir empatia. Empatia! Só porque eu amo e sinto demais por todas as pessoas, eu acho. Obrigado a todos do fundo do poço do meu nauseado e ardente estômago por suas cartas e preocupação nos últimos anos. Eu me pareço muito com um bebê errático e mal-humorado! Não tenho mais a paixão e, portanto, lembrem-se, é melhor queimar do que se apagar aos poucos."

(Fonte: CROSS, Charles R. Mais pesado que o céu: uma biografia de Kurt Cobain. São Paulo: Globo, 2002.)

domingo, 28 de julho de 2013

Kurt (5)

"Ele agarrou a caixa de charutos e tirou um pequeno saco plástico que continha cem dólares de heroína preta mexicana- e era um bocado de heroína. Ele pegou metade, um chumaço do tamanho de uma borracha de lápis e o colocou na colher. Sistemática e habilmente, preparou a heroína e a seringa, injetando-a logo acima do cotovelo, não muito longe de seu 'K' tatuado. Devolveu os instrumentos para a caixa e se sentiu uma nuvem, rapidamente flutuando para longe deste lugar. O jainismo pregava que havia trinta céus e sete infernos, todos dispostos em camadas ao longo de nossas vidas; se ele tivesse sorte, este seria seu sétimo e último inferno. Afastou para o lado seus instrumentos, flutuando cada vez mais rápido, sentindo sua respiração se reduzir. Ele tinha de se apressar agora: tudo estava se tornando nebuloso e um matiz verde-água enquadrava cada objeto. Agarrou a pesada espingarda, encostou o cano contra o céu de sua boca. Faria barulho; ele tinha certeza disso. E então ele se foi."

(CROSS, Charles R. Mais pesado que o céu: uma biografia de Kurt Cobain. São Paulo: Globo, 2002.)

sábado, 27 de julho de 2013

Novos e velhos dias

Sombras e luzes rondam minha cama todas as noites.

Elas lutam entre si, mas as primeiras sempre prevalecem.

Tantos foram os novos dias em que me levantei.

E tantos foram os velhos dias sem sentido em que me deitei novamente.

As luzes são muito bonitas, mas apenas piscam na interminável escuridão.

Mas tudo que vai embora permanece de alguma forma.

Entendendo, mas nunca compreendendo a verdade do que se passa.

Sobrevivendo escondido, sem a certeza de que ainda existo.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Abrindo a janela

Estava sozinho no escuro.

Tinha medo da claridade.

Estava sobrevivendo sem risos.

Mas tinha medo das lágrimas.

Horas vazias lhe poupavam do risco de sofrer.

E se fizesse algo, sabia que poderia se machucar.

Estava deitado na cama.

Tinha medo do movimento.

Estava em silêncio, isolado de todo e qualquer barulho.

Tinha medo de que os sons da rua pudessem lhe ensurdecer.

Até que um dia, cansado da monotonia, abriu a janela.

Deixou o sol invadir o quarto.

Colocou o rosto na rua.

Cantou uma música de infância.

Sorriu.

Deixou uma lágrima descer pelo rosto.

Respirou fundo, permitindo que o ar tomasse por completo os seus pulmões, como nunca antes em sua existência.

E morreu.

Mas, finalmente, viveu.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Atlético Mineiro Campeão da América: mais do que um título, uma lição de vida

O Atlético Mineiro acaba de alcançar o título da Libertadores da América. O primeiro da história do clube. O maior da história do Galo.

A Libertadores atleticana teve bom futebol, teve qualidade, teve técnica. Mas teve suor, teve sangue, teve coração.

O que foi o gol de Luan, no apagar das luzes, no México?

O que foi a defesa de pênalti do Victor, no final do jogo contra o Tijuana no Independência, operando uma classificação miraculosa?

O que foi o gol do improvável Guilherme, também no fim do jogo contra o Newell's Old Boys?

E o gol de Leonardo Silva, quando o título parecia escapar pelos dedos no Mineirão, de novo no fim?

Sempre no fim.

Este Atlético de Victor, de Réver, de Leonardo Silva, é uma das páginas mais bonitas da história do futebol.

Este Atlético de Bernard, de Jô, de um Ronaldinho que após um longo período retomou a alegria de jogar bola, é um time que não nos deixa indiferentes.

Este Atlético do perdedor, do depressivo, do improvável Cuca, é uma verdadeira lição de vida.

Quantas vezes não deu certo?

Quantos foram os tropeços?

Quantas foram as humilhações e zombarias dos rivais?

E quantas vezes, nesta histórica Libertadores, parecia que não ia dar?

Deu.

O Atlético nos ensina que, mesmo quando tudo parece perdido, quando todas as circunstâncias parecem ir de encontro às nossas expectativas, a esperança não deve ser perdida.

"Lutar, lutar, lutar".

O Atlético reflete, mais do que nunca o seu hino.

"Vencer, vencer, vencer".

A alegria transbordará pela noite, pelos próximos dias, pelos próximos meses, e o orgulho, bem, este permanecerá eternamente nos corações atleticanos, na alma de cada integrante desta torcida fabulosa, apaixonada, crente.

"O nosso time é imortal".

Disso, já não restam dúvidas.

O Atlético Mineiro é imortal.

Um verdadeiro imortal...

Asas quebradas

Reações são desnecessárias.

Suas costas estão doendo.

E suas asas estão quebradas.

Mas ele ainda voa.

Ainda há combustível, vamos queimar mais um pouco.

Há muito em volta, mas nada pode ser tocado.

Dispa sua alma, tire a pele que você está vestindo.

Quero lhe ver por dentro.

Quero viajar, quero navegar no líquido mais puro.

E se este barco estiver afundando, faço questão de deixar meus pulmões serem inundados.

Não há espaço no mundo, não há descanso para a loucura.

Jogue a lucidez num canto qualquer, ela não terá serventia alguma.

Ele sabe que voltará ao mesmo ponto.

O amanhã jamais existirá.

Porque ele ainda voa.

E ele ainda cai.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Apenas siga

Pelos que ficaram pelo caminho.

Pelos que já morreram.

Siga caminhando, siga em frente.

E se tropeçar, não desista.

Imagens coloridas ou em preto e branco podem ferir com a mesma intensidade.

Se você sente frio, é porque conhece o calor.

Se o seu coração está pesado, é porque ele ainda pulsa.

E se você sente dor, é porque ainda está vivo.

Então não pare, amigo.

Mesmo que seus pés doam, mesmo que as pernas não aguentem, dê mais um passo.

Mesmo que a solidão pareça levar-lhe à insanidade, caminhe mais. 

Em algum ponto da estrada, você encontrará algo que dê sentido a tudo isso.

Vá mais longe, reúna toda a potência do espírito.

Chegue ao fim, e quando voltar, conte-me suas histórias.

Se precisar, deite um pouco no chão frio, mas levante-se logo, e siga o rumo das estrelas.

Apenas siga.

Pelos que já morreram.

Pelos que ficaram pelo caminho...

domingo, 21 de julho de 2013

Salvação

A noite está apenas começando.

A doença está espalhada no ar.

Você é tão bondoso, mas está me ameaçando.

Você é tão sublime, mas quer nos destruir.

Tudo está acabando, então faça algo logo!

Invente histórias, traga a verdade.

Você diz que todos sabem, mas eu nunca soube de nada.

Você é divino, mas quer me levar ao inferno por não concordar.

Tomado pelo medo, alguém acreditará.

É assim que seu poder é imposto?

Você ama tanto seus escravos!

E se eu for mais um escravo, você me amará também?

E se eu for seu prisioneiro sem voz, você me deixará ser livre?

E se eu baixar a cabeça e me ajoelhar, você me salvará do meu destino?

sábado, 20 de julho de 2013

Celebração niilista

A noite já é dia, mas você está preso e não pode ver.

Tentando enquadrar-se ou apenas achar um espaço para respirar.

Mas é tão difícil enquanto cada canto está tomado pelos gritos de êxtase de uma existência sem sentido!

Apenas ouça o som, e se deixe levar, não será tão complicado.

Não é tão escuro, se você parar para pensar.

Seja feroz enquanto pode, estraçalhe seu próprio espírito.

Amanhã você será apenas um animal indefeso ofuscado pela luz do sol.

E o nada está disfarçado de tudo, enquanto você pensa que engana o destino.

Almas são faces, faces são máscaras.

Um, dois, três, e mais um brinde para comemorar esta imensa celebração niilista.

Um, dois, três, e mais uma melodia sem vida para encobrir os grunhidos.

Um, dois, três, e mais um nome que será esquecido.

Um, dois, três, e você estará novamente ajoelhado, implorando misericórdia diante de um trono imundo.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Debochado

Fui longe enquanto estava cansado.

E quando estava descansado, resolvi parar um pouco.

Isso não faz sentido, mas fica muito melhor.

Ela sabe bem como não ser.

Sem gosto, sem cheiro, é tudo como sempre quis.

Sim, eu concordei, mas estava debochando.

Sim, eu disse sim, mas estava apenas debochando.

Sim, eu repetia tudo, mas estava debochando.

Sim, fui o que você esperava, mas estava apenas debochando.

Todas as coisas são bonitas, olhe pela janela.

Nada mais irá acontecer, e isso me deixa bastante à vontade.

Nenhuma surpresa dará significado à sua noite.

Decida logo, desista logo, liberte-se logo.

Não finja ter orgulho enquanto é consumido pela vergonha.

Não disfarce a inconformidade, sei que você gostaria de ser muito pior.

Sua escolha está limitada entre ser parecido, ser igual, ou ser uma cópia de tudo que lhe cerca.

E, se não quer ser mais um, seja menos um.

É mais fácil do que parece.

E nem sequer precisa doer.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Desejos

Diga-me quem você foi.

Diga-me quem você é.

E diga-me quem você pode ser.

Os significados estão muito claros.

E a distância não conseguirá trapacear.

Tudo que ainda me faz bem ainda persiste.

Espero, e espero, e espero.

Posso esperar mais, mas estou ansioso demais.

A noite passou, e não consegui dormir.

Os pensamentos imploravam sua permanência, mesmo que arrastada e sem nexo aparente.

Algumas imagens eram suficientes, batendo à porta.

Elas estavam refletindo os desejos que parecem explodir o meu corpo e a minha alma.

E eles só aumentam, sempre aumentam.

Queria ser melhor, e queria ter alguma resposta.

Quando existo, me sinto mais feliz.

Mas não é qualquer um que consegue, você sabe disso.

Sim, eu ainda tenho alguns sonhos.

Sim, ainda tenho motivos para caminhar.

Me dê logo o aval.

Estou precisando sorrir.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Martelo quebrado

Diga-me do que gosta.

Diga-me do que devo gostar.

Julgue sem ler, ver ou saber.

Seja a superioridade que nos guiará!

Minta um pouco.

Defina o certo e o errado.

Quebrarei o martelo, rasgarei o veredicto.

Junte o que está no chão.

Dê uma lição equivocada.

O casal faz uma bela apresentação patética na tela da tv.

Sincronia perfeita dos corpos, rostos falsos sorrindo pela melhor pontuação.

A que horas posso ir embora?

E quanto mais você quiser que eu seja igual, mais eu serei diferente.

E quanto mais você me obrigar a comer, mais eu vou querer vomitar.

Sem pedais, sem grosserias.

Sem preconceitos, sem a sua estupidez.

Algo que valha algo ainda será encontrado no deserto. 

E então seremos espíritos menos pobres e mesquinhos.

E aprenderemos a entender as regras sem receitas prontas.

Porque somos todos parte da mesma massa, e cantaremos alguma música juntos.

Suicidas que amam a vida, Pollyannas descrentes, palhaços tristes e velhos amargurados banhados em leite condensado, todos estarão olhando para o mesmo céu.

Sim, a coragem de quem desistiu será melhor compreendida.

E então os significados serão desnudados, sem máscaras, sem coroas, e sem cruzes.

domingo, 14 de julho de 2013

Desculpas sinceras

Estive fazendo muitos ruídos, passando a parede?

Desculpe-me, não, isso é de mentira.

Mostre-me sua regra, divirta-me um pouco mais.

Diga-me de onde você é, preciso apenas confirmar minha suspeita.

E o que foi que um dia existiu?

E você fará mesmo algo produtivo.

E jamais farei algum esforço para ver.

Rejeitar me dá mais prazer.

Negar me leva às nuvens.

Sim, eu vou apenas rir.

E depois vou me ajoelhar pedindo clemência e compreensão.

Desculpe-me, não, isso é de mentira.

sábado, 13 de julho de 2013

Caricaturas

Está tudo tão bonito.

Está tudo tão escuro.

Estão todos dançando.

Mas estou parado.

Estão todos sorrindo.

Mas estou sério num canto qualquer.

E quando um feixe de luz corta a pista, vejo apenas caricaturas.

Não me entenda mal, estou apenas cansado de tudo.

As horas são longas, e nada mais faz sentido.

E, se estamos prontos para nada, estamos prontos para ir embora.

Se pudesse, eu seria igual a isso.

Mas não faço parte desse teatro.

Sei as regras, mas não tenho talento para o jogo.

Sei as normas, mas sempre acabo perdendo.

Pendure-se num gancho, exponha-se.

Alguém irá se interessar em levar um naco de carne.

Sim, se seu preço for baixo, você conseguirá se vender facilmente.

Mas se seu preço for alto, sempre caberá uma negociação.

E eu apenas observo de longe.

Rindo de como as coisas são no mundo real.

Rindo de como os planos nunca se realizam.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Disforme

Acordei, sinto-me bem.

Dormi, sinto-me mal.

Tudo fica disforme quando perdemos a memória.

Tudo faz sentido quando não estamos lúcidos.

Não, não vá.

Os mundos não podem colidir.

Espere um pouco mais, invente uma desculpa qualquer.

Prefiro ficar a sós com você.

E contar as histórias do tempo que passou.

Quero ser um indivíduo, não mais uma formiga.

Há tanto por fazer a contragosto nos dias de hoje.

Não me tire o pouco de conforto que resta.

E se vai passar, não, não me importa.

Um minuto intenso vale mais do que muitas horas enfadonhas.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

14 anos

Ela sofreu em oito mãos.

Tinha a vida pela frente.

O sol já foi embora.

Mas há monstros aguardando na penumbra.

E ela só queria voltar para casa.

Dias e anos passarão.

E sua cama permanecerá vazia.

Ela está dormindo nua em algum canto, debaixo da terra.

E os ladrões de sonhos respiram aliviados.

Suas peles não apodrecerão o suficiente.

E suas entranhas no chão não serão o suficiente.

O fogo em suas faces não será suficiente.

E o fogo do inferno não será suficiente.

Ela tinha apenas 14 anos.

Mas eles terão ainda muitos anos pela frente...

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Estupidez emocional

Algumas palavras são cruéis, mas são reais.

Apague-se um pouco mais.

E talvez se você for um morto-vivo, você possa melhorar.

Queimando de uma só vez, erro que se repete.

Estupidez emocional destrói todos os seus sonhos.

Aberrações afetivas consomem todos os seus planos.

Não seja o que é, isso é bobagem.

Uma única vez pode facilmente se tornar um deboche.

O brilho nos olhos alheios pode ser ânsia de vômito.

Você foi somente um maldito incômodo.

Você foi apenas um maldito acidente.

Você é apenas um maldito arrependimento.

Veja, o céu azul está tão cinza nesta tarde!

Então durma e espere.

Engula o desprezo e o remorso.

Mastigue o desespero e a angústia.

E feche os olhos para não ver o anoitecer.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Inequívoco

Deixe isso aí, deixe que eu limpo.

Deixe isso aí, deixe que eu conserto.

E farei tudo errado.

E vou culpar você.

Porque sou o melhor nisso.

E nunca vou me equivocar.

Não vou gastar nada, faço assim mesmo.

A espera foi grande, e finalmente fiz um grande favor.

Estou fingindo satisfação, finja junto comigo.

E se alguém reclamar, ficarei zangado, sei bem como esbravejar e deixar você com medo.

Porque sou o melhor nisso.

E nunca vou me equivocar.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Última diversão

É tão cedo para você ir embora.

Ainda temos muita angústia alheia para nos divertir.

Queimando as entranhas com nossas salivas.

Torça a faca em meu peito, faça-me sorrir.

Olhe para mim enquanto me destruo.

Doença sem cura, morrendo e sangrando como um porco no abate.

Ninguém pôde ouvir meus gritos.

E agora estou me divertindo na montanha russa.

Me divertindo na montanha russa.

E comendo balas de morango.

Montanha russa, roleta russa...

Balas de morango, balas de chumbo...

Montanha russa...

Balas de chumbo...

Balas de morango...

Roleta russa...

domingo, 7 de julho de 2013

Tristeza: Mercado Público em chamas

2013 tem sido um ano de duros golpes no Rio Grande do Sul.

Em janeiro, a tragédia de proporções assustadoras da boate Kiss, que vitimou centenas de vidas em Santa Maria.

Agora, o fogo que tomou conta de um patrimônio histórico de Porto Alegre, o Mercado Público.

Felizmente, nínguém morreu.

Mas há, sim, uma vítima: a história da cidade.

O Mercado faz parte da vida de todos os porto-alegrenses.

Quem nunca tomou ao menos um café por lá?

Quem não tem uma lembrança, ao menos, daquele lugar tão importante, vivo, peculiar?

O Mercado Público é parte do cenário de Porto Alegre.

É impossível imaginar o cotidiano da capital gaúcha sem a presença do Mercado, da sua energia, das suas histórias.

Com as chamas, se vai junto um pouquinho da vida de cada pessoa que já viveu momentos lá dentro.

Um pedaço de mim queimou junto, naquele fogo imenso e deprimente.

Porto Alegre dormiu perplexa no dia de ontem.

E acorda em luto no dia de hoje.

Resta a tristeza.

Resta lamentar profundamente.

sábado, 6 de julho de 2013

Solidão acadêmica

Estou sentado em frente à tela do computador.

O arquivo do Word, em branco, parece querer pular do monitor para me estrangular.

Observo com apreensão.

Preciso de um café, um chá, ou um copo de refrigerante.

Preciso de pelo menos uma página, um parágrafo, uma frase, talvez.

Giro na cadeira giratória.

Pra lá e pra cá.

Ando pela sala, adentro o quarto.

Vou ao banheiro, olho-me no espelho.

Volto à cadeira, observo a rua pela janela.

Qualquer bobagem que consuma mais trinta segundos é bem-vinda. 

E a ideia, o estalo, não vem.

Estou angustiado, aflito.

Procrastino mais um pouco, em busca da inspiração que não vem.

Um dia a mais é um dia a menos.

E, por mais que eu me dê mais um tempo, sinto o tempo escorrendo pelos dedos.

Silêncio, solidão acadêmica.

As horas não passam, e não sei se isso é bom ou ruim.

Tenho as ideias, mas faltam as palavras.

Tenho as peças, mas não tenho a caixa do quebra-cabeças.

Eis a vida que escolhi, tendo de vencer o cansaço mental e dar o algo a mais mesmo quando parece não haver nada mais para dar.

Quando as dez páginas forem cem, cento e cinquenta ou duzentas, encontrarei o meu deleite, disso eu sei.

Ninguém disse que seria fácil.

Mas sei que vou vencer a tela em branco.

Um cursor piscante é pequeno demais para me derrubar.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Estrela

A manchete foi amplamente divulgada.

Agora você é uma notícia espalhada.

A plateia delira com mais um solo sem vida.

E você está tão feliz!

Diga-me o que cantar.

Diga-me o que sentir.

Diga-me o que pensar.

E diga-me como pensar.

Faça o que se espera.

Traga mais uma pílula.

Eles estão babando.

E se eu sentir vontade de vomitar, você tem uma sacolinha?

E se eu sentir vontade de cuspir, para onde devo ir?

Defeque mais regras.

Traga-me mais verdades universais.

Não tenho nenhuma razão.

Estou fora do jogo.

Apenas não fique entediado demais.

Faça algo que valha a pena, ou mais algum dinheiro e prestígio.

E que a luz não canse seus olhos.

E que os gritos histéricos não cansem seus ouvidos.

E que os tapinhas nas costas não estraguem seus nervos...

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Do céu ou do chão

Ei, garoto, espere mais um pouco.

Agora vá embora.

E volte logo.

Encontre alguma coisa no caminho.

E perca logo em seguida.

Coma tudo que está no prato.

E vomite depois do almoço.

Alguma resposta virá, do céu ou do chão.

Aguarde sentado na sala.

E saia correndo quando lhe chamarem.

Abandone o tédio.

E pinte a parede do banheiro.

Você sabe como fazer.