segunda-feira, 5 de março de 2012

Chiclete

A moça adentrou o ônibus.

Era bem bonita.

Loira, olhos verdes, corpo bem torneado.

Postou-se de pé, um pouco à frente do banco no qual eu estava sentado.

Tirou o chiclete da bolsa, e passou a mascá-lo.

Mas não bastava mastigá-lo.

Ela começou a fazer bola.

E fazia muito bem.

Eis uma das maiores frustrações de minha infância.

Nunca aprendi a fazer bola com o chiclete.

Tentava, tentava, tentava, e não conseguia, de jeito nenhum.

Até hoje não aprendi.

É necessário uma língua muito habilidosa, especificamente habilidosa.

Minha língua possui habilidades apenas as mais básicas.

Só o suficiente para viver bem.

Mas aquela moça...

Como aquela moça era habilidosa com sua língua!

Não era uma habilidade ordinária.

Era um tanto artístico, quase circense.

Fazia ali seu showzinho particular, despretensioso e pseudo-inocente.

Na verdade, era uma devassa.

Certamente era.

Podia até não se dar conta disso.

Mas que era, era.

Aquele chiclete azul denunciou tudo...

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