terça-feira, 14 de maio de 2013

Pai e filho

Meu pai e eu temos personalidades relativamente parecidas. Ambos somos um tanto casmurros, reservados, quietos, orgulhosos e irredutíveis em termos de princípios. Também somos, por vezes, um tanto rudes. Talvez seja um mecanismo de defesa, não sei. Mas somos assim.

É óbvio que dois sujeitos com tais características tendem a se comunicar relativamente pouco, apenas o suficiente. Não é que não nos gostemos. Apenas temos traços psicológicos que, combinados, não têm como resultar em grandes e melosas demonstrações de afeto. Casmurro com casmurro tende a casmurrar. Qualquer coisa diferente disso seria uma aberração da natureza. 

No entanto, apesar de não falarmos, sabemos a importância que temos um para o outro. 

Recentemente, ele comprou um carro novo, zerado, muito bonito. Fui com ele buscar na concessionária. Evidentemente, ele estava feliz com a aquisição. Mas, tenho certeza, meu pai também estava feliz por eu estar ali com ele. E eu estava feliz por estar ali naquele momento tão importante para ele. Naquele dia, voltei para o ano de 1997, quando ele comprou o primeiro carro. Era um Gol usado, verde-gelo, ano 1983. Simples, humilde. Mas muito significativo. Demos uma primeira volta, e no dia posterior, ele me levou à escola, que ficava pertinho de casa. De volta a 2013, o roteiro se repetiu. Mas, ao invés do Gol 83, era um Onix novo. E, ao invés da escola de primeiro grau, ele me levou para a universidade, onde eu daria mais uma aula para a graduação.

Outro momento marcante foi quando, numa tarde devastadoramente quente de janeiro, eu defenderia minha dissertação de mestrado. Além das sempre importantes presenças de amigos, colegas e familiares, como mãe, padrinho, madrinha, prima e tia (tanta gente naquele momento praticamente enchendo o mini-auditório me fez sentir querido como eu jamais imaginaria que fosse), uma presença me deixou bastante contente: a dele, meu pai. Eu não esperava, porque sabia que ele teria de trabalhar normalmente naquele dia. Ele deu um jeito, fez um esforço, e conseguiu se liberar para prestigiar aquele evento. Isso significou muito para mim, e me motivou ainda mais para aquela defesa que, felizmente, foi bem-sucedida.

Uma outra vez que me vem à memória foi quando, em 2011, apresentei um trabalho em Belo Horizonte. Foi a primeira em que andei de avião, e aquela viagem foi uma experiência inesquecível e singular. Na volta, meu pai foi me buscar no aeroporto. Quando cheguei com a minha colega e amiga Bianca, que havia viajado junto, fiz as devidas apresentações, e ele falou pra ela: "Sim, esse é meu filho. Meu filho apresentou o trabalho lá, né?", enfatizando as palavras "meu" e "filho", mesmo que involuntariamente. Sem dúvida, o orgulho dele me encheu de orgulho.

Assim, ao fim e ao cabo, mesmo que sejamos dois casmurros (e somos, e não deixaremos de ser), de uma forma ou de outra, através de alguns episódios de nossas vidas, demonstramos, mesmo que implicitamente, o que sentimos um pelo outro. Palavras nem sempre são tão necessárias. Talvez por isso mesmo, vou torcer para que ele nunca leia este texto. Afinal de contas, como bons casmurros, estamos destinados-e talvez seja esta a maior graça e peculiaridade da nossa relação de pai e filho- a continuar casmurrando para o resto de nossos dias.

6 comentários:

Lívia disse...

''Dois bicudos não se beijam!'', seria a tradução mineira para '' Casmurro com casmurro tende a casmurrar.''. HAHAHA'
À parte isso, muito peculiar e bonita a declaração feita ao seu Pai, Bruno!
Já fiz algo para a minha Mãe nesse mesmo sentido no PB, no ''Adotada''. Temos uma relação singular, também, por isso os entendo e os admiro ainda mais.
Parabéns!
Um beijo!

Bruno Mello Souza disse...

Muito obrigado pelas palavras, Lívia!

Beijos.

Thamyris disse...

Cara, adorei seu texto é tão bom quando demonstramos além de palavras o que sentimos por nossos parentes (pais, tios, avós e afins), porque acredito que fica mais na memória. Não que as palavras não fiquem, mas os gestos marcam mais. Parabéns pelo texto! Bj, até mais.

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Bruno Mello Souza disse...

Oi, Thamyris!

Muito obrigado pela visita. Estás convidada a voltar mais e mais vezes ao DC.

Beijo.

Anônimo disse...

Adorei!

Bruno Mello Souza disse...

Obrigado, Anônimo!