terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Álbum de fotografias

Alberto estava bebendo um copo de whisky, numa tarde fria de inverno, em sua mansão.

Não sabia por qual motivo, mas sentia-se um tanto angustiado.

Por sorte, não havia ninguém com ele.

Isso evitava que transparecesse sua vulnerabilidade.

Era um homem sozinho, e aprendeu a não demonstrar suas fraquezas.

Por fraquezas, entenda-se sentimentos e afetos.

A vida ensinou-lhe que esse tipo de coisa só se desvendava para pessoas da mais absoluta confiança, e em situações excepcionais.

Por sua natureza eremita, confiava apenas em si.

Logo, se estava com o coração amolecido, tocado, nada era mais seguro do que estar consigo mesmo.

Resolveu pegar um empoeirado álbum de fotografias, e com ele, sentou-se em sua confortável poltrona.

Despertar algumas lembranças talvez pudesse lhe fazer bem.

Ao abrir aquela coleção de fotos, começou a navegar pelos mares da sua vida.

Ou, melhor dizendo, navegar não era o suficiente: Alberto mergulhara naquelas águas tão profundas de sua história.

Ali, se viu quando era um bebê.

Observou o já esquecido brilho em seus olhos, quando eles descobriam as novidades de um mundo que se descortinava diante de sua retina.

Passava as páginas, e encontrava seus pais.

Eram, a seu modo, felizes.

Seu pai era um tanto rude, mas também sabia ser gentil.

Alberto o amava, e tinha certeza de que aquele homem, às vezes exagerado em suas demonstrações de autoridade e dignidade, também o amava.

Em sua mãe, via apenas doçura.

Era dessas pessoas especiais, raras, que transbordam afeto e bem querer.

Em certo período de sua vida, durante sua juventude, aquele homem revoltara-se contra ela.

Afinal, ela o fez crer que aquele tipo de pessoa e de sentimento eram padrão.

Não eram.

E isso lhe aborreceu e frustrou de maneira estrondosa, durante um bom tempo.

Agora, ele compreendia que tudo o que ela quis em vida, era que ele fosse um ser humano melhor.

Suas intenções não eram más; eram apenas ingênuas.

Folheava mais, e se via crescendo.

Sempre fora um bom aluno, embora nunca tenha sido um aluno exemplar.

Sentia-se bem assim.

Nunca sentiu necessidade de ser o melhor.

Apenas queria ser bom o suficiente.

Acompanhava, também, naquelas fotos, alguns dos sentimentos que desenvolvera ao longo da vida.

Os amores que nunca chegaram, aqueles que partiram, aqueles que perdera, aqueles que não compreendera, aqueles que se evaporaram...

Da faculdade, os amigos inesquecíveis.

As bebedeiras, as risadas, os trocados para pagar um polígrafo qualquer que talvez nem leria.

Alberto observava até com certa admiração o quanto amadureceu, e o quanto ganhou firmeza de caráter.

Dali por diante, apenas avançou.

Consolidou sua carreira. 

Tornou-se um homem rico, quase sem perceber.

Simplesmente aconteceu.

Adquiriu poder, dinheiro e força.

No entanto, agora se questionava sobre o sentido de tudo isso, e aquele luxuoso cenário tão somente acentuava a sua inquietação.

A mansão estava vazia, silenciosa.

Alberto, agora, tinha tudo.

Mas, ao mesmo tempo, não tinha nada.

Talvez aí residisse sua tristeza, sua angústia.

Sentiu falta dos tempos em que tudo era mais simples.

Algumas lágrimas correram pelo rosto que já apresentava algumas marcas dos anos vividos.

Fechou o álbum num gesto abrupto, imediatamente secando o líquido salgado de sua face.

Respirou fundo com a certeza de que teria de seguir em frente, de que recuar, a esta altura, era uma bobagem sem tamanho, algo que sequer ele poderia imaginar em sã consciência.

Levantou-se da poltrona, devidamente recomposto.

Aquele tolo espasmo de sentimentalidades logo passou.

Voltou ao seu estado natural e desejável de força e firmeza de espírito.

Sem lágrimas e sem risos.

E bebeu mais um gole de whisky.

6 comentários:

Lee disse...

Oi Bruno!
Caramba, amei o teu texto! Tá mto, mto lindo mesmo. E o final é tão... triste! Me emocionei lendo, sem brincadeira. Morro de medo de viver uma vida como a do personagem. De sentar um dia, rever as fotografias do passado e perceber que não consegui guardar nada comigo. Enfim, deve ser triste ter uma vida vazia...
Parabéns, vc escreve super bem!
Abraços! :)

Bruno Mello Souza disse...

Oi, Lee!

Que bom que gostaste do texto. Realmente, ele dá ensejo a muitas reflexões.

Beijos, e obrigado pela participação!

B. disse...

Realmente o dinheiro não traz felicidade e o orgulho, muito menos. Algumas pessoas só pensam no lado profissional, exigido pelo sistema capitalista, e acabam esquecendo da verdadeira essência da vida.

Bruno Mello Souza disse...

Exatamente, B.

A vida é muito mais simples do que essa sociedade esquizofrênica quer nos fazer crer.

Beijos.

Patryck Leal Gandra disse...

E aê beleza?!

Muitas pessoas ricas ficam preocupadas só em ganhar mais dinheiro, mostrar auto-suficiência, poder, e esquecem do prazer e da simplicidade da vida.
Ninguém pode ser achar auto-suficiente e reconhecer que dependemos de Jesus para ir ao céu!

Abraços.
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Bruno Mello Souza disse...

Olá, Patryck!

Muito obrigado pela participação!

Abraços.