quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Inocência

Estava voltando para casa, despretensiosamente, como é o normal, no ônibus. Estava ouvindo minhas músicas no celular, matutando sobre problemas e soluções de uma vida corrida feita de coisas corriqueiras. Enfim, não havia nada de especialmente diferente ocorrendo naquele momento. Porém, alguns acontecimentos um tanto simplórios, quase imperceptíveis, acabam por mudar um dia tão igual aos outros. Nos fazem pensar. São uma experiência muito própria. Isso ocorreu comigo quando surgiu uma mãe com uma menininha linda naquela condução. Aquela criança devia ter uns dois anos, quando muito. Seus olhos, de um castanho bem claro, brilhavam. Era a inocência humana em seu estado mais puro.

Considero o ser humano, de maneira geral, um lixo. Nós, humanos, nos perdemos no meio do caminho. Jogamos fora nossos valores. Sem valores, perdemos nossas referências. Sem referências, nos banalizamos. Tornamo-nos mesquinhos, tacanhos.

Somos sexo, somos carne, somos posse. Isto é bom. Mas, às custas de nossas almas? Como animais, vivemos para satisfazer as necessidades mais primárias. Deixamos de lado a doçura de viver um verdadeiro amor. Esquecemos em algum canto o quanto é bom sentir, fazer algo valer a pena, conquistar aquilo que almejamos.

Hoje, sequer sonhamos. Somos tão presos ao instante, ao agora, que, ou nos satisfazemos, ou imediatamente desistimos, de forma um tanto asséptica. Não lutamos mais. Somos, sim, indolentes pós-modernos. Sem o gosto amargo da derrota, da qual sempre nos escondemos, não conseguimos mais apreciar o doce e delicioso sabor de uma vitória, de uma conquista verdadeira.

Somos fracos. Somos superficiais. Somos reféns da aparência. Somos reféns dos números. Somos reféns do tempo. Somos reféns do dinheiro. Somos reféns de uma força que nos espreme até a última gota de suor, e que leva tudo de mais belo que temos no âmago do nosso espírito.  

Confesso que me emocionei ao ver aquele olhar tão puro daquela menininha. Ela não é, pelo menos não ainda, parte desta vivência tão angustiante e sem sentido. Ela encara o mundo com a simplicidade com a qual todos nós devíamos encará-lo. Provavelmente, infelizmente, um dia ela perderá isso. Jogará o maldito jogo. Será mais do mesmo. 

Porém, ao vê-la, ainda sinto esperança. Por mais transitório que seja aquele estado de pureza, de alma absolutamente inocente, ainda me cabe a utopia: quem sabe um dia, de transitório, este estado se torne regra permanente para todos nós, crianças, adultos, idosos? Quem sabe este lindo estar não se torne ser? 

O mundo seria bem melhor. Com toda a certeza.     

2 comentários:

Cristiana Drumond disse...

Gostei muito do seu texto , tudo que voce falou é verdade , nao podemos deixar nos perder no meio do caminho, mas é praticamente impossivel nao fazer isso em alguma parte da vida. E sao os nossos erros que nos tornam humanos. A vida é assim , mas deve haver em algum lugar um proposito pra tudo isso.

Bruno Mello Souza disse...

Oi, Cristiana!

Concordo contigo: a desumanização do ser humano é tão forte e generalizada que, infelizmente, acaba por nos engolir. É quase uma questão de sobrevivência. Uma hora ou outra, acabamos tendo de jogar o jogo, de forma mais pragmática.

Importante é que mantenhamos, em algum canto do coração, aquilo que nossas almas têm de mais puro. É muito difícil, praticamente impossível, e às vezes inclusive temos de violentar este nosso lado. Mas temos de lutar para que sejamos melhores, minimamente que seja.

Volte mais vezes! Sempre será um imenso prazer recebê-la aqui no DC.

Beijo.