terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Riqueza

Anoitecer ensolarado, um brilho novo nos olhos.

Tudo está como poderia estar.

E quando acordo, o amanhecer está escuro e meus olhos, tão opacos.

Algumas vezes pensei que a luta fosse algo com um final pré-determinado.

Mas continuo, sinto prazer por ser assim.

Dei um grito de liberdade, porque agora tenho algum motivo.

E não haverá destruição que me faça parar.

Algumas vezes pensei que fosse perder a respiração.

Abri meu peito, inventei a mim mesmo, esquecendo receitas ou fórmulas.

E não haverá nenhuma voz que me intimide nesta jornada.

Toda a riqueza que está dentro de mim, se eu estiver sozinho, de nada adiantará.

Então vou compartilhá-la com você.

E pisar, descalço, a terra molhada.

É assim que se alcança a plenitude.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Colapso

Traga-me um comprimido mastigável.

Meu estômago está doendo.

Traga-me um nebulizador.

Já não consigo respirar.

Traga-me um desfibrilador.

Meu coração está parando.

E tudo está ficando escuro.

E estou perdendo os sentidos.

E estou me me esvaindo, deitado no tapete.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Déspota do esgoto

Rasteja na calçada de sempre.

O cheiro é algo insuportável e costumeiro.

Ele está fingindo a doença porque precisa disso.

Um ladrão, um golpista, um rei das artimanhas.

Julgado, agora ele caminha.

Jurado, agora ele é um milionário.

Sentado no trono, ele é mais do mesmo.

Déspota do esgoto, vitorioso para acabar com tudo.

Quebrando as regras, mentindo até que a manada acredite nele.

E vai nos dar a liberdade como uma dádiva.

É só uma desculpa para fazer o que bem quer.

Tudo é uma justificativa falsa para consumir nossos corpos e almas.

Esconde o rosto sujo como um carrasco. 

Ele é um carcereiro que pouco se importa.

E vai levar todo o ouro em troca da alforria.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Pedaços de escuridão

Sangue correndo no canto da boca.

Eis o labirinto, sua fuga angustiante.

Corra mais, o tempo não irá lhe ajudar.

Então pare, e o seu destino estará selado para sempre.

A terra lhe engole, ela quer lhe acolher através de um túnel que conduz a uma lareira imensa.

Você irá para um lugar onde a dor diverte.

Lá o veneno embriaga, mas não condena.

E todos os que erraram estarão prontos, dividindo seus pedaços de escuridão.

Sem martelos. códigos ou intérpretes da lei.

Gritando e devorando impiedosamente todas as sobras do lixo paradisíaco.

E tudo isso é você, e suas escolhas.

E tudo isso é você, e o preço a pagar.

E tudo isso é você, livre na lama, eternamente prisioneiro.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Mesmas coisas

Apague todas as luzes.

Assim, enxergaremos bem melhor.

Histórias de dor, angústia, erros, tudo tão humano.

Somos as mesmas coisas, não temos porque nos esconder.

Se você chorar, eu vou beber todas as suas lágrimas.

Então não se preocupe, apenas viva.

Estarei aqui, conheço essa estrada melhor do que ninguém.

Então não se preocupe, apenas siga o ritmo do seu coração.

Se a presença não se foi até agora, não faz sentido tornar-se ausência justo nesse momento.

Estarei aqui, as divindades que me perdoem, mas quero apenas ser esse mortal de carne e osso.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Nuvem veloz

Quando as luzes apagaram, elas não deviam ter voltado.

Caí no sono, acordei o mesmo.

Estive viajando, estive morrendo.

Mas permaneço aqui, não quero sair.

São tantas as explosões, ninguém ouve os estrondos.

Não há fuga, a condenação parece eterna.

Pulsando e vomitando, pulsando e agradecendo.

Horas ou minutos são a mesma coisa.

Estou pronto para voar em uma nuvem veloz, não tenho asas.

E tudo será muito melhor quando eu me transformar em gotas de chuva.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Feliz Natal!

Independentemente de crenças.

Independentemente de questionamentos.

Independentemente de ideologias.

Independentemente até da certa crueldade de uma data transformada em paraíso de um consumo excludente.

Desejo a todos os leitores do DC um ótimo Natal, absorvendo o que de melhor a ocasião pode trazer.

Desejo muita felicidade. 

Felicidade de verdade, não essa coisa pré-fabricada, superficial e vazia que tentam, dia após dia, fazer-nos engolir à força.

E, desejo, cada vez mais, simplicidade.

Nos dias de hoje, ser simples está se tornando algo muito complexo.

Mas, creio eu, ainda é necessário.

E faz um bem danado.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Filhos do submundo

Poeira e fumaça, o ambiente é inóspito.

Este porão é o nosso grande presente.

Fazendo barulho, libertando aqueles que nos esmagam.

Limpando o chão com mais sujeira.

Somos assim, filhos do submundo.

Todos estão animados, esperando pela diversão na roleta.

Somos o resto jogado para baixo do tapete.

E não nos importamos mais com o que os outros pensam.

Não somos piores, nem melhores.

Apenas riscamos a liberdade em nossa pele, com uma lâmina certeira.

Tudo que se dá o direito de sangrar tem vida.

E tudo que tem vida permanecerá para sempre.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Vexame que não deve apagar o orgulho do Galo

O Atlético Mineiro foi eliminado com requintes de crueldade do Mundial Interclubes. Perdeu para o Raja Casablanca e viveu um remake do pesadelo colorado diante do Mazembe. O que serve de atenuante, e ao mesmo tempo agravante, para o Galo, foi ter enfrentado o representante do país-sede. Atenuante, porque perdeu para um time "da casa"; agravante, porque o time da casa era o Campeão Marroquino, nada mais que isso, enquanto o Mazembe era o melhor do seu continente, o Campeão da África. De todo modo, os roteiros foram bastante parecidos.

O Atlético de ontem, assim como o Inter de 2010, era um time visivelmente fora do tom. Estava tenso, nervoso, sem naturalidade. Quando levou o primeiro gol, revi diante dos meus olhos a dificuldade e a incredulidade de 2010. Tudo muito semelhante e perturbador (a recordar, também, que o Mazembe, zebríssima, havia eliminado um teoricamente mais forte mexicano na fase anterior, à época o Pachuca; agora, o Raja, também zebríssima, eliminou um também teoricamente mais forte mexicano, o Monterrey). A diferença fundamental é que o Colorado pressionou muito mais o Mazembe, criou muito mais chances, e sofreu os gols em lances isolados e inesperados. O Galo, por sua vez, teve mais posse de bola mas esteve completamente desorganizado, não conseguindo articular o setor ofensivo e oferecendo espaços inacreditáveis para o Raja, que o tempo todo foi mais perigoso, fez três e poderia ter feito pelo menos mais dois gols. 

A rigor, as individualidades inexistiram também no Atlético, embora taticamente o time tenha sido desastroso. Ronaldinho fez a diferença como podia, na bola parada, uma vez que jogava desembocado e passou praticamente todo o segundo semestre lesionado. De resto, Fernandinho foi a transpiração pouco inspirada do time, e os demais, um tremendo desastre. Os laterais foram horrorosos, os zagueiros, lerdos, pareciam ter tomado meia dúzia de soníferos, o meio de campo marcou mal e pouco se movimentou, e Jô, no ataque, pouco fez, perdendo as poucas chances que teve. O Galo não mereceu melhor sorte.

O baque é forte na vida do Atlético, como foi para o Inter. Sábado, o Galo jogará uma das mais melancólicas partidas da sua história, sem dúvida. Mas esse é o momento de a torcida, mais do que abraçar o time, abraçar o clube. Em Abu Dhabi, contra o Seongnam da Coreia do Sul, a torcida colorada deu uma demonstração histórica de amor ao clube em momento tão doloroso (http://dilemascotidianos.blogspot.com.br/2010/12/dignidade-e-grandeza.html). Tenho certeza de que os atleticanos farão o mesmo. 

O torcedor do Atlético tem que se orgulhar de tudo que foi feito na temporada, da Libertadores conquistada de forma extraordinária, dos jogos épicos que marcaram não somente a história do Galo, mas também a história do futebol brasileiro. O jogo de ontem foi um vexame? Sim, evidentemente foi. Mas a vida segue. Acima de tudo, só perde semifinal de Mundial quem se classifica para o Mundial. E só se classifica para o Mundial quem ganha a Libertadores. E o Atlético é, ora pois, o atual Campeão da América. E isso não tem derrota que apague.   

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Quinze meses

Em alguns dias, o sol brilha mais forte.

É bom abrir a janela e olhar para a rua.

Quinze meses, vinte e poucos anos.

Estarei lá, mesmo que ainda não saiba onde seja.

Não fecharei os olhos, entrarei em êxtase.

As luzes são extravagâncias, não quero mais sair.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Reis e mendigos

A rua está vazia, cheirando a urina.

O que era festa, agora é solidão.

Se algo ecoa, agora é o latido do cão.

Faça uso, explore um pouco mais.

As cores desaparecem na escuridão que tudo leva.

Aqui tudo é banal, nada sobra, e é bem melhor assim.

Alfa, Beta, Gama, Delta, Ípsilon.

O efeito do soma vai embora, deixando somente o que é real.

Se tudo é fluido, deixe correr pelo bueiro.

Os reis agora são mendigos, é sempre assim ao final desta alucinação.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Garoto autodestrutivo

O garoto na rua nunca sabe se caminha ou se corre.

O garoto está longe demais dos outros garotos da rua.

Eles têm suas bicicletas, e ele não sabe nem andar numa.

Palavras pecaminosas são proibidas.

Nunca quis machucar ninguém, mas precisa machucar a si mesmo.

Aquele garoto é autodestrutivo.

Cantando canções que seus pais não gostam.

Mas só ele pode entender aquilo que sente.

E ninguém lhe dirá como deve agir.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Engrenagem

Estamos presos em escolhas que não foram nossas.

Homens engravatados decidem nosso destino a todo momento.

Eles pensam que sabem o que queremos ser.

Eles pensam que sabem o que queremos ter.

Eles pensam que sabem o que podemos ver.

Tudo está tão gelado, somos reféns deste movimento mecânico.

Pecinhas de uma engrenagem perfeita, tudo funciona tão bem!

Pecinhas de uma engrenagem perfeita, tudo funciona tão mal!

E se eu quebrar, acabarei com o todo?

E se eu quebrar, o todo acabará comigo?

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Frases desconexas

Estou gelado, estou quente, isso é febre.

Pensava que poderia ir adiante, mas tive que parar.

Minha cabeça dói, estou soterrado.

Então as frases ainda estão desconexas, porque não consigo raciocinar.

Fico lúcido aos poucos, estou assustado.

Estou no meio dos tiros e das caveiras.

Devo me mexer, ou eles estão à espreita?

Ainda sou eu mesmo, mas não sei ao certo o que sou.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Pessoa

Sozinho na mesa, com a garrafa de cerveja.

Há meia hora era o dono do palco, mas agora não é dono nem de si mesmo.

Algumas estrelas apagam-se muito rapidamente, mas ele volta a acender todos os dias.

Nos olhos tristes, resquícios daquele texto.

Sem a maquiagem, vai de rei a plebeu.

O ator e seu personagem, tão duplo, tão único.

Sem a plateia, transmuta-se do espírito mais elevado para o ser humano mais banal.

E quem disse que as banalidades não podem ser bonitas e impactantes?

Após o espetáculo, do Fernando ficou apenas a Pessoa.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Calmo e barulhento

Estou tão calmo e barulhento.

Teria desmaiado após correr, mas bebi um copo d'água.

Diga-me algo sobre um novo lugar, liberte-me daqui.

Não consegui pregar os olhos, deixei tudo para quando o dia amanhecesse.

Procuro um meio termo, uma amenidade qualquer.

A estrada mostra por onde não devo passar.

O tempo voa para tudo que não pode.

E se arrasta para tudo o que realmente me importa.

Silencio o grito.

Traga-me o alívio.

Prenda o fogo.

Deixe-me incendiar.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Casa de repouso

Era um distante mês quente de janeiro.

Eu era tão jovem, descobrindo a mim mesmo.

Hoje sou tão velho, e sei tudo da vida sem poder vivê-la.

Eu pensava, e pensava, e pensava...

Hoje mal consigo lembrar meu nome completo. 

Eu respirava um ar tão puro, e com tanta facilidade!

Mas hoje fico ofegante ao subir uma escada.

Minha pele, marcada pelo tempo, denuncia tudo o que não fui.

E daquele tempo em que tinha sonhos, o que ficou?

E dos dias de hoje, em que apenas sinto sono, o que restará?

Estou abandonado, mas não estou sozinho.

A moça que troca os meus lençóis estava mal humorada, me fez sentir tão inútil!

Meus filhos, onde estão?

Faz tanto tempo que não os vejo...

Todo santo dia lhes espero enquanto observo a grama crescer.

Talvez o dia seja hoje, por que não?

Os minutos não passam, rastejam, mas meu relógio parou há muitos anos.

O sol desaparece lentamente, apaga-se em minhas entranhas também. 

Acabou-se o horário de visita, ainda estou aqui.

Mais uma vez, anoiteceu.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Raio de luz

A luta foi impiedosa e árdua.

Mas a dor acabou, olhe em sua volta.

E não há palavras que possam mudar esse destino.

A existência é um canto puro que ecoa pelo universo.

Ficaram as fotos e singelas demonstrações, tudo que você um dia amou.

O fim é um novo começo.

Amigo, agora você tem asas.

E quando todos estiverem chorando, apenas sorria.

Amanheceu com um novo raio de luz.

E se tudo foi tão difícil e efêmero, ninguém disse que seria justo.

Ficou sua vontade imensa, somos um pouco aprendizes.

Tudo vai ficar bem, a estrada não se encerra nunca.

E se a batalha foi uma libertação, você agora está livre.

Amigo, agora você tem asas.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Oportunismo

Oportunismo!

Venda seu peixe, oportunismo!

Diga seu preço, oportunismo!

Manche minha pele, oportunismo!

Sugue meu sangue, oportunismo!

Dê seu discurso, oportunismo!

Compre apreço, oportunismo!

Construa seu reino, oportunismo!

Dite sua regra, oportunismo!

Oportunismo, oportunismo!

Oportunismo, oportunismo!

domingo, 1 de dezembro de 2013

Rei dos Tolos

Algumas palavras às vezes não bastam.

Você sempre acha que vai perder.

Matando as plantas.

Congelando o sol.

Rei dos Tolos, você sempre consegue.

Puxe o freio de mão.

Não caia do abismo, não dessa vez.

Separe as coisas nas gavetas.

Não transborde, não dessa vez.

Rei dos Tolos, você nunca consegue.

Reverta a dor em ar polar.

O jogo é esse, não queira mudar as regras.

O jogo é esse, e você não quer perder.

Abra as mãos, seja mais um.

Rei dos Tolos, você nunca consegue. 

Faça diferente.

Você teve o que mereceu.

Mude o destino.

Não seja mais do que o necessário.

Rei dos Tolos, você sempre consegue.

sábado, 30 de novembro de 2013

Explosão

O vento leva a poeira em um dia cinza.

A bomba está prestes a explodir, levando nossas vidas e nossos sonhos.

Oh, era tanto o que desejávamos para o amanhã.

Sorrisos, flores e significados...

O que foi pago ainda é um vazio.

O celular toca, chamado por um número desconhecido.

Eis a derradeira armadilha. 

Quem é que nos odeia por isso?

Quem é que tenta me enforcar todas as noites?

Quem é que insiste em me asfixiar enquanto tenho tanto ainda para viver?

Bum, ensurdeci.

O chão está vermelho.

Meu sangue, minhas lágrimas, meu fim que se arrasta por esses minutos tão longos.

Estou me esvaindo aos poucos, chorando o ontem, lamentando o hoje, vendo o amanhã partir como os grãos de areia, despedindo-se entre meus dedos.

Cenário de guerra, ouço as sirenes, a dor e o desespero.

Sinto-me em melancólica paz.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Porco desalmado

Elas estavam sozinhas na sala.

Porco desalmado sente prazer doentio.

A professora molhava biscoitos no café.

Exposição e crime, violando almas indefesas.

Ele é um louco imperdoável, expondo seu órgão nojento.

Não sente culpa, não tem remorso.

Sugando toda a doçura e pureza que existem no mundo.

Ele aproveitará todo vacilo.

E vai se divertir sozinho no banheiro.

Não há nada que possa ser aceito ou perdoado.

Traga a salsicha para os cães, eles estão famintos.

Elas odiarão seu titio para sempre.

Elas odiarão os homens para sempre.

Elas odiarão a vida para sempre.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Fim da fila

Cuspa no chão, isso não é seu.

Crianças esperam a colherada de sopa batida.

Mundo, tão pequeno mundo.

Ainda estamos esperando pela nossa vez.

Ela nunca chega, estamos sempre no fim da fila.

Os animais comunicam-se melhor.

Malditas marteladas no relógio.

Corra, mas não canse.

Pare, mas não perca a hora.

Deixe-se derrotar mais uma vez, pinte um sorriso.

Ninguém entende, já está entendido.

Somos o mesmo erro.

Se sou um primata detestável, então estou livre.

Não vou lamber o chão, isso não é meu.

domingo, 24 de novembro de 2013

Solidão, imensidão

Solidão, dia sem paz.

Imensidão, tudo que eu quero hoje eu não posso ter.

Quero o seu cabelo em minha boca.

Desejo o seu cheiro em minha roupa.

Nos seus olhos, todos os meus devaneios.

Solidão, não faz mal.

Imensidão, no meu peito todo território a desbravar.

Caneta e papel, palavras e também minha alma.

Estou triste, gosto tanto de você.

E fazer festa aqui dentro de mim não tem porquê.

sábado, 23 de novembro de 2013

Prisioneiros

Os fogos explodem no céu.

Promessas e mais promessas povoam a mente.

Como se tudo pudesse mudar depois da contagem regressiva.

Seremos os mesmos, nós e nossas misérias.

Nosso fardo é repetir todos os dias o mesmo dia.

Estamos presos esperando pela luz do sol.

Conte as uvas, pule as ondas.

Nada muda, nada mudará jamais.

Um, dois, dez, trinta ou trezentos e sessenta e cinco.

É a pena que estamos cumprindo para o resto de nossas vidas.

É o crime que desconhecemos.

Sem saber se é justiça ou capricho.

Sem saber se isso é dor ou anestesia.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Verde bucolismo

Laranja no pé, pão quentinho com manteiga.

Tudo é muito mais simples do que parece.

Uma bobagem, um riso, o seu sorriso.

Precisamos de algo, mas não precisamos de tudo.

Um silêncio, uma música, uma respiração profunda.

Sim, tudo é muito mais simples do que parece.

Crianças de mãos dadas, bocas lambuzadas de doce, lambidas nos dedos.

Esse é o nosso verdadeiro significado.

O amor se espalha como se fôssemos uma unidade, o mesmo corpo.

E tudo se torna muito mais simples do que parece.

O vento sopra delicadamente, levando aquilo que nos mata, somos vida, brincando com a realidade dura, fazendo dos nossos fardos uma só leveza.

Há um pedaço de verde bucolismo em meio ao cinza carrancudo quando deixamos nossos pés descalços nos levarem adiante, sem compromisso, sem destino, sem linha de chegada.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Mesmíssima coisa

Sirva o café, traga-me gelo.

Estou a salvo, mesmo sem saber o que fazer.

De cima, ele me diz a verdade, mas tento interpretá-la.

Mais uma ordem para que eu nunca chegue.

Estou caminhando, não estou intimidado.

Nada entendo de teias, e isso pouco me importa. 

Posso cair, abro mão dos efeitos especiais.

Ossos são poeira, estou cuspindo o veneno que me deram.

E se eu for um troglodita, sou um intruso?

E se nada comprei, qual é o meu preço?

Busque a diferença, somos a mesma coisa.

Sem adições ou subtrações, conviva com isso.

Mesmíssima coisa, não pode ser!

Mesmíssima coisa, que ultraje!

Mesmíssima coisa, papeis sem valor!

Mesmíssima coisa, daqui até o final! 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Pálpebras

Não sei se estou acordado ou dormindo.

A realidade se mistura a pensamentos ilógicos.

Sinto dor, não sei onde é.

Persisto até o espelho mais próximo.

Tento manter os olhos abertos, as pálpebras insistem em pesar.

Luto, e luto, e luto.

Mas estou de volta à cama, sem saber como.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Ficar ou voar

Água no copo, estou embriagado sem consumir nada.

Os pensamentos me fazem sentir assim.

Estou esperando para ser livre.

Então vamos ser livres juntos.

Não sou eu que não quero.

E se tivesse apenas um pedido a fazer, você saberia melhor do que ninguém.

Quando escurece, sinto-me esmagado.

Mas nunca posso falar sobre isso.

Venha, me dê sua mão.

Ficar é tão perigoso quanto voar.

Abaixo da terra. alguns se foram sem que seu dia tenha chegado.

E eu sou um louco que se recusa a terminar assim.

Respire fundo, venha comigo.

Não olhe para trás, não olhe para baixo.

Vamos ultrapassar as nuvens, vamos para onde não há mais tempestades. 

Sei que pode parecer difícil, mas nós temos asas que brotam de nossas costas quando nos ligamos de alguma forma.

domingo, 17 de novembro de 2013

Um milhão de possibilidades

Eu sou o ar que você respira.
Sou o perfume que se fixa em sua pele.
Sou o chão que reverencia cada passo seu.

Eu sou a brisa que beija o seu pescoço.
Sou a toalha que abraça o seu corpo.
Sou o espelho que explica e detalha cada traço da sua beleza.

Eu sou o diário que aguarda suas intimidades.
Sou o abajur que ilumina sua noite insone.
Sou o chocolate que derrete lentamente em sua boca.

Eu sou o sabonete que se deleita entre seus dedos.
Sou o pente que acaricia o seu cabelo.
Sou o travesseiro que decifra seus sonhos mais indiscretos.

Eu sou aquilo que posso ser, tão longe, não sei quão perto.
Sou a vontade que não se explica e não passa, desafiando palavras, querendo fazer-se destino.
Sou a poesia cafona, piegas, mas verdadeira, que expressa todo o bem que não posso gritar aos quatro ventos.

Eu sou a fração e o universo, o equilíbrio e a loucura.
Sou um milhão de possibilidades, alternativo a mim mesmo, completamente egoísta e extremamente altruísta.
Sou tudo o que você quiser que eu seja. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Prisioneiro do tempo

Todos são desconhecidos nesta sala fechada.

A menina chora enquanto espera aquele que nunca voltou.

O homem calvo toma a frente, despertando todos os demônios.

Está agressivo e pronto para explodir.

Ele exclama com um livro na mão.

A criança brinca, não sabe nada do que se passa.

São tantos os gritos, é tão grande a dor em minha volta. 

Oh, eu apenas observo.

As folhas voam, elas queimam, fomos enganados.

Estamos apodrecendo, chegou a escuridão, revelou-se a verdade.

Eu sei o que aconteceu, e isso faz o meu estômago doer intensamente.

Tudo é criação mental, um pesadelo criado para perturbar e destruir.

Mas ainda existe amor, sem regras ou freios.

Existe a luz do dia logo ali fora.

Somos todos feitos de carne, osso, sangue e um coração pulsante. 

E se meus sonhos forem reais em outra época?

E se eu for dono de mim mesmo em uma linha que não posso alcançar?

E se minha existência é a minha única certeza, continuarei procurando a chave em cada canto.

Ainda estou aqui, mais forte.

Ainda estou aqui, preso.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O tiroteio

Tudo estava tranquilo enquanto comprávamos peixes e alguns legumes naquele mercado.

Mas rapidamente, seguido por um burburinho, chegou o caos.

Tiros e o barulho característico de multidões em pânico fizeram a trilha daquele momento.

Fiquei atônito, parado, sem reação, no momento em que o amigo que me acompanhava gritou: "Te abaixa!", colocando-me, de solavanco, no chão, cobrindo a cabeça com as mãos.

Aguardamos, ali, alguns intermináveis segundos, e acompanhamos, então, correndo, o fluxo da multidão.

Havia dispersão, e o ambiente, outrora um tanto familiar e simples, tornara-se um indecifrável labirinto.

Corríamos, e corríamos, e corríamos, sem chegar.

O desespero pela sobrevivência nos torna atletas de primeiro time.

Me perdi de meu amigo, e não me restou nada que não fosse correr mais e mais.

Ao chegar a uma escadaria relativamente grande, dos fundos do mercado, me deparei com a luz do dia, emoldurada por uma série de enfeites belos e delicados.

Havia, ali, um casamento, em pleno andamento, com noiva, noivo, padre, padrinhos, pais e convidados.

Tentei passar imperceptível, enquanto a marcha nupcial tocava.

A bem da verdade, acho que me notaram, sim.

Mas isso era o que menos importava.

Alcancei a rua.

A correria era generalizada, havia fumaça e um ensurdecedor barulho de dezenas de sirenes.

Vi um policial correndo atrás de um rapaz.

Talvez fosse aquele rapaz o provocador de todo aquele caos maluco e surreal.

Eu caminhava, ainda tentando me encontrar, e à procura de meu amigo, de quem havia me perdido na fuga.

Um policial, em meio à fumaça cada vez mais densa, tomou-me pelo braço, perguntando se eu estava bem.

Foi aí que tive a séria sensação de que o pesadelo talvez estivesse apenas começando.

sábado, 2 de novembro de 2013

Alma desfigurada

Dignidade, isso é uma utopia.

Ele tem sorte para perturbar.

Não há ouvidos, apenas tolerância.

Mas queriam vomitar.

Pegajoso e rastejante, essa é uma boa noite.

Estou assistindo e rindo, mas estou detestando.

Após tanto tempo, sua alma está desfigurada.

Não percebe nada, entregou-se a uma insanidade conveniente.

Pode fazer qualquer coisa sem ser interrompido.

A compaixão, por vezes, é algo desprezível e nojento. 

Sinto-me um troglodita, mas tenho algo guardado.

E posso mandá-lo embora a hora que eu quiser.

Ele subiu até perder o ar, agora está descendo.

Não existe perdão, apenas não minta.

O sorriso está pintado, ele não desiste.

Arraste-o para a sarjeta, isso é um vexame.

Ele já não controla os malditos instintos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Dente de alho e água benta

Sal grosso e pimenta.

Dente de alho e água benta.

Galho de arruda e um trevo de quatro folhas.

Espada de São Jorge, benzedura e reza.

Mais e mais proteção, para destravar os caminhos.

Dieta para os olhos sem vida própria.

Breves blecautes na vizinhança não iluminarão trevas infindáveis.

Estamos mais fortes do que nunca.

E nada vai nos derrubar.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mesmo lugar

No dia em que parti, estava buscando uma nova vida.

No dia em que voltei, sabia melhor do que nunca o que queria.

Sim, eu tentei fazer tudo diferente.

Mas a realidade sempre surge para mostrar que permanecerei no mesmo lugar.

Olho para trás, não me arrependo.

Nas minhas noites, seu olhar e seu sorriso seguirão em meus sonhos, tenha certeza.

Se eu sinto isso, é porque não estou morto.

E se isso não morrer, ficarei bem aqui.

Já não depende de mim, apenas não quero incomodar.

Não se preocupe comigo, isso não é necessário.

Siga sendo o que você pode ser para mim.

Guardo meu coração numa caixa escondida em meio às roupas.

E talvez algum dia eu possa pegá-lo, oferecê-lo novamente para você.

domingo, 27 de outubro de 2013

Adubo

Já está na hora da próxima regra?

Fazendo tudo certo, irritantemente certo.

Movido a álcool e gasolina.

Não está cansado disso tudo?

Estamos velhos, somos jovens morrendo.

Nada tem sentido abaixo do solo.

Adubando rosas que vão sangrar nossos corações.

Adoro a inspiração para não dizer nada.

Sobre o que eu deveria falar?

E qual causa eu deveria defender?

Prefiro atear fogo nessa papelada toda.

E seguir a minha própria consciência.

sábado, 26 de outubro de 2013

Zumbi

Sede, estou com sede.

Fome, estou com muita fome.

Sei o que quero.

Sei melhor o que não quero.

Esconda-se se não sabe o que se passa.

Lá fora estão batendo na janela e arrombando as portas.

Espero que não me encontrem, não é um bom dia para ser devorado.

Há um pedestal colocado.

Ninguém pode cair.

E me diga como evitar a colisão.

Os espaços não podem ser invadidos, não agora.

Não sugue meu sangue, alimente-se melhor.

Deixe as coisas no seu lugar exato.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Vítimas e monstros

Abram-se as cortinas, vai começar o espetáculo.

Um palco cheio de almas angustiadas.

Fazendo o que mandam, sob chicotadas, sem consciência disso tudo.

Na plateia, famílias com seus pais, seus velhos e suas crianças com água na boca.

Eis o grande sacrifício, enquanto o chão é pintado de vermelho.

Chegamos ao fim, estamos apenas começando.

Há muito mais para o deleite dessa gente.

Porque tanta dor não é suficiente.

Línguas acariciam lábios, clamando por mais e mais.

Velas, vinho e carne crua, reunidos para o grande expurgo.

Vítimas e monstros, anjos e bestas, todos se confundem.

E o fogo invade tudo, desespero sem piedade.

É tarde demais, a escolha já foi feita.

O sofrimento se arrasta, o teto não se abre.

É tarde demais, não havia escolha a fazer.

Neste jogo de sadismo todos entraram para perder.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Guerra permanente

Luta, resistência, desistência.

Seja aquilo que lhe mandam.

Gravatas, regatas, sapatos ou tênis, tanto faz.

Venda o que tem dentro de você.

O ringue imaginário está montado.

É você contra todos, essa é a regra que estão tentando lhe impor.

Nada do que você diga ou pense fará diferença.

Estão nos colocando em guerra permanente, somos apenas fantoches divertindo nossos senhores.

Somos competidores sem linha de chegada.

Estamos entregando nossas vidas para satisfazer homens que desconhecem nossa existência.

Jaulas, gaiolas, celas ou escritórios, tanto faz.

Nosso sangue está nos cálices de uma festa para a qual não fomos convidados, embriagando nossos reis.

E nossas horas são segundos.

Valor a mais, ponto substituível mas indispensável.

Valor a menos, continuando no jogo sem poder jogar.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Talvez

Algumas vezes penso no final sem ter começado.

Olho para a mesma e velha rua, ainda estou comigo mesmo.

Me vejo enquanto durmo em mais uma tarde.

E morro mais uma vez, ressuscitando depois.

O tempo é rápido, mas lento demais para mim.

Fecho os olhos mais um pouco, buscando alguma resposta impossível.

Quais sonhos eu ainda posso ter?

Meu corpo permanece jovem, mas sinto meu espírito cansado e sem forças.

Talvez um raio de luz toque meu rosto enquanto estou neste quarto escuro.

E talvez o sol seja apenas mais uma ilusão de ótica a preceder a chuva inevitável que molha minhas vistas.

E talvez haja outro talvez...

E talvez haja outro e outro e outro talvez...

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Brinquedo macabro

Quando tudo estava calmo, e as folhas caíam no chão, ainda havia algo por acontecer.

Numa caixa, a companhia para uma vida melancólica.

O vento sopra e uiva, o céu acinzentado serve como aviso para a tempestade.

Da inocência, o pavor de um espírito que não descansa.

Ele quer roubar o seu corpo, ele quer sugar a sua alma.

Depois dessa noite, nada será igual.

E as sirenes na rua pela manhã sinalizarão uma mudança irreversível.

Aquele brinquedo é perigoso e macabro.

Ele será o início da sua insanidade.

No movimento sorrateiro, no corte da faca, no gosto do sangue.

Titio Charles nunca foi um Bonzinho como os outros.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Eutanásia

Jogado na cama com os lençóis urinados.

Olhando para o teto, até que alguém me dê uma colherada de sopa batida.

Desligue os aparelhos, eis minha súplica.

Não aguento mais ser um vegetal.

Desligue os aparelhos, liberte-me da imundice.

Não aguento mais o sol em meus olhos.

Desligue os aparelhos, e limpe minha boca.

As crianças estão abusando da minha inércia.

Desligue os aparelhos, amanhã será um dia lindo.

Não haverá remorso nem dor.

Desligue os aparelhos, acenda uma vela.

Estou tão angustiado sem poder me expressar!

Desligue os aparelhos, deixe-me viver.

Não há o que perdoar, e você terá toda minha gratidão e carinho.

domingo, 20 de outubro de 2013

Pequenos interesses

O dia acabou, o mundo acabou.

A prova mesquinha de um espírito paupérrimo.

Tudo em nome de pequenos interesses.

Tudo em nome de uma satisfação no banheiro.

E das coisas que realmente importam, o que você me diz?

E daquela gente morrendo lá fora, o que você me diz?

Há apenas um projétil, atinja o mais fraco.

É mais fácil e menos comprometedor.

Implorou por essa liberdade, e agora reclama dela.

E tudo ficará limitado, limitado como você.

Deixe tudo queimar, salve apenas a sua casinha.

E siga sozinho, reproduzindo bobagens.

E siga sozinho, adorando aquilo que lhe obrigaram a adorar.

sábado, 19 de outubro de 2013

Restaurante para hipocondríacos

- Boa tarde, senhor. Seja bem-vindo.
- Boa tarde... Quais são as opções que você me recomenda para o almoço?
- Ah, temos um cardápio muito rico. Mas eu sugeriria o nosso prato do dia: Paracetamol ao pesto.
- Hum... Parece bom...
- Temos também outras coisas boas. Temos Fluoxetina gratinada, Atroveran ao sugo... Temos também uma paella que leva Paracetamol, Dipirona, Fluoxetina, com bastante pimenta-do-reino, alho, açafrão e sal de fruta... Tudo com o acompanhamento de um molho especial à base de nozes, avelã e Hipoglos. Cá entre nós... o Hipoglos é o segredo do nosso sabor diferenciado.
- Humm... Parece bom, hein? Vou querer uma paella dessas aí. E pra beber, o que temos?
- Se você quiser algo mais forte, temos Biotônico. Temos também xarope Vick, que harmoniza bem com o nosso molho especial... E temos um coquetel que faz muito sucesso entre os clientes, o Daikiri de Pepto Zil, leva limão, gelo... E se quiser algo mais docinho, podemos ainda acrescentar um toque de leite condensado.
- Hum... Que ótimo... Vou querer um desses.
- Anotado. E para a sobremesa, já quer deixar o pedido feito?
- Ah... Pode ser... Quero algo mais tropical... Me veja uma torta de pastilhas de laranja, ok?
- Ok, senhor. Já, já o seu pedido está chegando.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Pista errada

A pista no chão leva para o lugar errado.

Sabemos que não é verdade.

Mas um ímã de irracionalidade leva ao equívoco.

O coração palpita, isso é quase insuportável.

Retornamos para um lugar indesejado.

A lição foi aprendida, volte logo, luz do sol.

Nem sempre a criatividade é uma dádiva.

Não quando se está incerto.

Não quando se está no escuro.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Príncipe do erro

Nascido da escuridão de uma noite mal explicada.

Ele é o fogo nos olhos daqueles que se mantêm vivos no meio dos ratos, das trevas que não terminam.

Há uma antiga lembrança nas chamas que consomem as esperanças.

Abrindo as asas, ele voa rasante, levando tudo o que pode consigo.

Príncipe do erro, caído, punido.

O céu está sangrando, vinho tinto pintando os corpos e inebriando os espíritos.

Crescendo como uma árvore danosa.

Erguendo o palácio da dor, da dádiva e do deleite.

Olhar sem vida, unindo incompreensões divinas.

Mente sem remorsos, ele arde  nas feridas de todos os rejeitados pelo paraíso.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Batida

Maçãs, bananas, laranjas.

E chocolate, e leite, e água.

E melão, e melancia, e mamão.

E açúcar, mais açúcar.

E cebolas, e tomates, e cenouras.

E carne, e beterraba, e milho.

E batatas, e aipim, e pães.

E sal, mais sal.

E morangos, e tangerinas, e frango.

E peixe, e camarão, e uvas.

Tudo no liquidificador. 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Chão aberto

Vagando pelo deserto no meio da noite.

O chão se abre em gesto solene.

Engole tudo o que fomos, tudo o que somos e tudo o que seremos.

Mas de alguma forma ainda permanecemos iguais.

E veremos que não há fim, pois somos a única existência certa.

O frio se foi, abaixo ou acima, um não-lugar é um lugar.

E mesmo que pareça uma loucura melancólica e angustiante, o nada também é alguma coisa.

Céu, inferno e realidade, tudo está em nós mesmos.

Luz ou escuridão em estado puro cegam da mesma maneira.

domingo, 13 de outubro de 2013

Tragédia redentora

A chuva molha a terra.

Mas ali nada nasce.

Tudo está calmo e silencioso.

Fantasmas observam o cenário.

Uma única flor nasce para oferecer a pista definitiva.

É o sinal do impossível encontro de todas as linhas paralelas do tempo.

Eis o clarão, tragédia redentora.

E a ficção torna-se realidade.

Agora somos todos e todas as possibilidades.

Re-vida, re-morte, re-vida e re-morte.

E o amanhã torna-se ontem sem jamais ter sido hoje.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Cédula

O homem pegou a nota de 100.

Observou.

Cheirou.

Acariciou.

E rasgou em pedacinhos.

Havia, finalmente, recuperado a lucidez.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Brisa fria

O inverno se despede, mas uma brisa fria ainda beija nossos rostos.

O tempo é um amigo que não consigo compreender.

Não corra, não pare, mantenha-se na trilha.

A necessidade de exatidão nos traz apenas medo do destino.

Mas as possíveis armadilhas no caminho não podem nos desviar dos nossos anseios mais profundos.

E depois de tanta dor, queremos apenas descansar os nossos corações.

Tudo de mais lindo que o horizonte nos reserva depende de mais alguns passos.

Mesmo tendo todo o possível, hoje ainda temos muito pouco.

Então dê-me logo o amanhã.

A angústia não resistirá à luz que cortará a cortina trazendo um novo dia.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Oh, céu

Esteve chorando.

Mas o sol voltou a nascer.

E tudo que volta traz junto o seu próprio alento.

Juntou suas migalhas, ergueu-se dos escombros.

Céu, oh, céu, traga aquilo que tanto quero.

Céu, oh, céu, abrace-me com o seu azul.

Nas nuvens, o sorriso tão único.

Céu, oh, céu, abençoe o pedaço que falta.

Céu, oh, céu, cuide bem daquilo que tanto significa.

Porque não há mais tempo para o medo.

Não há mais espaço para dúvidas ou dor.

Voe lindamente, espírito livre.

Voe lindamente, e compartilhe sua liberdade comigo.

sábado, 5 de outubro de 2013

Gostos e desgostos

Há amargura e ceticismo.

Mas também há doçura e esperança.

Há cheiro de esgoto.

Mas também há o perfume das flores.

Há olhos ressecados pela poluição.

Mas também há olhos que ainda brilham.

Há a preocupação da sobrevivência e das responsabilidades.

Mas ainda há o sorriso descompromissado das crianças.

Há ódio e desprezo.

Mas também há amor e palpitação no peito.

Há, ainda, um mundo a descobrir, e redescobrir, e redescobrir.

Com seus gostos e desgostos.

E o mais importante...

Há vida.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Contra o tempo

A corrida contra o tempo é sempre atordoante.

As palavras mais importantes ainda não foram ditas, eu sei.

Estou partindo, mas estarei de volta, pois conheço meu lugar e aquilo de que preciso.

Tanto se passou, tão pouco falta, e agora sinto vontade e angústia misturadas.

Estou explodindo calmamente.

Vejo algumas coisas, mantenho a mente alerta.

O que é mentira, o que é verdade, não sei.

Tempo, fique aqui cuidando de mim.

Não deixe a escuridão preceder a morte.

Pesadelos são reais, mas não esqueci o sentido daquele sonho.

Sonhos são reais, mas não esqueci o sentido daquele pesadelo.

Estarei mais velho, mas serei novo, nascido para uma vida diferente.

É tudo o que sinto com o mundo em minhas mãos.

É tudo o que sinto com minha existência evaporando, fugaz e solenemente maior que o universo.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Looping

Foguete lançado, movimentos imprevisíveis.

Tremores e calafrios, a vida ficou tão pequena.

Não há amanhã, não há futuro enquanto a alma não descansa.

O limite da sanidade é uma linha tênue e imperceptível.

Looping interminável, hora que não passa.

Nenhuma ideia retida na mente, a lógica está mais aleatória do que nunca.

Realidade, delírio, realidade, delírio.

É reconfortante ver o sol entrando pela janela.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

5 anos de Dilemas Cotidianos- 1ª posição: Lúmpen

Fechamos o especial de 5 anos do DC com o melhor texto do blog neste último ano, publicado em 5 de junho de 2013.

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Cabelos sujos, roupa em farrapos, chinelos velhos.

Unhas pretas, pele cascuda, cheiro de intestino solto.

Ele é um câncer que cresce a cada dia nas ruas molhadas de urina.

Ele está gritando alucinadamente para pessoas que não lhe ouvem, apenas estranham.

Sim, ele é uma verdade inconveniente.

Em sua mão rude e encardida, uma garrafa cheia de dor, angústia, desespero e revolta.

39%, teor de ódio por um mundo que lhe despreza.

Suas palavras aleatórias são o sopro de lucidez.

Desgraçada e miseravelmente livre para perambular sem destino.

Leiloando sua alma por alguns centavos, em busca de alento na noite fria.

Ele é a nossa derrota, a nossa falência, o sintoma de uma doença letal que corrompe a nossa capacidade de sermos humanos.

domingo, 15 de setembro de 2013

5 anos de Dilemas Cotidianos- 2ª posição: Só estudando

A medalha de prata dos melhores textos do último ano no DC fica com um texto publicado em 27 de setembro de 2012.

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Dois amigos se encontram na rua:

- E aí, Leandro? Como vai?
- Opa, Jeferson! Tudo bem! E contigo?
- Tudo tranquilo. O que você anda fazendo?
- Ah, tô fazendo o doutorado, entrei esse ano.
- Hum... E tá só estudando?
- Sim, sim! Tô só estudando. Só revisando bibliografia para a tese. Só articulando o problema de pesquisa com a metodologia. Só lendo mais de 100 páginas por semana para as disciplinas que tô cursando. Só estudando para a proficiência em língua estrangeira. Só escrevendo uns quatro artigos por ano. Só apresentando trabalho em dois, três seminários por ano. E vou ter que só escrever uma tese de duzentas páginas, só fazer uns relatórios, e só fazer meu estágio docente no ano que vem.
- Hum...
- E você? O que anda fazendo da vida?
- Er... Eu? Ah... Eu tô só trabalhando, mesmo...

sábado, 14 de setembro de 2013

5 anos de Dilemas Cotidianos- 3ª posição: Carpinejar dá dicas de comportamento na internet

No terceiro melhor texto do especial de 5 anos do DC, publicado em 23 de setembro do ano passado, Carpinejar dá dicas quentes de como se portar na rede.

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- Amigos do DC, estamos aqui mais uma vez com o Carpinejar, que vai nos dar algumas dicas de comportamento na internet... Carpinejar, primeiramente, quais as principais diferenças entre as redes sociais, mais especificamente Twitter, Orkut e Facebook?
- Twitter. Caracteres limitados. Palavras pela metade. Diz-se pouco. O pouco que é o muito esvaziado. Facebook. Cutucada. Compartilhamento. Seda que se rasga em um comentário. Estrela que cintila em forma de curtida. Orkut. Passado ainda presente. Mas esquecido. Flor que murchou. Cicatriz escondida.
- Sim... Bom, e a exposição das pessoas nessas redes sociais? Como você acha que isso deve se dar?
- Exposição. Rosto à mostra. Loucura que se esconde e disfarça. Anjos com toque suave. Imagem e transparência. O desabrochar de um novo tempo.
- Uhum... Você acha que estas redes sociais podem, de alguma forma, isolar as pessoas do mundo? Como você encara essa simultaneidade paradoxal de interação permanente e insulamento em frente a uma tela de computador?
- Redes. Captura. Pequenos peixes nadando no mar. Suave tecido que nos envolve. Gostosa sensação sadomasoquista. Navegador canalha. Chrome, que não é Explorer. Canalha, que não é cafajeste. É canalha. Deliciosamente canalha, como uma palavra que escorre pelo canto da boca. Morango com açúcar.
- E a velocidade de circulação de informações? A gama é maior, mas ao mesmo tempo, tudo deve ser melhor analisado e filtrado... O que você pensa a respeito?
- Velocidade. Veloz. Cidade. Atração cibernética. Somos espectros. Sombras permeando um ambiente claro e escuro. Indo. Vindo. Mastigando o algodão doce da ilusão. Nuvem rosa. 
- Ok... Muito obrigado, Carpinejar, por mais essas dicas. Até uma próxima!
- Próxima. Proximidade. Distância que encolheu. Dia que virou hora. Chapolim depois da pílula. Delicada transformação. Nuance que me invade e se esvai com o vento.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

5 anos de Dilemas Cotidianos- 4ª posição: Bial abordado pelo tio das pastilhas

O quarto colocado no especial de 5 anos do DC foi publicado no dia 19 de setembro do ano passado.

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- Ô, seu Bial! Vai uma balinha hoje pra ajudar o amigo? 
- Oh, ilustre tio das pastilhas! Sabor de hortelã que invade não só a minha boca, a minha língua, como todos os meus sentidos! Oh, amigo das balas, sou também teu sobrinho nessa permanente aventura do viver. Assim andamos, por esse Campus do Vale, com tanta magia, tanto encanto, tantos duendes que só os homens de pouca fé e de pouca erva não conseguem vislumbrar! Somos, então, essa configuração demasiadamente imperfeita e incompreendida em carne, osso e hortelã. E goma, também! Ah, amigo! Bala de goma, sabor de infância! Como um doce abraço da mãe natureza que nos oferece o dom da visão do mais belo céu, e a bênção de ouvir o canto encantador dos pássaros nestas árvores que nos circundam! Oh, tio das pastilhas, homem de tão exótica beleza, de tão profunda sapiência, de tão prático e sagaz conhecimento da lei da oferta e da procura, diga-me: afinal, o que somos agora, neste exato momento que corre por entre nossos dedos? 
- De hortelã? Tem sim! Pro senhor eu faço três por quatro real. Sabe como é, né, final de mês, tá difícil pra todo mundo...

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

5 anos de Dilemas Cotidianos- 5ª posição: Das belezas ocultas

O quinto melhor texto do ano que se passou no DC foi publicado no dia 24 de junho de 2013.

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A garota estava sentada sozinha com seu notebook, como todos os dias.

Ela é diferente demais para um mundo de iguais.

Alguém poderia querer colocá-la numa jaula.

Seres desumanos estão espalhados por aí como uma praga que faz este mundo adoecer.

Se eu fosse ela, eu choraria.

Mas ela sorri.

Se eu fosse ela, eu me lamentaria.

Mas ela mantém um lindo brilho nos olhos.

Se eu fosse ela, eu já teria ido embora.

Mas ela insiste em ficar, ela insiste em viver.

Não, ela nunca será aceita.

Mas é tão bonito vê-la apreciando a vida a seu modo.

A natureza lhe odeia.

Mas ela não faz disso um motivo de tristeza, pois ama sua natureza.

Fiquei feliz com seu riso, com sua alegria em existir, a despeito dos deboches da existência.

Olhares atravessados, de espanto, nojo ou piedade vazia parecem não lhe abalar, e que assim seja sempre.

Ela é um espírito bonito, espírito leve, que supera suas dificuldades com o dom de encarar os dias como se fossem focos de luz.

Não, ela não é medonha.

Medonhas são as almas pobres que não notam a inexplicável e indescritível beleza daquela existência singela e superior.

Não, ela não é uma aberração.

Aberração é a feiura de corações tão rasos que não possuem sensibilidade para discernir o que realmente é importante e maravilhoso em um ser humano.

Ela nunca saberá, mas estive sorrindo com ela.

Ela nunca saberá, mas meus olhos brilharam ao ver o brilho nos olhos dela.