quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Um drama pessoal

- Pai, o que você está fazendo aí sozinho?
- Nada, filho. Nada...
- Você está chorando?
- Não, não... Impressão sua...
- Está sim... Me conte o que aconteceu. Nunca te vi chorando antes...
- Ah, filho, deixa pra lá...
- Pode se abrir comigo. 
- Já faz muito tempo... Você era criança... Nem vai lembrar...
- Mas não importa! Diga o que está te angustiando.
- Sabe, filho... Há momentos que marcam a vida de um homem. Momentos que para sempre ficam guardados, e acabam vindo à tona num turbilhão, provocando uma dor quase insuportável. Tem certeza de que quer ouvir essa história?
- Sim, pai. Tenho certeza.
- Bom... Foi há uns quinze anos. Estava ainda no início do casamento com a sua mãe. Tinha um emprego novo, maravilhoso. Cada dia era uma alegria imensa. Eu me sentia vivo. Realmente vivo. Tudo era perfeito. Você tinha cinco aninhos, e era lindo, alegre e saudável. Tudo dava certo. Eu era um homem realizado. Nessa imensa onda de alegria, um certo dia, eu estava escutando um programa de rádio. E ouvi uma piada. Era sobre um papagaio, uma loira e um português... Nunca ri tanto. Era a piada mais engraçada que eu tinha ouvido em toda a minha vida! Passei dias e dias rindo ao lembrar daquela piada. E passei a contar para mim mesmo, na frente do espelho. Escondido, é claro. Comecei a imitar todos os trejeitos, as vozes. Adotei para mim a missão de tornar aquela piada uma piada perfeita. Acho que passei uns dois meses fazendo isso. Cuidei minuciosamente de cada detalhe, cada frase, cada entonação. Dediquei minha vida àquilo. E alcancei a perfeição. Ah, meu filho, eu alcancei a perfeição absoluta. E então, senti a necessidade de compartilhar esta perfeição. Isso aconteceu num churrasco de família. Todos reunidos, felizes, bêbados, comendo um vazio delicioso e suculento. Levantei-me da mesa, e comecei a contar a piada. E aí, filho querido, aí, começou o meu imenso drama: as pessoas se olhavam com rostos perplexos. Algo do tipo: "O que esse sujeito está fazendo?" Eu me dedicava a executar milimetricamente cada palavra, cada gesto determinado. E, ao final da piada... Ninguém riu. Foi horrível. Um silêncio infernal tomou conta do ambiente. E saí correndo em disparada, chorando como uma criança, com as mãos cobrindo o rosto envergonhado. Sentei à sombra de uma árvore, e lavei meu rosto em lágrimas. Daí por diante, seguiram-se dias de vexame, dor e humilhação. Ninguém falava nada. Mas eu sabia o que todos pensavam. Meu coração não suportava aquilo. Pensei em me matar. Bebia todo santo dia para esquecer aquela dor. Sua mãe não olhava mais para a minha cara. Fui demitido. Minha vida estava afogada em um oceano de sofrimento. Acho que passei um ano assim, bêbado, desempregado, fedendo... Até um dia em que levantei, olhei meu rosto inchado no espelho, e decidi: iria superar aquilo. E aos poucos, superei. Arranjei um emprego, fiz as pazes com sua mãe, parei de beber e de contar piadas... Porém, essa dor ainda existe escondida em algum canto do meu coração. O sofrimento daquele dia ficou marcado a ferro e fogo em minha alma. E, de vez em quando, me pego assim, sozinho, chorando e recordando aquele momento...
- Poxa, pai, que história triste... Vem cá, me dá um abraço. Pare de chorar. E conte comigo sempre, viu? É importante desabafar de vez em quando. Enxugue esse rosto. Agora está tudo bem.
- Obrigado, filho. Muito obrigado!       

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