quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Rivalidade

Rogério e Vitor se detestavam. Eram de turmas rivais da sétima série na escola. A 71 e a 73. Entre eles, não havia o mínimo de afinidade. Rogério era colorado. Vitor, gremista. Rogério era zagueiro. Vitor, atacante. Rogério gostava de pizza. Vitor, de churrasco. Rogério gostava do Batman. Vitor, do Super-Homem. A única coisa em comum entre os dois era uma garota chamada Letícia. Loira. Estonteante. Dona do mais encantador olhar de desprezo do colégio. Os dois eram apaixonadíssimos pela garota. E ela não dava bola para nenhum dos dois.

Certa feita, a escola organizou um torneio de futebol, como ocorria todos os anos. Meninas não percebem, mas, para meninos de 12, 13 anos, torneios de futebol são uma espécie de oportunidade ímpar para se exibir. Eles se matam dentro do campo para mostrar habilidade e amor à camisa para as donzelas nas arquibancadas. E elas ficam chupando pirulito, fingindo-se de interessadas, esperando que aquela chatice acabe logo.

Por coincidência, ou não, a grande final do torneio foi entre as turmas 71 e 73. Lá estavam Rogério e Vitor, zagueiro e atacante, frente a frente dentro de campo. Lá estava Letícia, do lado de fora, com o pirulito na boca. Era o duelo do século. Questão de vida ou morte. Coisa de homem, de quem tem mais culhão que o outro. Se você é mulher e está lendo isso, não tente entender. É uma lógica muito própria da masculinidade. 

O jogo transcorreu duríssimo. Divididas, carrinhos, balões. Vez por outra, os jogadores se engalfinhavam com o árbitro para decidir de quem era o arremesso lateral. Levava quem cuspia mais na cara do pobre juiz enquanto gritava. Tal era o nível de competitividade, que não saía gol. Entre uma botinada e outra, o tempo passou, e a partida chegou aos acréscimos. Zero a zero. Parecia que tudo seria decidido na loteria dos pênaltis.

No último lance, porém, veio o ápice, o clímax, a dramaticidade digna de uma partida de final de Libertadores. Um lançamento preciso encontrou, na corrida, Vitor. Cara a cara com o gol. No mesmo embalo, vinha Rogério, na marcação. Vitor iria fazer o gol do título. Rogério não podia deixar essa tragédia acontecer. Letícia estava lá, vendo tudo, com o pirulito na boca. 

Então, o zagueiro não teve dúvidas: deu dois passos largos, com as pernas destruídas, amortecidas de tanto ácido lático, e chutou, ele mesmo, contra o próprio gol. Rogério sacrificou seu nome, e fez o gol contra, para que Vitor não provasse o sabor daquela glória. A turma 73 era campeã do torneio do colégio. Mas ele, Rogério, estava particularmente satisfeito: não deixou Vitor ser o herói do jogo. Após o gol contra, olhou para a tela de proteção do campo, e fez um coraçãozinho com a mão para a amada. 

Ao apito final, os colegas partiram para cima de Rogério, evidentemente enfurecidos. Vitor, por sua vez, comemorava o título à distância do restante do time, meio contido, um tanto irritado por não ter feito o gol para Letícia. 

E Letícia deu as costas, com o pirulito na boca. 

2 comentários:

Joicy Sorcière disse...

kkkkkkkkkkkk... eu não acredito que o Rogério fez isso! Fico imaginando se valeu a pena... se a Letícia deu "bola" pra ele! hahahahha

Ah nemmmm... mas, se pararmos pra pensar, o amor deixa as pessoas um tanto "bobocas" mesmo, né!? haaahaha

Tem postagem novinha em folha, lá no blog!! ;) bjks

Bruno Mello Souza disse...

Oi, Joicy!

As pessoas, de fato, ficam bem "bobocas", como disseste, quando amam. Acho que faz parte do pacote, hehehehe.

Beijos.