sexta-feira, 16 de março de 2012

Amor através do vidro

João Pedro era um garoto simples de 8 anos de idade.

Gostava de correr pelo campo, gostava de colher laranjas.

Gostava também da Glorinha.

Ela tinha 10 anos.

Quando ia à escola, a menina sempre passava em frente à janela do quarto de João Pedro.

E ele sempre tinha aquele compromisso consigo mesmo, e com aquela menina, mesmo que ela daquilo não soubesse.

Chegava da sua aula, que era pela manhã, e almoçava rápido para correr para a janela.

Uma da tarde ela passava na ida.

Cinco e quarenta, ela passava na volta.

Glorinha jamais havia visto João Pedro.

Ela nem sabia da sua existência.

A rotina seguia sempre assim.

Passaram-se cinco anos.

E o garoto João Pedro, a esta altura com seus 13 anos, permanecia vivendo aquele simples, doce e rotineiro amor platônico.

Continuava almoçando rápido e correndo para a janela.

Um dia, Glorinha, pela primeira vez talvez, viu João Pedro espiando. 

Pelo menos foi a primeira vez em que ela demonstrou ter visto.

Ao perceber que a menina o havia flagrado, o garoto, em ato reflexo, acenou.

E Glorinha sorriu.

João Pedro cristalizou aquela imagem em sua mente.

E sonhou, sonhou, sonhou.

Experimentou a mais genuína das felicidades.

No dia seguinte, tudo se repetiu. 

E assim passou a ser: todos os dias, o aceno de João Pedro era retribuído com aquele sorriso.

"Sorriso mais doce que as laranjas que eu colho", descrevia ele, bobamente, para os amigos.

Meses, meses e mais meses se desenrolaram.

Até que um dia, Glorinha passou, pontualmente, uma da tarde.

Era pra ser mais uma gostosa reprise daquela maravilhosamente pura troca de gestos.

Mas não, não foi.

Havia, então, algo diferente.

Glorinha estava de mãos dadas com o Cléber, que era um garoto mais velho, de 17 anos.

O coração de João Pedro, então, se partiu.

Ao invés do aceno, uma lágrima.

Glorinha sequer percebeu.

João Pedro deparava-se, então, com seu primeiro desencanto.

E Glorinha encantava-se por demais com seu primeiro amor, sorria, e sorria, e sorria.

Mas, para João Pedro, não era mais um sorriso comparável às laranjas que colhia.

Era amargo, era doído.

Cada risada da menina representava um soluço magoado do ainda inocente garoto.

Naquele momento, ele aprendia que a vida é feita de encantos e de desencantos.

E que o encanto de um pode ser o desencanto de outro.

Não são poucas as vezes em que o amor é um jogo de soma zero.  

2 comentários:

Joyce Barreto Chicon disse...

ótimo seu texto. Gostei bastante!
Favoritei seu blog!

bjos

vale conferir:
http://joycebc.blogspot.com

E

http://leiturasaborcafe.blogspot.com

Bruno Mello Souza disse...

Olá, Joyce!

Muito obrigado pela visita e pelo comentário!

Retribuirei a visita!

Volte sempre!

Beijos.