domingo, 30 de setembro de 2012

Saúde

- Atchim!
- Saúde!
- Hein?
- Saúde!
- Tô sem.
- Saúde?
- Sim.
- Sei. Mas desejo mais.
- Saúde?
- Sim.
- Obrigado.

sábado, 29 de setembro de 2012

Sem sal

Um casal tomando o café da manhã:

- Júlia, me passa a margarina, por favor?
- Tá aqui, Fernando.
- Obrigado... Peraí... Sem sal, de novo?
- Sim, amor! Margarina com sal faz mal pra sua pressão!
- E daí? Margarina sem sal não tem graça nenhuma! É como se fosse um filme do Bruno Mazzeo!
- É melhor pra você, meu bem...
- Ai, ai, ai... Então me passa o requeijão, vai...
- Requeijão não tem... Mas comprei nata!
- Nata? Você só pode estar de brincadeira... 
- Nossa! Como você resmunga! Nunca tá satisfeito com nada!
- Desculpa, desculpa, meu bem... Bom... Mudando de assunto... Ainda não votei no Dilemas Cotidianos para o Top Blog... Você já votou?
- Ih, há horas!
- É muito complicado?
- Não, é bem fácil! É só entrar no DC e clicar no ícone que fica à direita da tela. Aí você pode votar via e-mail, Twitter ou Facebook. E se apresse! A votação do primeiro turno termina amanhã às 14 horas! 
- Ah, bom... Então vou só terminar esse café e já vou aproveitar pra votar.
- Isso! E depois de votar, se arrume que temos que ir ao mercado fazer as compras.
- Pode deixar, meu bem! Mas deixa que dessa vez eu escolho a margarina!

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Força incompreendida

Olhando para as paredes, me vejo no mesmo lugar.
Os dias passam, estamos sempre iguais.
Sonhando com o que nunca temos.
Escravos de invenções de outras cabeças.

Acho que estou um pouco cansado.
Recusando-me a ser este produto fabricado.
E mesmo que enlouqueça, mergulharei fundo nessa ideia.
O tempo todo foi uma mentira.

O amanhã é uma forma de nos matar hoje.
Correndo, correndo até não aguentar mais.
Pedindo socorro a um céu cheio de nuvens.
Esvaindo-se em esforços vãos.

Ainda dá tempo de fugir.
Me dê sua mão, vamos atrás de um horizonte sonegado.
Não serei vencido assim tão fácil, não serei vendido assim tão fácil.
Está escuro e frio, mas irei sobreviver.

Somos uma dor persistente no estômago de nossos senhores.
Somos o ruído que perturba o sono de nossos reis.
Somos o sintoma, não a doença!
Somos a força que os fracos jamais compreenderão!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Só estudando

Dois amigos se encontram na rua:

- E aí, Leandro? Como vai?
- Opa, Jeferson! Tudo bem! E contigo?
- Tudo tranquilo. O que você anda fazendo?
- Ah, tô fazendo o doutorado, entrei esse ano.
- Hum... E tá só estudando?
- Sim, sim! Tô só estudando. Só revisando bibliografia para a tese. Só articulando o problema de pesquisa com a metodologia. Só lendo mais de 100 páginas por semana para as disciplinas que tô cursando. Só estudando para a proficiência em língua estrangeira. Só escrevendo uns quatro artigos por ano. Só apresentando trabalho em dois, três seminários por ano. E vou ter que só escrever uma tese de duzentas páginas, só fazer uns relatórios, e só fazer meu estágio docente no ano que vem.
- Hum...
- E você? O que anda fazendo da vida?
- Er... Eu? Ah... Eu tô só trabalhando, mesmo...

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Estranho

- Nossa, Alberto, ontem vi um filme de terror muito legal! Você tem que ver!
- Terror? Ah, não curto, Leandro.
- Como assim? 
- Não gosto.
- Não gosta de ver mortes, sangue, tortura, entranhas expostas, cabeças decepadas, membros retirados com motosserras, furadeiras adentrando corpos?
- Não, não... Não curto...
- Ué... Eu, hein? Como você é estranho...

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Cegos

Dia desses, enquanto andava pela Andradas, uma cena me tocou profundamente. Vi uma moça jovem, muito bonita. Muito bonita mesmo. E cega. Tateando o chão com uma daquelas bengalas características.

Às vezes dedicamo-nos demais às superficialidades da existência, a uma gordurinha saliente aqui ou ali, a uma espinha no nariz ou a um fio de cabelo branco, e esquecemos as coisas mais simples e tão mais dadivosas que temos e, que de tão óbvias, de tão "dadas", não valorizamos. Coisas como a que aquela moça linda, por exemplo, não tinha: o direito de enxergar. E, ainda assim, ela estava lá. Andando. Lutando. Vivendo. Passando pelos obstáculos. Ensinando, por simplesmente existir, o real valor das coisas tão elementares pelas quais nunca agradecemos.

Ali, naquele momento, vi que cegueira maior que a daquela moça é a nossa. Somos todos cegos. E nossa cegueira não nos permite ver que essas coisas simples, óbvias e dadas para nós não são, necessariamente, nossas propriedades para o resto de nossas vidas. Esta vida, tão simples em suas bases, está permanentemente exposta ao mundo e ao acaso.

Descomplicar. Isso é o fundamental. Aproveitar o dom da vida, sua beleza, seus cheiros, seus sons, seus sabores e suas texturas. Desperdiçamos demais com complexificações que, no chamado de um problema realmente sério, tornam-se absolutamente microscópicas. Jogamos boa parte da vida no lixo em nome de coisas não muito importantes em sua essência. Permanecemos, assim, vivos sem efetivamente viver.

Vivamos, então! Respiremos fundo! Admiremos tudo que de mais lindo nos aguarda lá fora! Saiamos para as ruas, comemoremos a pseudo-banalidade deste momento! A vida não é perfeita, claro que não! Mas talvez exatamente nesta imperfeição resida o seu maior encanto. 

domingo, 23 de setembro de 2012

Carpinejar dá dicas de comportamento na internet

- Amigos do DC, estamos aqui mais uma vez com o Carpinejar, que vai nos dar algumas dicas de comportamento na internet... Carpinejar, primeiramente, quais as principais diferenças entre as redes sociais, mais especificamente Twitter, Orkut e Facebook?
- Twitter. Caracteres limitados. Palavras pela metade. Diz-se pouco. O pouco que é o muito esvaziado. Facebook. Cutucada. Compartilhamento. Seda que se rasga em um comentário. Estrela que cintila em forma de curtida. Orkut. Passado ainda presente. Mas esquecido. Flor que murchou. Cicatriz escondida.
- Sim... Bom, e a exposição das pessoas nessas redes sociais? Como você acha que isso deve se dar?
- Exposição. Rosto à mostra. Loucura que se esconde e disfarça. Anjos com toque suave. Imagem e transparência. O desabrochar de um novo tempo.
- Uhum... Você acha que estas redes sociais podem, de alguma forma, isolar as pessoas do mundo? Como você encara essa simultaneidade paradoxal de interação permanente e insulamento em frente a uma tela de computador?
- Redes. Captura. Pequenos peixes nadando no mar. Suave tecido que nos envolve. Gostosa sensação sadomasoquista. Navegador canalha. Chrome, que não é Explorer. Canalha, que não é cafajeste. É canalha. Deliciosamente canalha, como uma palavra que escorre pelo canto da boca. Morango com açúcar.
- E a velocidade de circulação de informações? A gama é maior, mas ao mesmo tempo, tudo deve ser melhor analisado e filtrado... O que você pensa a respeito?
- Velocidade. Veloz. Cidade. Atração cibernética. Somos espectros. Sombras permeando um ambiente claro e escuro. Indo. Vindo. Mastigando o algodão doce da ilusão. Nuvem rosa. 
- Ok... Muito obrigado, Carpinejar, por mais essas dicas. Até uma próxima!
- Próxima. Proximidade. Distância que encolheu. Dia que virou hora. Chapolim depois da pílula. Delicada transformação. Nuance que me invade e se esvai com o vento.

sábado, 22 de setembro de 2012

Atrasados

- Tatiana, desça logo! Vamos nos atrasar pro jantar!
- Calma, Júlio! Já tô indo!
- Mas você ainda está se arrumando? Como você demora!
- Não, já me arrumei!
- Ué! Então!
- Tô votando no Dilemas Cotidianos para o Top Blog!
- Pô, mas logo agora? Vai demorar muito?
- Não, é rapidinho! Só tenho que entrar no blog, clicar no ícone à direita da tela, e votar via Twitter, e-mail ou Facebook! Não se preocupe!
- Ai, ai, ai... Tá bom, tá bom...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Doutorandos

- E aí, Paulo? Como anda essa vida?
- Ah, Cléber... Estive uns meses em Harvard. Foi muito produtivo! Me acrescentou bastante para a tese.
- Pô, bacana!
- E você? Como andam os planos?
- Ah, cara... Mês que vem tô indo a Paris. Vou fazer sanduíche lá.
- Uau! Muito bom! Em qual universidade?
- Não, universidade nada! Vou trabalhar no Subway!
- Hum... Legal...

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Vendedor de conselhos

- E aí, Marcelo, como é que tá?
- Tudo tranquilo, João! E com você?
- Ah, cara... Tá mais ou menos... Na verdade, eu tava precisando de um conselho seu...
- Hum, beleza! São 200 reais.
- Hein?
- O conselho.
- Você tá cobrando pelo conselho?
- Sim! Sabe aquela história de que "se conselho fosse bom a gente não dava, vendia"? Pois então... Os meus sempre são bons. Por isso, tô vendendo. É um novo negócio. Bacana, né?
- Novo? Mas isso aí já existe. Se chama "terapia".
- Não, não, é diferente. Terapia é um negócio muito, sei lá, artificial. Comigo são conselhos de amigo, uma coisa mais "caseirinha", mais natural, sem agrotóxicos...
- Uhum... Tá... Mas... 200 reais?
- Ah, sabe como é... Muitos amigos têm me procurado pra pedir conselhos nos últimos tempos... E eles andam meio em falta, poucas ideias... Lei da oferta e da procura...
- Bom... Certo...
- Tem os duzentos aí?
- Tenho, tenho sim! Tá aqui!
- Ok.
- Bom, é o seguinte... Eu... Eu tô apaixonado por uma colega de trabalho... Mas é complicado, porque somos bem amigos, e não sei como chegar nela... O que eu faço, hein?
- Hum... Ah, faz o seguinte. Chama ela pra sair... Beber algo, comer alguma coisinha... E aí fala pra ela o que você tá sentindo, numa boa...
- Será?
- Claro! Coragem, amigo! Você consegue!
- Tá bom, então... Vou fazer isso! Valeu!
- Volte sempre!

1 mês depois:

- Ei, cara.
- O que foi?
- Quero o meu dinheiro de volta. 
- Como assim? Já passou um mês! A garantia era de uma semana!
- Não interessa! Deu errado!
- Hum... O que aconteceu?
- Ela me deu o fora. Fiz o que você me disse. Saímos, tomamos uma Glacial, comemos um espetinho de gato... Falei tudo... E deu errado!
- Peraí, peraí! Você disse "Glacial"? Espetinho de gato? Você fez mal uso do meu conselho e agora quer o dinheiro de volta?   
- Quero sim!
- Não! Você que foi imprudente! Se eu comprar uma tv e jogá-la pela janela, você acha que a loja vai me devolver a grana? Óbvio que não!
- Bom... E assistência técnica?
- Ah, assistência técnica até posso oferecer... Me passa o telefone da garota. Ligo pra ela, digo que aquilo tudo foi uma brincadeira, e fica tudo certo.
- Hein? Não! Como assim? Você acha que vou te dar o telefone dela?
- Ué...
- Vou procurar o Procon!
- Calma, calma... Façamos o seguinte... Vamos então fazer a troca... Te dou outro conselho novinho. Melhor ainda... Te dou dois conselhos novinhos! Justo, não?
- Bom... Er... Tá certo...
- Tá. Seguinte... Primeiro conselho... Esqueça essa mulher... Ela não te merece... Se ela te julgou pela marca da cerveja e por um espetinho de gato, não é mulher pra você... Vai por mim...
- Hã?
- E... Segundo conselho... Pare de usar Crocs! Essa merda é ridícula!
- Mas... Mas... Que desaforo! Pegue seus conselhos de volta e enfie no... No... Bom, você sabe onde...
- Não, não aceito devolução...
- Vou procurar meus direitos! Ligarei hoje mesmo pro meu advogado!
- Vai lá, então! Vai lá! Procure seus direitos! Vamos ver quem vai ganhar na justiça! E não me apareça mais por aqui!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Bial abordado pelo tio das pastilhas

- Ô, seu Bial! Vai uma balinha hoje pra ajudar o amigo? 
- Oh, ilustre tio das pastilhas! Sabor de hortelã que invade não só a minha boca, a minha língua, como todos os meus sentidos! Oh, amigo das balas, sou também teu sobrinho nessa permanente aventura do viver. Assim andamos, por esse Campus do Vale, com tanta magia, tanto encanto, tantos duendes que só os homens de pouca fé e de pouca erva não conseguem vislumbrar! Somos, então, essa configuração demasiadamente imperfeita e incompreendida em carne, osso e hortelã. E goma, também! Ah, amigo! Bala de goma, sabor de infância! Como um doce abraço da mãe natureza que nos oferece o dom da visão do mais belo céu, e a bênção de ouvir o canto encantador dos pássaros nestas árvores que nos circundam! Oh, tio das pastilhas, homem de tão exótica beleza, de tão profunda sapiência, de tão prático e sagaz conhecimento da lei da oferta e da procura, diga-me: afinal, o que somos agora, neste exato momento que corre por entre nossos dedos? 
- De hortelã? Tem sim! Pro senhor eu faço três por quatro real. Sabe como é, né, final de mês, tá difícil pra todo mundo...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Uma flor

Havia, em meu jardim, uma linda flor.

Quando eu menos esperava, ela foi levada.

Agora, meu jardim não mais será o mesmo.

Por mais colorido e diversificado que venha a ficar, se ressentirá da falta daquela flor.

Suas pétalas perfeitamente posicionadas, seu perfume, sua cor irreplicável...

Tudo isso será, daqui por diante, saudade.

Mas, onde quer que esteja, ela permanecerá.

Aquele pedacinho de terra continuará ali, vazio, intocável, pois é só dela.

Sua imagem e sua vida estarão sempre em minha mente, em meu coração, em minha alma.

Sua beleza inigualável não poderá ser apagada, jamais.

Longe, sim.

Porém, mais perto do que nunca.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Carpinejar dá dicas contra dores de estômago

- Amigos do DC, estamos aqui mais uma vez com o Carpinejar, que nos dará dicas de como combater e prevenir dores de estômago. Bom, Carpinejar, vamos começar pela prevenção... Você sugere algum tipo específico de dieta para evitar essas dores?
- Dieta. Gordura emagrecida. Direta. Seta sem direção. Carícia sublime, toque com cheiro de rosa.
- Bom... E quanto às dores de estômago... Diarreia, por exemplo... Qual o remédio que você recomenda?
- Diarreia. Dor aguda. Libertação. Correnteza que me leva. Agonia que jorra. Doçura agressiva em tons de chocolate. Muro derrubado.
- Uhum... E quanto aos vômitos? Como combatê-los?
- Vômito. Alma que sai pela boca. É aquilo que não se digere. Palavra não assimilada. Tapa na cara, soco no estômago. Chama que consome. Paixão canalha. Canalha, que não é cafajeste. É canalha. De boca cheia. Cheia de bile.
- Tá certo... Vamos ficando por aqui, então... Até uma próxima oportunidade!
- Oportunidade. É o inoportuno que perdeu sua essência. Gesto contido. Capacidade controlada. Vício do ser.

domingo, 16 de setembro de 2012

4 anos de Dilemas Cotidianos- 1ª posição: Amor de verdade

O melhor texto do último ano do DC foi publicado em 22 de outubro de 2011. Fiquem com "Amor de verdade".

....................................................................

João e Letícia viviam nas ruas. Não tinham teto, não tinham cobertas. Tinham um ao outro, tão somente. Podia parecer pouco. Mas não, não era.

Talvez fosse exatamente a existência de um para o outro que os mantivesse vivos. João devotava-se a Letícia com amor incondicional. Em noites frias, deixava de dormir para emprestar suas folhas de jornal e cobri-la. Ela jamais soube disso. Se soubesse, certamente não teria aceitado. Muito antes pelo contrário: faria o mesmo.

Assim iam vivendo. Um dia após o outro. Sustentados pela imensa vontade de viver. Revirando latas. Dormindo no chão. Mas sempre com o coração aquecido.

Era uma noite de 24 de dezembro. Enquanto a grande maioria das famílias se fartava com sua ceia de natal, João e Letícia passavam por mais uma noite igual a todas as outras. Jamais tiveram uma ceia. João notara uma certa tristeza profunda e reflexiva no olhar de Letícia. Pensava que podiam ter algo para comer. Não precisava ser muito. Mas não tinham.

O rapaz, então, levantou-se, e deixou Letícia deitada. Saiu a caminhar. Estava decidido a fazer daquela noite uma noite especial. Andou, andou, andou, até encontrar uma casa grande, barulhenta. Ali havia uma ceia gorda, sem sombra de dúvida. João, pois, decidiu postar-se atrás de uma árvore. Esperou por horas e horas. 

Tal espera acabou valendo. Uma senhora, já em alta madrugada, jogou uma sacola na lixeira em frente à imensa casa. Assim que ela adentrou seu recinto, João foi verificar o conteúdo. Era a carcaça de um peru. Tinha pouca carne. Mas pouca carne era alguma carne. Pouca carne era melhor que nenhuma carne.

João, feliz da vida, voltou para a rua onde estava Letícia, já dormindo. Acordou a moça. Apresentou-lhe aquela carcaça. Os olhos dela brilharam. Ela agradeceu-lhe emocionadamente. Era um gesto singelo. Era uma carcaça de peru. Mas era toda a riqueza. Aquilo era o máximo que João poderia conseguir naquela noite. E conseguiu. Isso, para ela, tinha o valor do mais farto e variado banquete. Naquela carcaça, estava todo o amor de João para com ela. Ali estava o frio e a espera enfrentados corajosamente por aquele rapaz que tanto gostava dela. Não existia prova maior de carinho do que aquela.   

João nem queria comer. Seu prazer era apenas o de admirar sua amada feliz, comendo sua ceia. Estava ali configurada a mais linda das cenas de amor. Amor de verdade. Sim, porque amar não é dividir uma abundância que não precisa ser dividida. Amar é se entregar. Amar é se doar ao outro. Amar é compartilhar o que de mais rico um ser humano possui: seus sentimentos, seu afeto, sua alma. Amar é fazer de si um pouco do outro. E dar ao outro um tanto de si, sem pedir nada em troca.

............................................................
* Não esqueçam de votar no DC para o prêmio Top Blog 2012: basta acessar o link à direita da tela e entrar via Facebook, Twitter ou e-mail.

sábado, 15 de setembro de 2012

4 anos de Dilemas Cotidianos- 2ª posição: Esportes ao pé da letra

A medalha de prata do especial de 4 anos do DC vai para o texto "Esportes ao pé da letra", publicado no dia 23 de outubro do ano passado.

..........................................................................

O leitor mais assíduo do DC deve lembrar da história de um amigo meu que leva tudo ao pé da letra (http://dilemascotidianos.blogspot.com/2011/07/ao-pe-da-letra.html). Pois bem, ele andava tendo uma vida muito sedentária. Resolvi, então, incentivá-lo a praticar esportes. Mas não deu muito certo.

Primeiro, ele tentou o mais trivial: futebol. Até estava jogando bem. Porém, na hora de uma falta a favor do time dele, um companheiro gritou: "Chuta a bola no primeiro pau!" E ele obedeceu. Chutou no primeiro pau que viu. Era o do Marcão, colega de equipe. Agora, o Marcão fala fino e não pode ter filhos.

Mesmo com esse contratempo, ele continuou tentando a sorte, até o dia em que o treinador pediu que penetrasse por trás do lateral e cruzasse. O cidadão baixou o calção dele, o do adversário, e o cara, lógico, saiu correndo. Foi um horror... Ali, ficou sepultada sua carreira futebolística.

No entanto, ele continuou querendo praticar esportes. No basquete, teve vida curta. Na sua primeira partida, levou vinho, e o técnico achou um desrespeito. Tudo isso porque tinham dito para ele jogar perto do garrafão...

Fora do basquete, o vivente tentou a sorte no vôlei. Foi patético. Quando disseram que era a vez dele fazer o saque, saiu correndo desesperado atrás de um caixa eletrônico. Depois, os companheiros orientaram-no a dar uma manchete quando a bola viesse em sua direção. Não deu outra. Enquanto a bola vinha, ele começou: "Pesquisadores de Harvard fizeram um estudo..."

Sua última tentativa foi o boxe. Não tinha muito erro. Era só dar socos. Entretanto, novamente deu problema. Por ocasião de sua estreia no esporte, quando o juiz anunciou o primeiro assalto, ele jogou spray de pimenta nos olhos do coitado e chamou a polícia. Um vexame só.

Por fim, desistiu. Está tentando agregar adeptos para um esporte maluco que criou: o futebol de teclado. A ideia-base é que este jogo também seja praticado com o pé. Da letra.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

4 anos de Dilemas Cotidianos- 3ª posição: Amor através do vidro

A medalha de bronze do especial de 4 anos do DC vai para o texto "Amor através do vidro", publicado em 16 de março deste ano.

.....................................................................................

João Pedro era um garoto simples de 8 anos de idade.

Gostava de correr pelo campo, gostava de colher laranjas.

Gostava também da Glorinha.

Ela tinha 10 anos.

Quando ia à escola, a menina sempre passava em frente à janela do quarto de João Pedro.

E ele sempre tinha aquele compromisso consigo mesmo, e com aquela menina, mesmo que ela daquilo não soubesse.

Chegava da sua aula, que era pela manhã, e almoçava rápido para correr para a janela.

Uma da tarde ela passava na ida.

Cinco e quarenta, ela passava na volta.

Glorinha jamais havia visto João Pedro.

Ela nem sabia da sua existência.

A rotina seguia sempre assim.

Passaram-se cinco anos.

E o garoto João Pedro, a esta altura com seus 13 anos, permanecia vivendo aquele simples, doce e rotineiro amor platônico.

Continuava almoçando rápido e correndo para a janela.

Um dia, Glorinha, pela primeira vez talvez, viu João Pedro espiando. 

Pelo menos foi a primeira vez em que ela demonstrou ter visto.

Ao perceber que a menina o havia flagrado, o garoto, em ato reflexo, acenou.

E Glorinha sorriu.

João Pedro cristalizou aquela imagem em sua mente.

E sonhou, sonhou, sonhou.

Experimentou a mais genuína das felicidades.

No dia seguinte, tudo se repetiu. 

E assim passou a ser: todos os dias, o aceno de João Pedro era retribuído com aquele sorriso.

"Sorriso mais doce que as laranjas que eu colho", descrevia ele, bobamente, para os amigos.

Meses, meses e mais meses se desenrolaram.

Até que um dia, Glorinha passou, pontualmente, uma da tarde.

Era pra ser mais uma gostosa reprise daquela maravilhosamente pura troca de gestos.

Mas não, não foi.

Havia, então, algo diferente.

Glorinha estava de mãos dadas com o Cléber, que era um garoto mais velho, de 17 anos.

O coração de João Pedro, então, se partiu.

Ao invés do aceno, uma lágrima.

Glorinha sequer percebeu.

João Pedro deparava-se, então, com seu primeiro desencanto.

E Glorinha encantava-se por demais com seu primeiro amor, sorria, e sorria, e sorria.

Mas, para João Pedro, não era mais um sorriso comparável às laranjas que colhia.

Era amargo, era doído.

Cada risada da menina representava um soluço magoado do ainda inocente garoto.

Naquele momento, ele aprendia que a vida é feita de encantos e de desencantos.

E que o encanto de um pode ser o desencanto de outro.

Não são poucas as vezes em que o amor é um jogo de soma zero.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

4 anos de Dilemas Cotidianos- 4ª posição: Sequestro

O quarto melhor texto deste último ano de DC foi "Sequestro", publicado em 13 de outubro de 2011.

.......................................................................
- Alô. É o senhor Antônio?
- Sim, ele mesmo. Antônio. Santo Antônio.
- Seguinte, oh, meu nome é Viviana, e espero que o senhor mantenha a calma: vai ser melhor pra todo mundo, ok?
- Ok...
- Eu estou aqui com o seu bebê.
- Ai, meu Deus... Eu sabia que não podia confiar naquela babá!
- Sim, sim... Estou com ele aqui, posso garantir isso... Pode ouvir o choro ao fundo, né?
- Oh, não... Por favor, não faça nenhum mal a ele.
- Vai ficar tudo bem se o senhor cooperar, seu Santo Antônio.
- O que eu preciso fazer?
- Eu devolvo o bebê se o senhor me entregar um marido. Só isso: um marido. Rico e bonito.
- Er... Vamos negociar... Só bonito, pode ser? Tenhamos bom senso nessa hora...
- O senhor está tirando onda com a minha cara? Não quero partir para a ignorância!
- Tá bom, tá bom... Rico e bonito.
- Isso, agora falou minha língua. O senhor deixe o meu marido na esquina entre as ruas Santo Expedito e São Jorge, certo? Enquanto isso, vou deixar o menino na frente da Igreja São Francisco. Compreendeu? 
- Certo...
- Espero que ele esteja na esquina às dez da noite. Nem um minuto a mais! Caso contrário, o senhor já sabe...
- Tudo bem, tudo bem... Vou providenciar. Vamos nos acalmar.
- Olha lá, hein? Até a noite. E nada de polícia envolvida, hein?
- Pode ficar tranquila. Isso vai ficar apenas entre nós... 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

4 anos de Dilemas Cotidianos- 5ª posição: Casamento em crise

O quinto colocado no especial de 4 anos do DC é o texto "Casamento em crise", publicado em março deste ano.

......................................................................
 - E aí, meu bem? O que vai ter no almoço?
- Frango grelhado, salada de beterraba,  e arroz à grega.
- Aaargh... Por que você não faz algo menos... Sei lá...
- Já vai começar a reclamar? Não basta tudo que eu já faço nessa casa enquanto você fica o fim de semana inteiro na frente da tv, arrotando, peidando, tomando cerveja e olhando futebol? Nunca tem uma palavra de carinho, vive me criticando, fala das minhas roupas... Não aguento mais isso! 
- Ah, não reclama! Que mania de encher o saco por qualquer coisinha que eu falo! 
- Nossa, que grosseria! Quando nos conhecemos você não era assim. Aí eram flores, carinho, me levava aos melhores restaurantes, até abria a porta do carro pra mim!
- Ai, ai, ai... Já vai começar o mimimi?
- Não é mimimi! Eu tenho sentimentos, sabia?
- Tá, chega, chega.
- Não, não e não. Não dá mais. Não pode continuar assim. Temos que conversar. Acho que tá na hora da gente discutir a nossa relação, Estela.
- Não, Renato, agora não. Deixa eu ver o jogo do Milan, tá?   
- Ai, meu Deus, não aguento mais isso... Bem que a mamãe tinha me avisado... 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

4 anos de Dilemas Cotidianos- 6ª posição: Pequeno lapso de memória

O sexto colocado do especial de 4 anos do DC foi publicado no dia 3 de julho deste ano.

......................................................................

- Opa! Oi, Cristiane! Que bom te ver!
- Oi...
- Como vai a vida?
- Bem, bem...
- Hehe...
- Er... Desculpa a pergunta... Mas... Quem é você?
- Ora, sou o Paulo!
- Paulo?
- Sim! O Paulo! Nós fomos casados por dez anos!
- Nossa... Não tô lembrando...
- Passamos a lua-de-mel em Fernando de Noronha...  Tá lembrando?
- Hummm... Ainda não...
- Tivemos três filhos!
- Er... Quais deles? Só pra confirmar...
- O Lucas, a Patricia e o Diogo.
- Ah, sim, agora tô me lembrando! Não conseguia associar o nome à pessoa. Jurava que eu tinha tido o Lucas e a Patrícia no casamento com o Gilmar, e o Diogo no casamento com o Fernando... Desculpa pelo esquecimento, viu? É tanta correria na vida, tanto trabalho, que a gente acaba passando batido por essas coisinhas.
- Sem problemas! Sei bem como é isso!  
- Certo... Bom te ver... Er... Paulo, né?
- Isso, isso! Bom te ver também, Cristiane! Nos falamos por aí! 
- Tchau, tchau!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

4 anos de Dilemas Cotidianos- 7ª posição: Mudança de comportamento

O sétimo melhor texto do especial de 4 anos do DC foi publicado no dia 6 de abril deste ano.

.....................................................................

Todos os dias de Marcos eram iguais.

Acordava sete e meia da manhã, escovava os dentes durante três minutos contados, fazia a barba, tomava um banho de quinze minutos, penteava o cabelo, passava perfume, olhava-se no espelho e saía de casa.

Passava na banca, comprava o jornal.

Tomava um café com leite na padaria da rua de sua casa.

Pegava o ônibus, sempre lotado.

Chegava ao trabalho, cumprimentava a recepcionista com um aceno, e tratava dos afazeres do dia, sempre conferindo antes a agenda.

Saía para o almoço, comia arroz com bife e ovo frito na lanchonete da esquina.

Voltava ao serviço, onde ficava até as seis da tarde.

Despedia-se da recepcionista, comprava um chiclete de menta, e pegava o ônibus das seis e dez.

Chegava em casa, tomava banho, e olhava tv até as onze horas, quando vestia o pijama azul e ia dormir.

Ontem, porém, foi diferente.

Acordou quinze para as oito, escovou os dentes por dois minutos, não fez a barba, tomou um banho de doze minutos, não penteou o cabelo, não passou perfume, e não se olhou no espelho antes de sair de casa.

Passou na banca e comprou um gibi.

Na padaria da rua de sua casa, tomou um café preto.

Ao invés do ônibus, tomou uma lotação.

Ao chegar ao trabalho, cumprimentou a recepcionista com um beijo no rosto, e começou os afazeres do dia sem conferir a agenda.

No almoço, comeu um pastel de carne.

Voltou ao serviço, onde ficou até as cinco para as seis.

Não despediu-se da recepcionista, comprou um chiclete de morango, e deixou o ônibus das seis e dez passar, esperando o das seis e meia.

Ao chegar em casa, não tomou banho e não ligou a tv, apenas sentou-se, observando, da janela, o movimento da rua.

Chegada a hora de dormir, deu-se conta de que aquela não era a sua casa, aquele não era o seu quarto, e aquela não era a sua cama.

Ao invés do pijama azul, vestia uma camisa de força branca.

Haviam lhe internado num sanatório.

Louco (?).

domingo, 9 de setembro de 2012

4 anos de Dilemas Cotidianos- 8ª posição: Sanduíche

Dando prosseguimento ao especial de 4 anos do DC, lhes deixo com o oitavo melhor texto deste último ano do blog, intitulado "Sanduíche", e publicado em junho.

..................................................................................
Sérgio, numa famosa lancheria:

- Olá! Eu quero um sanduíche.
- Pão italiano branco, integral, parmesão e orégano, três queijos ou integral de aveia e mel, senhor?
- Er... Hum...
- De 15 ou 30 centímetros, senhor?
- Hum...
- Presunto, peito de peru, rosbife, peito de frango, atum ou carne, senhor?
- Hum... Deixa eu ver... Er...
- Queijo suíço, prato ou cheddar, senhor?
- Er...
- Adicional de bacon, tomate seco ou cream cheese, senhor?
- Hum...
- Quente ou frio, senhor?
- Er...
- Alface, tomate, pepino, cebola, pimentão ou rúcula, senhor?
- Hum... Deixa eu pensar...
- Molho de mostarda e mel, maionese, mostarda, barbecue ou parmesão, senhor?
- Er...
- Sal, vinagre, azeite de oliva ou pimenta, senhor?
- Hum...
- Bebida, senhor?
- Er... Uma Coca- Cola...
- Lata ou garrafa, senhor?
- Hum...
- Gelada ou temperatura ambiente, senhor?
- Er...
- Com canudo ou sem canudo, senhor?
- Sim, sim, com canudo...
- Quantos canudos, senhor?
- Er... Dois...
- Vermelho, amarelo, branco ou verde, senhor?
- Hum...
- Abro aqui mesmo, ou você abre, senhor?
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaah! Chega! Cheeeeegaaa!!! Cheeeega, por favor... Eu só quero um sanduíche. Só isso. Pelo amor de Deus...
- Pão italiano branco, integral, parmesão e orégano, três queijos ou integral de aveia e mel, senhor?

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

4 anos de Dilemas Cotidianos- 9ª posição: Curtição

O nono melhor texto do especial de aniversário do DC é "Curtição", publicado no dia 22 de maio deste ano. 

.........................................................................
 - E essa vida mansa, hein, Henrique?
- Ô, Fernando! Uma maravilha! Passei o último ano só viajando, curtindo, aproveitando as maravilhas do mundo!
- Que beleza!
- A gente tem que desfrutar, né? Meu pai vai tocando a empresa por aqui, tranquilo, o velho tá de boa. 
- E você nem passa por lá de vez em quando?
- Não! Pra quê? Vou deixar de me divertir pra ficar naquela chatice? Deixo pra quem gosta. Meu negócio é curtir a grana, curtir a vida! Tem coisa melhor?
- É... É bom mesmo... No teu lugar talvez eu fizesse o mesmo...
- Mas é claro! É fantástico viver assim.
- Hehehehe...
- Xi... Olha lá... Um mendigo... Putz... Tá vindo pra cá...
- Ah, dá um trocadinho pra ele e já era...
- Que trocadinho, que nada! Tá pensando o quê? Que eu vou ficar dando dinheiro pra vagabundo? Tá louco, né?

...................................................................
* Não esqueçam de votar no DC para o Top Blog 2012: é só clicar no ícone à direita da tela e entrar via e-mail, Facebook ou Twitter!

4 anos de Dilemas Cotidianos- 10ª posição: Arruda

Começamos o especial de 4 anos do DC com o décimo melhor texto do último ano: Arruda. Ele foi publicado no dia 16 de maio deste ano. 

....................................................................................

Hoje à tarde, quando eu estava no ônibus, aconteceu algo aparentemente banal mas que, de alguma maneira, me tocou profundamente. Uma mulher, de aproximadamente 40 anos, adentrou a condução carregando uma sacola cheia de galhinhos de arruda. Naquele momento, me senti quase que teletransportado por aquele cheiro característico.

Quando eu era criança, ficava com a minha avó durante o dia, enquanto meus pais trabalhavam. E suas benzeduras eram extremamente solicitadas no bairro. Mães levavam crianças com sapinho, diarreia, alergia, enfim, com uma série de probleminhas, para serem benzidas pela dona Noely. Ela pegava um galhinho de arruda, fazia alguns movimentos em frente ao enfermo, e balbuciava algumas palavras, uma espécie de oração. Podia ser efeito placebo, não sei, mas tudo indica que, de uma forma ou de outra, funcionava, pois sua fama era grande na vizinhança, ela era uma referência, e sempre encontrava na rua pessoas agradecendo, dizendo que seus parentes melhoraram de maneira quase que imediata após a sua intervenção. Detalhe: ela jamais cobrou um centavo sequer por aquilo. Fazia aquilo tão somente por amor ao próximo.     

Quando senti hoje novamente aquele cheiro forte e extremamente marcante e, pelo menos para mim agradável, da arruda, não foram só lembranças que vieram à tona. Foi mais do que isso. Senti, mais vívida do que nunca, a presença da dona Noely, que nos deixou há quase cinco anos. 

Não são poucas as vezes em que me flagro pensando em por que até hoje não digeri por completo sua partida. Sonho com ela frequentemente. Nestes sonhos, ela sempre está incrivelmente viva, lúcida, amável. Quando acordo, ainda demoro, ou mesmo me nego, a retomar a realidade em sua forma mais implacável e crua: ela se foi. Constatar isso a cada momento em que penso na dona Noely dói profundamente. É um processo que se repete mas não se naturaliza. Machuca sempre, e sempre da mesma maneira.

Mas hoje, acordado, naquele ônibus, senti algo diferente. Algo que não foi nem a euforia incontida dos sonhos, nem a frustração magoada da incompreensão da morte sentida em meu estado desperto. Foi natural, preciso, inconfundível e, acima de tudo, tranquilizador. Aquela desconhecida de aproximadamente 40 anos jamais saberá, mas fez minha alma ser tomada por uma certeza inabalável: minha avó ainda vive. Minha avó ainda sorri. Minha avó ainda existe, com todo o esplendor da sua essência: ela está presente no perfume de cada galhinho de arruda existente no mundo.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

4 anos de Dilemas Cotidianos

Hoje, 6 de setembro de 2012, o Dilemas Cotidianos completa 4 anos de existência.

Não são 4 dias, nem 4 meses.

O DC já é uma parte inseparável da minha vida.

Durante esses anos, mudou bastante.

Mas sempre com naturalidade.

Nada no blog é pré-direcionado, não há fórmula pronta.

O formato do DC é não ter formato.

A temática do DC é não ter tema.

Para mim, o grande encanto do DC é precisamente este: o de ser um blog absolutamente despretensioso. 

Escrevo aquilo que quero, do jeito que quero, e quando eu quero.

É esse o segredo.

Não tenho metas.

Não busco reconhecimento por este espaço.

Simplesmente escrevo.

Felizmente, há aqueles que se identificam e acompanham o DC com certa fidelidade.

A estes, e também àqueles que por aqui se aprochegam vez por outra, agradeço com toda a sinceridade.

Este aniversário também é de vocês.

Muita coisa na vida muda.

O próprio DC ainda vai mudar muito, mesmo sem que isto seja perceptível até mesmo para mim, porque a mudança é a lei da vida.

Mas tenho uma convicção: este blog, seja com qual cara for, fará parte da minha existência para o resto de meus dias.

Que venham muitos.

Em comemoração a esta data, nos próximos dias serão republicados os 10 melhores textos do DC neste último ano.

Espero que você, amigo leitor, acompanhe e prestigie.

Mais uma vez, muito obrigado por tudo.     

Pecado

Um casal de namorados, sozinho, no sofá da casa da garota:

- Ui, Bia... Você nem sabe o que tô pensando agora...
- Ai, Caio... Diz aí! Não me deixe curiosa!
- Nós dois... Aqui... Tô tentado a pecar com você... Se é que você me entende...
- Humm... Você tá querendo comer, é isso?
- Isso!
- É... Não tem nada de muito bom na geladeira... Mas podemos pedir uma pizza! Tamanho família! O que você acha?
- Er... Não era bem isso... Tô falando de... "Pecar"! Sacou?
- Hum... Bom... Eu não sou muito chegada em fazer isso... Mas se você faz questão...
- Oba!
- Tem um mendigo que sempre fica do lado do meu prédio. Posso chamá-lo no interfone só pra dizer que não tenho pão velho! Não é bem o tipo de brincadeira que eu gosto. Mas, se você acha tanta graça...
- Não, amoreco... Não é isso! Eu quero, sabe... Grrr... Pecar... Grrr...
- Aaaah! Acho que tá passando na MTV um especial sobre o Restart! Também odeio eles! Fico extremamente irada quando vejo! E... Te conheço bem, né? Sei que você também detesta!
- Não, amor! Não é isso! Ah, eu sei que você é esperta... Estamos aqui, nós dois, sem nada pra fazer...
- Ah, não! Você quer ir até lá embaixo só pra ficar olhando o carro novo do meu vizinho! Que coisa mais sem graça! Logo, logo, você se livra daquela lata velha! Não se preocupe com isso! Não precisa ficar com inveja!
- Benzinho, benzinho... Pare só um pouquinho, tá? Pense um pouco melhor... Vamos fazer um pecadinho, sabe... Aquela coisa aconchegante... Entende?
- Hum... Mas nós já estamos aqui dormindo a tarde toda! Você quer dormir mais?
- Não, caramba! Eu quero... Você sabe!
- Se admirar no espelho?
- Tá! Chega! Desisto! Vou embora! Dane-se!
- Ué... Mas... Como assim?
- Fui!
- Ei! Eeeei! Caio! Volta aqui! Volta! Vai me deixar assim? Pensei que a gente ainda fosse transar!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Bial recebendo uma fatia de pizza calabresa

- Oh, garçom, mensageiro do sabor! Que pizza você traz até esta mesa? Oh, é a pizza de calabresa! A rainha das pizzas! Um sabor que faz minhas papilas gustativas bailarem enlouquecidamente! Eis a combinação da calabresa, esta insolente forte, agressiva, com o queijo! Ah, o queijo! Que gentil par é o queijo! Poeta da sutileza! Fica como vassalo das fatias dessa linguiça tão imponente! O garfo, a faca, oh, instrumentos da desconstrução desta harmonia tão perfeita, tão sua, tão minha, tão nossa! Oh, garçom, mensageiro do sabor! Postará toda esta viagem, esta verdadeira aventura aqui, agora, bem à minha frente? Oh, medo, temor, terei eu tal direito? Mastigar esta pizza não seria um ato herege tal qual rasgar uma folha escrita, de punho, por Shakespeare? Oh, garçom! Oh, amigo mensageiro do sabor! Que decisão tomar? Para onde irá minha vida após tão crucial encruzilhada? Não sei. Não soube. Não saberei. Oh, garçom, preciso de sua ajuda!
- Er... Seu Bial... Não entendi nada... Mas vai uma calabresinha ou não?

domingo, 2 de setembro de 2012

Malas

Pedro e Sérgio, esperando as malas na esteira do aeroporto:

Sérgio: - Sabe, Pedro... Fico muito angustiado nessa hora de esperar as malas... Fico tenso... É quase como se fosse um sorteio, um consórcio... Quem recebe a sua mala sai com cara de superioridade... Como se fosse superior... Um escolhido dos céus...
Pedro: - Pois é... É chato... Mas não fico tão angustiado... Sei que uma hora a minha mala vai passar!
Sérgio: - Ih, olha lá, que sorte! A minha mala! Que beleza! Fui escolhido!
Pedro: - Viu só?
Sérgio: - Opa... Mas... Peraí... Aquele cara... Pegou a minha mala! Ei! Eeeei! Ei, camarada! Ei!
Desconhecido: - O que houve?
Sérgio: - Er... Essa mala... Tem certeza que é sua?
Desconhecido: - Claro!
Sérgio: - Não é nada! É minha!
Desconhecido: - É minha! Olhe sua etiqueta!
Sérgio: - Não sei onde está a etiqueta. Mas a mala é minha!
Desconhecido: - Não é!
Sérgio: Então abre aí! Abre que eu quero ver!
Desconhecido: - Tá certo! Vou abrir... Aqui, ó! Aqui! Tá vendo? É sua?
Sérgio: - Er... Bem... Pois é... Hehe... A minha mala deve estar vindo...
Desconhecido: - Ô... Cara maluco...

sábado, 1 de setembro de 2012

Último pedido

Um moribundo falando com a filha no leito de morte:

- Filha...
- Diga, pai...
- Eu... Sinto que estou partindo...   
- Não fale assim, papai...
- Sim, é verdade... E tenho uma pergunta a fazer...
- Pergunte...
- Você... Você já votou no Dilemas Cotidianos para o Top Blog 2012?
- Não, papai... Ainda não...
- Então esse é o meu último pedido, filha... Vote lá... É só clicar no ícone à direita da tela, no próprio DC... Você... Você pode votar por e-mail, Facebook ou Twitt... Aaai! Aaaai!
- Papai... Papai! Não, papai! Não!  
- Realize, filha... Vote no... Dilem... Aaah!
- Papai! Não se vá! Eu votarei sim! Prometo! Vou atender ao seu último pedido!