domingo, 28 de abril de 2013

Longa caminhada

Pés machucados, sangrando intensamente.

Mas ele sabe que precisa continuar a caminhar.

Mesmo que as pedras persistam cortantes.

Mesmo que a dor pareça insuportável.

Passo a passo, à procura de um oásis.

Suando mais e mais, resistindo a todas as provações.

Chão que não acaba e se mantém impiedoso.

Seguindo, e seguindo, e seguindo, sem ter garantias de que um dia vá chegar...

sábado, 27 de abril de 2013

Kurt

"(...) Era uma marginalização que sempre o acompanharia: associada a suas primeiras feridas emocionais, a experiência de ser rejeitado seria algo a que ele repetidamente retornaria, jamais conseguindo se libertar inteiramente do trauma. Ela ficaria ali, logo abaixo da superfície, uma dor que cobriria o resto da sua vida com o medo da carência. Jamais poderia haver dinheiro suficiente, atenção suficiente ou - o mais importante - amor suficiente, porque ele sabia com que rapidez este podia desaparecer completamente."

(CROSS, Charles R. Mais pesado que o céu: uma biografia de Kurt Cobain. São Paulo: Globo, 2002.)  

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Vontade de poder

O relógio marca a hora de ir embora.

Mas ele se recusa, quer escrever a história.

Tropeçando e seguindo sem que ninguém lhe impeça.

Tic-tac na mente, ele permanecerá errando.

De dose em dose construiu o que é hoje.

Está pronto para colocar pra fora tudo o que lhe dá náuseas.

E amanhã ele será diferente.

Perdedor, talvez, mas mais vivo do que nunca.

Salivando à espera do prato principal.

Querendo querer cada vez mais.

Colocando fogo em Roma, deliciando-se com suas próprias fraquezas.

E deixando-se dominar pela sua vontade de poder nietszcheana.

Sim, ele é apenas mais um escravo sem senhor.

Tão somente mais uma alma sombria presa aos becos da vida...

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Breve diálogo

- Oi! Tudo bem?
- Oi! Sim, e com você!
- Também!
- Legal!
- Ahã!
- Ehehehe...
- É...
- Pois é...
- Tchau, então...
- Tchau... Até mais...
- Até... 

domingo, 21 de abril de 2013

Dona Saudade

Dona Saudade, como a senhora gosta de me visitar!

Chega por aqui, e não arreda pé!

Tento demovê-la de suas ideias, tento fazê-la ir embora, um pouquinho que seja.

Mas não, você não se vai!

Ah, Dona Saudade, a senhora sabe o quanto me tortura?

Estou invadido pelas coisas que me dizes todas as noites, antes de dormir.

Num olhar, num toque, num cheiro, num doce sabor de existir de maneira especial...

A senhora está em tudo!

Não entenda como desdém, não me interprete mal...

Mas vá dar uma voltinha, um pouco da sua ausência pode me trazer alguma paz.

Quando o esquecimento se transformar em lembrança, poderei respirar mais aliviado.

Um sorriso, uma palavra, um sonho, um toque no telefone, qualquer coisa pode servir para que a senhora se afaste um pouco de mim.

E me deixe viver um pouquinho... 

sábado, 20 de abril de 2013

Embrulho

Ângelo queria dar um presente para Beatriz.

Pensou muito em algo que pudesse ser bem representativo.

Resolveu dar o que de mais valioso ele tinha.

Rasgou o peito, e arrancou seu coração.

Colocou-o numa caixa, em um lindo embrulho.

E enviou para a moça.

Beatriz, ao receber o embrulho, sorriu, pegou o coração do rapaz, e cortou em vários pedacinhos.

E mandou de volta.

Ângelo, ao abrir a caixa, deparou-se com o seu coração picadinho.

Uma tristeza profunda invadiu-lhe a alma.

Não havia maneira de reaproveitar aquilo.

Não teria como colocá-lo de volta no peito, naquele estado.

Um coração em pedaços não tem utilidade alguma.

Restou-lhe despejar aqueles fragmentos no lixo, junto com ossos, pedaços podres de frutas e a comida gelada que havia sobrado dias atrás. 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A moça e o telefone

Clara estava sozinha em seu quarto.

Seu coração transbordava.

Olhava para o telefone, e pensava sem parar.

Ligar ou não ligar?

O coração dizia sim.

O cérebro dizia não.

Queria rever o rapaz que outrora a fizera feliz.

Queria encontrar o sapo na esperança de que ele voltasse a ser príncipe.

Estava entre a dignidade e um anseio quase incontrolável.

Faltava apenas apertar a tecla de chamada.

Mas a razão soprou-lhe ao ouvido.

Se ele não se dignava a procurá-la, o melhor a fazer era manter o silêncio.

E, a despeito da dor aguda que invadia o seu peito, deixar tudo como estava...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Macabra doçura

A plateia lota o grande circo.

Senhoras e senhores, vai começar mais um espetáculo inesquecível.

Pegue a pipoca e o refrigerante.

No picadeiro, o homem e a serra elétrica.

Sob os holofotes, um outro homem encapuzado.

O barulho motorizado faz com que todos se levantem.

O sangue começa a jorrar.

As famílias deliram.

Os olhos do garotinho brilham.

O vovô e a vovó se deleitam.

Os gritos e gemidos de desespero misturam-se ao som de um delírio coletivo.

Êxtase e fascinação tomam conta do ambiente.

Porém, a festa chega ao fim.

Entranhas e pedaços compõem o cenário de macabra doçura.

Foi bom enquanto durou.

Valeu cada centavo.

Mas é hora de ir embora.

Não sem antes comprar um espetinho na saída...

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Luz colorida

Do céu vem uma luz.

Ela é colorida e entusiástica.

Minha alma se deleita.

Meu coração se abre e se entrega.

Meus olhos vibram.

Sei que posso ficar cego por isso.

Mas não deixarei de olhá-la.

Da escuridão das sombras e vultos para a escuridão de uma incapacidade ocular, há pouca diferença.

Portanto, permanecerei aqui, apreciando este momento absolutamente único.

Atento, embasbacado, admirado e emocionado com tamanha beleza.

É um brilho inigualável e inesquecível.

São segundos radiantes que levarei para a vida inteira.  

E mesmo que seja um sonho, ele será real dentro de mim.

Para todo o sempre.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Dançando com a vida

O sol se despede mais uma vez.

E mais uma vez estou entregue a uma inércia que sufoca meu espírito.

Te vi, mas não te olhei.

É quando fecho meus olhos que te enxergo melhor.

E quando me calo, te declamo uma doce poesia de amor.

Alguns passos certeiros e milimétricos precederam o único erro e uma queda.

Dancei com a vida, mas tinha de partir.

Enquanto olhava para ela, eu sonhava.

Mas depois que fui, os sorrisos cessaram, e o portal para a outra dimensão rapidamente se fechou.

A vida é um deboche, e gargalha bem na cara daqueles que um dia tiveram esperanças no amanhã.

No entanto, alguns sabores permanecem presentes em meu paladar.

Minutos e segundos mágicos foram embora sem deixar vestígios.

Ainda tento, na escuridão absoluta, te encontrar através do teu perfume.

Mas a busca vã me faz retornar sem respostas e sem alento.

Talvez mais um copo me faça dormir melhor e anestesie a dor do vazio entre as memórias, os desejos e a realidade.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Boston

O ser humano tem a capacidade de, dia após dia, me surpreender.

Mas negativamente.

O que ocorreu na Maratona de Boston é mais um episódio lamentável da história da humanidade.

Pessoas morrem por estarem no lugar errado, na hora errada.

Numa corrida, num momento de esporte, de lazer, de confraternização.

Intolerância, de qualquer parte, e seja pelo motivo que for, não tem justificativa.

Covardia não tem etnia nem bandeira.

Não importam as causas.

Quando o efeito é a perda da vida de inocentes, tudo se deslegitima.

domingo, 14 de abril de 2013

Carpinejar comenta a alta no preço do tomate

- Amigos do DC, estamos aqui mais uma vez com o Carpinejar, que hoje vai falar sobre o preço do tomate.  Carpinejar, o que você tem achado da alta do tomate?
- Alta. Baixa. Média. Mediano. Medíocre. Uma brisa que leva minha alma. Sol que bate no fim da tarde. Preço. Dinheiro. Dólar e Real. Notas notadas, e outras nem tanto. Notáveis. Tomate. Fruta. Salada. Molho. Macarrão. Lasanha à bolonhesa. Pizza. Tomate fresco. Tomate cozido. Tomates verdes fritos. Tomate cru.
- Ahã... Pois é, essa questão do tomate inclusive tem repercutido bastante nas redes sociais, como o Facebook e o Twitter...
- Facebook. Face. Livro. Eu também dou a outra face. Não me importo com as agruras. Não me importo com a falta de compreensão. Mundo injusto. Mundo canalha. Que não é cafajeste. É canalha. Como uma lambida masculina numa nuca feminina arrepiada. Canalha como um sonho que acaba antes do ápice. Canalha como um doce cujo recheio engana o paladar. Twitter. Twittar. Twittada. Twister. Twix. Chocolate que lambuza a minha boca.
- Certo. Bom, muito obrigado pela participação aqui no Dilemas Cotidianos mais uma vez, Carpinejar!
- Obrigado. Compulsório. Compulsivo. Combustão e caminhão. Combate. UFC. Anderson Silva. Levando-me ao solo sem piedade. Dilemas. Dilma. Mujica e Obama. Bandeiras que tremulam docemente. Verrugas. Cotidiano. Corintiano. Cotiporã. Cotia. Coitadinha da moça que chora o coração perdido e o amor partido. Aeromóvel. Esmalte sintético.

sábado, 13 de abril de 2013

O corpo de Nicole Bahls é propriedade privada dela


Não interessa o vestido que ela usava.

Não interessa o papel que ela desempenha num programa de televisão.

Não interessaria nem se ela fosse uma prostituta.

Interessa que o corpo de Nicole Bahls é dela, Nicole Bahls.

Ela mostra o que quiser.

Ela mostra quando, mediante o que, e para quem ela quiser.

E ela permite acesso a ele quando, mediante o que, e para quem ela quiser.

Pode-se até questionar, e eu mesmo questiono, as motivações que fazem meninas como ela quererem se expor de determinadas formas, e em determinadas situações.   

Mas há um verbo fundamental nessa fórmula: QUERER.

Não só o diretor de teatro babaca não compreendeu isso.

Muitos e muitos homens não compreendem.

As fotos mostram claramente que ela não queria as mãos do diretor de teatro babaca entre as suas pernas.

Elas mostram cristalinamente o constrangimento da moça com a situação.

Invasões desse tipo, de ordem sexual, são as que mais me enojam.

Porque elas não se referem apenas a uma situação material específica no tempo.

Elas lidam com o íntimo da pessoa.

E podem causar danos psicológicos terríveis e perenes.

Atos sexuais indesejados (e, sim, atitudes como a do diretor de teatro babaca são atos sexuais indesejados) podem estragar a vida de alguém. 

O corpo de uma pessoa é a sua propriedade privada mais sagrada.

Seja como for, em quais condições for, o corpo de Nicole Bahls é propriedade dela.

E nele, só toca quem ela quiser e permitir, seja pelo motivo que for.

Pelo menos deveria ser assim.

O que aconteceu com a moça não é para rir, é para refletir.

Chega de culpar a vítima e absolver o réu.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Sorvete de morango

Ele estava com a testa enrugada de preocupação.

Ela, despreocupada, apenas sorriu.

Foi então que se olharam pela primeira vez.

Depois, tudo foi passando, o tempo, a timidez e o programa bobo na televisão.

Isso não foi o suficiente para acabar com os atropelos e o desengonço de quem ainda está aprendendo a amar.

Agora ele está com a camisa lambuzada de sorvete de morango.

E ela está gargalhando ao ver como ele é desajeitado.

Fizeram da vida algo mais leve.

Hoje sabem que, nublado ou ensolarado, o céu jamais deixará de ser céu.

São duas crianças sentadas no banco de uma praça.

E têm apenas uma certeza: aconteça o que acontecer, lembrarão, para sempre, um do outro.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Ponto luminoso

O olhar triste daquela menina da foto denuncia o estado dos nossos espíritos.

O gosto pelas coisas parece ter ido embora com uma brisa que já não mais arrepia.

Mas ainda é tão cedo para pegarmos a estrada para os campos elíseos...

O céu estrelado está limpo, brilhando em nossas vistas.

Ele traz uma constelação de esperanças para os dias que virão.

Damos as mãos, entrelaçamos os nossos dedos.

Não há nada para temer enquanto nossos corações estão unidos.

Toda dor vai embora, eu sei que vai.

O calor de nossas vidas aquecerá até o mais impiedoso frio vindo daqueles glaciais belos e imponentes.

O horizonte nos chama, e quando mergulhados em nossa honestidade recíproca, observamos um ao outro, e sabemos que somos invencíveis frente a tudo e a todos.

É então que flutuaremos, voaremos em direção à alegria do infinito.

Tudo aquilo que já existiu, mesmo que numa fração de segundo, jamais será apagado.

Será, para sempre, mais um ponto luminoso a nos guiar...

terça-feira, 9 de abril de 2013

Ressurgimento

Foi num piscar de olhos que todo o sangue subiu à minha mente.

Queimei por dentro e então perdi o meu controle.

Meus demônios estão soltos, destruindo os becos da cidade.

Já se tornou impossível controlar o impulso.

E minha mente se desmancha em meio às memórias.

Estou em guerra comigo mesmo.

Sou maior que a vida, e muito menor que a morte.

Estou pronto para esmagar o mundo com as mãos.

E para ser esmagado por ele também.

O ar que vem da rua me consome.

Então prendo a respiração para me proteger.

O certo e o errado viraram pó.

Agora, sem carne e sem osso, ressurjo mais forte e intenso.

Meu espírito permanecerá sempre aceso.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

O Deus de Feliciano


O Deus de Feliciano é intolerante.

Não aceita manifestações de amor e carinho em nome de dogmas que não se adaptam ao espírito do tempo.

O Deus de Feliciano é amaldiçoador.

Que sofram os negros e aqueles que não aceitam sua ditadura.

O Deus de Feliciano é carrancudo, não sabe sorrir.

Ele matou os Mamonas porque eles pervertiam a moral e os bons costumes.

O Deus de Feliciano é vaidoso.

Ele matou John Lennon porque não aceita ser desafiado de forma alguma.

O Deus de Feliciano é punitivo.

É um pai violento que não sabe educar, mas bate, mata, e não compreende seus filhos, suas diferenças e características próprias.

O Deus de Feliciano é totalitário.

Dá o livre arbítrio apenas para que cumpram, exatamente e sem traços de originalidade, as suas vontades.

O Deus de Feliciano é um Deus que não liberta, aprisiona.

O Deus de Feliciano não me serve.

Porque Deus não precisa se impor pelo medo: ele se legitima junto aos seus seguidores por meio da bênção e do amor.

Porque Deus pode até ter os seus defeitos e equívocos, mas jamais deixaria de compreender que o bem não é um conceito unívoco, e que o que, ao fim e ao cabo, acaba por importar, é a consciência humana de que se está fazendo o certo, sem prejudicar a ninguém.

Porque Deus sabe julgar as atitudes em suas respectivas medidas e relativismos, uma vez que é dotado de uma inteligência superior.

Coisa que o Deus de Feliciano parece não possuir.

domingo, 7 de abril de 2013

Combinando o churrasco e a cerveja para o jogo...

- E aí, Carlão, vai lá em casa ver o jogo no domingo?
- Pô, claro, Zeca! Vai ser um jogão! E o Pedrão também vai!
- Ah, beleza!
- A carne você já comprou?
- Sim, sim! Picanha, ripa, vazio, salsichão, coraçãozinho... Carne não vai faltar!
- Ah, maravilha. Depois a gente acerta os valores.
- Ahã... Não dá pra esquecer a cerveja, né?
- Lógico que não! Até pensei que você já tinha comprado... Mas deixa que eu levo! Vamos tomar um trago!
- Feito! Mal posso esperar! Vai dar Osasco, de lavada!
- Que nada! Teu time é freguês! No vôlei feminino, quem manda é o Rio de Janeiro!
- Ahã... Vamos ver no domingo, ok? Vou rir bem na sua cara!
- Veremos, meu amigo... Veremos...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Minha estreia no Final Sports

Quis o destino que o meu primeiro texto no Final Sports fosse justamente no dia em que o Sport Club Internacional completa 104 anos de história.

Acredito, e torço, para que isso possa ser um bom presságio.

Para mim e para o Inter.

Espero que o amigo leitor, que já me prestigia aqui no DC, possa me prestigiar também por lá.

No primeiro texto, trato de traçar um paralelo do Inter de hoje com o Inter de dez anos atrás, em momentos que, ao meu ver, guardam algumas semelhanças significativas.


Conto com a visita de vocês!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Nariz de palhaço

Às vezes, acho que algumas pessoas se levam a sério demais.

Não se dão o direito de rir de si mesmas.

De falar besteiras.

De colocar o pé na jaca.

De despejar um pouco de leite condensado no café preto.

De cantar, despretensiosamente, uma música qualquer debaixo do chuveiro, mesmo que a vizinhança inteira ouça.

De colocar um nariz vermelho de palhaço em meio a uma multidão carrancuda em tons acinzentados.

Fico um pouco triste por elas.

Pois essas pessoas não se dão conta de que com leveza, com riso, com o direito ao erro e à imperfeição, a vida pode ser muito mais divertida e interessante do que parece.