quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Inocência

Estava voltando para casa, despretensiosamente, como é o normal, no ônibus. Estava ouvindo minhas músicas no celular, matutando sobre problemas e soluções de uma vida corrida feita de coisas corriqueiras. Enfim, não havia nada de especialmente diferente ocorrendo naquele momento. Porém, alguns acontecimentos um tanto simplórios, quase imperceptíveis, acabam por mudar um dia tão igual aos outros. Nos fazem pensar. São uma experiência muito própria. Isso ocorreu comigo quando surgiu uma mãe com uma menininha linda naquela condução. Aquela criança devia ter uns dois anos, quando muito. Seus olhos, de um castanho bem claro, brilhavam. Era a inocência humana em seu estado mais puro.

Considero o ser humano, de maneira geral, um lixo. Nós, humanos, nos perdemos no meio do caminho. Jogamos fora nossos valores. Sem valores, perdemos nossas referências. Sem referências, nos banalizamos. Tornamo-nos mesquinhos, tacanhos.

Somos sexo, somos carne, somos posse. Isto é bom. Mas, às custas de nossas almas? Como animais, vivemos para satisfazer as necessidades mais primárias. Deixamos de lado a doçura de viver um verdadeiro amor. Esquecemos em algum canto o quanto é bom sentir, fazer algo valer a pena, conquistar aquilo que almejamos.

Hoje, sequer sonhamos. Somos tão presos ao instante, ao agora, que, ou nos satisfazemos, ou imediatamente desistimos, de forma um tanto asséptica. Não lutamos mais. Somos, sim, indolentes pós-modernos. Sem o gosto amargo da derrota, da qual sempre nos escondemos, não conseguimos mais apreciar o doce e delicioso sabor de uma vitória, de uma conquista verdadeira.

Somos fracos. Somos superficiais. Somos reféns da aparência. Somos reféns dos números. Somos reféns do tempo. Somos reféns do dinheiro. Somos reféns de uma força que nos espreme até a última gota de suor, e que leva tudo de mais belo que temos no âmago do nosso espírito.  

Confesso que me emocionei ao ver aquele olhar tão puro daquela menininha. Ela não é, pelo menos não ainda, parte desta vivência tão angustiante e sem sentido. Ela encara o mundo com a simplicidade com a qual todos nós devíamos encará-lo. Provavelmente, infelizmente, um dia ela perderá isso. Jogará o maldito jogo. Será mais do mesmo. 

Porém, ao vê-la, ainda sinto esperança. Por mais transitório que seja aquele estado de pureza, de alma absolutamente inocente, ainda me cabe a utopia: quem sabe um dia, de transitório, este estado se torne regra permanente para todos nós, crianças, adultos, idosos? Quem sabe este lindo estar não se torne ser? 

O mundo seria bem melhor. Com toda a certeza.     

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Stand up

Um comediante de stand up, fazendo sua apresentação:

Comediante: - Sempre que vejo um casal de gays na rua, paro pra pens...
Alguém na plateia: - Ei! Eeeeei! Homofóbico! Intolerante!
Comediante: - Ok, ok... Desculpe... Não quis ofender ninguém... Bom... E aquelas pessoas que pegam pizza de milho no rodízio, hein? É incr...
Alguém na plateia: - Ei! Eeeeei! Eu peço pizza de milho! Algum problema?
Comediante: - Não, não... Problema nenhum... Problema nenhum. Er... Bom, vamos seguir... E a Ana Maria Braga falando com o Louro José, hein? Eu simplesment...
Alguém na plateia: - Ei! Eeeei! Eu tenho um papagaio! E converso com ele todos os dias! Por que fazer piada com isso?
Comediante: - Tá bom, tá bom... Desculpe... Vamos falar de política, então... Os comunistas, por exemplo... São um caso engraçado. Dizem que a religião é o ópio do povo. Mas tratam "O Capital" como se fosse a bíblia! É no mínim...
Alguém na plateia: - Ei! Eeeeei! Sou comunista! Acha bonito debochar de uma causa pela qual tantos lutaram e ainda lutam?
Comediante: - Tá certo... Bom... Falando nisso, e os liberais? Defendem a livre competição e a lei do mais forte no mercado, mas têm medinho da luta de classes! É um contra-sens...
Alguém na plateia: - Ei! Eeeeeei! Eu sou liberal! E você? É vermelho, é? Tem algo contra o liberalismo?
Comediante: - Não, nada contra... Vamos mudar de assunto, então... Alguém se lembra do ET de Varginha? Já repararam que esses ETs sempre aparecem em cidades pequenas do interior? Não me lembro de nenhum ET metropolit...
Alguém na plateia: - Ei! Eeeeei! Eu moro no interior! E já vi um ET! Você acha graça disso?
Comediante: - Tudo bem... Desculpe... Bom... E esses comediantes de stand up, hein? Eu, por exemplo, quando escolhi essa profissão, não sei onde estava com a cab...
Alguém na plateia: - Ei! Eeeeeei! Filho! Aqui é a sua mãe! É pra isso que te criei? Pra ficar em cima de um palco se autodepreciando? Que decepção!
Comediante: - Tá bom. Tá bom... Desisto. Chega. Eita plateiazinha complicada!

O comediante então deu as costas e retirou-se do palco. Sob intensas vaias.  

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Cortesia

Fúlvio, na cafeteria:

- Garçom, me diz uma coisa: quanto custa esse sanduíche aqui, hein?
- Esse de queijo com presunto?
- Isso mesmo.
- Quinze reais.
- Quinze reais? Caramba! Que caro!
- Mas ganha um cafezinho de cortesia, olha o asterisco aqui, ó, senhor.
- Ah, verdade... Bom... Vejamos... E esse só de queijo?
- Cinco reais.
- Hum... E tem o cafezinho de cortesia?
- Não, senhor. Neste, não.
- Bom... Difícil, isso... É... Vou querer o de queijo e presunto. E já traz o cafezinho de cortesia.
- É pra já, senhor.
- Ué... O que o pessoal tá me olhando. Eeeei! Eeeei! Qual a graça, seus trouxas? Eu tô ganhando cafezinho de cortesia! E vocês?

Neste exato momento, todos os presentes caíram na gargalhada.

domingo, 27 de novembro de 2011

Jogo para começar a desenhar 2012

O Inter está bem escalado para o jogo desta tarde contra o Flamengo, em Macaé. Minha única objeção é a presença de Bolívar, que, além de por si só ser uma temeridade, ainda desloca o melhor zagueiro do elenco Colorado, Rodrigo Moledo, para o lado onde rende menos. De resto, no entanto, a proposta é de um time dinâmico no meio campo, com os volantes Guiñazu e Tinga acompanhados dos meias D'alessandro e Oscar, e com boa presença ofensiva, proporcionada por dois homens no ataque, Gilberto e Damião  

Durante a semana, D'alessandro falou em entrevista coletiva que Oscar tem tudo para ser o jogador-chave da partida de logo mais. Observando a provável escalação flamenguista, no 3-5-2, penso exatamente o mesmo. Se jogar com inteligência, o Inter pode matar a sobra da zaga rubro-negra, passando para uma espécie de 4-3-3, com Damião em cima do líbero, e Gilberto e Oscar abrindo como ponteiros. Oscar, portanto, taticamente tem tudo para ser o diferencial, compondo o meio sem a bola, e juntando-se aos dois atacantes quando o time estiver com a redonda, colaborando para abrir generosos espaços na defesa adversária, espaços estes que poderão ser muito bem explorados com a criatividade de D'alessandro e a velocidade do ataque.

Portanto, desenha-se, em tese, um jogo interessante para o Colorado, em termos estratégicos. Em tese. Luxemburgo é uma raposa. Ainda que não seja o Luxa de outrora, ainda pode preparar uma surpresa no modo de sua equipe atuar. Além disso, fica a certeza típica dos times dirigidos por ele, quando jogam com o mando de campo: o Flamengo vai partir com tudo para cima. Tem jogadores como Thiago Neves e Ronaldinho mão-na-massa Gaúcho que, num espasmo, podem decidir a partida. Principalmente nos primeiros minutos de jogo, o time carioca vai tentar pressionar no acanhado estádio de Macaé. Mas, resistindo à pressão inicial, o Internacional pode passar a tomar as ações do jogo, aproveitando-se do momento turbulento da equipe adversária.

Acima de tudo, é uma decisão. Não, não se deve comemorar vagas como se comemoram títulos. Deixemos isso para quem não ganha títulos. Porém, é um jogo que pode traçar a temporada de 2012 de ambas as equipes. Vale, desde já, a possibilidade de o Inter buscar o Tri da América e o Bi Mundial no próximo ano. Por isso, o jogo vale muito. É dia para ter sangue nos olhos.

sábado, 26 de novembro de 2011

Contra-ataque fulminante

E lá vai o Flamengo no contra-ataque em velocidade...

É fulminante!

Ronaldinho toca na bola...

São cinco contra um!

Ele levanta a cabeça!

Vai bater de longe...

Bateu, bateu, bateu...

Gooool!

Ronaldinho Gaúcho!

Que gol gozado!

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Ícaro e o sol

Um dia luminoso está nascendo pela janela.
Renovo-me na esperança de que algo novo aconteça.
Foram-se aqueles momentos, pintados no quadro de minhas lembranças.
E eu o observo todas as noites.

Você é o sol que brilha, sempre e sempre.
Te olhar agride minha retina.
Mas quero tocá-la, como um Ícaro alucinado e sonhador.
Queimo minhas asas, caio e levanto.

Não sei desistir, não sei abandonar aquilo que pertence ao meu íntimo.
Pode parecer fraqueza, mas estou convencido de que isto é demonstração de força.
Se não se vive para ao menos buscar nossos sonhos, para que viver, então?
E se o coração ainda pulsa, por que deixar de lutar?

"O que não me mata, me fortalece", diria o filósofo.
As feridas me deixam mais resistente, são motivo de orgulho.
E mesmo que eu esteja remando contra a maré, acreditarei sempre, pois tenho a força da vida.
Se ainda estou em pé, existe algum motivo para isso: eis minha certeza. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Vestido de cabelo

Pedro e Sérgio, conversando na lancheria:

- E aí, Pedro? Você viu aquela do vestido feito de cabelo humano?
- Não, não vi... Do que se trata?
- De um vestido feito de cabelo humano.
- Aaaaah... Tá certo... Perspicaz você, hein, Sérgio?
- Gostou?
- Do vestido ou da tirada?
- Dos dois!
- Da tirada, não. Do vestido, sim.
- Você achou legal um vestido feito de cabelo?
- E por que não acharia? Deve ser interessante. E a manutenção também não deve ser difícil. Ao invés de lavar com sabão em pó, você lava com shampoo! Ao invés de passar, você penteia! E pode variar o visual, usar um gelzinho de vez em quando, tranças, dreads... Acho uma ideia interessante! Minha namorada iria adorar!
- Namorada?
- Sim, sim... Voltei com a Lígia... Resolvi perdoar a história do fígado.
- Ufa! Você não sabe o quanto fico feliz! Um fígado não pode arruinar um grande amor!
- O coração sempre vai ser mais importante do que o fígado, Sérgio! Leve isso para a vida.
- Que lindo isso, Pedro... Mas, voltando à questão do vestido... Isso pode ter um lado negativo... As mulheres podem passar o triplo do tempo no salão de beleza! Chapinha, escova, permanente... Na cabeça e no vestido!
- É... Talvez você tenha razão... Acho uma péssima ideia. 
- Péssima.
- Horrível! Horrível!
- Pois eu não disse?   

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Nudez e protesto

Tá na moda pelo mundo esse negócio de mulheres protestarem nuas. Eu acho exótico. Mas, acima de tudo, acho um contra-senso. Porque as mulheres que ficam nuas, pelo menos a maioria das que vejo em algumas das fotos destes protestos, são maravilhosas! Cadê o protesto?

Protestos devem causar incômodo ao alvo do protesto. Mulheres bonitas nuas não o causam. Só se o alvo do protesto for gay, ou mulher (e mulher heterossexual, evidentemente). Mulheres bonitas nuas são legais. É difícil que elas causem incômodo!

Se eu fosse um governante, e belas mulheres nuas protestassem em frente ao Palácio do Governo contra, sei lá, os impostos, sabem o que eu faria imediatamente? Aumentaria os impostos! Quero mais beldades nuas! Mais e mais!

Para nudez feminina ser protesto, isso só poderia ser dado se levassem a Dilma pelada. Ou a Angela Merkel. Aí, sim. É para o sujeito ter pesadelos por anos a fio. Atentado contra os direitos humanos mais básicos! "Reduzo os impostos! Vão a zero! Mas tirem essa coisa da minha frente, pelo amor de Deus!" No entanto, é só nesses casos que funcionaria, mesmo... 

Se nudez fosse protesto, a Nana Gouveia seria militante do PSTU. E o site do Ego seria de esquerda: "Olha lá, a Nicole Bahls protestando! Que moça engajada! E a Juju, então? A revolução está estourando naquele peito! Ah, não! É só o silicone..."

Hoje em dia, está tudo banalizado, mesmo. Qualquer coisa é protesto e engajamento político. Para mim, estes protestos "alternativos" se resumem a apenas uma coisa, que não chega a ser lá muito ideológica: vontade de aparecer. Simples como uma disputa de cara e coroa. É uma maneira de transformar um capricho/desejo individual em algo que de alguma forma ganha contornos de nobreza. Os rebeldes sem causa tornaram-se rebeldes sem calça.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Pensamentos de um jovem de ressaca ao acordar após uma noite louca

Uau... Que noite...

Dor de cabeça...

Ainda tô cansadaço...

Podia dormir mais doze horas, sem problemas...

Nossa... 

Não consigo lembrar de nada que aconteceu depois daquela rodada de tequila...

Nem me lembro como cheguei aqui em casa...

Mas cheguei...

Que bom...

Ô, minha caminha, como eu gosto de você...

Ops... O que é isso?

Puta que pariu! Que merda que eu fiz?

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Esnobe

- Oi, moça... Posso saber o seu nome?
- Oi... Meu nome é Maria.
- Hum... Bonito nome... O meu é Márcio. Você vem sempre aqui?
- Sim! Venho há anos!
- Pois é... Eu estou vindo pela primeira vez...
- É... Tenho notado que anda caindo o nível do pessoal que vem aqui...
- Hehe... Me diga uma coisa... Que carne você vai comprar?
- Picanha...
- Picanha é uma boa carne.
- É... É mesmo...
- Eu vou comprar paleta. 
- Pfff...
- Qualquer dia podíamos marcar um churrasco na minha casa, de repente...
- Desculpa... Não saio com homens que comem paleta. No mínimo, no mínimo, coxão mole...
- Ok! Ok! Mas você vai ver! Um dia ainda vou desfilar por aí com um filé mignon bem macio na sacola... E não vou nem olhar na sua cara... Grave isso!
- Tá bom, tá bom, "Senhor Carne de Segunda"...
- O que vale é o coração, viu? Você é muito superficial, mesmo... Conheço muitas marias-espeto como você! Julgam um homem apenas pela carne que ele pode comprar!
- Tá certo, menininho romântico da mamãe... O que vale é o coração, mesmo... Por isso vou comprar dois quilos! Pena que você não tem dinheiro pra isso, né?
- Esnobe!
- Comedor de pelanca!
- Vou sair daqui antes que me irrite! Tchau!   
- Bye, bye! Até nunca mais!

domingo, 20 de novembro de 2011

Mostrando as compras...

- Ô, filhão! Finalmente chegou, hein? Vem aqui tomar um champagne! Acabamos de jantar. Mas acho que ainda tem um pouco de magret de pato ao perfume de mel e especiarias. 
- Ô, pai, Já comi uma vitela ao Porto e compota de frutas secas na rua. Mas muito obrigado.
- E aí, como foram as compras?
- Foram ótimas! Acho que caprichei nas escolhas! 
- E o que você comprou? 
- Não comprei muita coisa... Olha aqui, ó... Três gravatas, duas camisas sociais, uma camiseta do Che Guevara, dois ternos, um par de sapatos, quatro blazers...
- Espera um pouco, espera um pouco...
- O que foi?
- Tem algo errado nessas compras... Algo muito, muito errado!
- Er... O que exatamente? Não é o que você está pensando...
- É o que estou pensando, sim!
- Pai... Eu posso explicar...
- Um blazer bege? Você comprou um blazer bege? 
- É... Comprei....
- Eu já tinha notado que você andava com um comportamento estranho... Mas... Comprar um blazer bege? Suma da minha frente! Não te criei para ter esse desgosto! Um blazer bege? Bege?
- Mas... Pai... Eu gosto de bege...
- Não, não e não! Não quero ouvir mais nada! Fora daqui! Fora! Fora! Que vergonha, meu Deus! Que vergonha! 
  

sábado, 19 de novembro de 2011

Horas percorridas...

Amanheceu.

Tudo novo de novo.

Uma espécie de renascimento.

Ar puro que invade os pulmões.

Passar de horas, readaptação, readequação.

Reencontro com um destino já bem conhecido.

Lembranças de um passado que não passou.

Não há nada de novo, de novo.

Resta a sobrevivência, a espera pelo amanhã.

Sim, já escureceu...

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Tecnologia

- Mão na cabeça! Mão na cabeça! Perdeu! Perdeu!
- Calma, calma... Por favor, vamos manter a calma.
- Passa o dinheiro aí, rapá! Rápido! Rápido!
- Mas... Eu estou sem dinheiro. Só tenho o cartão.
- Tá bom, tá bom... Débito ou crédito?
- O quê? 
- Débito ou crédito?
- Hein?
- Tá aqui a maquineta. E aí? Cem reais e estamos conversados.
- Hã... Bom... Tá... Pode ser débito, então...
- Beleza, põe a senha aí rápido, se não eu arrebento os seus miolos!
- Certo, certo... Pronto...
- Isso, muito bem! Tá aqui o seu comprovante, ok?
- Ok... Er... Obrigado.
- De nada! Volte sempre!  

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Rivalidade

Rogério e Vitor se detestavam. Eram de turmas rivais da sétima série na escola. A 71 e a 73. Entre eles, não havia o mínimo de afinidade. Rogério era colorado. Vitor, gremista. Rogério era zagueiro. Vitor, atacante. Rogério gostava de pizza. Vitor, de churrasco. Rogério gostava do Batman. Vitor, do Super-Homem. A única coisa em comum entre os dois era uma garota chamada Letícia. Loira. Estonteante. Dona do mais encantador olhar de desprezo do colégio. Os dois eram apaixonadíssimos pela garota. E ela não dava bola para nenhum dos dois.

Certa feita, a escola organizou um torneio de futebol, como ocorria todos os anos. Meninas não percebem, mas, para meninos de 12, 13 anos, torneios de futebol são uma espécie de oportunidade ímpar para se exibir. Eles se matam dentro do campo para mostrar habilidade e amor à camisa para as donzelas nas arquibancadas. E elas ficam chupando pirulito, fingindo-se de interessadas, esperando que aquela chatice acabe logo.

Por coincidência, ou não, a grande final do torneio foi entre as turmas 71 e 73. Lá estavam Rogério e Vitor, zagueiro e atacante, frente a frente dentro de campo. Lá estava Letícia, do lado de fora, com o pirulito na boca. Era o duelo do século. Questão de vida ou morte. Coisa de homem, de quem tem mais culhão que o outro. Se você é mulher e está lendo isso, não tente entender. É uma lógica muito própria da masculinidade. 

O jogo transcorreu duríssimo. Divididas, carrinhos, balões. Vez por outra, os jogadores se engalfinhavam com o árbitro para decidir de quem era o arremesso lateral. Levava quem cuspia mais na cara do pobre juiz enquanto gritava. Tal era o nível de competitividade, que não saía gol. Entre uma botinada e outra, o tempo passou, e a partida chegou aos acréscimos. Zero a zero. Parecia que tudo seria decidido na loteria dos pênaltis.

No último lance, porém, veio o ápice, o clímax, a dramaticidade digna de uma partida de final de Libertadores. Um lançamento preciso encontrou, na corrida, Vitor. Cara a cara com o gol. No mesmo embalo, vinha Rogério, na marcação. Vitor iria fazer o gol do título. Rogério não podia deixar essa tragédia acontecer. Letícia estava lá, vendo tudo, com o pirulito na boca. 

Então, o zagueiro não teve dúvidas: deu dois passos largos, com as pernas destruídas, amortecidas de tanto ácido lático, e chutou, ele mesmo, contra o próprio gol. Rogério sacrificou seu nome, e fez o gol contra, para que Vitor não provasse o sabor daquela glória. A turma 73 era campeã do torneio do colégio. Mas ele, Rogério, estava particularmente satisfeito: não deixou Vitor ser o herói do jogo. Após o gol contra, olhou para a tela de proteção do campo, e fez um coraçãozinho com a mão para a amada. 

Ao apito final, os colegas partiram para cima de Rogério, evidentemente enfurecidos. Vitor, por sua vez, comemorava o título à distância do restante do time, meio contido, um tanto irritado por não ter feito o gol para Letícia. 

E Letícia deu as costas, com o pirulito na boca. 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Velório

Sérgio, no velório do amigo Leandro, conversando com a mãe do falecido:

- Meus pêsames, dona Elza. Foi um trágico acidente.
- Muito obrigada, Sérgio. Meu filho era de ouro.
- Com certeza. Um grande amigo.
- Sim, eu sei que ele era. Leal, sincero, bem-humorado, honesto, pontual...
- Bom... Quanto à pontualidade... Sabe... Na verdade ele estava há dois meses me devendo um dinheiro... Duzentos reais.
- Er... O que você está querendo dizer?
- Não, não, nada! Só que ele está, ou estava, me devendo... Nada demais.
- Espera aí... Você está tendo a cara de pau de cobrar uma dívida do meu filho no velório dele?
- Claro que não! Podemos trocar os telefones, de repente acertar isso depois... Sei que o momento é de dor imensa.
- Ah! Você está me cobrando mesmo? Fora daqui! Fora daqui!   
- Mas... Mas... Não precisa gritar! Se acalme! Pelo menos deixe eu pegar seu telefone!
- Fora!
- Podemos acertar um parcelamento...
- Fora!
- Duas de cem... Três vezes de sessenta e seis com sessenta e sete, quem sabe?
- Fora daqui!!!

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Miragens

Já andei por campos floridos, onde os animais passeavam alegremente. Vasculhei bosques, colhi maçãs, me perdi em meus próprios labirintos. Sonhei. Ah! Como eu sonhei! Lutei. Ah! Como eu lutei! E caminhei. Caminhei, caminhei, caminhei. E cansei.

Não mais que de repente, me dei conta de que tudo aquilo não passava de miragem. Os animais, as flores, as árvores, os lagos... Nada daquilo existia. Estava sozinho no deserto. A vida mentiu para mim. Eu mesmo menti para mim.

Hoje, depois de tantos caminhos e descaminhos, parei aqui, ando por sobre o gelo. Ainda sozinho. Neve, frio, melancolia polar. Mas algum dia foi diferente? Não, acho que não foi. Sou humano. Não vivo de miragens. Preciso de água.

Posso estar errando novamente, o que não seria exatamente novidade. No entanto, tento mudar, sim. Desisti do pote de ouro depois do arco-íris. Desisti de uma parte de mim mesmo.

domingo, 13 de novembro de 2011

Sensações incômodas do presente do Colorado

O Inter me irrita. E como não se irritar com uma equipe de folha grande e futebol pequeno?

O Inter me constrange. E como não se constranger com um time que se esforça para ser incompetente, que desperdiça chances, que joga no lixo todas as oportunidades que lhe aparecem pela frente?

O Inter me incomoda. E como não ficar incomodado vendo ex-jogadores dando de cacique, jogo após jogo? Como não ficar incomodado com as negociações mal-feitas, com a falta de planejamento, com contratações miseravelmente ruins, e para as posições erradas?

O Inter me entristece. E como não se entristecer com um time que joga um futebol melancólico, que não tem "sangue nos olhos", que se acomoda com a primeira dificuldade surgida em seu caminho?

O Inter me preocupa. E como não se preocupar com um clube que tem um Presidente fraco e indeciso? Como não se preocupar com um clube cujo vice de futebol não entende nada de futebol? Como não se preocupar com um clube que vai passar mais um ano nas mãos dessa gente?

O Inter precisa urgentemente de uma limpeza. E esta começa pelo seu Presidente.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Massagem

Pedro e Sérgio, conversando na lancheria:

- Que irritação é essa, Sérgio? Aconteceu alguma coisa?
- Sim! Aconteceu!
- E o que foi?
- Fui enganado! Lembra do mau jeito que eu dei nas costas no domingo?
- Sim, sim. Foi patético! Você parecia uma menininha gemendo de dor.
- Pois então... Minhas costas continuam doendo. Uma coisa insuportável. Eu tinha que resolver isso. Precisava de uma massagem. Então, recebi um papelzinho com um anúncio de uma casa de massagem. E, vou te dizer uma coisa: tá vendo aqui o papelzinho? Nunca, Pedro, nunca vá nessa porcaria! Foi a experiência mais absurda da minha vida. Quando cheguei na sala de massagem, a massagista começou a tirar a roupa! Uma falta de profissionalismo absurda! E, mais ainda! Queria transar comigo! Nunca tinha visto isso! Não sabia que eu era tão sedutor assim. 
- Não, você não é.
- Mas era uma coisa avassaladora! Me levantei, saí da sala de massagem, chamei a gerente, e ela não quis devolver o dinheiro! Briguei, discuti, e fiquei a ver navios. Fui completamente enganado! Acho que vou entrar no Procon! E o pior de tudo: além de ter perdido a grana com uma ninfomaníaca anti-profissional, continuo com essa dor nas costas.
- Você achou ela anti-profissional?
- Mas é óbvio! Você percebe o que aconteceu? Completamente anti-profissional. Acho que viola todas as normas da Associação Mundial de Massagistas.
- Bom... Me parece que ela era bem profissional. Mas é só uma impressão...
   

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Fitas

Pedro foi passar o fim de semana com os pais, dona Cristina e seu Paulo, no interior. Às 8 horas da manhã de domingo, estavam os três tomando café da manhã;

Mãe do Pedro: - E aí, filho? Dormiu bem essa noite?
Pedro: - Pois é, mãe... Tive algumas dificuldades. O vizinho fez muito barulho.
Mãe do Pedro: - Ah, aqui nós já estamos acostumados, não é, Paulo?
Pai do Pedro: - É verdade. Mas você podia ter me acordado e avisado. Eu tenho umas fitas que uso para relaxar quando estou estressado.
Mãe do Pedro: - Ah, não, Paulo... Não me venha com essas fitas...
Pedro: - Que fitas?
Pai do Pedro: - São fitas cassete, que sempre coloco no walkman.
Pedro: - E que tipo de música tem nelas?
Pai do Pedro: - Não são músicas. Há alguns anos, sua finada avó veio passar uns meses conosco. E trouxe uma máquina de cortar linguiça. Cortávamos muita linguiça juntos. E eu sempre gravava o som com um velho gravador. Quando começávamos a cortar linguiça, eu apertava o rec. E cada vez que parávamos, eu apertava o pause. Tenho centenas dessas fitas.
Mãe do Pedro: - Não sei porque seu pai ainda não colocou essas porcarias fora. Vê se pode! Ouvir fitas com barulho de máquina de cortar linguiça!
Pai do Pedro: - Não se intrometa, mulher! Estou falando com o meu filho sobre as fitas! São muito relaxantes! Pedro, você quer as fitas?
Pedro: - Olha, pai... Na verdade, não tenho walkman, nem nada...
Pai do Pedro: - Posso te dar o meu walkman!
Pedro: - Não, pai. Eu jamais aceitaria isso!
Pai do Pedro: - Mas você tem computador, não tem?
Pedro: - É... Tenho...
Pai do Pedro: - Então hoje mesmo vou para a cidade mandar digitalizar as fitas.
Pedro: - Não, pai... Não precisa!
Pai do Pedro: - Filho, filho... Eu faço questão.
Pedro: - Tá bom, pai! Tá bom! Manda digitalizar as fitas da máquina de cortar linguiça, então...
Pai do Pedro: - Assim que se fala, filho!
       

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Zumbis

Mais um dia, menos um dia.
Somos os mesmos de sempre, mas ainda não sabemos quem somos.
Sim, existem momentos em que lutamos até o fim.
Mas também precisamos descansar.

Então olhe ao seu redor.
Somos zumbis, estamos confortáveis.
Ela dança, ela me enlouquece.
Ela está pronta para me assassinar.

Cai a água da chuva, mas permaneceremos sujos para sempre.
Fujo, corro, mas entrego-me à maldição.
Agora ficou tudo mais claro, cada momento não passou de uma tolice, uma mentira.
Mas ninguém conseguirá nos salvar de nós mesmos.

Ossos no chão, graça que não pedimos.
O inferno é a nossa mente.
Estamos queimando, estamos ardendo, estamos nos deparando com a peste que nos consome.
E ninguém se importará, pois os espíritos estão famintos por sangue, eles vão nos rasgar de dentro para fora.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Teste de visão

Pedro e Sérgio, conversando na lancheria:

- E aí, Pedro? Como é que você está?
- Estou tranquilo! E você, Sérgio?
- Tudo bem... Mas acabo de sair de um exame de visão. Fui reprovado. Minha miopia aumentou.
- Nossa... Mas não tem problema. Talvez seja uma boa chance de você fazer uns óculos novos... Porque esses aí...
- O que tem eles? Eu gosto dos meus óculos...
- Bom... Gosto é gosto. Acho meio espalhafatosos.
- E eu acho bonitos! De qualquer maneira, detesto ser reprovado... Mesmo que seja em um exame de visão. Fico constrangido. Sorte sua que nunca passou por isso, e não teve que fazer óculos.
- É... É uma meia verdade. Já fui reprovado num exame de visão. Mas era um exame diferente de tudo que já vi na vida. Ao invés de letrinhas, me mostraram um pôster da Hebe. Fui reprovado. Vi a Jennifer Aniston naquela foto.
- Ué! E o que deu? Algum problema de visão?
- Não, não. Eu tava bêbado, mesmo.   

domingo, 6 de novembro de 2011

Vencer, ganhar ou triunfar

O jogo do final da tarde de hoje é decisivo para qualquer ambição que o Colorado possa ter de vaga na Libertadores ou mesmo de título. O adversário é forte. O Fluminense é, não esqueçamos, o atual campeão nacional. E tem velhos conhecidos do Internacional: Abelão, Sóbis e Edinho. Personagens de grande importância para a história do clube alvirrubro.

Entretanto, durante os noventa minutos, todo e qualquer tipo de afeto e gratidão devem ficar fora das quatro linhas. Ali, no gramado do Beira-Rio, o Inter tem que, sim ou sim, vencer o tricolor carioca. Lutar em cada dividida. Buscar incessantemente os três pontos. É obrigação do Colorado vencer.

A cota de tropeços do Internacional no Brasileirão já se esgotou há algum tempo. O engraçado é que, mesmo com todos os contratempos, com o tempo e os pontos perdidos com Bolívares, Jôs e Delatorres da vida, o Inter ainda está no páreo pela Libertadores e com chances, mínimas que sejam, de título. Há alguns anos o Campeonato Brasileiro suplica: "Me ganha, Inter! Me ganha!". Porém, mais uma vez, parece que vai ficar para outra vez. O Colorado faz um esforço hercúleo para não ser Campeão Brasileiro. E tem sido bem-sucedido nesse intento.

Leite derramado à parte, fato é que está colocado o imperativo da vitória. Tem que ganhar, nem que seja na marra, no grito, no "vamo que vamo". Ao longo da temporada, o Internacional errou demais. Exatamente por isso, não pode errar mais.

sábado, 5 de novembro de 2011

Reencontro

- Olá, Débora! Quanto tempo, hein?
- Oi, Fernando! Pois é! Faz uns cinco anos, né?
- Pois é... Aquela fatídica noite...
- Mas você não guarda mágoa, né?
- Mágoa? Eu? Só porque te encontrei na cama com o meu irmão? Não, claro que não!
- Poxa, que bom...
- Não sou rancoroso.
- Fico feliz! Alías, você está bem mudado! Ficou muito bem com esse corte de cabelo!
- Obrigado! Você também mudou bastante... A propósito, você por acaso está com hipotireoidismo?
- Hipotireoidismo? Não, pelo menos não que eu saiba... Por quê?
- Não, não... Por nada...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O presente de aniversário

Clarissa conversando com o filho Diogo:

- Filho, faltam duas semanas para o seu aniversário, né?
- Pois é... Finalmente serei maior de idade!
- É um momento lindo, mesmo... E, me diz uma coisa: o que você vai querer de presente?
- Ah, mãe... Deixa eu pensar... Podia ser um cd do Sex Pistols.
- Sexo o quê? É alguma pornografia?
- Não, mãe. Sex Pistols. É uma banda punk, rebelde, dos anos 70.
- Ah, tá. Vou providenciar.
- Apesar de estarmos na era do download, é sempre bacana ter o negócio materializado, com encarte, e tal. Quer anotar o nome da banda?
- Não, não precisa filho. Não tem como esquecer.

1 semana depois, na loja de discos:

- Boa tarde, moço. Estou procurando um cd para o meu filho. Tá difícil lembrar o nome... Mas é uma banda que tem alguma coisa a ver com rebeldia, rebelde...
- Seria o cd dos Rebeldes?
- Hum... É... Deve ser...
- É só passar aqui, senhora...

1 semana depois, já no aniversário de Diogo:

- Filho, feliz aniversário!
- Obrigado, mãe!
- Tá aqui o presente que você pediu!
- Opa! Valeu!
- Abre aí!
- Já vou, já vou... Aqui, isso... Opa... Um cd... Dos Rebeldes!?
- Sim! Era isso que você queria, né?
- Er... Hum... Uhum... Obrigado...
- De nada, filho! Você merece!
- Ô, se mereço...  

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

261011

Nas profundezas, vozes me chamam.
Querem me levar, querem que eu vá.
Mas ainda é tão cedo, meu amigo!
Estão me consumindo, estão me corroendo.

Amanhã parece um dia muito longínquo.
Mas talvez todos aqueles que não se importam se importarão.
Eu quero ficar mais um pouco, ainda tenho algo por fazer.
Me segure aqui, amigo, não me deixe ir agora.

Todo o meu arrependimento transborda, mas o tempo não volta.
Me vi maior que tudo e hoje apenas suplico.
Misericórdia, piedade, ressurreição...
Tentarei errar o mínimo possível.

Jamais pensei estar aqui desse jeito.
Medo e dor invadindo minha alma.
Ainda não encontrei minhas respostas.
Será que é tarde demais?  

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Peixe

Pedro e Sérgio, conversando na lancheria:

- E aí, Sérgio? O que você andou fazendo no fim de semana?
- Fui à praia. Passei um dia por lá. Tomei banho de mar, tomei umas caipirinhas. E aconteceu algo incrível.
- E o que foi que aconteceu? Fiquei curioso.
- Tinha um cara vendendo sorvete na beira da praia. E eu fui comprar um. De baunilha. Bem onde estávamos parados, tinha um peixe morto no chão. Bom, quando ele me entregou o sorvete, caiu um pouco, bem na boca do peixe! E sabe o que mais? O peixe engoliu o sorvete!
- Ah, conta outra, Sérgio!
- É sério! Eu juro. Mas o pior vem depois. Quando eu ia colocar a cobertura no sorvete, o peixe começou a falar: "Vem, molho! Vem, molho! Vem, molho!"
- Peraí... Não, não, não, não, não. Você não quer, honestamente, que eu acredite nessa história absurda, né?
- Eu juro! Foi aterrorizante.
- E o que você fez? Começou a conversar sobre a crise dos Estados Unidos? Sobre a ocupação em Wall Street?
- Ha, ha, ha, engraçadinho. Eu saí correndo e gritando.
- Ah, agora melhorou muito. Você saiu correndo de um peixe morto falante.
- Ué, o que você faria nessa situação?
- Bom... Talvez eu procurasse aqueles caras que vendem tapetes e tecidos, sabe? E compraria um tapete voador! Hahahahahaha.
- Isso não tem graça, Pedro! Não tem graça nenhuma!
- Só uma pequena dúvida. Não me leve a mal. Isso aconteceu antes ou depois das caipirinhas?
- Hum... Depois.
- Ah, tá...      

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Bomba-relógio

Mais um dia adormece, mais uma noite promissora desperta.
Estamos todos prontos para a nossa grande celebração.
Dançando, vencendo, entregando nossa alma por algumas horas de amor artificial.
Somos a felicidade, a tristeza, o sorriso e a dor.

Chegue mais perto, descubra uma nova face no espelho.
Há demônios nos atormentando em meio ao cheiro de fumaça.
Estamos mortos, estamos nos decompondo, mas a energia permanece pulsando.
Gargalhadas ao fundo, presos em uma armadilha da qual não queremos escapar.

Me ensine alguma lição, pois estou fraco, mas me sinto forte.
O relógio corre, meu coração acelera junto.
Sim, agora sou uma bomba-relógio, e tudo pode ir para os ares a qualquer momento.
Sorrisos de maldade e dor incontida me seduzem em cada canto.

Estou fugindo de mim mesmo, mas não estou assustado.
Quando o sol raiar, estarei no chão, cansado de tudo que se passou.
Instintos aflorados, minha mente se abre em meio a estas luzes que fazem questão de me enganar.
Purificação distorcida, talvez um único caminho sem volta.

Liberdade disfarçada, correntes imaginárias em meus braços e pernas.
Sem um destino, nos tornamos sonhos que ficaram perdidos pela estrada.
Aqui já não há esperança, mas todos queremos ressuscitar.
É difícil de entender, chuva e fogo, estamos queimando, mas não precisava ser desse jeito.