sábado, 29 de junho de 2013

Aprisionado

Paredes de madeira áspera são a moldura do meu corpo deitado.

Estou acordado durante toda a noite, sentindo frio.

Sinto-me tão desconfortável e tolo.

Do outro lado, gemidos e palavras aleatórias.

Estão distraídos demais para ouvir meus gritos.

E tudo o que eu desejava era estar lá.

Se soubesse que seria assim, não teria vindo.

Mas agora é tarde demais.

E se acabar agora, ainda assim não acabará.

E se começasse agora, isso seria apenas um sonho.

Está escuro aqui, e as horas se arrastam. 

Preso e sem volta.

Preso e aguardando.

Quero dormir, mas não consigo.

Quero dormir, mas não estou em paz. 

E a luz chegará quando eu estiver esgotado.

E a luz se apagará quando eu estiver pronto para ir embora.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Panfletos

O sol forte está batendo no rosto.

O volume de folhas não diminui quase nada.

Não há tempo para sentir frio ou calor.

Não há tempo para um copo d'água.

Sinaleira fechada.

Janelas fechadas.

Portas fechadas.

Algum destes rostos fechados poderia fazer o imenso favor de vê-lo, mesmo sem lê-lo?

As solas dos seus pés estão doendo imensamente.

E ao final do dia, alguns trocados serão a recompensa.

As pilhas são novas, mas o ponteiro recusa-se a avançar.

Há muitas horas pela frente.

Aquilo que vejo é suor ou lágrima?

Aquilo que vejo é cansaço ou desespero?

Mas ele tem que permanecer firme em meio ao monte de latas indiferentes.

Precisa se deixar explorar um pouco mais, para comer algo à noite e voltar à sinaleira no dia de amanhã.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O retorno do filho

Estive viajando por um longo tempo.

Estive conhecendo outros lugares, fora e dentro de mim mesmo.

Vivi experiências inigualáveis e então voltei.

E então reencontrei este lugar que não muda e jamais mudará.

Estive procurando um caminho que levasse à verdade.

Estive falando com pessoas que tinham coisas parecidas para compartilhar.

Gostei dos sabores que provei.

E então reencontrei o mesmo lugar, que não muda e jamais mudará.

Há mais sujeira nas calçadas.

Há mais sujeira nos gestos.

Há mais angústia nos becos.

Há mais angústia nas almas.

Há mais dor nos sorrisos.

Há mais dor nos corações.

Há menos humanidade no ar.

Há menos esperanças nos dias que virão.

E há mais solidão na poeira acumulada.

E há menos paz nesta intensa monotonia.

E há mais cinza no céu outrora ensolarado.

E há menos brilho nos olhos que vejo na rua.

E há mais reticências e silêncios do que gritos e exclamações.

E há menos vida nas flores e árvores, com o vento soprando melancolicamente.

Estive longe por um longo, muito longo tempo.

Estive expandindo horizontes até então estreitos.

Ganhei muito mais do que perdi.

E então reencontrei a mim mesmo.

Eu não mudei, e jamais mudarei...

terça-feira, 25 de junho de 2013

Não me pergunte

Não me pergunte por que dói.

Minhas explicações não vão lhe convencer.

Não me pergunte com o que sonho.

Meus sonhos jã não adiantam para nada.

Não me pergunte por que calo.

Minhas palavras são estéreis diante do fatalismo da minha existência.

Não me pergunte o que sinto.

Meus sentimentos são lâminas que rasgam a pele e fazem sangrar.

E não me pergunte por que ainda estou aqui.

Não sei dizer isso nem para mim mesmo.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Das belezas ocultas

A garota estava sentada sozinha com seu notebook, como todos os dias.

Ela é diferente demais para um mundo de iguais.

Alguém poderia querer colocá-la numa jaula.

Seres desumanos estão espalhados por aí como uma praga que faz este mundo adoecer.

Se eu fosse ela, eu choraria.

Mas ela sorri.

Se eu fosse ela, eu me lamentaria.

Mas ela mantém um lindo brilho nos olhos.

Se eu fosse ela, eu já teria ido embora.

Mas ela insiste em ficar, ela insiste em viver.

Não, ela nunca será aceita.

Mas é tão bonito vê-la apreciando a vida a seu modo.

A natureza lhe odeia.

Mas ela não faz disso um motivo de tristeza, pois ama sua natureza.

Fiquei feliz com seu riso, com sua alegria em existir, a despeito dos deboches da existência.

Olhares atravessados, de espanto, nojo ou piedade vazia parecem não lhe abalar, e que assim seja sempre.

Ela é um espírito bonito, espírito leve, que supera suas dificuldades com o dom de encarar os dias como se fossem focos de luz.

Não, ela não é medonha.

Medonhas são as almas pobres que não notam a inexplicável e indescritível beleza daquela existência singela e superior.

Não, ela não é uma aberração.

Aberração é a feiura de corações tão rasos que não possuem sensibilidade para discernir o que realmente é importante e maravilhoso em um ser humano.

Ela nunca saberá, mas estive sorrindo com ela.

Ela nunca saberá, mas meus olhos brilharam ao ver o brilho nos olhos dela.

domingo, 23 de junho de 2013

Sem náuseas

Estava tudo calmo, um dia igual aos outros.

Mas algo impressionou a mim e a todos.

Globo ocular arranhado.

Globo ocular arrancado em rede nacional.

Globo ocular sangrando na tela da televisão.

Sem náuseas, perdi essa capacidade.

Ainda assim, queria vomitar.

Não houve possibilidade de fuga.

As portas trancadas evitaram um mal maior.

Será que alguém ouviu aqueles ruídos?

Será que pensei alto?

Não, não fui eu!

Não, eu não disse nada!

Então no fim da tarde, uma bela canção distorcida soava linda a todos, mas me perturbava profundamente.

O que essa orquestra pretende fazer?

Na loja, bichinhos de estimação estão presos, esperando por um pouco de amor.

Sinto-me mal, mas não encontro os motivos.

Talvez precise dormir melhor.

Talvez precise dormir muito mais.    

sábado, 22 de junho de 2013

Brilhante, brilhante!

Veja que lindas palavras a sapiência veio me apresentar.

Aprendizado e deleite, quanto prazer e profundidade!

Brilho e mediocridade contrastando vidas vazias.

Caminhando quilômetros e voltando ao mesmo lugar.

Estamos no meio da farsa, aplaudindo o nada.

E me diga o que de melhor haverá no dia de amanhã.

Talvez eu pudesse responder, mas estou enjoado demais para isso.

Talvez eu pudesse me interessar, mas estou enojado demais para isso.

Revele!

Esconda!

Chame-me!

Expulse-me!

Vomite-me!

O jogo nunca acaba.

O jogo está perdido.

Mas alguém melhor se preocupará.

Não mais.

Há sempre uma substituição na planilha.

Não mais.

E ele lhe libertará de seu próprio destino.  

Não mais.

Fique aí mesmo, e aposte alguma moedinha para desencargo de consciência.

Nunca mais.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Momento de definir rumos

O imenso movimento popular brasileiro que tomou as ruas nos últimos dias parece ter chegado a um momento crucial.

Chegou a hora de definir rumos, e isso já está sendo feito pelo MPL, que originou toda a mobilização (http://www.rodrigovianna.com.br/geral/esquerda-x-direita-na-avenida-paulista-mpl-denuncia-ares-fascistas-em-sp.html).

Sou a favor de que, quanto mais, melhor.

Desde que a agenda não seja contraditória, e até que haja discordâncias substanciais e insuperáveis.

Os próprios manifestantes "contra a corrupção" são bem-vindos num momento inicial.

Engrossam o caldo, ainda que um tanto alienadamente.

Mas agora alguns rumos parecem estar se esclarecendo.

Estes grupos "contra a corrupção" escolheram seu alvo, e parecem ter escolhido seus objetivos (ou ao menos foram induzidos a fazer estas "escolhas").

Adotam postura antidemocrática.

Começam a apregoar, ainda timidamente, um golpe de Estado, a derrubada da institucionalidade existente.

É nesse momento que rupturas em relação ao movimento deverão ser feitas.

Trata-se da simples definição: "aquilo pelo que eu luto não é aquilo pelo que você luta. E nossas lutas tornaram-se inconciliáveis".

Todos que aderem à pauta são bem-vindos.

Pelo menos assim deveria ser.

Mas a pauta vai se refinando com o desenrolar dos acontecimentos.

É um processo esperado.

Oportunismo?

Há sim.

À direita e à esquerda.

O movimento não teve origem no poder mobilizatório dos partidos esquerdistas, embora tenha apresentado ali atrás traços ideológicos claramente de esquerda.

Tampouco nasceu do "senso cívico" e das patriotadas de Rede Globo e cia. limitada.

Em algum momento, esses lados agregaram-se à massa inicial, e exerceram diferentes pressões.

Em algum momento, estiveram na mesma fotografia.

Mas agora as pautas são diferentes.

É mais democracia, ou menos democracia que se quer?

É aprofundar a participação das massas, aperfeiçoar o existente, ou baixar uma ditadura que "salvará a pátria de todas as suas agruras"?

É mordaça ou megafone?

É construir ou destruir, afinal de contas?

O movimento, reitero o que venho dizendo, é louvável.

É muito melhor que a inércia.

Mas, democraticamente, chegou a hora de definir objetivos, delinear a agenda.

Que cada um escolha o seu lado. 

Os passos seguintes devem ser dados para a frente.

E não para trás, em direção a um passado obscuro que o Brasil não pode esquecer.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Kurt (4)

" (...) Enquanto isso, um drama se desenrolava nos bastidores. Kurt, Courtney, a babá Jackie e Finnerty estavam sentadas com Frances quando Axl Rose passou de mãos dadas com sua namorada, a modelo Stephanie Seymour. 'Ei, Axl', saudou Courtney, soando um pouco como Blanche Dubois, 'quer ser padrinho da nossa filha?'. Rose a ignorou, mas se virou para Kurt, que estava balançando Frances no joelho, e se curvou até a altura do seu rosto. Quando as veias do pescoço de Axl se estufaram até a grossura de uma mangueira de jardim, ele rosnou: 'Mande sua cadela calar a boca ou eu vou levar você lá para a rua!'.

A ideia de que alguém pudesse controlar Courtney era tão cômica que um sorriso gigante surgiu do rosto de Kurt. Ele teria começado a gargalhar se não fosse por seu forte senso de autopreservação. Ele se virou para Courtney e ordenou, numa voz de robô: 'Certo, cadela. Cale-se!'. Isto provocou em todos que estavam ao alcance da sua voz um riso abafado, exceto em Rose e Seymour. Talvez tentando livrar a cara, Seymour criou seu próprio confronto, perguntando para Courtney, com todo o sarcasmo que conseguiu reunir: 'Você é modelo?'. Courtney, que havia dado à luz sua filha havia três semanas, era muito rápida para que alguém a superasse nesse tipo de réplica- muito menos Stephanie Seymour- e disparou de volta: 'Não. E você, é neurocirurgiã?'. Com isso, Rose e Seymour saíram depressa dali."

(CROSS, Charles R. Mais pesado que o céu: uma biografia de Kurt Cobain. São Paulo: Globo, 2002.)

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Como?

A moça andava pelo centro da cidade com um bottom com os seguintes dizeres: "Perca peso. Pergunte-me como", e foi abordada por um homem:

- Como?
- Oi?
- Como?
- Não entendi.
- Você tá aí com esse bottom de "Perca o peso. Pergunte-me como"...
- Ah, claro...
- Então... Como?
- Er... Não, não coma...
- Hum...
- Quer dizer... Coma... Mas coma menos e melhor...
- Como?
- Aposte mais em frutas, verduras... Corte o refrigerante.
- Como?
- Assim, ué.
- Bebo?
- Beba água e suco natural.
- Como?
- Beba isso.
- Como?
- Não, não coma. Beba isso.
- Hum... Ok.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Levante brasileiro

Foram anos, anos e anos de um povo levando no lombo.

Quieto.

Irritantemente quieto.

Era uma sociedade civil desconfigurada, desarticulada.

Uma sociedade sem causas que ultrapassassem os muros de suas casas e prédios.

Mas levar no lombo enche o saco.

O povo brasileiro, de saco cheio, finalmente se levanta, e se dá conta do que é tão seu e é tão calhorda e sorrateiramente tirado de si, com uma desfaçatez que beira o deboche.

E, como se fossem fogos de artifício estourando em um céu estrelado, as insurreições explodem em diferentes pontos do país.

Independentemente de exageros pontuais dos manifestantes, este grande movimento deve, sim, ser louvado.

Ele é, sim, muitíssimo bem-vindo.

O coração pulsa mais forte do que nunca.

Não se vê nas ruas o patriotismo artificial e forçado do grito pelo gol marcado por um milionário qualquer de vinte e poucos anos, trajando uma camisa amarela com o distintivo de uma instituição corrupta, mas sim o orgulho genuíno do grito de liberdade de uma gente que tem, sim, algo a dizer e quer, sim, se fazer ouvida.

E já não há porrete que faça esse povo baixar a cabeça.

E já não há bomba capaz de explodir os sonhos e anseios dessas pessoas.

E já não há mais mordaça que cale o berro das ruas.

Hoje, estou sentindo orgulho de ser brasileiro.

Orgulho de ver esse levante maravilhoso em cada canto.

O público foi tomado pelo público.

Palavras como apatia, desinteresse e indolência ficam para trás.

Por quanto tempo? Não sei. 

Ninguém pode saber.

Mas espero que se torne algo perene.

Fato é que o presente momento é de uma grandiosidade ímpar.

Não há como ficar indiferente a esse despertar tão poderoso da nossa população.

Sabe a História? Pois bem, caríssimo amigo: estamos presenciando-a. Estamos vivendo-a.

Lágrima no travesseiro

Chegou embriagado.

Cansado, após ter corrido atrás de coisa alguma.

Desabou na cama.

Encostou a cabeça no travesseiro.

E deixou uma lágrima descer.

Estava acabado mais um dia.

Mais um dia de profunda solidão.

Mais um dia sem sentido algum.

domingo, 16 de junho de 2013

Barulhento

Estou muito barulhento hoje?

Reclame mais, incomode mais.

Não estou dando a mínima.

E quero fazer mais barulho.

Não estou dando a mínima, entenda.

Não vou pedir desculpas.

Preciso descansar, e se isso lhe cansa, entenda.

Não estou dando a mínima.

Essa noite um tsunami atingiu minha cama.

Quase morri congelado, mas não me afoguei.

Era apenas mais um pesadelo.

Diga mais coisas que você odeia.

Estamos no muro das lamentações.

Mas não estou dando a mínima.

E não vou pedir desculpas, entenda.

Você jamais entenderá o que digo, e nem faço questão disso.

Dê mais lições de moral, ensine-me a comer lixo.

Está na página 15 do seu manual.

As guitarras distorcidas dizem coisas mais úteis do que a sua boca.

Pequenas misérias, compreendo, mas deixe-me em paz.

Só não esqueça que não estou dando a mínima.

E não, não, não vou pedir desculpas! 

sábado, 15 de junho de 2013

A dor da existência

Existir dói.

Dor que se disfarça, mas não se esconde.

Ela é a luz que se acende, mas logo se apaga.

Ela é o sorriso que precede a risada.

E quantas risadas viraram gritos de desespero?

A dor da existência é o passo desajeitado que só serve para decepcionar.

É o franco movimento de corpos que se procuram mas não se encontram, nem se entendem.

A dor da existência é o olhar sem foco.

É a alegria que putrefa sem uso no fundo do peito.

É a palavra que rasga, que corta, que mata mais um pouquinho.

A dor da existência é uma canção que não pede piedade ou compreensão.

Ela é o vazio que jamais se preenche, o silêncio que tortura.

A dor da existência é a vontade frustrada, a falta de tato, a falta de ação.

Ela é o medo do amanhã, a nulidade do hoje, o fantasma do ontem.

A dor da existência é o castigo daqueles que não encontraram seu lugar no mundo.

É a angústia daqueles que tentaram, mas nunca aprenderam a viver.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sádico

Venha, querido amigo!

Venha com força, com truculência!

Espanque-me!

Proteja-me!

Destrua meus sonhos com mais e mais pancadas! 

Sangue lubrificando seu objeto fálico favorito!

Salve-me de todo mal!

Vista-me de vermelho!

Liquide-me!

Abrace-me!

Torture-me para lembrar os velhos tempos de sadismo! 

Cale-me, chegue mais perto!

Quebre meus dentes!

Divirta-se!

Atire logo!

Mate-me!

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Kurt (3)

"(...) Assim como Kurt precisara se libertar da órbita de Buzz, ele alcançara um estágio de desenvolvimento no qual tinha de abandonar Olympia, Calvin e Tobi. Não era uma transição fácil, porque ele tinha acreditado nos ideais calvinistas de independência e estes lhe haviam servido quando ele precisou de uma ideologia para fugir de Aberdeen. 'O punk rock é liberdade', ele tinha aprendido, uma frase que continuaria a repetir para todo jornalista ouvir. Mas ele sempre soube que o punk rock era uma liberdade diferente para garotos privilegiados. Para ele, o punk rock era uma luta de classes, mas isso sempre foi secundário à luta para pagar o aluguel ou encontrar um lugar para dormir que não o banco de trás de um carro. A música era mais do que uma moda passageira para Kurt- ela tinha se tornado sua única opção de carreira."

(CROSS, Charles R. Mais pesado que o céu: uma biografia de Kurt Cobain. São Paulo: Globo, 2002.)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Ensine seu filho

Ensine seu filho a cheirar a gasolina.

Ensine seu filho a jogar.

Ensine seu filho a manipular coisas e pessoas.

Ensine seu filho a empinar o nariz.

Ensine seu filho a não se importar.

Ensine seu filho a fazer o que se espera.

Ensine seu filho a nunca perder a pose.

Ensine seu filho a descartar.

Ensine seu filho a não chorar.

Ensine seu filho a não sentir dor.

Ensine seu filho a amar somente o dinheiro.

Ele será perfeitamente adequado.

Ele será feliz.

Ele será mais um.

Mas ele será feliz.

Ele será um pedaço de nada.

Mas ele será feliz.

Ele será um verme.

Mas ele será feliz.

Ele não será humano.

Mas ele será feliz...

terça-feira, 11 de junho de 2013

Efemeridade

Tudo na vida é efêmero...

O quente torna-se frio.

A palavra torna-se silêncio.

O riso torna-se lágrima.

O dia torna-se noite.

O hoje torna-se ontem.

A própria vida, em si mesma, é efêmera.

Algumas vezes, se esvanece lentamente.

E outras tantas, simplesmente vai embora, sem deixar sequer um bilhete...

domingo, 9 de junho de 2013

Queda livre

Gata borralheira olhando para o porta-retratos de uma época vazia.

Desistiu de ser princesa.

Decidiu virar uma bruxa.

Desistiu de ser boneca.

Decidiu trocar o plástico por carne e osso.

Um dia ela estará tão livre!

Hoje ela está tão livre!

Ela agradece os conselhos.

Mas vai seguir com suas próprias pernas.

Ela não ama nada, desprezar é muito mais divertido.

Alguém lhe apontará o dedo, ela sabe que sim.

Alguém dotado de sapiência quase divina apontará seus erros, ela sabe que sim.

Sua mãe detesta o que ela gosta.

Mas ela ama gostar de coisas detestáveis.

Não quer anestesia, sua dor lhe compraz.

Cansada de mentiras, ela é uma mentirosa.

Cansada de traições, ela é uma traidora.

As asas dos anjos abraçam.

As asas dos anjos voam.

As asas dos anjos cortam.

As asas dos anjos caem, e levam consigo a ilusão do céu e do paraíso.

Queda livre, risada.

Queda livre, deleite.

Queda livre, anseio.

Queda livre, liberdade!

sábado, 8 de junho de 2013

Nascituro

Foi bom para você?

A noite ainda não acabou.

Ela nunca vai acabar.

Semente de maldade e dor.

Árvore crescendo a contragosto.

Bolsa estourando, ela está se afogando na piscina.

O abuso ainda não acabou.

O abuso perdurará por nove meses.

O abuso perdurará uma vida inteira.

"Papai, eu te amo!".

Não há cura para as náuseas.

Traga seu livro de mentiras, quero queimá-lo na lareira.

Faça como Regan McNeil.

Talvez haja mais alguma ideia brilhante.

Quem sabe uma cota de estupro?

Uma violação por mês, mediante apresentação de identidade e CPF.

Faça a sua carteirinha.

Ela terá que beber leite todas as manhãs.

Mas eles podem até casar.

Relação saudável de reprodução forçada.

E viverão felizes para sempre.

Na doença e na doença.

Até que a morte os separe.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Não-ser

Ele escreveu "Ajudem-me!" no vidro do quarto, mas ninguém pôde ler.

A poeira tomou conta da sua estimada coleção de latinhas.

Não conseguiu mais tentar ser, então dedicou-se a virar um não-ser.

Ele esteve enfurnado o quanto conseguiu, pelo resto dos dias.

Sem palavras ou expressões, sem gracejos ou falsas ideologias.

Dentro de um cubículo, dentro de seu mais absurdo caos interior.

Calmo demais para explodir.

Agitado demais para adormecer.

Jamais havia estado tão profundo, tão intenso, e com tanta vontade morta apodrecendo em seu estômago.

O chão é o limite.

Vomitou o próprio coração, emporcalhou o ambiente.

E tantos anos depois, aquele "Ajudem-me!" permanece escrito na janela.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Lúmpen

Cabelos sujos, roupa em farrapos, chinelos velhos.

Unhas pretas, pele cascuda, cheiro de intestino solto.

Ele é um câncer que cresce a cada dia nas ruas molhadas de urina.

Ele está gritando alucinadamente para pessoas que não lhe ouvem, apenas estranham.

Sim, ele é uma verdade inconveniente.

Em sua mão rude e encardida, uma garrafa cheia de dor, angústia, desespero e revolta.

39%, teor de ódio por um mundo que lhe despreza.

Suas palavras aleatórias são o sopro de lucidez.

Desgraçada e miseravelmente livre para perambular sem destino.

Leiloando sua alma por alguns centavos, em busca de alento na noite fria.

Ele é a nossa derrota, a nossa falência, o sintoma de uma doença letal que corrompe a nossa capacidade de sermos humanos.

domingo, 2 de junho de 2013

Kurt (2)

"(...) Mas essa ideia, e todas as outras fantasias que ele fazia para o futuro, voaram pela janela durante a primeira semana de novembro, quando Tobi rompeu com ele. Ele ficou arrasado; quando ela lhe deu a notícia, mal conseguiu ficar em pé. Nunca havia levado um fora de namorada e sentiu-se péssimo com aquilo. Ele e Tobi haviam saído durante menos de seis meses. Tinham sido encontros casuais, sexo casual e namoro casual, mas o tempo todo ele esperava que uma intimidade mais profunda estivesse se aproximando. Ele regrediu ao velho padrão de internalizar seu abandono e seu autodesprezo. Tobi não o deixara porque ela era jovem, e sim, segundo Kurt imaginou, porque ele não a merecia. Ele ficou tão nauseado que, uma semana depois, ajudando Slim a fazer sua mudança, ele teve de parar o carro para vomitar.

Na esteira do rompimento, Kurt se tornou mais taciturno do que nunca. Encheu um caderno inteiro com disparates que lhe passavam pela cabeça, muitos deles violentos e angustiados. Ele usava a escrita, a música e a arte para expressar seu desespero, e com sua dor compunha canções. Algumas delas eram canções loucas e iradas, mas representavam ainda outro nível de sua arte, já que a raiva não era mais clichê e agora tinha uma autenticidade que faltava a seu trabalho anterior. Essas novas canções eram cheias de remorso, súplica, raiva e extremo desespero. Nos quatro meses que se seguiram ao rompimento, Kurt escreveu meia dúzia de suas canções mais memoráveis, todas elas sobre Tobi Vail."

(CROSS, Charles R. Mais pesado que o céu: uma biografia de Kurt Cobain. São Paulo: Globo, 2002.)  

Reunião de senhoras

As senhorinhas estão reunidas na sala.

Bebendo chá com bolo de chocolate e biscoitos.

Falando sobre a miséria da humanidade.

Discutindo uma saída para todo o incômodo que nos perturba.

As senhorinhas estão reunidas na sala.

Cabelos brancos, rostos serenos.

Preparando o veneno que vai acabar com tudo.

Rasgando seus mandamentos, viúvas de porcos nojentos.

As senhorinhas estão reunidas na sala.

Olhando as fotos dos netinhos, recordando a ternura e o cheiro de talco.

Bebendo gole a gole o próprio sangue com Cianeto.

E caindo, uma a uma, no tapete vistoso e quentinho que acolhe seus corpos enrugados.

sábado, 1 de junho de 2013

Deserto

"A vida é tão linda", alguém tenta me dizer.

Recordando a dor e o perfume do dia que passou.

Sempre tento viver, mas não me ensinaram direito.

E eu jamais aprendi, jamais.

Seria muito mais fácil se houvesse alguma anestesia ao meu alcance.

Algo que me fizesse dormir por anos, e esquecer quem eu sou.

Amanhã será um dia longo demais.

Amanhã nunca chega, e será minha eterna tortura.

Novamente abandonado em meio à escuridão e ao frio.

Sempre ótimo, mas nunca bom o suficiente.

Repetindo o ciclo, repetindo, e repetindo.

Jamais no céu, algumas vezes no inferno, mas sempre no purgatório.

Meu espírito é fumaça que se vai, contaminando o ar feliz de gente que ri sem motivos. 

Estou queimando numa lareira natalina.

Estou abusando da maldita droga que faz meu coração explodir.

Estou tão doente debaixo das cobertas.

E estou insuportavelmente vivo.