segunda-feira, 21 de maio de 2012

Kafka

- Sabe um autor que adoro, João? Kafka.
- Nossa, Kafka é ótimo mesmo, Gilberto. 
- Ele capta com exatidão o absurdo existencial do homem moderno.
- Sem dúvida. Você leu "A Metamorfose"? É fabuloso!
- Sim! Gregor Samsa é um pouco de todos nós. Mas o meu preferido é "O Processo".
- Nossa... "O Processo" é angustiante ao extremo. Não tem como não se identificar com aquele ser humano atomizado absolutamente perdido em meio a uma máquina burocrática muito maior e mais poderosa do que a mera soma dos indivíduos. 
- Exato. A essência daquilo tudo não está nem nos burocratas que o mandam de um lado a outro: está nos corredores. Os corredores nada dizem. Os corredores, frios e imprecisos em suas respostas, são a exata expressão do vazio sentido pelo Josef K.
- Kafka é genial, mesmo. Isso sem contar "Um artista da Fome", "Carta ao Pai"... Me identifico bastante com ele.
- Era um ser humano diferenciado. Tinha uma dor inerente a si mesmo. E conseguia passar isso de forma brilhante na sua obra.
- Sem dúvida, sem dúvida. Não sei nem se daria pra chamá-lo de pessimista...
- Ah, claro que não! É só ver a história de vida dele. E mais: eu o considero muito mais um realista, um homem que vê o processo de existir da maneira mais crua, mais profunda. Se há pessimismo nele, é totalmente respaldado pela realidade. De uma forma ou de outra, o ser humano ilhado, sem lugar no mundo descrito por ele, acaba sendo o ser humano médio que vemos hoje em dia, não é? 
- Com certeza. 
- Nossa! Já são seis horas! Como o tempo passou hoje! Traz lá mais tijolos e cimento! Temos que levantar esse muro ainda hoje, se não o patrão vai ficar na bronca!
- Opa, já pego, já pego...

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