segunda-feira, 30 de abril de 2012

O Gre-Nal do gandula

O Gre-Nal que colocou o Inter na decisão do Gauchão 2012 teve ingredientes bastante exóticos. O sal grosso na casamata gremista. A escalação de última hora (literalmente) do Grêmio. E a briga de Vanderlei Luxemburgo com o gandula. Mas vamos por partes, como diria Jack.

As primeiras "estratégias" do jogo vieram antes da bola rolar. Enquanto alguém do Internacional encheu o banco de reservas do Tricolor de sal grosso, sei lá exatamente com que finalidade de ordem sobrenatural, o Grêmio só divulgou sua escalação quando se postou no gramado. Tinha em seu time três atacantes. No Inter, a única novidade foi Jackson na lateral direita, que, por sinal, não comprometeu.

No que diz respeito à partida em si, o primeiro tempo teve um dono bem claro: o Sport Club Internacional. O Colorado teve volume de jogo, ganhou o meio de campo e foi o único time a criar situações. Foi premiado pelo gol de Dátolo, que até marcar o tento vinha muito mal na partida. Podia ter marcado mais gols, em situações claras de Damião e de Tinga. Podia ter marcado pelo menos mais um gol se Márcio Chagas da Silva, o homem dos oito minutos, tivesse marcado pênalti escandaloso de Werley, que defendeu  com a mão direita uma bola chutada por Guiñazu, dentro da área: Victor não teria feito melhor. 

Já na segunda etapa, o Inter voltou acomodado, postado defensivamente e esperando o Grêmio em seu campo. O Tricolor, por sua vez, preencheu seu meio campo com a entrada de Marquinhos. E cresceu no jogo. Merecidamente empatou, com Werley. E estava melhor, até que o inusitado aconteceu, e o descontrole do seu treinador, de alguma maneira, modificou o panorama da partida.

Em um escanteio para o Colorado, o gandula João Pedro cumpriu o seu papel: recolocou a bola para a cobrança de Dátolo, com rapidez. Mas o senhor Vanderlei Luxemburgo não gostou. Luxa, o paladino da moral e dos bons princípios desportivos, homem de passado irretocável, bem educado, dono de inabalável ética e de caráter absolutamente ilibado, ficou transtornado. Partiu para cima do gandula e teve um faniquito de menininha mimada cujo pai sonegara dinheiro para o ingresso de um show do Restart. Foi bem expulso. Paulo Paixão merecia ter ido junto para a rua. Mas não. Expulso foi o gandula. Certamente por ter realizado o seu trabalho de repor a bola com competência. 

A partir deste momento, o Grêmio se desestabilizou. O desequilíbrio do seu treinador se refletiu no time dentro de campo, que passou apenas a distribuir botinadas. O castigo veio, que ironia, num escanteio batido com toda a calma por Jajá: Fabrício, em um lindo cabeceio, deu números finais ao jogo. 2 a 1. Inter classificado para a final. Grêmio fora. 

Ao Internacional, fica um novo ânimo: é franco favorito contra o Caxias, e, nessa onda de boas notícias, ainda enfrentará o Fluminense, se os deuses do direito trabalhista e desportivo assim quiserem, reforçado por Oscar. 

Já para o Grêmio, fica o consolo de que o mundo gira e as coisas sempre podem mudar: ano que vem tem mais Gauchão.

domingo, 29 de abril de 2012

Gre-Nal do equilíbrio

O Gre-Nal de logo mais deverá ser marcado pelo equilíbrio. Os dois times padecem de desfalques de magnitude semelhante. Mais do que nunca, será um clássico decidido nos detalhes.

Do lado do Inter, o que mais preocupa são os desfalques no meio de campo e na lateral-direita. Especialmente na lateral. Sem Nei, o Colorado deverá jogar com Élton, que naquele setor é um jogador extremamente precário. Já no meio de campo, há soluções relativamente satisfatórias para as ausências de D'alessandro e Oscar, que por obra e graça da CBF está fora do jogo. Por ali, Dátolo e Tinga podem tranquilamente dar conta do recado.

Os desfalques colorados, porém, não param por aí. Kléber e Dagoberto também estão fora. Entretanto, considerando que estes dois não vêm jogando absolutamente nada, mesmo, Fabrício e Jajá (ou mesmo Gilberto) podem inclusive constituir acréscimos à equipe.

O Grêmio, por sua vez, não contará com Kléber Gladiador, Léo Gago e Júlio César, três jogadores bastante importantes no esquema de Luxemburgo. E a ausência que taticamente modifica mais profundamente a equipe é a de Léo Gago. Luxa jogará com um meia, Marquinhos, ou com um outro volante, de características diferentes, em seu lugar? Esta problemática escolha poderá definir a tônica do Gre-Nal: Marquinhos tornaria o Grêmio mais técnico, mais agressivo, cedendo, no entanto, mais espaços para as investidas coloradas; um volante deixaria o Tricolor muito mais marcador, chamando o Inter para o seu campo e explorando os contra-ataques.

Na casamata, entretanto, reside talvez a maior das diferenças. Enquanto Luxemburgo ainda possui muito respaldo em seu trabalho, que apresenta um time com bons resultados (contra ninguém, é verdade) e desempenho mediano, Dorival Júnior enfrenta um momento de turbulência e contestação, uma vez que o Inter, que faz boa campanha no certame regional, vem sistematicamente encontrando sérias dificuldades quando enfrenta equipes com alguma qualidade: na Libertadores só ganhou do Once Caldas, enquanto apenas empatou ou perdeu contra Fluminense e Santos; no Gauchão, perdeu o único Gre-Nal disputado até agora.   

Assim, o clássico desta tarde tende a ter consequências diferentes para os dois clubes. Uma vitória do Inter serve para retomar a confiança perdida, enquanto uma derrota poderá aumentar ainda mais a desconfiança sobre treinador, time e diretoria, aumentando dramaticamente a pressão em momento chave da temporada. Já para o Grêmio, a vitória num Gre-Nal fora de casa representaria um imenso up anímico em todo o ambiente do clube, enquanto a derrota, se dentro de um padrão de normalidade, mexeria muito pouco, praticamente nada, no trabalho que tem sido feito. 

Dos dois lados, porém, fica a necessidade imperativa da vitória, que muito provavelmente representará o título gaúcho de 2012. A julgar pelo que tem sido apresentado pelos dois times até agora, pode ser a salvação da lavoura nesta temporada. 

sábado, 28 de abril de 2012

Alguma surpresa?

Quando os tribunais deram ganho de causa ao São Paulo, Oscar saiu do BID colorado em tempo real.

Nunca antes na história deste país, a CBF havia sido tão ágil.

Oscar, impedido de exercer sua profissão, impedido de escolher seu local de trabalho, penou.

O Inter, sem Oscar, que vinha fazendo uma temporada excelente, também penou. 

Agora, o ministro Guilherme Caputo Bastos concedeu habeas corpus para o jogador.

Conferiu liberdade para Oscar jogar onde bem quisesse.

E ele quer o Inter.

Sempre quis.

Deixou claro aos quatro ventos a sua vontade.

Mas a CBF, aquela de outrora fenomenal agilidade, prestativa em tudo que diz respeito às decisões da justiça, agora se fez de desentendida.

Disse que "precisava de maiores esclarecimentos".

Quando os "maiores esclarecimentos" de parte do ministro vieram, inclusive desenhados, "faltou pessoal para a realização do procedimento".

O BID, ao bel-prazer da entidade máxima do futebol brasileiro, fica mais ágil ou mais lento, conforme as conveniências, os interesses e os atores envolvidos.  

Oscar, para o Inter, só a partir da quarta-feira.

Acho que não é bem "pessoal" o que faltou.

O que faltou foi outra coisa.

Não vou dizer o que é, para não ser óbvio.

O leitor saberá tirar suas próprias conclusões.

Surpresa? Espanto?

Não, definitivamente não.

Vindo de onde veio, esse tipo de coisa já seria de se esperar.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Convite

- Ô, Vladimir, amanhã vou ao aniversário do Floriano. Tá a fim de ir também?
- Bah, Paulo, valeu... Mas não tô muito a fim.
- Mas por quê?
- Não tô muito pilhado...
- Ah, vamos lá!
- Obrigado pelo convite... Mas não vou.
- Ah, pára! Vamos! Vai ser legal!
- Não, não, valeu... Tenho um monte de coisas pra fazer...
- Faz depois! Deixa de frescura! Vamos!
- Não, não... Sério.
- Ah, vamos lá!
- Não tô com muita vontade...
- Mas isso não tem explicação! Vamos lá!
- Valeu, valeu... Mas fica pra outra vez...
- Ah, vamos!
- Cara, eu não quero ir nesta merda! Não tô com a menor vontade de ir nesta bosta! Pára de encher o saco, porra!
- Bah... Também não precisa ser grosseiro... Se não queria ir era só ter falado antes! Poxa! 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Vantagem sutil

Não foi o resultado esperado. Uma vitória seria o ideal no Beira-Rio. Mas o 0 a 0 da noite de ontem não foi de todo ruim para o Colorado. Agora, no Rio, qualquer empate com gols classifica o Inter. Um novo 0 a 0 leva o confronto para os pênaltis.

O primeiro tempo do Internacional foi muito fraco. O Fluminense teve total controle do jogo durante os 45 minutos iniciais. Muito disso se deveu a um posicionamento problemático do meio campo colorado. Os jogadores do setor estavam distantes entre si. Dagoberto por ali, como um meia lateralizado, não rende absolutamente nada. Além de demasiadamente espaçada entre si, a meia cancha colorada deixou Damião abandonado, isolado. Foi por aí que o Tricolor carioca exerceu seu domínio: mais compacto, mandou no setor central.

Na segunda etapa, com a entrada de Jajá no lugar de Dagoberto, o panorama mudou completamente. Por ser um típico ponta-de-lança, o "homem-bomba" puxou o meio de campo do Inter para mais perto de Damião. Além disso, os meio-campistas se aproximaram mais, e o time passou a ter maior lucidez na criação de jogadas ofensivas, que havia sido nula até então. O Colorado, a partir daí, conseguiu se impor e criar chances. Teve um pênalti a favor, desperdiçado por Dátolo, de fraca atuação individual. E continuou martelando até o fim, sem, no entanto, marcar o gol.

Agora fica tudo para o Rio de Janeiro. O Fluminense jogará pra frente, dará espaços. Tende a ser um jogo mais franco do que no Beira-Rio. E isso é bom, pois esta característica oferecerá boas possibilidades de gols para o Inter, que terá mais campo para jogar. Por isso, o Colorado terá que ser agressivo, trocar golpes e buscar o ataque. Não pode se limitar a apenas defender. Se fizer pelo menos um gol lá, o Internacional garante a vantagem do empate. A ousadia é, portanto, ingrediente necessário para a busca da vaga.

A certeza que fica, acima de qualquer outra coisa, é que, sim, dá para o Inter se classificar no Engenhão.  

Hoje começa um novo campeonato para o Inter

Esta noite, o Inter enfrenta o Fluminense pelas oitavas-de-final da Libertadores, no Beira-Rio. É a primeira partida do duelo que definirá um dos oito melhores times do continente.

Toda a imprensa do centro do país destaca o favoritismo do Fluminense. E o faz com razão. Enquanto o Tricolor carioca fez a melhor campanha da primeira fase, o Inter fez a pior, apresentando um futebol muito abaixo da média. 

Entretanto, a partir de agora o campeonato é outro. É lá e cá. Ou vai ou racha. Agora, a Libertadores, mais do que nunca, torna-se uma Copa. E de Copas, o Inter entende. 

Para conquistar a vantagem, o Colorado terá de apresentar muito mais futebol e disposição do que vem apresentando até agora na temporada. Não há mais espaço para atuações apáticas, para desleixos, e para erros bobos de escalação.

Chegou a hora de se doar ao máximo, e de também jogar o máximo possível. Mesmo sem D'alessandro (de Oscar nem falo mais, pois o garoto, no momento NÃO É do Internacional), qualidade o Inter tem. Ou alguém duvida da capacidade de atletas como Kléber, Tinga, Guiñazu, Dátolo, Dagoberto e Damião?

No entanto, a superação do Colorado logo mais passa não somente pela comissão técnica e pelos jogadores: passa pela torcida. A massa vermelha, como em tantas outras ocasiões, terá de se superar também. Terá de apoiar o tempo todo, esquecer uma ou outra bronca pontual, e tornar a vida do Fluminense um inferno. Terá de fazer alguns atletas recordarem, caso tenham em algum momento esquecido, a camisa que estão defendendo.

Quando torcida e time formam uma coisa só, no Gigante, o Inter se torna praticamente imbatível. Ligue-se o fogão, ora pois: a panela de pressão tem que esquentar.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O comovente Chelsea

O que se viu hoje à tarde no Camp Nou não foi uma simples partida de futebol. Foi uma verdadeira epopeia. Se este Barcelona e Chelsea tivesse sido escrito por um roteirista hollywoodiano, não seria tão emocionante.

Foi uma espécie de filme, mesmo. Com todos os componentes emocionais dos grandes momentos de superação humana. De um lado, o espetacular Barcelona do extraordinário Messi. De outro, um não mais que mediano Chelsea, com dois ou três grandes jogadores, o que, seria, em tese, pouco para parar a equipe catalã em seus domínios.

No primeiro tempo, a equipe azul e grená abriu o placar com Busquets. Para piorar, o capitão da equipe azul, John Terry, foi infantilmente expulso. E, na mesma levada, o Barça, já em vantagem numérica, abriu 2 a 0. Estaria pelada a coruja. Estaria... Isso porque o Chelsea achou um gol, belíssimo por sinal, de Ramires, no finalzinho da primeira metade da partida. Gol este que daria a classificação aos ingleses.

Entretanto, a segunda etapa reservaria uma imensa e irresistível pressão do Barcelona. Com um a mais, e precisando de apenas um gol, a vitória catalã viria ao natural. Viria... 

Logo no início do segundo tempo, um pênalti para os espanhóis. Messi, o craque, liquidaria logo de cara a fatura. Liquidaria... Porque bateu na trave.

Dali em diante, foi um abafa absurdo promovido pelo Barça. O Chelsea, então, se superou de maneira comovente. Lutou por cada palmo do gramado. Deu bico. Correu. Suou. Marcou. Contou com milagres do ótimo goleiro Peter Cech. 

Jogadores milionários e famosos como Drogba, Lampard e Ashley Cole viraram soldados em busca da sobrevivência. Deixaram de lado as vaidades e brigaram pela bola como se não houvesse amanhã. E, futebolisticamente, não haveria mesmo, se tomassem um gol.

O time inglês tornou-se um ferrolho praticamente intransponível. E, no ato final, com um desesperado Barcelona completamente atirado ao ataque, o contestadíssimo Fernando Torres liquidou a fatura. 

O improvável Chelsea é finalista da Champions League. O magnífico Barcelona, dono do futebol mais encantador do planeta, ficou de fora.

Foi um dos jogos mais emocionantes da história do futebol. O mais fraco, que saíra perdendo de maneira aparentemente inapelável, com um a menos, com pênalti perdido pelo melhor do mundo e com um gol de fechamento marcado por um jogador questionado por todos se superou de forma inesquecível. Não foi a vitória do melhor time, do melhor futebol. Mas foi a vitória da luta, da esperança, da perseverança.

O Chelsea, hoje, fez mais do que simplesmente conquistar a classificação para uma final de campeonato: nos deu uma lição de vida.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Desconto

- Ô, meu camarada! Vai uma balinha de goma, hoje?
- Opa! Quanto que tá?
- Cinco por dez.
- Oi? Dez por cinco, você quis dizer?
- Não, não. É que cada uma é dois e cinquenta. Mas faço cinco por dez reais porque você é camarada, sempre ajuda...
- É que tô meio apertado...
- Tá bom. Sei que a coisa tá difícil pra todo mundo. Pra ti faço mais um desconto, então. Quatro por oito. Pode ser?
- Er...
- Tudo bem, tudo bem... Três por seis, então. Mais do que isso fica difícil pra mim.
- Tá certo, tá certo...
- É difícil, eu sei... Mas negociando a gente se entende!
- Ô... Com certeza...

domingo, 22 de abril de 2012

Conflito interior

Sonhei com o dia em que me libertaria das amarras.
Acordei no mesmo pesadelo de sempre.
Relógios e calendários são uma existência artificial.
Estamos sempre, mas não somos nunca.

A ausência ensina, o vazio nos amadurece.
Sem sorrir e sem chorar, vamos endurecendo os nossos corações.
A brisa que nos atravessa nos torna mais gelados.
Em algum momento, pensei que isso acabaria.

Segundos, minutos, horas, dias, meses, anos...
A vida escorre pelos dedos.
Ainda é cedo para partir, mas é tarde demais para recomeçar.
As folhas caem, anunciando a chegada de um novo tempo.

O mundo é tomado de falsa homogeneidade.
É um amontoado de eus, mas não estou em lugar algum.
O perfume que exala das flores me recorda um lindo tempo que jamais chegou.
Cada dia é uma nova chance desperdiçada.

Amanhã deixaremos tudo para depois de amanhã.
Contemplamos nossa própria miséria, bela e melancólica obra de arte.
Mudamos tanto, mas permanecemos tão iguais!
Heráclito habita as palavras, mas Parmênides persiste na alma. 

sábado, 21 de abril de 2012

João

Meu nome é João.

Mas podia ser Pedro, Paulo, José, Antônio...

Não faz diferença.

Sou apenas um número.

Um alguém que não é ninguém.

A vida me ensinou a deixar de lado a dignidade.

Talvez eu não seja digno de ter dignidade.

Não tive infância.

Mal lembro de minha mãe.

E do pai, se algum dia o tive, nada recordo.

Meu teto sempre foi o céu.

E meus dias são sempre iguais.

Para mim não há dia de semana, sábado, domingo ou feriado.

Acordo com o sol na cara.

Saio a caminhar, pedindo meu sustento para os transeuntes.

Alguns me olham de cara feia, da cabeça aos pés, não como se eu estivesse doente: como se eu fosse A doença.

Outros, com a mais profunda comoção transparecida pelos olhos, me ofertam cinco ou dez centavos.

Lá pelas onze, com aquele tanto de moedinhas, compro minha garrafa de cachaça.

No frio, ela me esquenta; no calor, me refresca.

Acima de tudo, torna minha existência relativamente suportável.

Ando e bebo até mais ou menos uma da tarde.

Nesse horário, encontro-me com meus companheiros de jornada.

Divido a pinga com eles.

Em troca, eles dividem comigo os restos gelados da comida do restaurante da esquina.

Almoçamos e conversamos um pouco.

Sento-me, com o sol na cabeça, geralmente por uma hora.

Bebo mais.

Mas a cachaça, lá pelas quatro, acabou novamente.

Peço mais dinheiro.

Recolho mais moedas de cinco e dez centavos de caridosas almas destinadas ao paraíso eterno.

Compro mais uma garrafa.

E bebo até o anoitecer.

Bebo até ficar com sono.

Então, deito no chão frio.

E rezo.

Como em todas as noites de minha vida.      

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Máquina

Acorda para matar mais um leão.
Todos os seus dias são assim.
Jogado na arena, luta para sobreviver.
Ele não pode parar.

Um mundo que não é dele se apresenta.
Não passa de um objeto estranho.
Deslocado no tempo e no espaço, ele subsiste.
E lhe resta apenas seguir.

Nada pode doer, nada pode lhe cansar.
Seus direitos diluem-se em seus deveres.
Ele sofre, mas aguenta na carne.
"Um dia tudo fará sentido", espera.

Evita mentir para si mesmo.
Tratado como máquina, como máquina deve permanecer nas mesmas condições.
O abatimento tem de ficar em algum canto escondido.
O sol brilha lá fora, e ainda há tanto por fazer!

Recusa a derrota.
Não está vivo por acaso.
Entrega a última gota de suor e de sangue.
Sim, passou-se mais um dia, e ele venceu mais uma vez.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Classificação constrangida

O Santos classificou o Inter, esta noite. Da parte do Colorado, nada de positivo foi feito. Num jogo ruim, com um adversário ruim e eliminado, num gramado (?) ruim, com um juiz ruim, o Inter conseguiu ser pior.

A partida em Chiclayo foi inqualificável. O Internacional foi horroroso. Não foi um time de futebol: foi um amontoado amorfo de jogadores. Nenhum setor foi bem. Nenhum jogador foi bem. Mas há aspectos que devem ser ressaltados, pois, dentro da imensa porcaria que foi a equipe colorada, foram ainda mais fétidos.

Na defesa, Bolívar... Ah, o velho Bolívar! O General foi o que vem sendo há mais de um ano: uma piada de mau gosto. Qualquer adversário, tenha o nível técnico que tiver, passa brincando pelo lerdo zagueiro. São indiscutíveis os bons serviços prestados por Bolívar ao Inter. Mas é ex. Sempre que chamado, compromete. E não só compromete individualmente, mas, devido à insegurança que passa, compromete geralmente a atuação de Nei, de Índio, e de mais um volante (hoje, Sandro Silva). Se um criado-mudo tivesse sido escalado no lugar de Bolívar, jogaria mais. Mas o criado-mudo, infelizmente, não foi inscrito nessa fase da Libertadores.

O meio campo foi lamentável. Com seus volantes perdidinhos, perdidinhos, cedeu generosos espaços ao adversário. Não conseguia trocar três passes seguidos. D'alessandro e Dátolo entraram em campo. É importante enfatizar. Não fosse tal ênfase, ninguém teria percebido suas pálidas presenças. Os gringos não jogaram absolutamente nada. Jajá e João Paulo entraram para compor setor, no segundo tempo. E pouco modificaram o panorama.

Para finalizar o imenso niilismo futebolístico que foi o Inter esta noite, uma dupla de atacantes completamente inoperante. Damião, é bem verdade, pouco recebeu a bola. Mas quando a recebeu, tomou uma surra de laço da Dona Nike. Gilberto, por sua vez, mostrou, como é usual, aguerrimento, vontade, movimentação. Mas tem sérias precariedades técnicas. Foi substituído por Jô. E o Jô, apesar de quase marcar um gol na única (raios!!!) chance criada pelo Inter no jogo, já pra lá dos 40 da segunda etapa (raios triplos!!!), foi aquilo que já nos acostumamos a ver: um estorvo que só faz número em campo, uma espécie de poste vivo.       

Após um jogo absolutamente constrangedor, fica uma classificação constrangida. Dos classificados, o Inter foi o pior. Pouco, muito pouco para quem almeja o título. A julgar pela atuação de hoje, não terá vida longa no restante da competição. Se continuar jogando essa bolinha de sagu, será eliminado pelo Fluminense perdendo no Beira-Rio e no Engenhão. Mas pode melhorar. E tem que melhorar. Melhorando, aí sim, renovam-se as expectativas. 

Agora, começa um novo campeonato. E o Colorado terá de apresentar uma nova atitude. Será necessário o grito da torcida. Será necessária a camisa Bicampeã da América. E será necessária mais qualidade. Muito mais do que vimos no partideco de hoje.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Aniversário da irmã

- Carla, meu amor, fim de semana tem o aniversário da sua irmã, né?
- Ué, Fábio! Que interesse é esse?
- Ora! Só tô perguntando pra nos programarmos...
- Isso tem que partir de mim! Não tô entendendo!
- Tá bom, desculpa...
- Você anda pensando nela? É isso?
- Não, amor! Claro que não! Nada a ver!
- Então por que falou do aniversário dela?
- Porque fim de semana é aniversário dela, ué!
- E ainda tem a cara de pau de dizer que não pensou nela?
- Não!
- Como se pensa no aniversário de uma pessoa sem pensar na pessoa? Hein? Hein?
- Ai, meu Deus! Que ciúme bobo!
- Ciúme bobo nada! Você é que tá tentando me fazer de boba, tendo fantasias com a minha irmã!
- Nossa... Que mente fértil!
- Quem tem de falar da sua mente fértil aqui é você!
- Ai, ai, ai... Desisto. E, quer saber? Nem vou ao aniversário da sua irmã.
- Mas que absurdo é esse? Tá implicando com a minha família agora? Minha irmã não é boa o suficiente pra merecer a sua presença no aniversário dela? 
- Não, ela é... Gosto dela... Mas quero evitar constrangimentos, se é o caso.
- Gosta dela? Evitar constrangimentos? Agora você deixou bem explícito, né? E a trouxa aqui sendo enganada o tempo todo! Bonito! Muito bonito! 
- Chega. Não vou mais discutir. Não dá.
- Aaaah, sim! Agora que se entregou tá com medo de falar mais sobre a traição, né? Muito conveniente! Vou ligar pra ela agora mesmo! E vou cortar relações!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Empada

Na parada de ônibus:

- Ô, senhor, quer comprar um salgado?
- Hum... O que você tem aí?
- Tenho croquete, coxinha, risoles, pastel, empada...
- Ah, eu gosto de empada! Do que você tem aí?
- Tem de carne de gado, tem de frango, e tem de carne humana, também.
- Uau! Carne humana?
- Sim! Tá na crista da onda! Maior sucesso! É o salgado que mais tá saindo! Disparado!
- Será que é bom?
- É ótimo! Comigo é só produto de qualidade.
- Humm... Vou provar, então. Me vê uma empada de carne humana aí, por favor.
- São dois e cinquenta.
- Ó, tá aqui.
- Pronto! Tá na mão.
- Deixa eu ver... Hummmm... Que delícia!
- Não falei?
- Ótimo isso aqui, hein? Bem feitinho!
- Com certeza! Foi feito com muito carinho. E é carne bem selecionada, passou pela vigilância sanitária,  com todos os carimbos, essa coisa toda.
- Nossa, excelente! Com certeza uma boa pessoa, essa aqui, hein? Uma carne muito saborosa! Você sempre vende esses salgados por essa região?
- Sim, senhor! Tô todos os dias por aqui.
- Maravilha! Você ganhou um cliente, hein?
- Que bom! Quando quiser comprar, é só chamar! Vai ajudar bastante, porque tô pensando em expandir os negócios, partir pro ramo do churrasquinho também...
- Vai ter de carne humana?
- Mas claro! De que adianta ser igual aos outros? A gente tem que ter espírito empreendedor!
- Ôh... Vai ser um sucesso!
- Se Deus quiser!
- Ele vai querer. Você me parece um sujeito bacana, humilde, de bom coração. Você merece.
- Poxa, obrigado!
- Não tem o que agradecer! Só tô dizendo a verdade!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Hein?

Cláudia, em visita ao avô:

- Oi, vô!
- Er... Oi, minha filha!
- Por que a tv está com o volume tão alto?
- Hein?
- A tv! Por que tão alta?
- Quê?
- POR QUE... A... TV... ESTÁ... TÃO... ALTA?
- Ah... Nem percebi...
- Que programa o senhor está vendo?
- Hein?
- Programa! Que programa é esse?
- Como?
- O PROGRAMA! QUAL O NOME DO PROGRAMA QUE O SENHOR TÁ VENDO?
- Ah... Tô vendo "Surdez na Terceira Idade". É um programa muito bom, sabia?
- É... Imagino, imagino... 
- Hein?

domingo, 15 de abril de 2012

Anexo indesejado

Nasceu sabe-se lá em que lugar.
Cresceu nas ruas, cercado pelo lixo.
Dias vão, dias vêm.
Sua vida é uma amarga sequência de fatos sem sentido.

Ninguém lhe fala.
Ninguém lhe ouve.
Ninguém lhe vê.
Ele é a massa marrom e fétida defecada pela sociedade.

Amanhã ainda não será o seu dia.
A próxima vez ainda não será a sua.
Ele sabe que nunca será.
Ele sabe que nunca existirá.

Negaram-lhe a vida.
Mas ele insiste, como uma praga da qual o mundo não poderá se libertar.
Os porcos alimentam-se de dinheiro.
E ele, de comida para porcos.

Ele é o anexo indesejado de uma civilização que se quer perfeita.
Ele é a morte que não aceitou morrer.
Deita-se no chão, no único momento em que pode sonhar.
Cobre-se com o jornal que anuncia o esplêndido crescimento da economia e do consumo...

sábado, 14 de abril de 2012

Adeus, Mestre Cabral

O jornalismo esportivo gaúcho perdeu hoje um dos seus mais brilhantes nomes. Vítima de um ataque cardíaco, faleceu o Mestre Cláudio Cabral. 

Filho do jornalista Cid Pinheiro Cabral, Cláudio formou-se em Ciências Políticas e Econômicas, e fez parte de um grupo de jovens dirigentes que revolucionaram a política de futebol do Sport Club Internacional: os Mandarins. Ao final de uma década derrotada do clube, os anos 1960, estes jovens resolveram adentrar o Inter com uma então nova forma de pensar futebol. À época, o Colorado jogava bonito. Mas não ganhava. Estava anacrônico na maneira de jogar.

Aqueles rapazes, coloradíssimos, pretendiam reverter este panorama. A força deveria ser incluída no cardápio de virtudes de um time de futebol. A partir daí, instituiu-se uma filosofia que postulava condições simples, básicas, mas indispensáveis e à época relativamente novas no planejamento do futebol: qualquer jogador, para pertencer ao elenco do Inter, deveria ter, no mínimo, duas dentre três grandes virtudes centrais: força, velocidade e técnica. Jogador que tivesse apenas uma delas não servia.

Foram, assim, os Mandarins que sedimentaram o caminho percorrido pelo grande time dos anos 1970. Ali foi plantada a semente da equipe que mandou e desmandou no futebol brasileiro naquela década. Ali nascia, de alguma forma, o Inter Tri-Campeão Brasileiro, do qual Cabral participou ativamente como homem de futebol.

Após esta importante passagem como dirigente, Cláudio Cabral partiu para o jornalismo esportivo, como comentarista. Brilhante comentarista, diga-se de passagem. Era um show à parte. Seus comentários prendiam a atenção, porque sempre eram extremamente objetivos, e, sabíamos, de sua boca sempre sairia alguma frase inteligente, instigante, espirituosa, ao mesmo tempo mal-humorada e engraçada. Cabral não era convencional. Falava o que lhe vinha à cabeça. Não tinha papas na língua. Não tinha frescuras para dizer a verdade. Quando um jogador era ruim, ele não titubeava em dizer: "Olha aqui, ó... Esse jogador é muito ruim". Simples assim.

O Mestre Cabral era um adorável ranzinza. Tinha um humor ácido. Era autor de tiradas sensacionais. "Anelka é um Adão francês"; "Rooney é o Badico inglês"; "Se a bola tivesse vontade própria, ia até a delegacia e denunciava o Edinho por maus tratos", são apenas algumas das corrosivas e sempre interessantes observações do Mestre.

Aprendi muito com os, mais do que comentários, ensinamentos, de Cláudio Cabral. O jornalismo esportivo gaúcho perde uma figura ímpar. E o fim de semana começa um tanto triste. 

Siga em paz, Mestre Cabral. E, de repente, comente daí de cima o Tri da América e o Bi Mundial do seu Inter neste 2012.          

quinta-feira, 12 de abril de 2012

À mesa

Éverton observava Suzana.

Gostava muito dela.

Entre uma e outra frase quebra-gelo, os dois trocavam olhares.

Ao fundo, uma música romântica.

Éverton estava com o coração na boca.

"Como agir?", perguntava a si mesmo.

Não hesitou.

Terminou de mastigá-lo.

Engoliu.

Pegou outro.

Passou na farofa.

E continuou a comer.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Flagrante

- Oh, não, Vitor! O que você está fazendo com essa mulherzinha aí na cama?
- Calma, amor. Não é nada disso que você tá pensando.
- Como não? Estou vendo com meus próprios olhos!
- É um engano...
- Não, não tem engano nenhum nisso!
- É que a gente bebeu um pouco e... Aconteceu.
- Que absurdo!
- Me perdoa!
- Não, não perdôo!
- Por favor!
- Não! Fora daqui! Os dois!
- Ei, Carla, vamos conversar.
- Nada de conversa! Fora!
- Prometo que nunca mais vejo "Velozes e Furiosos" de novo.
- Não adianta! Não é a primeira vez que te flagro vendo essa porcaria. Odeio o Vin Diesel. E sei que, mais cedo ou mais tarde, você vai fazer isso de novo, com outra zinha qualquer por aí.
- Poxa, amor...
- Nada de "poxa"! Fora daqui!    
- Pelo menos posso levar as pipocas?
- Nããããããoooo!!!
- Tá bom, tá bom... E o dvd?
- Também não! Vou incinerá-lo!
- Nossa... Também não precisa ser tão radical...

terça-feira, 10 de abril de 2012

Força e fraqueza

O forte não é aquele que esmaga.
É aquele que, apesar de ser esmagado, sobrevive.

O forte não é aquele que sorri com desprezo.
É aquele que chora, seca as lágrimas e continua a caminhar, mesmo que volte a chorar logo adiante.

O forte não é aquele que desconhece a derrota.
É aquele que perde, resiste e insiste, até o dia em que venha a conhecer a vitória.

O forte não é o descrente.
É aquele que crê sempre, e acima de todas as dificuldades que surjam.

O forte não é aquele que sabe derrubar os outros.
É aquele que sabe levantar com suas próprias forças. 

O forte não é aquele que desdenha da morte.
É aquele que luta pela vida.

O forte não é aquele que tem medo da fraqueza.
É aquele que tem coragem de mostrá-la.

O forte não é aquele que odeia em um mundo cheio de ódio.
É aquele que ama, apesar de todo o ódio do mundo.

Sejamos fortes, todos os dias.
Sejamos fortes, cada vez mais.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Sangue sob a luz da lua

Noite passada você acordou sem ar, eu vi.
Eu estava lá enquanto você se afogava.
Sim, eu ouvi seus gritos de socorro.
Estou mais presente do que consegue imaginar.

Olá, ainda estou bem aqui.
Sou a ferida que ainda está aberta.
Não haverá amanhã se não sobrevivermos agora.
Nossas mentes compartilham a mesma obscuridade.

Se o sol não aparecer, não se surpreenda.
Estive esperando tanto tempo por esse momento de glória!
Deliciosa angústia, engolimos nosso choro.
Recorrer a quem quando nossas almas mergulham nas trevas?

Mostre-me a luz se ainda puder.
Estou vivo aqui, estou dentro de você.
Minta um pouco para satisfazer nossas vontades mais humanas.
Ainda que doa, esta noite será a nossa redenção.

Estamos cegos, mudos e surdos.
Somos um único prazer instintivo.
Todos os seus desejos estão sob o meu domínio.
Você pensava que tinha o controle de tudo?

Olá, ainda estou aqui.
Bebendo esperanças, vomitando seu desespero.
Roteirizando cuidadosamente os sonhos que invadem todas as suas noites.
Sempre haverá lembranças, mesmo que caiamos em alguma linha de tempo paralela.

Sangramos à luz da lua.
Eis a nossa mais doce comunhão.
Nosso amor eterno por tudo o que um dia tivemos, nossa dor, nosso vinho.
Eis a singularidade de nosso gesto mais divino. 

domingo, 8 de abril de 2012

Melodia e recordações

Ricardo andava tranquilamente pela vizinhança.

Era um domingo de sol.

Ele estava feliz, com o espírito na mais plena paz.

No entanto, algo tomou-lhe de súbito.

Em alguma das casas, aquela música estava a tocar.

Ele parou, perplexo.

Um turbilhão veio-lhe à mente, ao coração, à alma.

Sim, era aquela melodia que tantas e tantas lembranças lhe trazia.

Recordava daquele olhar, daquele beijo, daquela noite especial.

Sentou-se no chão, tomado pela mais pura comoção.

Uma lágrima correu pela sua face.

Ah, aquela música!

Marca eterna, aperto no coração.

Um tempo que não voltará jamais.

Doces palavras de uma letra que tocava nas dores e nos bálsamos mais profundos guardados naquele espírito.

Sim, haveria de lembrar para sempre daquele "Pocotó, pocotó, pocotó, minha eguinha Pocotó..." 

sábado, 7 de abril de 2012

Folha dupla

Na casa de Sérgio, Leandro sai do banheiro:

- Sérgio, reparei que você usa papel higiênico de folha dupla... 
- Sim! Adoro folha dupla!
- Mas... Por quê? O que está acontecendo com você?
- Ora! Todo mundo gosta de folha dupla! Você não gosta?
- Por que eu iria gostar? Não tem utilidade nenhuma... Pelo menos não pra nós, homens. Ele só serve pra nos iludir sobre a quantidade de papel!
- É... Olhando por essa ótica... Até que faz sentido...
- Claro que faz sentido! Você pensa que tem bastante papel, e não tem. Por quê? Porque é folha dupla! É o dobro de papel, mas a quantidade prática é a metade! É apenas uma ilusão! Um grande e triste engano! O rolo parece mais cheio do que realmente está! Você tem que rever os seus conceitos sobre papel higiênico, meu amigo! Isso está muito errado! E, quer saber? Você me dá medo! Você é estranho! Muito, muito estranho! Você precisa de ajuda! Não percebe o que está fazendo com a sua vida, comprando papel higiênico inadequado, jogando dinheiro na lata fedorenta do lixo do banheiro?
- Poxa... Tá bom... Vou começar a comprar folha simples, então.
- Sim! Folha simples é bom! Folha simples é o verdadeiro canal!
- Bom... Pelo menos a quantidade foi suficiente pra você?
- Er... Bem... Er... Foi... Não foi o ideal... Mas deu pra me virar... 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Mudança de comportamento

Todos os dias de Marcos eram iguais.

Acordava sete e meia da manhã, escovava os dentes durante três minutos contados, fazia a barba, tomava um banho de quinze minutos, penteava o cabelo, passava perfume, olhava-se no espelho e saía de casa.

Passava na banca, comprava o jornal.

Tomava um café com leite na padaria da rua de sua casa.

Pegava o ônibus, sempre lotado.

Chegava ao trabalho, cumprimentava a recepcionista com um aceno, e tratava dos afazeres do dia, sempre conferindo antes a agenda.

Saía para o almoço, comia arroz com bife e ovo frito na lanchonete da esquina.

Voltava ao serviço, onde ficava até as seis da tarde.

Despedia-se da recepcionista, comprava um chiclete de menta, e pegava o ônibus das seis e dez.

Chegava em casa, tomava banho, e olhava tv até as onze horas, quando vestia o pijama azul e ia dormir.

Ontem, porém, foi diferente.

Acordou quinze para as oito, escovou os dentes por dois minutos, não fez a barba, tomou um banho de doze minutos, não penteou o cabelo, não passou perfume, e não se olhou no espelho antes de sair de casa.

Passou na banca e comprou um gibi.

Na padaria da rua de sua casa, tomou um café preto.

Ao invés do ônibus, tomou uma lotação.

Ao chegar ao trabalho, cumprimentou a recepcionista com um beijo no rosto, e começou os afazeres do dia sem conferir a agenda.

No almoço, comeu um pastel de carne.

Voltou ao serviço, onde ficou até as cinco para as seis.

Não despediu-se da recepcionista, comprou um chiclete de morango, e deixou o ônibus das seis e dez passar, esperando o das seis e meia.

Ao chegar em casa, não tomou banho e não ligou a tv, apenas sentou-se, observando, da janela, o movimento da rua.

Chegada a hora de dormir, deu-se conta de que aquela não era a sua casa, aquele não era o seu quarto, e aquela não era a sua cama.

Ao invés do pijama azul, vestia uma camisa de força branca.

Haviam lhe internado num sanatório.

Louco (?).

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Empatou, mas deu orgulho

Ontem, foi o Inter que a torcida colorada quer.

Foi atacado, sim.

Mas atacou também.

Foi grande, como tem que ser SEMPRE, no Beira-Rio, na Vila Belmiro, no Camp Nou ou no Cristo Rei.

O Inter não conseguiu o melhor resultado, o resultado que nós queríamos.

Mas deu orgulho.

O time todo foi de uma valentia absurda.

Correu e marcou abnegadamente.

Marcou cerradamente Ganso e, principalmente, Neymar.

Sempre com força, sempre com virilidade, mas, acima de tudo, sempre com lealdade.

A imprensa paulista reclama de uma suposta violência contra a teteia do momento.

Ora, vão ver se eu tô lá na esquina!

Se o Santos não quer contato físico, que monte um time de vôlei.

Das individualidades coloradas, há muito a se destacar.

Muriel esteve em noite espetacular, empilhando milagres.

Nei foi de raça exemplar.

A dupla de zaga esteve correta, fez o melhor que podia.

Até Kléber esteve ligado em (quase) todos os lances!

No meio, Élton destoou, pois foi mal; porém, dedicação não lhe faltou.

Sandro Silva jogou com sobras de personalidade.

Dátolo, um pouco abaixo do seu padrão, ainda assim cumpriu importante papel na condução da equipe ao ataque.

Dagoberto e Damião não foram brilhantes, mas também estiveram bastante determinados em todos os lances.

Como destaque final, tenho que falar de Tinga.

Que partida magnífica fez o Tinga, como terceiro homem de meio-campo!

Fazia muito tempo que não via o PC jogar a bola que jogou diante do Santos, com tanto vigor, com tanto acerto, na marcação e nos passes.

Agora, é o Juan Aurich.

Com a determinação de ontem, o Inter passa por cima.

E, caso se classifique (hipótese na qual acredito profundamente), com D'alessandro, Guiñazu e talvez Oscar, tenho certeza de que será, cada vez mais, candidatíssimo ao título.

3 pontos: o presente de aniversário ideal

Neste 4 de abril de 2012, a torcida colorada deseja apenas um presente de aniversário para o clube: os três pontos diante do Santos. Pontos preciosos. Pontos que valem virtualmente a vaga na próxima fase. Pontos que podem valer, quiçá, a liderança do grupo e a vantagem de decidir em casa nas fases posteriores da Libertadores da América.

Para que estes três pontos possam ir para a conta do Inter, é fundamental, em primeiríssimo lugar, que Dorival Júnior abandone a síndrome de vira-latas que lhe domina a cada momento em que fala de Santos e, principalmente, de Neymar. O Santos é bom time, sim. Mas está muito longe de ser imbatível. Possui fragilidades defensivas flagrantes. Se o ataque e meio de campo colorados instigarem os zagueiros santistas ao erro, eles errarão. E um sistema ofensivo que conta com Dátolo, Dagoberto e Damião pode fazer um tanto de gols nessa defesa.

Para isso, a postura do Inter terá de ser, sim ou sim, agressiva. Nada de pensar em repetir a horrorosa "tática Pampers" que vimos na Vila Belmiro. O Colorado, mesmo desfalcado, é tão time quanto o Santos. E contará com o apoio de praticamente 40 mil colorados.   

E Neymar? 

Sou suspeito para falar, mas lhes digo, meus  caríssimos amigos, que o atacante de penteado ridículo está longe, muito longe de ser "imarcável". Fez o que fez na Vila Belmiro porque, ao driblar, viu os zagueiros e volantes do Inter, afogados nas declarações diarreicas de Dorival Júnior, praticamente pedirem desculpas por estarem ali e até por terem nascido. Hoje tem de ser diferente. Tem que chegar no Neymar. Com força, com virilidade, sem medo e sem admiração. Se ele vai chorar e contar tudo para a mamãe depois do jogo, problema é dele. Neymar tem que saber que no Beira-Rio a banda toca outra música, bem mais pesada.

Quanto à escalação, considerando os desfalques e as opções disponíveis, me parece a mais equilibrada. São três volantes, mas Tinga tem uma capacidade de movimentação no sentido vertical que os volantes que jogaram em Santos, por exemplo, não tinham. Dados os desfalques (desfalques de verdade, dessa vez, pois ninguém ficou de fora por alguma punição estúpida do técnico), esta me parece a melhor alternativa de formação. As opções mais típicas de meias seriam João Paulo, de desempenho pífio, e Jajá, que, por ora, está mais para folclore do que para jogador de futebol. Com isso, Tinga na meia pode não ser o melhor prato, mas é o prato que se tem para o momento.

O que importa é que saibamos que, apesar de dificílima, a partida de logo mais está longe de ser invencível. O Santos é bom time, Neymar tem seu valor, mas nem o Santos é o Barcelona, nem Neymar é o Messi. Dá pra ganhar. E pra ganhar, o Inter tem que se impor. 

Que o medo se limite às ultimamente infelizes frases de Dorival.

Coragem, colorados!

terça-feira, 3 de abril de 2012

Matemática da privada

Pedro e Sérgio, na lancheria:

- Pedro, acho que vou ali no banheiro...
- Tá bom! Vai fazer o número 1 ou o número 2?
- Ah...
- O número 3?
- Sei lá... Não tô bem... Acho que foi o xis de frango... Não desceu legal...
- Ih... Acho que vai acabar saindo é o valor do Pi...
- Bem que podia ser só o valor do x...
- Esse você só vai acertar no caixa. 8 reais, com as fritas.
- Pois é... Tá feia a coisa...
- Vai lá, então. 
- Já tô indo...
- A matemática sempre me cheirou meio mal... 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Mil-folhas

Leandro e Cláudia, na lancheria:

- Por que você pediu mil-folhas, Cláudia?
- Ora, porque eu gosto! É muito bom com um cafezinho.
- Não... Mil-folhas não é bom! Não gosto desse doce!
- Poxa... Não entendo...
- É um engodo! Duvido que o confeiteiro conte as folhas! Duvido!
- Claro que tem mil!
- Você vai contar? Conta aí! Vai ver que estão te enganando o tempo todo! A olho nu dá pra ver que não tem mil! No máximo, no máximo, umas seiscentas! E olhe lá!
- E por que motivo você acha que iriam mentir sobre isso?
- Pra lucrar, ué! Imagine quantos mil-folhas sem mil folhas eles podem fazer com as folhas economizadas! É um grande mercado! Grande e traiçoeiro!
- Isso é paranoia...
- Paranoia não! Gosto das coisas certas! Experimenta pagar "um pouquinho menos" no caixa pra ver o que te acontece!
- Ah, não vou contar as folhas!
- Claro que não vai! Sabe por quê? Porque você é uma má cidadã!
- Má cidadã, eu? Por causa de um mil-folhas?
- Hoje te tiram folhas do mil-folhas, amanhã te tiram te tiram os direitos civis! São pessoas fracas, egoístas e indolentes como você que fragilizam o nosso tecido social! Não é só um mil-folhas, é a sua vida! É a nossa vida! E são os nossos direitos!
- Ah, Leandro! Dá um tempo! Vou indo embora! Difícil aturar esses seu papinhos!
- Agora quer sair ofendidinha? A verdade te ofende? A verdade te agride?
- Fala com a minha mão, tá? Blé, blé, blé, blé...
- Ora, mas que desrespeito! Vou repensar minha amizade com você!
- Isso! Enquanto isso, vai contando as folhas do que sobrou aí! E pode cobrar os descontos do caixa e ficar pra você, tá?
- Falou e disse!

domingo, 1 de abril de 2012

Ovo

Sérgio na lancheria:

- Moça, moça, vem cá.
- Sim?
- Eu pedi um xis bacon. Mas pedi sem ovo. Esse xis tem ovo.
- Tudo bem... Eu corrijo a comanda. Você não precisa pagar pelo ovo.
- Olha... Eu gostaria do meu dinheiro de volta. Não quero mais o xis.
- Isso não dá pra fazer... Por que o senhor não tira o ovo?
- Não, não quero! O ovo já tocou no resto do xis. Ele tá "contaminado" pelo ovo!
- Mas o senhor nunca come ovos?
- Isso é uma entrevista?
- Não, não... Só tava tentando entender...
- Não tem que entender nada! Isso é uma afronta!
- Desculpa, desculpa...
- Chega de papo, então. Me vê lá uma gemada.