sábado, 22 de outubro de 2011

Amor de verdade

João e Letícia viviam nas ruas. Não tinham teto, não tinham cobertas. Tinham um ao outro, tão somente. Podia parecer pouco. Mas não, não era.

Talvez fosse exatamente a existência de um para o outro que os mantivesse vivos. João devotava-se a Letícia com amor incondicional. Em noites frias, deixava de dormir para emprestar suas folhas de jornal e cobri-la. Ela jamais soube disso. Se soubesse, certamente não teria aceitado. Muito antes pelo contrário: faria o mesmo.

Assim iam vivendo. Um dia após o outro. Sustentados pela imensa vontade de viver. Revirando latas. Dormindo no chão. Mas sempre com o coração aquecido.

Era uma noite de 24 de dezembro. Enquanto a grande maioria das famílias se fartava com sua ceia de natal, João e Letícia passavam por mais uma noite igual a todas as outras. Jamais tiveram uma ceia. João notara uma certa tristeza profunda e reflexiva no olhar de Letícia. Pensava que podiam ter algo para comer. Não precisava ser muito. Mas não tinham.

O rapaz, então, levantou-se, e deixou Letícia deitada. Saiu a caminhar. Estava decidido a fazer daquela noite uma noite especial. Andou, andou, andou, até encontrar uma casa grande, barulhenta. Ali havia uma ceia gorda, sem sombra de dúvida. João, pois, decidiu postar-se atrás de uma árvore. Esperou por horas e horas. 

Tal espera acabou valendo. Uma senhora, já em alta madrugada, jogou uma sacola na lixeira em frente à imensa casa. Assim que ela adentrou seu recinto, João foi verificar o conteúdo. Era a carcaça de um peru. Tinha pouca carne. Mas pouca carne era alguma carne. Pouca carne era melhor que nenhuma carne.

João, feliz da vida, voltou para a rua onde estava Letícia, já dormindo. Acordou a moça. Apresentou-lhe aquela carcaça. Os olhos dela brilharam. Ela agradeceu-lhe emocionadamente. Era um gesto singelo. Era uma carcaça de peru. Mas era toda a riqueza. Aquilo era o máximo que João poderia conseguir naquela noite. E conseguiu. Isso, para ela, tinha o valor do mais farto e variado banquete. Naquela carcaça, estavam todo o amor de João para com ela. Ali estava o frio e a espera enfrentados corajosamente por aquele rapaz que tanto gostava dela. Não existia prova maior de carinho do que aquela.   

João nem queria comer. Seu prazer era apenas o de admirar sua amada feliz, comendo sua ceia. Estava ali configurada a mais linda das cenas de amor. Amor de verdade. Sim, porque amar não é dividir uma abundância que não precisa ser dividida. Amar é se entregar. Amar é se doar ao outro. Amar é compartilhar o que de mais rico um ser humano possui: seus sentimentos, seu afeto, sua alma. Amar é fazer de si um pouco do outro. E dar ao outro um tanto de si, sem pedir nada em troca. 

Nenhum comentário: