quinta-feira, 30 de maio de 2013

Ela, um oásis

Ela é um brilho de sol que invade a janela sem pedir licença.

Olhos de cinema, sorrindo intensamente.

Boca que enlouquece, olhando ao redor.

Ela é canção, sabor, cheiro, textura, beleza que conduzem a um mundo novo, a um tempo paralelo.

Pele que arrepia, trazendo conforto.

Flor mais linda do jardim, trazendo encanto e vida a um cenário monótono.

Alegria que engrandece, transformando dor em poesia.

Oásis de magia e luz, matando a sede de um espírito que busca sua sobrevivência em um deserto árido.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Longe de casa

Um sorriso brilha.

Você está longe de casa.

Você está longe de tudo.

Mas ela é o seu aconchego temporário.

Apenas mais dois dias e tudo terá que passar.

O peito cortado mais uma vez vai cicatrizar.

Mas você está se afogando de novo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Que horror!

Que horror, meu Deus, que horror!

Pobres mulambentos adentrando a universidade! Não sabem se colocar nos seus devidos lugares!

Que horror!

Família de crackeiro recebendo dinheiro do governo para o tratamento! Drogado pobre não é gente e não merece chance de recuperação! Crackeiro não tem alma! Só meu filhinho... Ele, sim, tem uma alma cristã e merece um rehab na clínica que eu pago! Atropelou uns pés-rapados depois da rave no ano passado, mas foi só um deslize... E... Bom... Eram pés-rapados, mesmo! Mas isso não tem importância! O que é um acinte é essa história de drogado pobre!  

Que horror, meu Deus, que horror!

Famílias inteiras da periferia tornando-se milionárias com o Bolsa Família, arrancando sem dó nem piedade o couro do contribuinte que tanto sua para fazer esse país andar! Nas últimas férias, tive de passar uma semana a menos em Paris! Nunca antes na história deste país fomos tão brutalmente explorados! Pobre classe média!

Que horror!

Pobre comprando carro! Pobre andando de avião! Pobre jantando no restaurante mais chique que frequento com cupom do Peixe Urbano! Não sabem nem como pegar os talheres com finesse e de acordo com a minha requintada etiqueta!

Que horror, meu Deus, que horror!

É Lula no NY Times e FHC no Esquenta! O que é isso? Tem algo errado! Está tudo errado!

Que horror! 

Mulheres de peito de fora, marchando para que eu não tenha o meu legítimo direito de desrespeitá-las! É um abuso, um atentado contra os bons costumes! Peito de fora só pode quando me masturbo de madrugada na frente do computador enquanto minha boa esposa dorme com os anjos! Fora isso, é ato despudorado, desavergonhado! Um desrespeito à instituição família! 

Que horror, meu Deus, que horror!

Malditos seres humanos com essas frescuras, essas intenções utópicas e bobas de serem tratados como seres humanos!  

Que horror!

E os comunistas estão chegando para a Revolução de 2014! Vai ser durante a Copa, só não vê quem não quer! Neymar vai pegar em armas e chamar o povo às ruas! Os agentes cubanos receitarão charutos para curar a asma das criancinhas! Socorro! É a ditadura do proletariado! 

Que horror, meu Deus, que horror!

Vou rezar para Santa Thatcher! Talvez ela me leve para um local melhor do que esse! Um lugar lindo onde eu possa destilar meus ódios e preconceitos mais mesquinhos sem ser incomodado por essa gente chata! Um paraíso onde eu possa torturar gays, estuprar vadias e matar gente inferior a pauladas sem precisar ficar olhando pros lados, com medo de ser pego desprevenido a qualquer momento! 

Leve-me, Deus! Salve-me, lhe imploro! Isso tudo é um pesadelo! Que horror! Que horror, meu Deus, que horror!

domingo, 26 de maio de 2013

Novo velho homem

Seu peito é um cemitério de almas.

Mas ele precisa reviver.

Sua mente é pista congestionada e caótica.

Mas ele precisa de um pouco de paz.

Doçura percorrendo suas veias.

A amargura se foi com a descarga.

Ele é um novo velho homem.

Alimentando a doença que lhe permite sobreviver.

Tudo ressurge quando as nuvens vão embora.

O céu aberto é um delicado convite.

Ruas cheias, balões coloridos, um novo sorriso.

Os significados se ressignificam.

Nada mais será como antes.

Mas tudo permanecerá exatamente igual.

sábado, 25 de maio de 2013

Rabiscos

Rabiscando segredos em seu caderno.

Trazendo luz à mais profunda escuridão com olhos profundos e convidativos como lagos cristalinos em dia de sol.

Florescendo em sua boca um sorriso com a beleza de uma flor primaveril.

Colocando o mundo na palma da mão.

Trazendo alegria e leveza à existência.

Revelando uma sinceridade que desafia e encanta.

Fazendo o dia valer a pena.

Ela sabe colorir a vida como ninguém.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

No tempo errado

Sempre chegando atrasado, sempre chegando atrasado.

Alguém sempre à sua frente, alguém sempre à sua frente.

O seu relógio não funciona, o seu relógio não funciona.

E o calendário está rasgado, o calendário está rasgado.

Esperando a hora certa, esperando o dia certo.

E caindo pelos cantos, e morrendo pelos cantos.

Desvirginando a sua calma, estuprando a sua alma.

E rasgando suas entranhas, com pessoas tão estranhas.

Sempre chegando adiantado, sempre chegando adiantado.

Se jogando em água suja, e nadando em água suja.

Sem nenhuma novidade, perdendo pra ansiedade.

Lamentando o que fez ontem, insatisfeito com o hoje.

Adentrando o escuro, asfixiando o escuro.

Vai matando o que sente, estrangulando o que sente.

Olhando tudo à distância, calando tudo que dá ânsia.

E rasgando suas entranhas, com pessoas tão bacanas...

terça-feira, 21 de maio de 2013

Princesa à beira do abismo

Sozinha no final da noite, ela fita o espelho.

Batom vermelho espalhado pelo rosto.

Seus olhos observam um vulto.

Está assombrando a si mesma, com toda a sua miséria.

Ela é o encanto que foi jogado no lixo.

Ela é o desencanto de todos os seus dias.

Não sabe quantos minutos faltam.

Mas corre e tropeça num pedaço de sentimento jogado no chão escuro.

Rastejando e vomitando como uma princesa à beira do abismo.

Esperando um príncipe com cheiro de fezes de cavalo.

Quer apenas um beijo que a adormeça.

Algum acaso que sirva para a fuga.

Espera por um traço de euforia e excitação que deixe sua cabeça um pouco mais dormente.

Ela desconhece o amanhã.

Ela quer apenas desaparecer, como sempre...

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Tudo vai dar certo

Seque as lágrimas, levante a cabeça.

Há um lindo dia lá fora esperando por você.

Não deixe que o espírito pese demais.

Pegue o mundo com as mãos, eu sei que é possível.

Tudo vai dar certo.

Você é o único que pode fazer isso.

Tudo vai dar certo.

Você é o único que pode sentir isso.

Abra a janela.

Abra o sorriso como uma criança.

Vista uma camiseta surrada e assobie uma canção que lhe faça feliz.

Viva os melhores minutos de sua existência agora, eu sei que é possível.

Tudo vai dar certo.

Você é o único que pode acender isso.

Tudo vai dar certo.

Você é o único que pode realizar isso.

domingo, 19 de maio de 2013

Enterrado na cama

Pelos furinhos da persiana, o dia surge e vai embora.

O tempo passa lentamente, mas rápido o suficiente para que me sinta culpado.

O corpo não responde, e a cabeça não suporta a pressão.

Os afazeres jogados na mesa são a materialização de uma angústia que nunca passa.

Alma em estado avançado de decomposição.

Ao invés de terra, edredons, lençóis e cobertores.

Estou enterrado em minha cama.

Descansando sem paz...

sábado, 18 de maio de 2013

Estupros

Todos os dias, quando abro os portais de notícias, me deparo com uma penca de notícias de estupros.

É estupro aqui, estupro acolá.

Estupro no Brasil, estupro na Índia, estupro no mundo.

É alarmante a proliferação desse tipo de ação. 

Me preocupa a ideia de que, ao se espalhar, se cotidianizar, o estupro seja (mais) naturalizado (ainda).

Me preocupa a possibilidade de que a revolta se torne acomodação e fatalismo.

Me preocupa desde a maior brutalidade até a aparentemente inofensiva mão invasiva "brincandinho" de um diretor de teatro imbecil, legitimado pela própria vítima em rede nacional.

Vidas são comprometidas de maneira definitiva por animais perversos e desprezíveis que andam pelos becos, cometendo aquele que, para mim, é disparadamente o pior dos crimes.

É invasão inaceitável, violência física, violência psicológica, trauma indelével. 

Meu estômago embrulha, e o mal-estar é inevitável.

Até quando terei que ler coisas do tipo?

Até quando terei meus dias estragados por essas manchetes perturbadoras?

Até quando terei que tentar digerir e entender, em vão, a podridão do ser humano?

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Pequeno verme

Do outro lado do vidro, as esperanças daquele garoto.

Pequeno verme procurando água limpa para contaminar.

Correndo e rastejando em sua falta de dignidade.

Senti vontade de rir, mas estava entediado demais para isso.

Ele está longe do que quer, enquanto eu como pipocas.

Fazemos parte da mesma humilhação.

Sub-seres em busca de uma sobrevivência mesquinha e miserável.

Urina cai do céu enquanto todos fogem.

Estão debochando de você, garoto inútil!

E de que adiantou seu desespero?

As vontades são as nossas prisões.

Cantamos no vácuo.

Corra, corra, corra!

E não chegue a lugar algum.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Estranhos íntimos

O vento gelado bateu nos rostos frios.

Na penumbra, no vazio, passos para lugar algum.

Não somos mais do que os significados que inventamos para nós mesmos.

Estranhos íntimos fazem planos para amanhã.

Na garganta, lâminas que flertam com o sangue que passa.

Deixe tudo na pia, quando amanhecer estaremos limpos.

Mais um gole de veneno e estaremos no paraíso.

Mas agora já é tarde, e é melhor dormir.

O amor virou catarro.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Pai e filho

Meu pai e eu temos personalidades relativamente parecidas. Ambos somos um tanto casmurros, reservados, quietos, orgulhosos e irredutíveis em termos de princípios. Também somos, por vezes, um tanto rudes. Talvez seja um mecanismo de defesa, não sei. Mas somos assim.

É óbvio que dois sujeitos com tais características tendem a se comunicar relativamente pouco, apenas o suficiente. Não é que não nos gostemos. Apenas temos traços psicológicos que, combinados, não têm como resultar em grandes e melosas demonstrações de afeto. Casmurro com casmurro tende a casmurrar. Qualquer coisa diferente disso seria uma aberração da natureza. 

No entanto, apesar de não falarmos, sabemos a importância que temos um para o outro. 

Recentemente, ele comprou um carro novo, zerado, muito bonito. Fui com ele buscar na concessionária. Evidentemente, ele estava feliz com a aquisição. Mas, tenho certeza, meu pai também estava feliz por eu estar ali com ele. E eu estava feliz por estar ali naquele momento tão importante para ele. Naquele dia, voltei para o ano de 1997, quando ele comprou o primeiro carro. Era um Gol usado, verde-gelo, ano 1983. Simples, humilde. Mas muito significativo. Demos uma primeira volta, e no dia posterior, ele me levou à escola, que ficava pertinho de casa. De volta a 2013, o roteiro se repetiu. Mas, ao invés do Gol 83, era um Onix novo. E, ao invés da escola de primeiro grau, ele me levou para a universidade, onde eu daria mais uma aula para a graduação.

Outro momento marcante foi quando, numa tarde devastadoramente quente de janeiro, eu defenderia minha dissertação de mestrado. Além das sempre importantes presenças de amigos, colegas e familiares, como mãe, padrinho, madrinha, prima e tia (tanta gente naquele momento praticamente enchendo o mini-auditório me fez sentir querido como eu jamais imaginaria que fosse), uma presença me deixou bastante contente: a dele, meu pai. Eu não esperava, porque sabia que ele teria de trabalhar normalmente naquele dia. Ele deu um jeito, fez um esforço, e conseguiu se liberar para prestigiar aquele evento. Isso significou muito para mim, e me motivou ainda mais para aquela defesa que, felizmente, foi bem-sucedida.

Uma outra vez que me vem à memória foi quando, em 2011, apresentei um trabalho em Belo Horizonte. Foi a primeira em que andei de avião, e aquela viagem foi uma experiência inesquecível e singular. Na volta, meu pai foi me buscar no aeroporto. Quando cheguei com a minha colega e amiga Bianca, que havia viajado junto, fiz as devidas apresentações, e ele falou pra ela: "Sim, esse é meu filho. Meu filho apresentou o trabalho lá, né?", enfatizando as palavras "meu" e "filho", mesmo que involuntariamente. Sem dúvida, o orgulho dele me encheu de orgulho.

Assim, ao fim e ao cabo, mesmo que sejamos dois casmurros (e somos, e não deixaremos de ser), de uma forma ou de outra, através de alguns episódios de nossas vidas, demonstramos, mesmo que implicitamente, o que sentimos um pelo outro. Palavras nem sempre são tão necessárias. Talvez por isso mesmo, vou torcer para que ele nunca leia este texto. Afinal de contas, como bons casmurros, estamos destinados-e talvez seja esta a maior graça e peculiaridade da nossa relação de pai e filho- a continuar casmurrando para o resto de nossos dias.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Obra pós-moderna

Hoje acordei disposto a derreter todas as minhas moedas.

Queria queimar meu corpo para poder descansar um pouco.

E depois, construir mais um castelo de areia para que o mar pudesse levar.

Mas acabei debaixo da chuva, bebendo água com fumaça de ônibus.

Sem fome, sem dor e sem sono.

Andando como um morto-vivo.

Removendo meus órgãos e observando-os de fora do meu corpo, como uma obra de arte pós-moderna.

"Olhe ali, mamãe, um pulmão!"

Alguém está violando meu espírito.

E rindo, rindo, rindo.

Alguém está rindo, rindo, rindo.

E violando meu espírito sem qualquer tipo de pudor...

domingo, 12 de maio de 2013

Obrigado, mãe

Obrigado, mãe.

Pelo parto.

Pela amamentação.

Pelo carinho.

Pelos cuidados.

Pelas visitas ao médico.

Pelos abraços.

Pela preocupação.

Pelo amor.

Por ser uma pessoa com quem eu sei que sempre poderei contar, aconteça o que acontecer. 

Por querer sempre, e apesar de discordâncias pontuais, o melhor para mim.

Obrigado, mãe.

Por tudo.

sábado, 11 de maio de 2013

Filhos bastardos

Uma nova vida, um velho renascimento.

Eterno retorno ao pó e ao solo, sete palmos abaixo dos pés que nos pisam.

A existência é uma obscenidade.

E o mundo é regido pela morbidez de nossos espíritos.

Estamos longe de qualquer resposta.

Mas na verdade nunca soubemos quais perguntas deveríamos formular.

E tudo se vai rapidamente, num turbilhão.

Somos os filhos bastardos do criador.

Somos um aborto fracassado, sangrando e sobrevivendo teimosamente.

Somos o nada que insiste em ser alguma coisa...

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Não deixe que lhe digam...

Não deixe que lhe digam o que deve ver.

Não deixe que lhe digam o que deve ouvir.

Não deixe que lhe digam o que deve ler.

Não deixe que lhe digam o que deve comer.

Não deixe que lhe digam o que deve beber.

Não deixe que lhe digam do que deve gostar.

Não deixe que lhe digam o que deve reprovar.

Não deixe que lhe digam no que deve acreditar.

Não deixe que lhe digam o que deve fazer.

Não deixe que lhe digam o que deve dizer.

Não deixe que lhe digam o que deve pensar.

Não deixe que lhe digam o que é ser livre.

Apenas seja.

domingo, 5 de maio de 2013

Carteiraço

O homem de terno e gravata passa pela rua, e um vira-latas começa a latir para ele:

- Au, au, au. Grrr.
- O que foi, cãozinho?
- Au, au. Grrr. Grrr.
- Pare de latir!
- Au, au, au, au. Grrr.
- Você sabe com quem está latindo?
- Au, au, au. Grrr. Grrr.
- Insolente! Olha aqui a minha identificação! Sou secretário assistente do setor de compra de canetas da secretaria de saúde! Tá vendo aqui? Tá vendo? Conheço gente importante! Tenho meus contatos. Conheço pessoas que podem te colocar num canil num estalar de dedos.
- Au, au, au. Grrrrrrrrrr.
- Malditos opositores raivosos... 

sábado, 4 de maio de 2013

Mais uma vez

Acordou-se mais uma vez.

Para que tudo fosse melhor.

Para que tudo fosse diferente.

Encheu-se de esperanças de que um pouco de sol tocasse sua janela.

Talvez tivesse chegado sua vez.

Mas o tempo estava nublado.

E choveu.

Faltou vida, faltou luz.

Mais uma vez, sua vez não chegou.

Mais uma vez, sua vez ficou para a próxima vez.

Como sempre.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Mudanças e permanências

Ela já esteve nos braços dele.

As mãos dela já estiveram com as suas.

Foi apenas uma noite, um momento, um sonho real.

Foram minutos valiosos que até hoje correm nas veias daquele rapaz, e pulsam em seu coração.

Ele tornou-se anacrônico, um ser recortado e deslocado.

O tempo passou, o mundo mudou.

A noite tornou-se dia.

Ele e ela mudaram.

Agora, ela está linda como sempre, do outro lado do recinto.

E ele ali, mudo, apenas admirando suas feições.

Seus corações estão distantes.

Já não batem com a perfeita sincronia daquela noite.

Mas ele permanece no mesmo lugar, martirizando-se sobre aqueles minutos.

E isso apenas reforça a sua certeza de que devia ter agido diferente.

Devia tê-la ouvido.

Devia ter ficado mais um pouco.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Memórias, vinho e solidão

Hoje ele é apenas uma sombra do que um dia já foi.

Sentado num canto, bebendo um copo de vinho, apreciando a solidão.

Desistiu dos quereres que tanto já lhe remoeram.

É olhar que desvia, é sono que não sonha, é desinteresse interessado, é silêncio que grita.

Vai secando como uma folha no chão.

Adormecido, inerte, isolado e sem expectativas.

Permanece vivo por uma memória, uma sensação, um olhar doce de um dia já distante.

Entrega-se à lembrança do cheiro de uma flor, cheiro de felicidade.

Em pensamento, mergulha num oceano que se evaporou muito rapidamente.

A borboleta não bateu suas asas.

E tudo permaneceu exatamente igual...

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Ciência Política: integração ou fragmentação?

As instituições são o desenho fundamental que pauta as regras do jogo democrático, e isto é inegável.

Acreditar, porém, que elas, por si só, sem um mínimo de adesão e respaldo da população, configurem uma democracia, me parece ingenuidade.

Não vislumbrar nas elites um poder fundamental neste panorama é uma postura igualmente ingênua.

Negligenciar que todo este contexto se dá num cenário internacional que exerce determinadas pressões sobre governos e regimes é, também, perigoso.

E, para se examinar tudo isso, é de suma importância a produção, o conhecimento e o reconhecimento de teorias de caráter normativo: seres humanos são seres normativos, afinal de contas.

Empiria sem teoria é nadar em piscina vazia.

Teoria sem qualquer traço de empiria, sem contato algum com a realidade prática e a história, sequer poderia existir.

Quando a Ciência Política se der conta de que suas peças e vertentes podem, apesar de discordâncias pontuais, integrar-se, ela será muito mais forte.

Quando nós, cientistas políticos, abandonarmos, ainda que parcialmente, certos conflitos, rusgas e vaidades,  e semearmos, sem preconceitos, maior diálogo entre as diferentes abordagens, nossas pesquisas serão mais ricas, completas e academicamente relevantes.

A fragmentação é contraproducente e diminui nossas capacidades críticas e analíticas.

Ela nos limita.

Discordar com conhecimento de causa faz parte do processo científico.

Divergir por ignorar, não.

Este pequeno texto não é mais do que uma modesta proposta de reflexão de um cientista político que não se pretende dono da verdade.

E não é, obviamente, um texto científico, apesar de ter como base algumas observações empíricas.