quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Inter não sai do zero, mas apresenta bons sinais

Havia uma grande expectativa reinando sobre a estreia do Inter de Dunga.

Com todos os descontos e acréscimos que sejam dados ao resultado e aos fatores estreia e Gauchão, o saldo me pareceu positivo.

O Colorado não foi brilhante, e nem se esperava que fosse, em sua primeira partida.

Mas apresentou bons sinais.

Na lateral direita, Gabriel jogou uma belíssima partida.

Correu, se dedicou, e apoiou incessantemente a peça ofensiva.

Todos sabemos que os problemas de Gabriel no Grêmio eram anímicos, e não técnicos.

E isso se comprovou diante do Novo Hamburgo.

Exatamente pelo fato de Gabriel ter apoiado muito o ataque, Fabrício, na esquerda, foi bem mais discreto, contido nos seus ímpetos ofensivos. 

Da zaga, pouco ou nada pode-se dizer: o adversário, que jogou para não jogar, e dedicou-se apenas a bater, não exigiu nada de Moledo e Ronaldo Alves.

As melhores notícias da estreia vêm do meio de campo.

Willians mostrou a já conhecida eficiência nos desarmes: tem muito vigor, muita presença física.

Fred, jogando como volante, acrescentou mobilidade ao setor.

As trocas de passes em velocidade foram uma característica marcante na atuação de ontem, muito por essa experiência feita por Dunga, que, em sua primeira amostra, foi relativamente bem sucedida.

D'alessandro jogou muito bem, sendo o melhor em campo.

Assumiu o papel de liderança técnica da equipe, chamando o jogo para si o tempo todo.

O único que destoou pelo setor foi Dátolo.

O ex-jogador do Boca parece ainda não ter encontrado seu espaço no campo, com a presença de D'ale ao seu lado na criação de jogadas.

Mas tem muita qualidade, e com treinamento, repetição e entrosamento, tem tudo para fazer uma dobradinha infernal com o compatriota.

No ataque, as decepções.

Damião perdeu chances, e ainda está longe de ser o centroavante que outrora encantou a torcida colorada.

E Forlán continuou sendo o atacante absolutamente comum do ano passado.

É muito cedo ainda para se tirar conclusões, sejam positivas ou negativas.

Ainda acredito, ou quero acreditar, que Forlán irá estourar.

E quero ainda ver a defesa sendo melhor testada, diante de ataques que efetivamente ataquem, e com alguma qualidade, o que não foi o caso do Anilado.

De qualquer forma, as notícias iniciais fornecidas pelo primeiro jogo são, em sua maioria, promissoras para o Internacional.

O trabalho de Dunga e Paixão, ainda em esboço inicial, apresenta aspectos interessantes e notórios.

O Inter já corre mais, e mostra disposição para jogar futebol a pleno, ao contrário da preguiça e da apatia constrangedoras apresentadas em 2012.

Que continue assim.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A estreia do Inter de Dunga

Finalmente, o Internacional estreará sua equipe A no Gauchão.

Depois de um período de forte preparação, o Colorado entra em campo logo mais, às 17 horas. contra o Novo Hamburgo, no Vieirão em Gravataí, com muitas curiosidades de parte da torcida.

Ainda que Gauchão não seja parâmetro para nada (o ano passado que o diga), há muitos aspectos interessantes a serem notados na partida dessa tarde.

Qual será, afinal, o Inter de Dunga?

Qual a dinâmica de jogo que será observada, ainda em rascunhos?

Como será o desempenho de Willians, o principal reforço da temporada, contratado para ser o cão de guarda da defesa?

E Fred de volante? Como esta ótima ideia no papel será dada dentro das quatro linhas?

E a parceria Dátolo e D'alessandro, qual será o ritmo dela?

No ataque teremos o Forlán craque da Copa de 2010, ou o discreto atacante de 2012?

E Damião? Voltará a ser Damião?

E Gabriel? Será o lateral impetuoso, ofensivo, qualificado que pode ser, ou será o jogador apático que pouco fardou no último ano de Grêmio?

Na zaga, a maior preocupação, de uma pedra que tenho cantado a algum tempo neste espaço: ao lado de Moledo, o lento e tosco Ronaldo Alves. 

Eis uma negligência terrível que até agora a direção tem cometido.

Apostou fichas demais em Juan e Índio, dois zagueiros veteraníssimos, e terá de começar a temporada com uma formação preocupante em um setor que já teve desempenho abaixo da linha do ridículo em 2012.

Ainda assim, com todos os poréns possíveis, são boas as expectativas para o início da "Era Dunga".

O Colorado se oxigenou bastante, se livrou de algumas peças que vinham muito mais atrapalhando do que ajudando, e começa um novo momento de sua história.

Tem, ainda, deficiências, lógico.

Mas começa a se reconstruir.

Não é um processo simples nem fácil.

Mas é absolutamente necessário.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Eco

Aos poucos, muito devagar, o brilho do sol vai retornando.

O perfume das flores vai se reconstituindo.

O estouro do plástico bolha por entre os dedos vai voltando a distrair um tanto.

E o sabor das batatas fritas vai, timidamente, sendo retomado.

O silêncio, porém, ainda ecoa com força, mais do que qualquer ruído vindo da rua.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Reflexões

Acontecimentos como o de ontem, em Santa Maria, me fazem pensar muito.

À mente, vêm muitas perguntas, e praticamente nenhuma resposta.

A vida é algo tão pequeno, tão frágil, tão ínfimo...

Fazemos dela algo muito maior do que realmente ela é.

E, dentro desta desproporção, deixamos de efetivamente vivê-la.

Quantos momentos pequenos e singelos, mas absolutamente valiosos, passam em nossa frente sem que a eles destinemos a devida atenção?

Um copinho de sorvete, um sorriso, um dia de sol, um abraço, um canto de pássaro, um beijo, uma piada boba, um "Eu te amo"...

Deixamos essas coisas de lado por medos, receios, projeções inúteis.

Deixamos de viver.

Restam, então, as picuinhas, mesquinharias, status e falsas sensações de poder.

Para quê?

Que porcaria de ego, de status, de poder, de imagem, de posição social, é isso que se esvai num estalar de dedos, num piscar de olhos?

Achamo-nos gigantes.

Encaramos a nossa existência como uma unidade intocável, inabalável, como se tudo estivesse sob controle, como se, numa imaginária "hora certa", numa "segunda chance ideal", as coisas que projetamos fossem inevitavelmente acontecer.

E somos, em realidade, microscópicos perante a vida e a morte.

Quem vive com medo, com o peito fechado, está na verdade morrendo um pouco a cada dia, a cada hora, a cada minuto, a cada segundo...

A hora certa é agora.

Viva!

Ame!

Sonhe!

Tente!

Erre, se necessário...

Mas tente!

Abra o peito, entregue o coração e a alma àquilo que realmente importa!

Faça isso tudo valer a pena! 

Exista!

Às vezes, a segunda chance, ideal ou não, nunca chega.

E aí, será tarde demais para se arrepender...

domingo, 27 de janeiro de 2013

Tragédia em Santa Maria


Perplexidade.

Essa, talvez, seja a palavra que melhor defina o que sinto ao ler a notícia sobre a tragédia de Santa Maria.

Fala-se em 90 mortos.

90 pessoas que saíram de suas casas para se divertir um pouco em mais um sábado à noite.

90 filhos que não voltarão para o abraço de seus pais.

90 histórias que se encerram assim, prematuramente, numa terrível desgraça digna da franquia cinematográfica "Premonição".

90 existências que se evaporam com a fumaça do incêndio provocado por um sinalizador.

O domingo amanhece triste, dolorido.

Fica, de minha parte, o desejo de força para os familiares e amigos das vítimas.

E que as autoridades apurem devidamente os equívocos e negligências ocorridos no caso, e seus respectivos responsáveis.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Sentido(s)

Cheiro da noite no bar, das frituras características.

Ouvidos surdos, mesmo com todo o barulho e agitação do ambiente.

Mãos unidas, apertando-se com alguma força, com alguma vida.

Olhos nos olhos, mirando-se fixamente, transitando na tênue linha entre a esperança e o desespero.

E nas bocas caladas, apenas o gosto um tanto amargo provocado pela frustração da vontade de se tocar, mútua e apaixonadamente.

Haverá, de alguma forma, sentido(s) em tudo isso?

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Pitbulls

O pitbull de Luize Altenhofen foi agredido com uma barra de ferro por um vizinho (http://entretenimento.band.uol.com.br/famosos/noticia/?id=100000569959).

Quando o portão da casa da moça foi aberto por acidente, o cachorro saiu correndo.

Não vi a cena, é difícil saber do que realmente ocorreu.

Mas já vejo julgamentos muito interessantes nos comentários.

"Tadinho do cachorro!"

"Que o desalmado que fez isso queime no fogo do inferno!"

"Cretino!"

Aconteceu algo parecido na UFRGS no ano passado.

Um segurança, ao ver um pitbull sem focinheira correndo em sua direção, disparou contra o cão.

Os paladinos da defesa dos animais execraram o homem.

Que crime horrendo!

Pobre animal!

"O pitbull é dócil! Nunca fez nada pra ninguém! Ele até brinca com as crianças!"

São sempre estes os argumentos utilizados pelos donos.

Aí, quando o pitbull estraçalha alguém, muda um pouco.

Um pouquinho só.

"Não entendo o que aconteceu! O pitbull era dócil! Até hoje, nunca tinha feito nada pra ninguém! Ele até brincava com as crianças!"

Pitbulls são dóceis até o momento em que resolvem deixar de sê-lo, seja pelo motivo que for.

Mesmo assim, as pessoas não entendem, ou fingem não entender.

Afinal de contas, antecipar-se ao pitbull é preconceito de raça... Canina.

Então, amigo, você já sabe a regra.

Se vir um pitbull correndo em sua direção, sorria e faça carinho.

Se, e somente se, ele arrancar o seu braço, aí sim, você pode pensar em reagir.

Antes disso, não.

Afinal de contas, tudo que me vem à mente quando penso em pitbulls correndo em minha direção é amor, ternura, delicadeza e afeto.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Engano

- Alô...
- Alô... É da pizzaria Mamma Mia?
- Não, não...
- Certo... Vou querer uma calabresa.
- Amigo, acho que você se enganou... Esse telefone é residencial.
- Uhum... Ok... Então... Vou querer a calabresa grande, e uma Coca-Cola, ok? 
- Er... Acho que você ainda não entendeu... Isso aqui não é uma pizzaria...
- Sim, sim... E quanto sai a calabresa grande com a Coca-Cola? Vocês aceitam cartão?
- Amigo... Pela última vez... Aqui não tem porcaria nenhuma de calabresa! É um engano!
- Hum... Desculpa, então... 
- Tudo bem...
- E quatro queijos, vocês têm aí?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Fuga desesperada

Já estava escuro naquele beco.

Jéssica andava a passos rápidos. 

Tinha traumas antigos.

Mas era algo que ela precisava esquecer.

De qualquer maneira, tinha de tomar cuidado.

O cenário era assustadoramente ermo, inóspito.

Ratos saíam dos bueiros em busca de comida.

O cheiro não era absurdamente desagradável.

A moça tentava não demonstrar qualquer tipo de temor daquela situação. 

Porém, tal tentativa era em vão, pois tremia em excesso, e fazia grande esforço para puxar o ar para os pulmões.

Foi quando, meio ao longe, surgiu um vulto.

Ela reconheceu imediatamente aquela silhueta.

O coração de Jéssica disparou.

Estaria de volta ao mesmo pesadelo?

O passado estaria ainda tão vivo, tão presente?

Começou a correr.

Ele apenas caminhava, determinadamente.

E, por mais que as pernas de Jéssica se esforçassem, ela não conseguia tomar distância.

Subiu, desesperadamente, a escada que dava direto para a parte de cima de um prédio. 

Não tinha certeza de que ele a tinha visto subir.

Aos prantos, adentrou uma pequena sala escura que havia por ali.

Foi quando, assustada e em pânico, deu de cara com ele.

Implorou por piedade.

Mas não haveria o que fazer.

Jéssica sabia o seu destino.

Então, ele puxou a pastilha de hortelã e arrematou: "Uma balinha pra ajudar o amigo hoje?". 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Furto

Era mais uma segunda-feira movimentada.

Joana já estava no ônibus, a caminho do trabalho.

Com os fones de ouvido, observava, sem muita atenção, é verdade, o movimento dentro da condução.

Verificou, pendurado no cinto do cobrador, um molho de chaves.

Foi então que, num estalo, se deu conta do pecado mortal.

Haveria esquecido de fechar a porta?

Aquela pergunta caiu sobre sua cabeça como se fosse um raio.

Não tinha certeza se a porta ficou, de fato, aberta.

Mas ficara angustiada, quase que desesperada.

Deveria, ou não, voltar para verificar?

Seria mais uma hora e meia perdida, e um indesculpável atraso no serviço.

Resolveu ligar para a vizinha do lado, para que conferisse, por gentileza, se a porta havia ficado aberta.

Minutos depois, a resposta: sim, a porta havia ficado aberta.

E, pior: haviam levado a televisão, o computador, e mais uma série de outros pertences.

Joana ficou em desalento absoluto.

Na volta, bateu na porta da vizinha para agradecê-la o favor.

Quando foi atendida e brevemente olhou para dentro da casa, teve a desagradável surpresa: havia, na estante, uma tv igual à sua; e sobre uma mesinha de canto, um computador, exatamente igual ao seu, inclusive com um adesivo muito característico e peculiar.

Não pensou duas vezes, e tascou um tabefe na cara da mulher, gritando: "Ladra! Safada! Ordinária!".

Imediatamente ligou para a polícia enquanto, em vão, a acusada tentava argumentar.

Recebeu a notícia de que a vizinha havia entrado em contato com os policiais para avisar do furto e que, por sorte, os bandidos haviam sido presos, e os bens haviam sido recuperados, e entregues para que a mulher, mais tarde, os devolvesse para Joana.

Com cara de tacho, Joana olhou para a vizinha.

Com a barriga gelada, com o espírito em choque, pediu desculpas, constrangida, e foi embora.

Depois buscaria, com a ajuda do marido, aqueles objetos.

Preferia, a essas alturas dos acontecimentos, até que os ladrões tivessem levado tudo.

Seria bem menos embaraçoso...

domingo, 20 de janeiro de 2013

Chicletes

Leandro adentra o armazém:

- Bom dia. Por favor, me veja aí uns três chicletes...
- Ok... Aqui estão. Dá 90 centavos.
- Certo. Vou passar no cartão.
- Oi?
- Sim, no crédito, por favor.
- Er...
- Se der pra colocar em três, quatro vezes, melhor ainda. Dá muitos juros?
- Não posso aceitar, senhor... O valor é muito baixo pra fazer a operação...
- Como assim? Nunca fui tão insultado! Quer dizer que você subestima seus clientes, você acha que as minhas compras não são dignas da sua preciosa maquininha de cartão, é?
- Não é isso, senhor... Por favor, entenda...
- Então tá! Se é esse o seu joguinho, que assim seja! Vou pegar então uns cinco refrigerantes... Me veja também uns dez pacotes de biscoitos... Cinco caixas de leite, também... Vou querer também duas garrafas de vinho... Umas quatro lasanhas congeladas... Oito latas de leite condensado... E... Isso... Mais doze vidros de maionese... Agora posso passar meu cartão na sua rica maquininha?
- Bem... Agora sim...
- Não adianta dar de esperto pra cima de mim! Enquanto vocês, comerciantes gananciosos estão indo, eu estou voltando três vezes! Se eu quero pagar no cartão, eu pago! E ponto! Não adianta querer levar vantagem em cima de mim! Comigo não cola!
- Sim, sim... Perdão, senhor...

sábado, 19 de janeiro de 2013

A menina cega

Luciano recebeu uma carta.

Era do pai de uma menininha cega de oito anos.

O homem era viúvo, e estava desesperado.

Estava sem emprego, em condições precárias de vida, e sem dinheiro para as necessidades básicas da criança.

Havia, ainda, uma pequena chance de cura para a menina.

Mas a cirurgia era cara por demais para seus padrões.

Custava 10 mil reais.

Dentro daquela realidade, era apenas um sonho.

Luciano, ao ler aquela carta, resolveu visitar a menina cega e seu pai.

Viajou muitos quilômetros, e, chegando lá, deparou-se com toda aquela pobreza e tristeza.

Entretanto, ainda que sob todo o tipo de dificuldades e infortúnios, o pai e sua filhinha mantinham-se esperançosos.

Aquele amor todo, aquela vontade de viver e de lutar, o rosto doce da menininha que não conseguia enxergar, comoveram inapelavelmente Luciano.

Ele estava decidido a ajudar.

Era o que seu coração mandava.

Imediatamente, veio o estalo: podia usar os recursos de que dispunha para fazer o bem àquela gente tão simples e aguerrida.

Recolheu-se para um canto.

Então, ligou para o produtor do seu programa de tv, e propôs que se fizesse um quadro, uma espécie de jogo: a menininha cega deveria ler um livro, em braile, de Shakespeare, em inglês, ao vivo.

Se errasse uma palavra, obviamente não ganharia nada.

Jogo é jogo, tem de ter regras, afinal.

Mas, se ela conseguisse...

Ah, se conseguisse, ganharia 12 mil reais!

Assim, conseguiria realizar a cirurgia, e ainda sobraria dinheiro para resolver outros problemas.

Os olhos de Luciano encheram-se d'água.

Estava assustado ao perceber o quanto tinha o coração mole.

Voltou para a sala de estar.

Anunciou, aos soluços, para pai e filha, que estava tudo fechado para o quadro no programa.

Abraçou os dois longamente, invadido pela mais genuína das emoções. 

E foi embora, tomado por uma alegria incontida.

Mais uma vez, fez o bem.

Ser solidário valia a pena.

Se todos fossem tão caridosos quanto ele, o mundo seria muito melhor, muito mais feliz.

Seria uma loucura, loucura, loucura...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Pechincha

- Amigo, por gentileza... Quanto está custando este chapéu?
- Opa, amigão! 120 reais.
- Tá caro, hein?
- É o preço...
- Pago 100 reais nele.
- 140.
- Fechado. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Mal pós-moderno

Dona Irene encontra o marido caído na rua isolada pela polícia, na frente de casa, sendo atendido por paramédicos:

- Seu policial, seu policial, o que houve com meu marido?
- Acalme-se, dona Irene. A situação não é nada fácil... Mas ele está recebendo os devidos cuidados médicos.
- O estado dele é grave?
- Calma, dona Irene. O estado dele é crítico... Os danos na cabeça foram grandes... Mas vai dar tudo certo.
- Meu Deus! Mas... O que aconteceu?
- Ele foi atingido... Por uma piada perdida...
- Não! Não! Meu Deus!
- Sim, sim, infelizmente... Mas ele vai ficar bem! Vamos confiar!
- Quem fez isso com ele?
- Calma, calma... O humorista já está preso... É do tipo que sai por aí atirando que nem um irresponsável... Acreditamos que ele sequer tinha porte de humor.
- Como é que pode uma coisa dessas acontecer em plena luz do dia? E logo na frente de casa?!
- Ah, senhora... Hoje em dia não tem hora nem lugar pra acontecer... Em qualquer esquina, em qualquer canto, às vezes em lugares movimentados, aparece um meliante e... Faz uma piada! 
- Absurdo isso! Os casos de piadas a banco também são crescentes, é só ler nos jornais! Eu mesma, esses dias, vi um grupo de bandidos fazendo piada no banco! Felizmente todos se abaixaram na hora, o gerente riu um pouco, e saímos ilesos... Mas os marginais ainda conseguiram fugir! Imagine o que podia ter acontecido! 
- Sim, compreendo a senhora... Devem ter sido momentos de horror.
- Ô, se foram! Agora, com quem fez isso ao meu marido, espero justiça! Só isso! Espero justiça! E que esse vagabundo mofe na cadeia!
- Faremos o possível, dona Irene! Vamos combater estes criminosos com cada vez mais força e rigidez. Pode ter certeza!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Impotente

- Então, Reginaldo... Satisfeito com o tratamento?
- Doutor, é o seguinte... Er... Semana passada eu tive uma ereção de quatro horas...
- Hum... Em plena ativa, hein? Que beleza!
- Pois é... O problema é o seguinte... Foram aquelas quatro horas e... Nunca mais... Voltei a ficar impotente...
- Hum...
- E além disso... Tô com uma inflamação horrível... E com hemorragia no local...
- Você chegou a colocar gelo?
- Sim, coloquei... Mas não adiantou nada...
- Pois é, Reginaldo... Creio que não há muito o que fazer no seu caso...
- Mas...
- Vamos tratar essa inflamação, mas é isso. Não tem jeito... Você vai continuar impotente pro resto da vida...
- Hum... Ahã... Mas... Na propaganda vocês diziam que sexo é vida!
- Sim... Verdade... Mas às vezes a morte é inevitável... Temos que lidar com esse tipo de coisa... Tenho certeza de que seu pinto está em paz, num lugar bem melhor, junto de outros pintos de luz.
- Er... Tá... Mas, e o dinheiro que paguei?
- Nós não garantimos a cura... Tentamos... Mas não deu... Infelizmente...
- Nossa... Mas que Boston!

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Informações desencontradas

Inácio vinha do interior, e recém havia chegado à cidade grande, sem dinheiro, sem lenço e sem documento. Queria saber onde ficava a rua Medeiros de Albuquerque. Este local era a única e vaga referência que tinha do único parente vivo que tinha na cidade, um primo distante, que certa feita mandou-lhe um cartão de natal, cujo envelope estava quase que totalmente danificado, sobrando de legível tão somente o nome da rua. 

Passou a perguntar para os transeuntes:

- Senhor, por gentileza... Onde fica a rua Medeiros de Albuquerque?
- Ah, vai para a puta que pariu!
- Hum...

Ainda em dúvida, perguntou para a segunda pessoa, uma velhinha de bons traços:

- Senhora, senhora... A senhora sabe como faço para chegar à Puta que Pariu?
- Ah, vai pro quinto dos infernos, ô malcriado!
- Ok...


As referências ainda não lhe diziam nada. Por isso, perguntou para o terceiro:

- Senhor, um instante só de atenção... Por favor... Saberia me informar como faço para ir até o Quinto dos Infernos?
- Ah, vai para o raio que o parta!
- Hum... Certo...

Continuava perdido. Então, perguntou para um quarto transeunte:

- Er... Senhor... Onde fica o Raio que o Parta?
- Ah, vai à merda, rapaz!
- Uhum...

Inácio jamais encontrou a rua Medeiros de Albuquerque.

Virou mendigo.

Ao menos, descobriu que a Puta que Pariu, o Quinto dos Infernos, o Raio que o Parta e a Merda eram, na verdade, o mesmo lugar.

E agora Inácio morava nele.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Ímpar

Wellington finalmente levou a garota dos seus sonhos para sua casa.

Oportunidade única.

Tomou um banho e, pacientemente, esperou, deitado em sua cama, com os braços por trás da nuca, a garota fazer o mesmo.

Esticado e ansioso, observa quando a moça sai do banheiro, enrolada na toalha.

É momento de sonho.

Como se a realidade estivesse dissolvida naqueles instantes de êxtase absurdo.

Muito devagar, e de maneira escandalosamente sensual, ela se revela aos poucos, tirando a toalha muito pacientemente, revelando aos poucos, cada milímetro de pele.

Quando ela terminou, ele teve a certeza de que vivia um momento absolutamente diferente de tudo o que já havia vivido.

O corpo da moça era coisa de outro planeta.

Ele via, ali, algo ímpar.

A garota tinha três fartos seios.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Tomando o táxi

Gilberto sempre foi um sujeito de atitudes pouco convencionais.

Não o fazia por excentricidade ou egocentrismo.

Apenas não se dava conta de quão pouco usuais eram algumas coisas que fazia.

Era início de tarde de um domingo chuvoso.

Muito chuvoso.

Gilberto precisava visitar uma tia que estava doente no hospital.

Saiu de casa com uma camisa regata branca, chinelos Havaianas e cueca.

A cueca era vermelha, desbotada e um tanto surrada pelo uso intenso.

Postou-se numa esquina para tomar um táxi.

Estranhava, no entanto.

Vários veículos passavam apenas com o motorista, mas não paravam, a despeito dos quase escandalosos acenos do rapaz.

O que havia de errado?

Por que nenhum táxi parava?

O rapaz matutou, matutou, e matutou, enquanto outros tantos táxis continuavam a passar sem correponder aos seus acenos.

Gilberto, então, num espasmo de sanidade, deu-se conta do equívoco.

Eureka!

O problema, logicamente, era a sua vestimenta.

Mais especificamente, a cueca.

Imediatamente, tratou de corrigir o equívoco.

Tirou a roupa íntima, e a deixou ali pelo chão da rua mesmo.

Ficou apenas de camisa regata branca e Havaianas.

Estava tudo resolvido.

E, a partir de então, o primeiro táxi para o qual acenou, parou.

Gilberto finalmente poderia visitar a sua tia no hospital.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Impressões de um fim que não ocorreu

Bolas de fogo caem nesse momento do céu, estrelado e em fúria.

Todo amor e todo o ódio agora perdem o sentido.

Há forças muito maiores do que nossos vãos sentimentos e nossas ingênuas explicações.

Estamos de mãos dadas, observando a dor e o desespero na rua.

Muitos correm e gritam por socorro, como se houvesse alguma esperança de sobrevivência, como se Deus pudesse ouvi-los e salvá-los daquele horror indescritível.

Algumas crianças ainda brincam, correm, e com os olhos brilhando, olham para cima, sem medo.

Daqui de dentro, observando pela janela, já não esperamos nada, porque estamos submersos na inevitabilidade deste momento.

Choramos, sorrimos, e chegamos ao ápice.

É tudo muito forte, muito grande, muito poético.

Partir dessa forma não tem preço.

Não imaginava que o fim seria tão bonito...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Duas da manhã

Passava das duas da manhã naquela festa.

Jéfferson, meio confuso com a agitação, olhou despretensiosamente para a garota, a quem já conhecia de vista, e por quem nutria um vago e obviamente oculto interesse.

Ela correspondeu o olhar com força, com convicção até certo ponto surpreendente.

A despretensão inicial, então, tornou-se desejo imediato e irremediável.

Invadiram-se mutuamente, sem se tocar.

Olho no olho, direto, congelante, vidrado.

Estavam fixados, um no outro.

O barulho virou silêncio, e o caos frenético tornou-se câmera lenta, como se nada mais existisse ali, além dos dois. 

Durou cerca de 30 segundos.

O rapaz, então, esboçou um sorriso de canto de boca.

E ela resolveu falar: "Oi!".

O sorriso de canto de boca virou sorriso de boca inteira, e a moça prontamente complementou o cumprimento: "Você tá bêbado, né?"

Para Jéfferson, a noite acabou com aquela pergunta impiedosamente afirmativa.

Era hora de ir para casa.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Refeição exótica

Sérgio e Leandro, conversando na lancheria:

Sérgio: - Leandro, que sanduíche é esse que você tá comendo aí? 
Leandro: - Ah, é sanduíche de fezes de pombo.
Sérgio: - Hein?
Leandro: - É muito bom! Você devia experimentar!
Sérgio: - Como assim? É uma merda! Isso que você tá comendo... É merda!
Leandro: - Ui, como ele é sofisticado! Ui, ele não come sanduíche de fezes de pombo!
Sérgio: - Mas... Mas... Só tô dizendo que isso que você tá comendo é uma merda!
Leandro: - Você é muito chique, né? Quem vê, parece que é um especialista em alta gastronomia! Você não respeita as diferenças? Não respeita meu gosto? Não quer comer o sanduíche, não coma! Mas não fique criticando! Deixa de ser chato!
Sérgio: - Não é ser chato... Nem tô te julgando... Você tem todo o direito de comer o que quiser... Mas eu tenho direito de opinar... E isso que você tá comendo é uma merda. 
Leandro: - Ui, ui, ui...
Sérgio: - Nunca que eu iria comer uma merda dessas. Bom, deixa pra lá... Não dá pra discutir em alto nível com você, mesmo... Vou chamar o garçom... Ei, garçom, venha cá, por gentileza.
Garçom: - Sim, senhor, o que deseja?
Sérgio: - Por favor, me veja uma porção dessa aqui, ó... Fezes de cisne ao molho de alcachofra e salmão, ok?
Garçom: - Bela pedida, senhor! É pra já!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Barbie

Rita foi a Barbie de sua mãe.

Desde pequena acostumada a maquiagens e roupas as mais variadas e adultizadas.

Aprendeu a viver pela aparência.

No colégio, era a mais bonita.

Se não deixasse os garotos babando, sentia-se frustrada.

Era a rainha dos bailes, a líder de torcida.

Debutou como princesa. 

Por vezes, porém, a vida reserva surpresas.

Basta um lapso, uma distração, um micro equívoco, o bater de asas de uma borboleta no jardim da casa ao lado.

Num dia chuvoso qualquer, foi violentamente atropelada por um carro em alta velocidade.

Seu lindo rosto se foi.

Suas torneadas pernas perderam a capacidade de se mover.

No leito do hospital, num fio de esperança, sedenta por uma ilusão paliativa qualquer, perguntou à mãe: "Ainda estou bonita?"

A resposta em forma de lágrimas foi cruelmente realista.

Era, agora, uma Barbie quebrada, com a qual ninguém mais iria querer brincar.

Tudo o que tinha a oferecer para o mundo se foi numa fração de segundo.

Pompons e coroas, não mais.

Viveu para parecer.

E, diante daquela fatalidade, dava-se conta de que nunca foi absolutamente nada.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Recado siciliano

Já passava da meia-noite.

Pedro, Sérgio e Leandro aguardavam, silenciosamente, notícias do amigo Edson.

Ele havia sumido há dois dias.

Pedro ficava atento ao telefone.

Sérgio e Leandro mantinham-se, pensativos, no sofá.

O que teria, afinal, acontecido ao amigo?

Aquele silêncio sepulcral rompeu-se no momento em que o barulho da campainha, ao mesmo tempo exótico, pela hora, e esperável, pela circunstância, tomou conta da sala.

O mordomo prontamente atendeu, e recebeu a entrega.

"Senhores, mandaram esse peixe, embrulhado num colete à prova de balas", disse o velho homem para os rapazes.

"É um recado siciliano", completou.

Leandro apanhou o peixe, e observou os amigos.

"E agora?", interrogou.

Pedro e Sérgio se entreolharam, sem nada dizer.

O momento era crucial, e a decisão a tomar, delicada e decisiva.

Leandro sabia disso, mas o silêncio dos amigos o amargurava.

"Fazemos frito ou ensopado?", insistiu Leandro.

"Frito", respondeu Pedro.

"Ah, não! Ensopado!", protestou Sérgio.

"As duas maneiras são muito apetitosas, mas temos que decidir logo!", ponderou Leandro, já um tanto ansioso.

E passaram discutindo sobre a melhor forma de preparar o peixe por horas a fio, sem chegar a um acordo.

E sem a menor ideia do que havia acontecido com Edson.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Terceiro elemento

- Bom, pai, vou indo lá. Vou jantar com a Brenda.
- Certo, Felipe. Vocês vão onde mesmo?
- Ah, vamos naquele italiano, a três quadras daqui.
- Hum... E eu posso ir junto?
- Er... Como assim?
- Jantar com vocês, ué. Com a sua mãe na tia dela, tô bem disponível hoje, sem nada pra fazer!
- Bem... Er... É que nós pretendíamos ir ao cinema depois disso...
- Hum... E que filme você vão ver?
- Ah, sei lá... Qualquer um que pareça legal...
- Posso ir com vocês! Tenho sorte quando escolho filmes! Você sabe que tenho bom gosto, filhão!
- Hehe... Ah, pai... É que... Sabe como é, né?
- Eu não vou atrapalhar, filho! Prometo!
- Pai... Depois ainda queremos fazer mais algumas coisas... Entende?
- Podemos fazer juntos! Amanhã é domingo, não preciso acordar cedo! Conheço vários lugares bacanas pra passar a noite! Vai ser divertido!
- Não, pai... Não dá... 
- Mas eu já disse que não vou atrapalhar! Me comporto! Já prometi! É só me dizer como tenho que agir!
- Ok, pai... Então vou te dizer como você pode me ajudar...
- Isso! Diga!
- Não indo. É a única forma de você não me atrapalhar. Desculpa.
- Mas, filho, eu...
- Tchau, pai. Tchau.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Obrigado, Guiñazu

O Internacional despede-se de um monstro.

O Cholo Loco Guiñazu está de saída.

Volta para o Libertad, clube que lhe deu visibilidade para que jogasse no futebol brasileiro.

Não vou aqui discutir o teor técnico e financeiro da saída de Guina.

O Inter não recebe nada e terá de buscar no mercado um nome à altura do argentino.

Mas o foco aqui é outro.

Quero apenas agradecer ao eterno ídolo Guiñazu.

Obrigado, Guina.

Obrigado pela raça.

Obrigado pela dedicação.

Obrigado pelos carrinhos.

Obrigado pelo amor demonstrado pelo Inter e pelo futebol, em cada partida em que você entrou em campo de vermelho e branco.

Você faz parte, de forma magnífica, da história do Sport Club Internacional, um dos maiores clubes do mundo.

E estará, para sempre, nos corações colorados espalhados pelo Rio Grande afora. 

Seja feliz no Libertad. 

Seja feliz para o resto da sua vida.

Você merece.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Espera

Lauro está sentado no banco da praça.

Esperando o amor de sua vida que está atrasado.

Já esperou tanto que aqueles minutos parecem apenas um último e residual inconveniente.

Olha para os lados, olha para cada rosto na esperança de que um deles seja o dela.

O coração acelera, as más lembranças vêm à tona.

Dessa vez não poderia ser assim!

Mas os minutos viram horas, e as horas viram dor.

O sol se vai, e com ele se vai o brilho dos olhos do rapaz.

Mais uma vez, voltará para casa triste e cabisbaixo.

Com o buquê na mão.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Sarjeta

Jogado no chão, aquele homem aguarda.

Abraçado à sarjeta, amiga que nunca lhe abandona, fecha os olhos.

Os transeuntes apontam seus dedos.

Pobre sujeira que atrapalha o caminho dos homens engravatados.

Lixo que pensa, sente e sangra.

Resíduo indesejado da sociedade que lhe pisoteia.

Comendo a podridão que sobrou da civilização.

Esperando o dia que nunca chega.

Desejando o momento em que seu coração sujo pare para sempre.

O inferno deve reservar mais dignidade... 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

2013

Começou 2013.

Quero desejar aos leitores e seguidores do Dilemas Cotidianos um ano não menos do que espetacular.

Espero que neste ano todos os sonhos, anseios e objetivos de vocês se realizem.

Com a entrada do novo ano, o DC também se repagina.

A foto de apresentação foi tirada por mim em viagem que fiz no ano passado para o Equador, onde apresentei trabalho acadêmico.

Trata-se do lindíssimo vulcão Cotopaxi, que fica nas proximidades da capital do país, Quito.

À beleza do vulcão foi agregado ainda o talentoso trabalho de produção da foto realizado pela minha amiga Letícia König Lindenmayer, a quem agradeço muito, desde já.

Que em 2013 os amigos possam continuar frequentando este espaço e comentando, criticando, ajudando o DC a crescer cada vez mais.

Um grande abraço a todos.