sexta-feira, 7 de setembro de 2012

4 anos de Dilemas Cotidianos- 10ª posição: Arruda

Começamos o especial de 4 anos do DC com o décimo melhor texto do último ano: Arruda. Ele foi publicado no dia 16 de maio deste ano. 

....................................................................................

Hoje à tarde, quando eu estava no ônibus, aconteceu algo aparentemente banal mas que, de alguma maneira, me tocou profundamente. Uma mulher, de aproximadamente 40 anos, adentrou a condução carregando uma sacola cheia de galhinhos de arruda. Naquele momento, me senti quase que teletransportado por aquele cheiro característico.

Quando eu era criança, ficava com a minha avó durante o dia, enquanto meus pais trabalhavam. E suas benzeduras eram extremamente solicitadas no bairro. Mães levavam crianças com sapinho, diarreia, alergia, enfim, com uma série de probleminhas, para serem benzidas pela dona Noely. Ela pegava um galhinho de arruda, fazia alguns movimentos em frente ao enfermo, e balbuciava algumas palavras, uma espécie de oração. Podia ser efeito placebo, não sei, mas tudo indica que, de uma forma ou de outra, funcionava, pois sua fama era grande na vizinhança, ela era uma referência, e sempre encontrava na rua pessoas agradecendo, dizendo que seus parentes melhoraram de maneira quase que imediata após a sua intervenção. Detalhe: ela jamais cobrou um centavo sequer por aquilo. Fazia aquilo tão somente por amor ao próximo.     

Quando senti hoje novamente aquele cheiro forte e extremamente marcante e, pelo menos para mim agradável, da arruda, não foram só lembranças que vieram à tona. Foi mais do que isso. Senti, mais vívida do que nunca, a presença da dona Noely, que nos deixou há quase cinco anos. 

Não são poucas as vezes em que me flagro pensando em por que até hoje não digeri por completo sua partida. Sonho com ela frequentemente. Nestes sonhos, ela sempre está incrivelmente viva, lúcida, amável. Quando acordo, ainda demoro, ou mesmo me nego, a retomar a realidade em sua forma mais implacável e crua: ela se foi. Constatar isso a cada momento em que penso na dona Noely dói profundamente. É um processo que se repete mas não se naturaliza. Machuca sempre, e sempre da mesma maneira.

Mas hoje, acordado, naquele ônibus, senti algo diferente. Algo que não foi nem a euforia incontida dos sonhos, nem a frustração magoada da incompreensão da morte sentida em meu estado desperto. Foi natural, preciso, inconfundível e, acima de tudo, tranquilizador. Aquela desconhecida de aproximadamente 40 anos jamais saberá, mas fez minha alma ser tomada por uma certeza inabalável: minha avó ainda vive. Minha avó ainda sorri. Minha avó ainda existe, com todo o esplendor da sua essência: ela está presente no perfume de cada galhinho de arruda existente no mundo.

Nenhum comentário: