segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Seu Venâncio

O caso do senhor Venâncio era o mais curioso da cidadezinha de Rosa Branca.

Ninguém entendia ao certo o que acontecia com aquele velho.

Ele vivia há muitos e muitos anos no banco da praça da cidade.

Não tinha família.

Não saía de lá por nada.

Com chuva, com sol, com frio ou calor, ele permanecia ali, sentado.

Dizem que Venâncio fora um homem extremamente amoroso quando de sua juventude.

Romântico em excesso, talvez, viu seu coração ser partido sempre e sempre, intermináveis vezes.

Era, porém e acima de tudo, um persistente.

Até o dia em que desistiu.

Chegou ao seu limite.

Cansou de amar.

Cansou de acreditar.

Até aquele dia, orava fervorosamente a Deus todas as noites para que tivesse dois pés que aquecessem os seus assim que o sol se despedisse no horizonte.

Perguntava por que logo ele não tinha o direito tão humano de amar e ser amado de igual maneira, como todos ao seu redor naquela cidadezinha.

Rezava.

E rezava.

E rezava.

Noite após noite.

Até a noite em que parou de rezar.

Parou de acreditar em Deus.

Deixou de acreditar na vida.

Deixou de acreditar em si mesmo.

Foi então que mudou-se para o banco daquela praça.

Para que trabalhar e prosseguir, afinal, se nada haveria de bom ao fim e ao cabo?

Para que continuar caminhando se a estrada terminaria no beco sem saída da morte?

Era uma decisão racional e bastante razoável em seu contexto, convenhamos.

As pessoas que passavam por ele naquela praça já não se importavam.

A curiosidade deu lugar à indiferença.

Ele era tão somente parte daquele cenário, como uma árvore ou um chafariz.

Só não havia morrido de fome ou alguma doença até então porque dona Tereza, a senhora da casa que ficava em frente à praça, levava todos os dias uma vianda de comida e os remédios necessários quando ele dava sinais de enfraquecimento em sua saúde.

Venâncio, o desiludido velho do banco da praça seguiu assim, vegetando sua alma por mais alguns anos, até o momento em que seus olhos fecharam em definitivo.

Somente dona Tereza viu.

Somente dona Tereza chorou.

Venâncio se foi.

Partiu magoado com Deus, pensando não ter sido amado por ninguém.

Não percebeu a injustiça que havia cometido.

Dona Tereza se importava.

Dona Tereza o amava, silenciosa e abnegadamente.

Cuidou dele com discreta e apaixonada dedicação por anos a fio.

Os olhos sem vida, perdidos no nada, não lhe permitiram se dar conta disso.

Seu Venâncio morreu incrédulo e triste.

A felicidade às vezes é óbvia demais... 

2 comentários:

B. disse...

Gostei do conto. As felicidades as vezes está bem ao nosso lado e nós não percebemos.

Bruno Mello Souza disse...

Oi, B.

Muito obrigado pela participação!

Estás convidada a voltar sempre e a comentar sempre que sentires vontade!

Beijos.