quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Breve instante de lucidez

É meio-dia em ponto.

Está infernalmente quente na rua.

João Pedro está suando em bicas.

Os raios do sol assam com crueldade a já castigada pele do seu rosto.

Corre contra o tempo.

Corre pelo pão na boca do filho.

Animais e pessoas são, neste instante turvo, a mesma coisa em sua cabeça.

Está cansado, de corpo e alma.

Mas prossegue, pelo simples fato de que tem de prosseguir.

Num instante em que ele para com o intuito de tomar um ar e apoiar a mão numa parede qualquer, no entanto, eis que surge uma crua e indigesta constatação em frente aos seus olhos. 

Observa no interior do restaurante, ao qual pertencia a parede na qual estava apoiado, cerca de cinco executivos almoçando, sentados à mesma mesa com seus ternos, gravatas, cabelos metodicamente agrisalhados e sorrisos típicos de jogadores de golfe de fim de semana.

O sangue sobe à cabeça, a visão enegrece de vez, e uma incômoda perturbação toma de assalto o seu ser.

É em reuniões amenas como aquelas que decidem sua vida, seu destino, algumas de suas maiores dores e mágoas, e quantos litros de sangue e suor terá de dar em troca de mililitros de água e algumas migalhas.

Ele é tão somente um pedacinho microscópico do gráfico na tela de um tablet.

2 comentários:

B. disse...

Infelizmente, esta é a história de milhões de brasileiros, presos a um destino trágico.

Bruno Mello Souza disse...

É uma triste realidade, B.

Beijos.