sábado, 21 de abril de 2012

João

Meu nome é João.

Mas podia ser Pedro, Paulo, José, Antônio...

Não faz diferença.

Sou apenas um número.

Um alguém que não é ninguém.

A vida me ensinou a deixar de lado a dignidade.

Talvez eu não seja digno de ter dignidade.

Não tive infância.

Mal lembro de minha mãe.

E do pai, se algum dia o tive, nada recordo.

Meu teto sempre foi o céu.

E meus dias são sempre iguais.

Para mim não há dia de semana, sábado, domingo ou feriado.

Acordo com o sol na cara.

Saio a caminhar, pedindo meu sustento para os transeuntes.

Alguns me olham de cara feia, da cabeça aos pés, não como se eu estivesse doente: como se eu fosse A doença.

Outros, com a mais profunda comoção transparecida pelos olhos, me ofertam cinco ou dez centavos.

Lá pelas onze, com aquele tanto de moedinhas, compro minha garrafa de cachaça.

No frio, ela me esquenta; no calor, me refresca.

Acima de tudo, torna minha existência relativamente suportável.

Ando e bebo até mais ou menos uma da tarde.

Nesse horário, encontro-me com meus companheiros de jornada.

Divido a pinga com eles.

Em troca, eles dividem comigo os restos gelados da comida do restaurante da esquina.

Almoçamos e conversamos um pouco.

Sento-me, com o sol na cabeça, geralmente por uma hora.

Bebo mais.

Mas a cachaça, lá pelas quatro, acabou novamente.

Peço mais dinheiro.

Recolho mais moedas de cinco e dez centavos de caridosas almas destinadas ao paraíso eterno.

Compro mais uma garrafa.

E bebo até o anoitecer.

Bebo até ficar com sono.

Então, deito no chão frio.

E rezo.

Como em todas as noites de minha vida.      

Nenhum comentário: