quarta-feira, 16 de maio de 2012

Arruda

Hoje à tarde, quando eu estava no ônibus, aconteceu algo aparentemente banal mas que, de alguma maneira, me tocou profundamente. Uma mulher, de aproximadamente 40 anos, adentrou a condução carregando uma sacola cheia de galhinhos de arruda. Naquele momento, me senti quase que teletransportado por aquele cheiro característico.

Quando eu era criança, ficava com a minha avó durante o dia, enquanto meus pais trabalhavam. E suas benzeduras eram extremamente solicitadas no bairro. Mães levavam crianças com sapinho, diarreia, alergia, enfim, com uma série de probleminhas, para serem benzidas pela dona Noely. Ela pegava um galhinho de arruda, fazia alguns movimentos em frente ao enfermo, e balbuciava algumas palavras, uma espécie de oração. Podia ser efeito placebo, não sei, mas tudo indica que, de uma forma ou de outra, funcionava, pois sua fama era grande na vizinhança, ela era uma referência, e sempre encontrava na rua pessoas agradecendo, dizendo que seus parentes melhoraram de maneira quase que imediata após a sua intervenção. Detalhe: ela jamais cobrou um centavo sequer por aquilo. Fazia aquilo tão somente por amor ao próximo.     

Quando senti hoje novamente aquele cheiro forte e extremamente marcante e, pelo menos para mim agradável, da arruda, não foram só lembranças que vieram à tona. Foi mais do que isso. Senti, mais vívida do que nunca, a presença da dona Noely, que nos deixou há quase cinco anos. 

Não são poucas as vezes em que me flagro pensando em por que até hoje não digeri por completo sua partida. Sonho com ela frequentemente. Nestes sonhos, ela sempre está incrivelmente viva, lúcida, amável. Quando acordo, ainda demoro, ou mesmo me nego, a retomar a realidade em sua forma mais implacável e crua: ela se foi. Constatar isso a cada momento em que penso na dona Noely dói profundamente. É um processo que se repete mas não se naturaliza. Machuca sempre, e sempre da mesma maneira.

Mas hoje, acordado, naquele ônibus, senti algo diferente. Algo que não foi nem a euforia incontida dos sonhos, nem a frustração magoada da incompreensão da morte sentida em meu estado desperto. Foi natural, preciso, inconfundível e, acima de tudo, tranquilizador. Aquela desconhecida de aproximadamente 40 anos jamais saberá, mas fez minha alma ser tomada por uma certeza inabalável: minha avó ainda vive. Minha avó ainda sorri. Minha avó ainda existe, com todo o esplendor da sua essência: ela está presente no perfume de cada galhinho de arruda existente no mundo.

8 comentários:

Guilherme Mello disse...

Olha, cada vez me surpreendo mais. Isso que escreveu devia ir para um jornal, tamanho o sentimento e emoção que passa em cada palavra, ainda mais para quem viveu parte disso, como eu. Queria ter conhecido esse lado da Vó, pois nunca tive a chance de vê-la antes do acidente e cohecê-la, como devia. Essa falta me machuca mais que a partida de uma pessoa que se tornou estranha pra mim ao longo dos anos :/
Parabéns, irmão!

Bruno Mello Souza disse...

Dae, meu velho!

Muito obrigado pelas palavras, rapá!

Um grande abraço!

Anônimo disse...

Bruno,obrigado,é só o q consigo dizer,pois o no q tranca agora minha garganta e as lágrimas q embassam meus olhos,não me deixam raciocinar,obrigado,te amo.cleuza

Rebeca Carvalho disse...

Incrível! Só me fez lembrar da minha querida avó e suas inconfundíveis balinhas de gengibre! Ah, obrigada por trazer essa recordação tão doce. Fazem 11, quase 12 anos que eu não sentia o gostinho das balas da dona Marina na minha boca. Esse texto trouxe um pedaço dela de volta pra mim e eu nunca mais vou deixar ele ir embora. Sucesso querido, fica com Deus

Tania disse...

Nossa Bruno, tu traduziu em palavras o sentimento que tenho depois da perda de minha mãe...Fiquei emocionada, acredito que no fundo é isso mesmo, as pessoas existirão a medida que fizerem parte de nossas lembranças que podem ser evocadas por um cheiro, um gosto, uma palavra...

Bruno Mello Souza disse...

Oi, dinda!

Também te amo.

Beijos.

Bruno Mello Souza disse...

Olá, Rebeca!

Que bom que gostaste do texto, e que ele, de alguma forma, te fez bem.

Muito obrigado pelas palavras.

Beijos.

Bruno Mello Souza disse...

Oi, Tânia!

Muito obrigado pela visita e pelo comentário. Fico feliz que tenhas gostado e se identificado com o texto.

Um grande abraço.