domingo, 15 de abril de 2012

Anexo indesejado

Nasceu sabe-se lá em que lugar.
Cresceu nas ruas, cercado pelo lixo.
Dias vão, dias vêm.
Sua vida é uma amarga sequência de fatos sem sentido.

Ninguém lhe fala.
Ninguém lhe ouve.
Ninguém lhe vê.
Ele é a massa marrom e fétida defecada pela sociedade.

Amanhã ainda não será o seu dia.
A próxima vez ainda não será a sua.
Ele sabe que nunca será.
Ele sabe que nunca existirá.

Negaram-lhe a vida.
Mas ele insiste, como uma praga da qual o mundo não poderá se libertar.
Os porcos alimentam-se de dinheiro.
E ele, de comida para porcos.

Ele é o anexo indesejado de uma civilização que se quer perfeita.
Ele é a morte que não aceitou morrer.
Deita-se no chão, no único momento em que pode sonhar.
Cobre-se com o jornal que anuncia o esplêndido crescimento da economia e do consumo...

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