quarta-feira, 30 de maio de 2012

Bons partidos

Leila e Marina, conversando no metrô:

- Leila... Você lembra do Paulo Teixeira, né? Acha ele um bom partido?
- Hum... Não sei, Marina... Acho que não... Ele sempre foi bem trabalhador, mas, desde que assumiu o poder, acho que anda meio acomodado... Se acostumou a ser elite... É isso. Gostou do poder. Talvez tenha esquecido um pouco as origens... Sei lá... Prefiro o Pedro Mello Dantas Barbosa. Esse sim, é um partidaço!
- Partidaço? Que nada! Você tá brincando, né? Ele até é grandão, é rico... Mas não me serve. Acho ele meio oportunista. Está sempre com quem tem mais a oferecer... Não é um bom partido... Acho o Pablo Tavares Bandeira bem melhor partido que ele.
- Esse Pablo Tavares Bandeira não é um que faz lembrar um pouco o Patrício Dutra Tavares?
- Sim! São primos de primeiro grau, inclusive!
- Ah, não! O Patrício Dutra Tavares é meio confuso... Atira pra tudo que é lado... Não dá pra entender ele muito bem... E o Pablo Tavares Bandeira... Esse eu acho meio sem vergonha... É metido a amiguinho de todo mundo, fica distribuindo presentinhos para os pobres por aí, é cheio de contatinhos na imprensa... Mas no fundo gosta que todo mundo beije sua mão, e lhe ache "o paladino da solidariedade". Não gosto desse tipinho. Prefiro o Paulo César do Benedito. É comunista, pode parecer meio retrógrado... Mas tem personalidade.
- Comunista, o Paulo César do Benedito? Há quanto tempo você não o vê? Tá por fora, hein? Faz horas que de comunista ele não tem nada! Anda até meio amiguinho do Patrick Prado!
- Aquele bem direitaço?
- Ele mesmo!
- Uau... Que coisa... Ah... Mas isso não quer dizer que ele concorde com as ideias do Patrick Prado...  
- Será?
- Sei lá... Bom... Mas tem ainda o Petrúcio Santos Toledo Ughini... Não acha ele um bom partido?
- Ah, não! Ele é meio fora da casinha... Ninguém leva ele muito a sério... Sem contar que é muito mirradinho... Mas... E o Paulo Sérgio Deodoro Batista? Esse é bonitão, tem porte!
- Ih... Não acho bom partido... O porte dele não adianta nada! Andou brigando com o Paulo Teixeira um monte de vezes nos últimos anos e sempre tem levado umas surras constrangedoras...
- Ah... Tem que ver que o Paulo Teixeira também tem um pai influente. Isso pode ter um certo impacto psicológico na hora... Não deve ser fácil.
- Hum... Mesmo assim... Não me serve... Sem contar que ele é meio narigudo. Parece um tucano...
- Eita... Pelo jeito, tá difícil achar um bom partido, né? Acho que só nos resta fazer um pacto com o Demo... É nossa última esperança, amiga...
- Pacto com o Demo? Deus me livre! Não fala isso nem brincando! Pacto com o Demo nunca! Nunca! Cruzes!

terça-feira, 29 de maio de 2012

Latino-americonfusos

Leonardo e Cláudia, conversando na lancheria:

- Leonardo, você viu que aquele meu vizinho da frente, o Marcelo, vai viajar a Quito na semana que vem?
- Poxa... Sério?
- Sim. Ele vai apresentar um trabalho num evento de... Er... Acho que é Ciência Política... Ou Física Quântica... Ah, um negócio do gênero.
- Corajoso, ele.
- Ué, por quê?
- Ora, por causa da guerrilha. Das FARC! 
- Não, não! Isso aí das FARC é na Colômbia! Quito fica no Peru!
- Ah, claro! Sempre confundo...Grande Chavez!
- Não, não, não! O Chavez não é mais Presidente do Peru.
- Nossa! Não sabia disso. 
- Sim, faz um tempinho, já... Voltou aquele japonês, que já tinha sido Presidente antes... O Fukuyama.
- Ah, sim! O Fukuyama! Nunca mais tinha ouvido falar dele! Japinha simpático!
- Ele mesmo! Poxa, Leonardo... Pensei que você fosse mais bem informado... Eu, hein? 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Doce levitação

Já eram quase duas da manhã.

Não haveria mais nada para o restante daquela noite.

Mas ele foi deliciosamente surpreendido.

A garota estava em seus braços, dançando, ao apagar das luzes.

Foram poucos minutos, mas minutos absolutamente preciosos.

Naquele momento, ele tocava o céu.

A dança virara doce levitação.

Guardou aquele olhar e aquele sorriso para não mais esquecê-los.

Tantos pensamentos, tantas intenções, confidências as mais íntimas, compartilhadas pelos movimentos daqueles dois seres humanos, tão próximos, tão um do outro durante aqueles instantes.

Da última nota da música, a dor agridoce da despedida.

Ele tinha, ali, a certeza de que viver ainda valia a pena.

O corpo teve de ir embora, obedecendo a razão, esta senhora chata que parece sentir prazer ao nos acordar de nossos sonhos.

Mas o coração...

Ah, o coração, este menino bobo, serelepe, travesso e desobediente, ficou por lá mesmo.

Até o fim da noite.

Até agora. 

domingo, 27 de maio de 2012

Dorival e a premissa da derrota

O Inter empatou em 3 a 3 com o Flamengo, no Engenhão.

Chegou a estar perdendo duas vezes, e dentro do cenário do jogo, o resultado não foi desprezível.

Mas, dentro do contexto do campeonato, o empate foi ruim.

O Colorado podia tranquilamente ter vencido um Flamengo claudicante.

Mas Dorival quis fazer o que evidentemente daria errado, colocando três volantes em campo.

Obviamente, deu errado, e o Inter jogou no lixo 45 minutos da sua história.

Com uma escalação mais racional na segunda etapa, a reação veio, e o time vermelho igualou o marcador.

Dava pra ter ganho.

Porém, Dorival, em seu discurso pós-jogo, em nenhum momento mostrou ter tido essa expectativa.

Deixar o time com três volantes, para ele, foi estratégico para, no caso de estar perdendo, ter opções no banco.

Ô, pensamento tacanho!

"Mexe bem o treinador que escala mal".

Nem sempre, e nem a todos, se aplica esta expressão.

Mas ao Dorival de ontem, cai como uma luva.

O treinador colorado, mais uma vez, colocou sua equipe como derrotada antes de entrar em campo.

Sua premissa é a derrota.

Compra o caixão antes do remédio.

Para a sua mentalidade, tudo correu às mil maravilhas, e o resultado foi magnífico.

Resta perguntar apenas se esta mentalidade é suficiente para construir um time Campeão Brasileiro.

Desconfio que não.

sábado, 26 de maio de 2012

Persistindo nos erros

Logo mais, o Inter enfrenta o Flamengo, no Engenhão.

Dorival Júnior, mais uma vez, afronta a lógica.

Mandará a campo uma meia cancha com três voltantes: Élton, Guiñazu e Josimar.

Persiste num erro primário.

Quando jogou com três volantões na Vila Belmiro, a desculpa era que Élton teria liberdade para atacar.

Isso pouco ou nada adiantou por um motivo óbvio: não adianta dar liberdade para atacar para quem não sabe atacar.

Resultado: a atuação foi um horror, das coisas mais fiasquentas que vi na vida.

Agora, o mesmo discurso se repete para justificar Josimar: ele terá liberdade para atacar.

De novo, de nada adiantará.

Três cabeças-de-área, quando testados, deram errado.

Josimar, quando testado, deu errado.

Qual a chance, portanto, da escalação anunciada dar certo?

O Inter se prepara para jogar no lixo os três primeiros pontos no Brasileirão 2012, contra um Flamengo precário e em crise.

Sim, porque será absolutamente surpreendente se o time anunciado não perder a partida.

E será ainda mais surpreendente se jogar bom futebol.

É o que a lógica diz.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Na casa de massagem

- Oi, garotão! Qual é o seu nome?
- Oi! Meu nome é Marcos... E o seu?
- Katiane. Prazer!
- O prazer é meu, hehehe.
- É a primeira vez que te vejo por aqui...
- Sim... É a primeira vez que venho...
- Qual é a sua idade? Parece tão novinho...
- Tenho dezoito. 
- Uau, é novinho mesmo! E o que você faz?
- Sou estudante de engenharia elétrica. Entrei esse ano.
- Humm... E aí, veio fazer alguma coisa eletrizante?
- Hehehe... 
- É satisfação garantida! Palavra! Pode me cobrar!
- Opa... Hehehe...
- Então, meu bem... Vamos subir? Fazer um programinha bem gostoso?
- Humm... E quanto custa?
- Setenta reais, meia hora. Uma hora, cem reais...
- Humm...
- E aí, vamos?
- Er... Pois é... Tô meio mal de grana...
- Ah, vamos lá, benzinho! Você não vai se arrepender! Já tá todo armadinho aí! Vamos!
- Er... Bem...
- Ah, diz que sim! Vai ser bom!
- Er... Bom... Er... Eu tô com a minha carteirinha aqui... Tem desconto pra estudante? 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Revolução

Pedro e Sérgio, conversando na lancheria:

- Sérgio, se por acaso ocorresse uma revolução comunista no Brasil, o que você acharia disso?
- Ah, Pedro... Sei lá... Isso jamais iria acontecer...
- Mas, e se acontecesse?
- Bom... Depende...
- Como assim, "depende"? Você prefere o capitalismo ou o comunismo?
- Depende, ué. Se eu estivesse do meio para cima na pirâmide social, eu teria mais status que a maioria. Porque raios eu iria querer diminuir meu status sócio-econômico? Por outro lado, se eu estivesse na base da pirâmide, iria querer o comunismo. Seria uma chance de melhorar meu status.
- É... Até faz sentido... Você leva a sério essa coisa de interesses de classe, né?
- Claro! Minha ideologia varia de acordo com a minha posição estratégica. Esta é em si a minha ideologia. É racional, não?
- Sim, é... Ideologia flexível...
- Então... Tem um monte por aí...
- Mas dá pra perceber que você não tem um senso altruísta muito aguçado, né?
- Até tenho... Mas o meu senso individualista fala mais alto. Como hoje estou mais ou menos no meio da pirâmide, prefiro permanecer assim, em vantagem sobre a maioria, do que arriscar. E você? 
- Ah, até acho o comunismo interessante, bonitinho. Che Guevara, Marx, Engels, Lenin, Manuela D'ávila... Mas uma revolução daria muito trabalho... Teria que pegar em armas, tomar conta dos meios de produção, implantar a ditadura do proletariado... Não dá.
- É, seria bem trabalhoso, mesmo...
- Pois é... Melhor evitar a fadiga... Ei, garçom, traz mais uma Coca-Cola aí!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Pureza

Eu.

Você.

O bêbado no boteco da esquina.

O deputado corrupto.

O filantropo.

O pervertido.

O Papa.

A amante.

A esposa.

O racista.

O negro.

O bandido.

O policial.

O ateu.

O cristão.

O juiz.

O réu.

O alienado.

O militante.

A madrasta.

A mãe.

O angustiado.

O feliz.

Todos nós um dia fomos bebês.

Todos nós um dia fomos puros.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Curtição

- E essa vida mansa, hein, Henrique?
- Ô, Fernando! Uma maravilha! Passei o último ano só viajando, curtindo, aproveitando as maravilhas do mundo!
- Que beleza!
- A gente tem que desfrutar, né? Meu pai vai tocando a empresa por aqui, tranquilo, o velho tá de boa. 
- E você nem passa por lá de vez em quando?
- Não! Pra quê? Vou deixar de me divertir pra ficar naquela chatice? Deixo pra quem gosta. Meu negócio é curtir a grana, curtir a vida! Tem coisa melhor?
- É... É bom mesmo... No teu lugar talvez eu fizesse o mesmo...
- Mas é claro! É fantástico viver assim.
- Hehehehe...
- Xi... Olha lá... Um mendigo... Putz... Tá vindo pra cá...
- Ah, dá um trocadinho pra ele e já era...
- Que trocadinho, que nada! Tá pensando o quê? Que eu vou ficar dando dinheiro pra vagabundo? Tá louco, né?

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Kafka

- Sabe um autor que adoro, João? Kafka.
- Nossa, Kafka é ótimo mesmo, Gilberto. 
- Ele capta com exatidão o absurdo existencial do homem moderno.
- Sem dúvida. Você leu "A Metamorfose"? É fabuloso!
- Sim! Gregor Samsa é um pouco de todos nós. Mas o meu preferido é "O Processo".
- Nossa... "O Processo" é angustiante ao extremo. Não tem como não se identificar com aquele ser humano atomizado absolutamente perdido em meio a uma máquina burocrática muito maior e mais poderosa do que a mera soma dos indivíduos. 
- Exato. A essência daquilo tudo não está nem nos burocratas que o mandam de um lado a outro: está nos corredores. Os corredores nada dizem. Os corredores, frios e imprecisos em suas respostas, são a exata expressão do vazio sentido pelo Josef K.
- Kafka é genial, mesmo. Isso sem contar "Um artista da Fome", "Carta ao Pai"... Me identifico bastante com ele.
- Era um ser humano diferenciado. Tinha uma dor inerente a si mesmo. E conseguia passar isso de forma brilhante na sua obra.
- Sem dúvida, sem dúvida. Não sei nem se daria pra chamá-lo de pessimista...
- Ah, claro que não! É só ver a história de vida dele. E mais: eu o considero muito mais um realista, um homem que vê o processo de existir da maneira mais crua, mais profunda. Se há pessimismo nele, é totalmente respaldado pela realidade. De uma forma ou de outra, o ser humano ilhado, sem lugar no mundo descrito por ele, acaba sendo o ser humano médio que vemos hoje em dia, não é? 
- Com certeza. 
- Nossa! Já são seis horas! Como o tempo passou hoje! Traz lá mais tijolos e cimento! Temos que levantar esse muro ainda hoje, se não o patrão vai ficar na bronca!
- Opa, já pego, já pego...

sábado, 19 de maio de 2012

Lei do mais forte

Chegara a hora de Marcos passar as suas compras no caixa do mercado do bairro. Não era um rancho, mas também não era pouca coisa.

Enquanto ele passava os produtos, o homem da frente, que já havia passado suas compras, de camisa bege, aparentando cerca de 40 anos, permanecia ali. E, à medida que a moça do caixa liberava, uma a uma, as compras de Marcos, ele ia empacotando-as. Marcos estranhou a atitude, mas permitiu, afinal.

Quando Marcos terminara de pagar, o homem pegou as sacolas. Não só as dele, mas as de Marcos também. O rapaz, surpreso, então, tocou no braço do homem e alertou: "Meu senhor, essas compras são minhas".

Prontamente, o homem de camisa bege respondeu: "Não, não. São minhas". Imediatamente levantou a camisa bege sutilmente, e apresentou a Marcos seu melhor amigo: um 38, irascível, instável, pronto para tornar aquele mercadinho um caos. A moça do caixa, de soslaio, também viu. Optou pelo silêncio, o que era absolutamente compreensível. 

O homem de bege então complementou, enquanto Marcos, ainda meio atordoado, processava em sua cabeça o que acontecia ali: "E aí? Vai querer encrencar?"

Marcos não quis. Deu meia volta, disfarçou, e voltou ao mercado para fazer suas compras novamente, enquanto o homem de bege ia calmamente embora com as sacolas.

É o dialeto da bala. O Estado de natureza. A lei do mais forte.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Lembrança e esquecimento

Esquecer. Lembrar. Nem tudo que é ruim deve ser esquecido. Nem tudo que é bom deve ser lembrado.

O grande desafio da vida talvez seja o de conjugar esquecimentos e lembranças. É esta conjugação que nos faz aprender. E é este aprendizado que nos faz crescer.

No entanto, muitas vezes esta conjugação é falha. Algumas coisas permanecem na mente, por mais que tentemos evitá-las. E algumas lições práticas se vão embora quando, de alguma maneira, nos deparamos com o nosso componente mais humano: os sentimentos.

É então que toda nossa teoria e nossa prática desmoronam, solenemente. Aprender não é suficiente. É necessário aprender a aprender. É aí, nesse ponto, que falhamos. É aí que nos lembramos do que devíamos ter esquecido. É aí que nos esquecemos do que deveria ser lembrado.

Somos, a rigor, seres mal programados. A frieza dos cálculos, por mais desejável que seja, se esvai quando o coração acelera. Para nós, não há manual de instruções. Não, não somos máquinas! Somos humanos! É este nosso maior encanto. É esta a nossa pior tragédia.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Assalto no parque

Assaltante: - Perdeu, playboy, perdeu! Passa a grama aí! Rápido, rápido!
Transeunte: - Calma, calma...
Assaltante: - Vamo lá que eu não tenho o dia inteiro! 
Transeunte: - Pronto, tá aqui, ó.
Assaltante: - Ei, que é isso, mano? Tá me tirando? Me dando um tufinho do gramado? Que porra é essa?
Transeunte: - Ué... Você não pediu grama?
Assaltante: - Puta merda... Esse filho da mãe errou a digitação... Ei, Bruno, que palhaçada é essa, meu? Presta atenção aí, se não te meto bala também! Que porra é essa?
Eu: - Ô, rapaz, foi mal aí... Mas baixa essa bola! Quer que eu coloque a polícia na historinha, hein? Posso colocar até o Capitão Nascimento na parada se eu quiser.
Assaltante: - Tá bom, tá bom... Também não precisa partir pra ignorância... Vamos conversar que nem gente... Pra que esse nervosismo todo?
Eu: - Faz o seguinte, rapaz... Pega esse tufinho de grama e te manda daqui antes que eu encha o saco... E não me apareça mais por essas bandas!
Assaltante: - Calma, calma, já tô indo... Deixa assim mesmo... Pessoal sem paciência, viu?

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Arruda

Hoje à tarde, quando eu estava no ônibus, aconteceu algo aparentemente banal mas que, de alguma maneira, me tocou profundamente. Uma mulher, de aproximadamente 40 anos, adentrou a condução carregando uma sacola cheia de galhinhos de arruda. Naquele momento, me senti quase que teletransportado por aquele cheiro característico.

Quando eu era criança, ficava com a minha avó durante o dia, enquanto meus pais trabalhavam. E suas benzeduras eram extremamente solicitadas no bairro. Mães levavam crianças com sapinho, diarreia, alergia, enfim, com uma série de probleminhas, para serem benzidas pela dona Noely. Ela pegava um galhinho de arruda, fazia alguns movimentos em frente ao enfermo, e balbuciava algumas palavras, uma espécie de oração. Podia ser efeito placebo, não sei, mas tudo indica que, de uma forma ou de outra, funcionava, pois sua fama era grande na vizinhança, ela era uma referência, e sempre encontrava na rua pessoas agradecendo, dizendo que seus parentes melhoraram de maneira quase que imediata após a sua intervenção. Detalhe: ela jamais cobrou um centavo sequer por aquilo. Fazia aquilo tão somente por amor ao próximo.     

Quando senti hoje novamente aquele cheiro forte e extremamente marcante e, pelo menos para mim agradável, da arruda, não foram só lembranças que vieram à tona. Foi mais do que isso. Senti, mais vívida do que nunca, a presença da dona Noely, que nos deixou há quase cinco anos. 

Não são poucas as vezes em que me flagro pensando em por que até hoje não digeri por completo sua partida. Sonho com ela frequentemente. Nestes sonhos, ela sempre está incrivelmente viva, lúcida, amável. Quando acordo, ainda demoro, ou mesmo me nego, a retomar a realidade em sua forma mais implacável e crua: ela se foi. Constatar isso a cada momento em que penso na dona Noely dói profundamente. É um processo que se repete mas não se naturaliza. Machuca sempre, e sempre da mesma maneira.

Mas hoje, acordado, naquele ônibus, senti algo diferente. Algo que não foi nem a euforia incontida dos sonhos, nem a frustração magoada da incompreensão da morte sentida em meu estado desperto. Foi natural, preciso, inconfundível e, acima de tudo, tranquilizador. Aquela desconhecida de aproximadamente 40 anos jamais saberá, mas fez minha alma ser tomada por uma certeza inabalável: minha avó ainda vive. Minha avó ainda sorri. Minha avó ainda existe, com todo o esplendor da sua essência: ela está presente no perfume de cada galhinho de arruda existente no mundo.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Chula

Pedro e Sérgio numa festa:

- Ei, Pedro! Onde está a Marina dançando chula? Você me chamou pra esse lado só pra ver isso!
- Ali, ó, Sérgio!
- Onde?
- Mais à direita.
- Ah, sim. Tá lá a Marina. Mas aquilo não é chula!
- Claro que é.
- Não! Tá louco?
- É sim.
- Acho que você bebeu demais. A Marina tá dançando funk.
- Isso.
- Então?
- Funk é uma dança bem chula.
- Er... É...
- Pois bem! Tá lá a Marina, numa dança chula, ué!
- É... Por esse ponto de vista...

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Do título que veio

Não foi nada fácil. O Internacional penou um tanto. Mas, como era de se esperar, sagrou-se Bicampeão Gaúcho frente ao Caxias. Completa, assim, uma trajetória de 11 anos consecutivos conquistando títulos. Entre 2002 e 2005 conquistou o tetra estadual. Em 2006 conquistou Libertadores e Mundial. Em 2007, foi a vez da Recopa Sul-Americana. Em 2008, mais um Gauchão, além da Copa Sul-Americana e da Copa Dubai. Em 2009, o Bi Gaúcho e a Copa Suruga Bank. Em 2010, o Bi da Libertadores. Em 2011, Gauchão e Bi da Recopa Sul-Americana. E, agora, em 2012, mais um Bicampeonato Gaúcho.

A partida de ontem à tarde começou extremamente complicada para o Colorado. Com três volantes, o time de Dorival Júnior não tinha força ofensiva, Dátolo e Tinga faziam partida horrorosa, e a coisa não deslanchava. Para piorar, o Caxias, aproveitando-se de tal instabilidade, cresceu no jogo, criou situações de gol e levou absoluto terror à defesa do Inter nas bolas paradas (sempre elas). Numa dessas ocasiões, abriu o placar com Michel. E, assim, com inesperada autoridade, a equipe grená terminou o primeiro tempo em vantagem.

Na segunda etapa, Dorival colocou o Internacional para frente. Tirou os péssimos Dátolo e Tinga, e colocou D'alessandro e Dagoberto. A partir daí, o jogo foi totalmente outro. Saía de campo um Inter tímido, burocrático e um tanto desleixado para a entrada de um Inter agressivo, impetuoso, cheio de imposição ofensiva. Porém, tal melhora não se refletiu de imediato em gols. Quando teve um pênalti a favor, inexplicavelmente batido por Nei, quando D'alessandro, o batedor oficial, estava em campo, o time alvirrubro desperdiçou. Paulo Sérgio, goleiro do Caxias, então começou a empilhar milagres, um atrás do outro.

A pressão do Inter só fazia crescer, e a maior qualidade técnica do time de Porto Alegre gritava a cada ato do jogo. Seria insustentável a vitória do Caxias. E assim o foi. Sandro Silva, mais uma vez um gigante em campo, fez o gol do empate, com sobras de raça. Aí, amigos, o Beira-Rio cresceu, o time veio junto, e o Caxias, outrora perigoso, virou presa fácil. O inevitável, então, ocorreu: Damião, de cabeça, deu números finais ao jogo. Inter, 2 a 1. Bicampeão Gaúcho.

É sempre bom ganhar, é sempre bom conquistar títulos. O Colorado segue sua trajetória vitoriosa. No entanto, tem que querer mais. A dimensão que o clube retomou nos últimos anos torna obrigatória a busca por vôos mais altos, sempre. Para isso, há muito a ser melhorado. Reforços deverão, sim ou sim, ser contratados, principalmente para a defesa. O ataque também merece uma maior gama de opções, haja vista a iminente dispensa de Jô, que já não era grandes coisas, e a também provável venda de Damião no meio do ano. A base do elenco do Inter é bastante interessante. Mas não é suficiente para sonhar com o Campeonato Brasileiro, que exige grupo grande e de qualidade, por ser uma competição de fôlego. 

Neste momento, ora pois, estão postas inegavelmente em teste a agilidade e a competência dos homens que comandam o futebol colorado. Tomara que eles sejam aprovados. Para o bem do Inter.

domingo, 13 de maio de 2012

Do título que virá

Não há como negar: o título gaúcho não será mais do que um prêmio de consolação após a eliminação colorada na Libertadores. Mas é um título, é uma taça, e o Inter deve buscá-la para garantir o décimo primeiro ano consecutivo de conquistas.

Convenhamos, cá entre nós: o Colorado vai ser Bicampeão Gaúcho logo mais. Tem muito mais estrutura, muito mais time, muito mais elenco, muito mais individualidades do que o Caxias. Só um terremoto muito grande faria o time vermelho e branco perder o título. Temos de ser realistas.

É óbvio que a tranquilidade prevista não significa que o time da Serra não deva ser respeitado. Há profissionais sérios do outro lado. O time grená fará sua Copa do Mundo particular, batalhará, lutará por cada centímetro do espaço de jogo. Isso, porém, lhe garante tão somente que perderá com muita raça.

Zebras sempre podem acontecer no futebol. Mas há zebras mais prováveis. A zebra caxiense, no caso, é absolutamente improvável. Pode acontecer? Até pode. Mas não é a tendência. 

A questão não é de subestimar o Caxias ou superestimar o Inter, que por sinal tem deficiências sérias. O grande ponto é saber que há, sim, imensa disparidade técnica entre estas equipes, e que a cada 30 jogos entre elas no Beira-Rio, o Caxias talvez possa ter alguma chance de ganhar um ou dois.

O Colorado é muito favorito. Vai ganhar o Bicampeonato Gaúcho. Mas, mesmo que faça 8 a 1 novamente, terá de melhorar muito para a disputa do Brasileirão. A cada ano fica mais do que provado que Gauchão não é parâmetro para nada. 

sábado, 12 de maio de 2012

Salada

Pedro e Sérgio, conversando na lancheria:

- Sabe, Pedro, estou tentando mudar meus hábitos. Levar uma vida mais saudável, entende?
- Poxa, que bom, Sérgio!
- Andei abusando das gorduras. Coração de frango, carne, bacon, estrogonofe, calabresa...
- Ainda bem que você tomou consciência!
- Pois é! Agora estou mais natureba! Só tô comendo salada.
- Só salada? Nossa! Isso que eu chamo de mudança radical!
- Sabe como é... Chega um momento da vida em que temos de fazer alguns sacrifícios em nome do bem-estar.
- Poxa! Fico feliz! E surpreso!
- Opa, olha ali o garçom! Vou pedir salada.
- Essa eu quero ver! Estou pasmo!
- Ei, garçom! Opa, me vê aí um xis salada.
- Ah... 
- Que foi, Pedro? É salada! É mais saudável!
- Sim, sim... Pode crer...

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Fim do sonho do Tri

O Internacional foi derrotado pelo Fluminense, e consequentemente eliminado da Libertadores.

No entanto, após o 2 a 1 contra no Engenhão, não há motivos para baixar a cabeça.

Acabou o sonho do Tri, mas a vida segue.

O Colorado jogou melhor durante os 90 minutos.

Pressionou, criou inúmeras chances.

Abriu o placar com Damião.

Tomou logo em seguida o empate, de Leandro Euzébio, em bola parada, numa estúpida falha defensiva.

Abusou de perder gols.

E, no finzinho da primeira etapa, levou o gol da virada, e da consequente eliminação, inacreditavelmente igual ao primeiro, mudando apenas o autor: agora, era o artilheiro Fred que estufava as redes de Muriel.

No segundo tempo, o Colorado se projetou mais ainda ao ataque.

Dorival colocou Dagoberto, Jajá e Jô.

E o time seguiu martelando.

Não faltou luta em momento algum.

O Inter foi grande como sempre tem de ser.

Até o último minuto brigou pelo empate, levando ao desespero a torcida adversária.

Se a atuação foi boa na média, não se pode negar, no entanto, algumas peças comprometedoras na partida de ontem.

Os laterais foram muito, mas muito mal mesmo.

Nei e Fabrício foram calamitosos: defenderam mal e atacaram quase nada.

Os zagueiros também foram lamentáveis.

Índio e Moledo estiveram em noite horrorosa.

E no meio, Dátolo foi de inoperância constrangedora, sobrecarregando Oscar na armação, e obrigando Damião a por vezes voltar para buscar jogo, coisa que o centroavante, definitivamente, não sabe fazer com competência.

Estes fatores, de alguma forma, constituem a chave para que se entenda como uma equipe que jogou tão bem quanto jogou ontem, tenha perdido.

Terminada a Libertadores para o Inter, fica a sensação muito clara de que o saldo não é nada bom na atual temporada.  

Ontem, a atuação foi boa.

Mas isso não pode servir como desculpa para uma trajetória que não convence.

Raramente o Colorado joga bem, e isso ocorre há no mínimo um ano.

A partida feita pelo Internacional no Engenhão é exceção, e não regra.

Não defendo (ainda) a demissão de Dorival.

Entretanto, o Inter tem que, sim ou sim, se repensar.

Domingo, o Gauchão será conquistado diante do Caxias.

E isso de forma alguma pode iludir qualquer alma no Beira-Rio.

O Internacional que será Campeão Gaúcho às seis da tarde do domingo ainda terá os mesmíssimos problemas.

Há boas armas, porém absolutamente insuficientes para encarar uma competição de fôlego como o Brasileirão.

Se quer sonhar em sonhar com o título do certame nacional, o Colorado precisará ter muito mais do que tem hoje.

A hora é de levantar a cabeça.

E trabalhar.

Jogo para nervos à flor da pele

Aguarda-se para daqui a pouco, no Engenhão, a realização de um jogo que tem tudo para ser o mais eletrizante das oitavas de final da Libertadores 2012. Inter e Fluminense estarão frente a frente, medindo forças e decidindo quem avança na competição.

Não há favorito para a vaga. Se por um lado o time carioca jogará com o apoio do seu torcedor, por outro o Colorado tem a vantagem de poder contar com qualquer empate com gols para se classificar. Além disso, o Inter contará com Oscar, que, a despeito da má vontade da CBF, estará, sim, em campo, para desespero de Juvenal Juvêncio e sua trupe. O fator anímico, também por esse motivo, é bastante favorável ao time vermelho e branco. Além disso, a camiseta vermelha pesa na Libertadores. Basta recordar 2010, em que o Inter conquistou a competição muito mais na base da força da tradição do que por fazer uma campanha exuberante.

O Flu, por sua vez, tem uma belíssima equipe. Conta com grandes valores individuais do meio para frente. Deco passa por grande fase, sendo um verdadeiro maestro do meio-campo, coordenando todas as ações ofensivas do Tricolor. Sóbis voltou a ser o velho e decisivo Sóbis dos melhores momentos de Inter. E Fred é um centroavante absolutamente diferenciado. Entretanto, o Fluminense tem também suas fragilidades, dentre as quais se destaca a grande deficiência de seu setor defensivo. Se o Internacional tiver sabedoria para explorar estas dificuldades da equipe carioca, que inevitavelmente se exporá bastante por estar em casa e por ser treinada por Abel Braga, poderá tornar as coisas ainda mais complicadas para o adversário, e assim brigar com ainda mais vigor pela classificação.

Acima de tudo, o que há de se ter em mente é que são dois grandes clubes, dois grandes times, dois candidatos sérios ao título. É jogo para nervos à flor da pele de ambas as partes. Vale muito. Aquele que conquistar a vaga seguirá muito forte para outro confronto de fazer a América tremer, contra o Boca Juniors.  O que ficar de fora, por sua vez, deverá lamber as feridas e ter como consolo o Campeonato Estadual, que só é mais importante que a Libertadores para o Corinthians.

Logo mais teremos, ora pois, caríssimos amigos, um partidaço de futebol. Duelo de gigantes. Alto nível de imprevisibilidade. Emoção mais do que garantida. 

Imperdível. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Gladiador

Era hora do recreio num colégio de subúrbio.

Estava fechada a roda de crianças.

Ouviam-se urros e incentivos.

"Vai lá, Yuri!", "Isso, Yuri! Mais um soco!", "Vai, Yuri! Mais um chute!", "Isso, Yuri!".

E Yuri continuava, extravasando toda a fúria contida contra o corpo do colega, como acontecia todas as semanas.

Dava mais chutes, mais socos, e cada vez mais violentos.

Tinha que ser rápido e avassalador.

Tinha que terminar antes que o guarda de meia idade, sempre distraído com as bundas das garotas de doze anos, fosse chamado para interrompê-lo.

E assim o fez.

Terminou mais uma sessão de demonstração de força, sob gritos e incentivos da garotada que o cercava.

Sob um olhar simultaneamente feroz, frio, inabalável, confiante e desconfiado, escondia a sete chaves aquilo que jamais ninguém poderia descobrir.

Não se sentia forte, tampouco vencedor.

Yuri naquele momento estava mais fraco e vulnerável do que nunca. 

terça-feira, 8 de maio de 2012

Crocs

Pedro e Sérgio, na parada de ônibus:

- Ô, Pedro... Tá vendo aquela loira ali à direita?
- Sim, sim.
- Interessante, né?
- Suculenta.
- Ela tá olhando direto pra você!
- Mesmo?
- Sim!
- Nossa...
- Por que você não vai conversar com ela?
- Er... É... Não vai dar.
- Ué...
- Estive olhando melhor... Ela tá usando sandálias Crocs!?
- E daí?
- Não posso. Não consigo. Odeio Crocs.
- Ora bolas! Grande coisa! Vai lá!
- Não, não... É questão de princípio.
- Que princípio?
- Não consigo conceber sair com alguém que use Crocs. Se ainda usasse só em casa, tudo bem, até vá lá. Mas ela está usando em público! É demais pra mim! É a desistência total e absoluta da dignidade. É quase como se ela estivesse usando pantufas na rua! Não dá! Simplesmente não dá!
- Nossa... Que coisa...
- Sérgio, tem coisas na vida para as quais temos de ser inflexíveis. Crocs são uma delas.
- Pelo menos elas são flexíveis.
- Er... Você usa?
- Não, não... Claro que não, ora! De onde você tirou isso? Que absurdo!
- Tá bom, tá bom! Não tá mais aqui quem falou!  

domingo, 6 de maio de 2012

Começando a decisão

Logo mais, Inter e Caxias começam a decidir o título gaúcho, no estádio Centenário, em Caxias do Sul.

Algumas coisas na vida têm de ser ditas de maneira muito clara. 

Uma dessas coisas é o favoritismo do Colorado: não há como negá-lo.

O Inter, mesmo bastante desfalcado, é muito mais time que o Caxias.

Estará ainda mais motivado pela presença de Oscar, finalmente liberado para exercer sua profissão no clube em que escolheu fazê-lo.

O time grená, por sua vez, fará sua Copa do Mundo particular.

Por isso, apesar de o favoritismo estar ao seu lado, o Internacional tem que respeitar o adversário.

O futebol tem dado lições bastante claras de que pode, sim, surpreender.

Às vezes a dedicação, a transpiração e a superação podem vencer a qualidade técnica.

Barça e Chelsea que o digam.

Assim, faz-se fundamental que o alvirrubro entre em campo bastante atento e determinado.

É muito favorito.

Mas tem que mostrar isso dentro das quatro linhas.  

sábado, 5 de maio de 2012

Sussurro

A noite chega para nos abraçar.
O ar está contaminado pelo cheiro das nossas fugas.
Sim, estamos em busca do desconhecido para mudar nossos destinos.
"Mais um copo", penso eu, e tudo vai se resolver.

Tentativas, erros, palavras ditas sem precisão.
Hoje é dia de diversão.
Somos a nata expurgada, somos a dor que persiste nos sorrisos.
Com o passar das horas diminuímos e morremos.

Bem poderia rir um pouco mais.
Estou à espreita, movimentos em falso comprometem ou salvam.
Diga "olá" e permaneça parado.
Hoje não aceitarei qualquer derrota.

Somos o suprassumo, o luxo e o lixo.
Dançamos loucos e indignados, estamos fixos em nossas ideias.
As horas passam, o tempo voa, e minha alma se despede.
As estrelas brilham, mas aquele olhar que foge e me procura brilha mais.

Tensão e relaxamento me invadem, já passou de meia-noite.
Não havia planos, porém agora há intenções.
Contagem regressiva, estamos na montanha russa.
Somos a conjugação de medo e adrenalina.

E, quando tudo se acabou, ficam ainda as promessas.
Novas noites virão, digna certeza.
Despedimo-nos, mas há um sussurro vivo.
Guarde as palavras, elas não são apenas bobagens. 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Oração

As respostas nunca vêm.
Juro que ainda busco estar contigo.
Mas às vezes as pernas enfraquecem.
Peço que não me abandone, peço que me dê força pra continuar.

Tudo podia estar claro.
Mas minha mente é pura escuridão.
E já não consigo afastar as dores mais agudas.
Então peço que não me abandone, peço que me dê força pra continuar.

Quando o sol surge, te levo no peito.
Quando ele se põe, já não tenho mais lucidez alguma.
Sei que errei, sei que erro, sei que ainda errarei.
Mas peço que não me abandone, peço que me dê força pra continuar.

Os dias que passam são incerteza ilusória, certeza que fere meu coração.
Preciso de ti, e jã não me importo se me amas ou mesmo se existes.
Preciso de ópio, preciso de esperança.
Por isso, peço que não me abandone, peço que me dê força pra continuar.

O desgaste persiste, o cansaço aumenta.
Ainda estou buscando o milagre da minha vida.
Luto para manter os olhos abertos, esperando que algo aconteça.
Apenas peço que não me abandone, peço que me dê força pra continuar.  

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A raposa e as uvas

O Presidente do Corinthians ficou transtornado.

Seu time não ganhou do Emelec.

Uma pena.

Desde que o mundo é mundo, a Libertadores é assim: uma guerra.

O Corinthians, pelo jeito, ainda não aprendeu.

Por isso nunca ganha.

Mário Gobbi, o glorioso Presidente do Timão, disse que o Brasileirão é melhor.

Tem que gostar do Brasileirão, mesmo.

Campeonato regido pela CBF, composta por gente honesta e sempre correta, tem toda a credibilidade.

Quer campeonato mais transparente que o de 2005, por exemplo?

Sim, aquele...

Se alguém não sabe, favor perguntar para o Alberto Dualib, que era nada menos que Presidente do Corinthians na época.

O Presidentão do Timão, entretanto, foi mais longe ainda.

Disse que o Paulistão também é maior que a Libertadores.

Pena que seu time foi eliminado da principal competição do semestre pela Ponte Preta, né?

Ficou só a secundária Libertadores.

Alô, mundo, a Libertadores é o cafezinho do Corinthians!

Sugiro que, caso seja Campeão da América, o senhor Mário Gobbi nem comemore muito este campeonatinho chulé.

E nem faça DVD.

Pelamordedeus!

Seria incoerência.

Ou não?

Mais parece a já conhecida fábula da raposa e das uvas.

"Ah, eu nem queria, mesmo!" 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Universitários

- E aí, Marcos? Vamos para aquela festa hoje de noite, lá nos centro?
- Poxa, Alex, valeu pelo convite. Mas já combinei de ir a uma outra festa.
- Ah, que pena! Vai estar muito bacana! Vai rolar certo um tchê tchererê tchê tchê tchererê tchê tchê tchê tchê tchê.
- Pois é... Infelizmente não vai dar.
- E depois, aquela coisa, não vou sair sozinho de lá! Tô louco pra fazer um lê lê lê lê lê lê. Você também ia se dar bem! Não quer rever a ideia?
- Obrigado, mesmo. Mas ainda tô mais a fim da outra festa. É que na verdade eu quero tchu, eu quero tchá, eu quero tchu tchá tchá tchu tchu tchá tchu tchá tchá tchu tchu tchá.
- Bom, você é que sabe... Boa festa, então.
- Pra você também.  

terça-feira, 1 de maio de 2012

Tango desafinado

Pedro e Sérgio, conversando na lancheria:

- Pedro, ontem finalmente "rolou" com a Sandra!
- Opa! Aquela bonitona do seu trabalho? E como foi?
- Olha... Tava indo bem... A gente saiu, jantou, se divertiu, e fomos para a minha casa. Daí a coisa esquentou. Mas as mulheres às vezes pedem umas coisas que são pra matar...
- O que aconteceu?
- Estava tudo perfeito. Muito bom mesmo. Eu estava executando todos os movimentos com extrema precisão, e ela estava gostando. Daí... Ah, fica difícil dizer...
- Fala! O que houve?
- Tá bom... Tá bom... Ela... Pediu pra eu fazer que nem o Marlon Brando...
- Peraí, peraí, peraí! Tá falando daquilo? 
- Sim! Daquilo! Da manteiga!
- Uau! E aí?
- Sabe... É muita falta de sorte... Eu não tinha manteiga em casa.
- Nossa... E aí o que você fez? Explicou a situação?
- Não. Tentei improvisar.
- Improvisar? Como?
- Er...
- O que você fez?
- Passei maionese.
- Quê? Maionese? Que doentio! Que nojo! No que você tava pensando?
- Eu sei, eu sei... Na hora da ansiedade foi a única coisa que me veio à cabeça.
- E ela?
- Ué... Ela disse: "O que você pensa que tá fazendo, seu imbecil?", e saiu correndo.
- Poxa... Que pena... Da próxima, quem sabe tenta um requeijão...
- Ha ha ha... Muito engraçado... Agora vai ser difícil encará-la no trabalho.
- É... Vai ser complicado, mesmo.
- Poxa... Que falta de sorte...
- Sorte até pode faltar de vez em quando... Mas manteiga, nunca!
- Pois é...