segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Língua

Pedro chega à casa de sua tia Doralice, que está jantando com seu tio João.

Versão 1:

- Oi, tia Doralice!
- Olá, Pedro! Você chegou bem na hora boa! Senta aí, come com a gente!
- Hum... O que tem aí?
- Fiz língua fervida com molho de tomate. 
- Pois é, tia... Já jantei. Muito obrigado.
- Ah, não! Olha como você tá magrinho. Come, nem que seja um pouquinho.
- Não. Sério, tia. Não precisa se dar o trabalho. Ainda vai ser mais louça para a senhora lavar...
- Não tem problema! Vai, senta aí. Peraí que já vou servir.
- Tá bom, tá bom, tia... Mas não precisa colocar muito.
- Pronto, pronto, tá no prato.
- Muito obrigado.
- E aí, o que tá achando?
- Nossa, tia... Tá muito, muito bom... Parabéns.
- Eu sabia que você ia gostar!

10 minutos depois...

- Pronto, tia. Terminei.
- Põe mais um pouquinho, Pedro!
- Não precisa, tia. Estou satisfeito.
- Pega mais um pouco! Você disse que gostou! Não precisa ficar encabulado!
- Muito obrigado, tia...
- Dá o prato aqui! Vou colocar mais, já que você fica se fazendo de rogado!
- Poxa... Não precisava...
- Precisa sim! Ficou bom, né?
- Nossa... Delicioso... Hum... Gurp... Gurp... Blooorgh!
- O que aconteceu, Pedro?
- Desculpa, tia... Deixa que eu limpo esse vômito. Ai, que vergonha!
- Você tá bem?
- Sim, sim...
- Será que foi língua demais? Você devia ter falado que não queria mais!
- Pois é... Não quis fazer desfeita. Pra falar a verdade, nem gosto de língua...
- Que desfeita, que nada! Era só falar! Não precisava comer forçado! É um direito seu não gostar de língua.

Versão 2:

- Oi, tia Doralice!
- Olá, Pedro! Você chegou bem na hora boa! Senta aí, come com a gente!
- Hum... O que tem aí?
- Fiz língua fervida com molho de tomate.
- Pois é, tia... Já jantei. Muito obrigado.
- Ah, não! Olha como você tá magrinho. Come, nem que seja um pouquinho.
- Não. Sério, tia. Não precisa se dar o trabalho. Ainda vai ser mais louça para a senhora lavar...
- Não tem problema! Vai, senta aí. Peraí que já vou servir.
- Não, tia. Não quero mesmo. Não gosto de língua. É sério.
- O quê? Você não gosta de língua? Ouviu, João? O Pedro disse que não gosta de língua!
- É verdade, não gosto mesmo.
- Você não gosta é da minha comida, né?
- Não, tia... Não me entenda mal.
- Por que não fala, hein? A gente cozinha com tanto carinho, com tanto amor, e é assim que as pessoas retribuem. Mas tudo bem... Você não gosta da comida dessa gente pobre, né?
- Tia, desculpe... Não é nada disso... Desculpe mesmo...
- Ô João, faz a sala aí pra ele... Vou por quarto... Boa noite.
- Tia, volta aqui... Outro dia eu prometo que experimento sua língua com molho! Prometo! Não quis ofender a senhora!
 

domingo, 30 de outubro de 2011

Força, Lula!

Lula passou por muitas provações em sua vida. Da infância miserável à consagração como um Presidente com mais de 80% de aprovação, venceu muitos e muitos obstáculos.

Soube, como poucos, lidar com todas as dificuldades. Venceu inimigos que pareciam invencíveis. Não derrubou a muralha do sistema. Mas conseguiu pulá-la.

O ex-Presidente Lula sempre teve fé. Nunca desistiu de seus objetivos. Lula foi, e é, a imagem da perseverança. Errou muito. Mas acertou mais.

A seu modo, e dentro de suas possibilidades, tornou o Brasil um país melhor, com menos desigualdades, com mais oportunidades para aqueles que sempre se viram como objeto secundário dos diversos governos.

O câncer na laringe é apenas mais um adversário na vida de Lula. E Lula vai superá-lo, da mesma maneira como superou tantos e tantos infortúnios, porque ele é, acima de tudo, um vencedor no jogo da vida. 

Mais uma vez, a esperança vencerá o medo.

Força, Lula!     

sábado, 29 de outubro de 2011

No bar

- Olá. Por favor, quanto está a Polar?
- A Polar? Sete pilas.
- Peraí... Er... Acho que não ouvi direito... Quanto está a Polar, mesmo?
- Sete pilas... Sete reais...
- Sete reais?
- Isso, senhor.
- Bom... Tudo bem... Mas... Cadê as garçonetes dançantes?

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Rompimento

Prezada Alessandra Gouveia,

Primeiramente, vou tomar a liberdade de abreviar seu nome. AG fica bom. Pois então, AG... Talvez tenhamos que repensar a nossa relação. Eu estava muito bem, levando a minha vida sozinho, tranquilo. Mas sempre há pressões da família, e a insegurança em relação ao futuro. Foi aí que começamos a nos relacionar. Você, AG, seria a panaceia de minha existência, a solução dos meus problemas.

Passamos a planejar um casamento. Teria de ser coisa longa, duradoura. Tipo, uns 20 anos, no mínimo. Parei tudo que eu estava fazendo por esta relação. Tinha a certeza deste casamento. Por sinal, que seca que estou passando! Nada de sexo, nada de nada! Você sempre exigiu papel passado, querida. Eu, Sílvio Correia Inácio, ou SCI, como quiser, fiel como um cãozinho, segui tudo o que você dizia.

Fato é que o tempo está passando, e me sinto estagnado, angustiado. Começo a achar, sinceramente, que você está me enrolando nessa relação. Sinto que estou vivendo de ilusões. Sempre tem um probleminha, um impeditivo para este casamento. A lista de exigências só aumenta a cada dia. Você desliga o telefone, não responde meus e-mails e mensagens. Não sei, AG, se você está indecisa, ou se está arrependida de algo. Mas a cobrança de minha família está bem grande. Na última semana, perdi um festão porque no convite era exigido um par. Alguns parentes me pressionaram. "Vai lá, Sílvio! Faz alguma coisa! Não deixa essa mulher te enrolar desse jeito! Pressiona antes de perder essa festa!" Porém, eu, esperançoso de seu retorno a tempo, me mantive quietinho, esperando pelo telefone que não tocou. Perdi a festa. Tudo pelo nosso casamento.

Entretanto, paciência tem limite. Acreditei em suas doces palavras. Já tive convicção absoluta de que você era o melhor caminho que eu poderia seguir. Mas a fila anda. Estou repensando muito seriamente isso tudo. Cada vez mais as pessoas me dizem que devo seguir sozinho, com minhas próprias forças. E, quer saber? Estou cada vez mais convencido disso. Talvez seja o melhor. O que foi aquele e-mail frio e distante que você me mandou hoje pela manhã? Era melhor nem ter mandado nada, como você vinha fazendo até então. Até agora, este casamento, mesmo sem ainda ter se concretizado, só fez trazer atribulações e stress. Talvez seja melhor para mim e para você que acabemos logo com esse martírio. Ou será que suportaríamos a convivência de longo prazo, depois de todo esse desgaste? Minhas pequenas manias lhe incomodariam, tenha certeza. E sua megalomania também seria bem incômoda a mim e à minha família, gente simples, sem frescuras.

Quem sabe então, AG, não seguimos nossos caminhos assim mesmo, fingindo que nada disso jamais aconteceu? Você, AG, vai achar vários parceiros capazes de lhe satisfazer, não tenho dúvidas. E eu, SCI, vou seguir sozinho, ainda com minhas incertezas, mas com todo o carinho e apoio dos meus, certo de não ter feito a maior burrada da minha vida. 

Espero, do fundo do coração, que você compreenda os meus motivos.

Cordialmente,
Sílvio Correia Inácio 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Dieta

- Doutor, aqui estão os exames...
- Hum... Vamos ver...
- E aí? Tenho alguma coisa?
- Pois é... Você está com algumas substâncias bem desreguladas. Um negócio bem preocupante.
- E agora? O que eu devo fazer?
- Bom, você terá que tomar alguns cuidados alimentares. Tem que cortar, primeiro, todo e qualquer tipo de salada. Esqueça o radite, esqueça o brócolis, o agrião e a rúcula. Você terá que se alimentar à base de frituras, churrasco, hambúrgueres e doces. Sei que é difícil fazer essa adaptação. Mas é uma questão de preservar a sua vida. Sua saúde tem que estar em primeiro lugar. Ah, e se puder agregar uma cerveja, pelo menos, por dia, tanto melhor.
- Poxa vida, Doutor... Mas... Nem uma folhinha de vez em quando? Assim, ocasionalmente?
- Não, não, não. Nem uma folhinha.
- Mesmo?
- Mesmo.
- Ai, meu Deus, que tristeza...        

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Caos e luta

Olho pela janela, vejo pessoas se destruindo.
Alguém está nos vigiando enquanto colocamos fogo em toda a honra.
Não há fuga, o caos está espalhado.
Pare e pense um pouco antes de matar suas esperanças.

Eis um reino de mentiras e enganos.
Não sabemos onde chegar, mas nos dedicamos a fugir do mal que nos cerca.
O coração acelera, ele chega ao ápice.
Ainda podemos mudar este destino.

Tentam nos fazer parar de sonhar.
Mas lutaremos até o fim por esse direito.
Há uma força mais poderosa do que todos que tentam nos destruir.
Nossas almas estão prontas para superar qualquer desafio.

E cada soldado deste exército tirano vai caindo.
Uma luz ofusca os derrotados, eles voltam ao seu esgoto.
Agora somos uma única certeza.
Sim, tudo vai ficar bem. 


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Criminosos

Valter. 27 anos. Sequestrou e matou um pai de família.

Marcos. 43 anos. Desviou 12 milhões do governo.

Marisa. 22 anos. Espancou e matou o filho de três anos.

Luciano. 30 anos. Invadiu e assaltou mais de dez lares.

Mário. 28 anos. Estuprou e esquartejou seis mulheres.

André. 68 anos. Abusou sexualmente do neto de seis anos.

Roberto. 22 anos. Traficou drogas durante mais de dez anos.

Rafael. 34 anos. Fez uma piada.


domingo, 23 de outubro de 2011

Esportes ao pé da letra

O leitor mais assíduo do DC deve lembrar da história de um amigo meu que leva tudo ao pé da letra (http://dilemascotidianos.blogspot.com/2011/07/ao-pe-da-letra.html). Pois bem, ele andava tendo uma vida muito sedentária. Resolvi, então, incentivá-lo a praticar esportes. Mas não deu muito certo.

Primeiro, ele tentou o mais trivial: futebol. Até estava jogando bem. Porém, na hora de uma falta a favor do time dele, um companheiro gritou: "Chuta a bola no primeiro pau!" E ele obedeceu. Chutou no primeiro pau que viu. Era o do Marcão, colega de equipe. Agora, o Marcão fala fino e não pode ter filhos.

Mesmo com esse contratempo, ele continuou tentando a sorte, até o dia em que o treinador pediu que penetrasse por trás do lateral e cruzasse. O cidadão baixou o calção dele, o do adversário, e o cara, lógico, saiu correndo. Foi um horror... Ali, ficou sepultada sua carreira futebolística.

No entanto, ele continuou querendo praticar esportes. No basquete, teve vida curta. Na sua primeira partida, levou vinho, e o técnico achou um desrespeito. Tudo isso porque tinham dito para ele jogar perto do garrafão...

Fora do basquete, o vivente tentou a sorte no vôlei. Foi patético. Quando disseram que era a vez dele fazer o saque, saiu correndo desesperado atrás de um caixa eletrônico. Depois, os companheiros orientaram-no a dar uma manchete quando a bola viesse em sua direção. Não deu outra. Enquanto a bola vinha, ele começou: "Pesquisadores de Harvard fizeram um estudo..."

Sua última tentativa foi o boxe. Não tinha muito erro. Era só dar socos. Entretanto, novamente deu problema. Por ocasião de sua estreia no esporte, quando o juiz anunciou o primeiro assalto, ele jogou spray de pimenta nos olhos do coitado e chamou a polícia. Um vexame só.

Por fim, desistiu. Está tentando agregar adeptos para um esporte maluco que criou: o futebol de teclado. A ideia-base é que este jogo também seja praticado com o pé. Da letra.     

sábado, 22 de outubro de 2011

Amor de verdade

João e Letícia viviam nas ruas. Não tinham teto, não tinham cobertas. Tinham um ao outro, tão somente. Podia parecer pouco. Mas não, não era.

Talvez fosse exatamente a existência de um para o outro que os mantivesse vivos. João devotava-se a Letícia com amor incondicional. Em noites frias, deixava de dormir para emprestar suas folhas de jornal e cobri-la. Ela jamais soube disso. Se soubesse, certamente não teria aceitado. Muito antes pelo contrário: faria o mesmo.

Assim iam vivendo. Um dia após o outro. Sustentados pela imensa vontade de viver. Revirando latas. Dormindo no chão. Mas sempre com o coração aquecido.

Era uma noite de 24 de dezembro. Enquanto a grande maioria das famílias se fartava com sua ceia de natal, João e Letícia passavam por mais uma noite igual a todas as outras. Jamais tiveram uma ceia. João notara uma certa tristeza profunda e reflexiva no olhar de Letícia. Pensava que podiam ter algo para comer. Não precisava ser muito. Mas não tinham.

O rapaz, então, levantou-se, e deixou Letícia deitada. Saiu a caminhar. Estava decidido a fazer daquela noite uma noite especial. Andou, andou, andou, até encontrar uma casa grande, barulhenta. Ali havia uma ceia gorda, sem sombra de dúvida. João, pois, decidiu postar-se atrás de uma árvore. Esperou por horas e horas. 

Tal espera acabou valendo. Uma senhora, já em alta madrugada, jogou uma sacola na lixeira em frente à imensa casa. Assim que ela adentrou seu recinto, João foi verificar o conteúdo. Era a carcaça de um peru. Tinha pouca carne. Mas pouca carne era alguma carne. Pouca carne era melhor que nenhuma carne.

João, feliz da vida, voltou para a rua onde estava Letícia, já dormindo. Acordou a moça. Apresentou-lhe aquela carcaça. Os olhos dela brilharam. Ela agradeceu-lhe emocionadamente. Era um gesto singelo. Era uma carcaça de peru. Mas era toda a riqueza. Aquilo era o máximo que João poderia conseguir naquela noite. E conseguiu. Isso, para ela, tinha o valor do mais farto e variado banquete. Naquela carcaça, estavam todo o amor de João para com ela. Ali estava o frio e a espera enfrentados corajosamente por aquele rapaz que tanto gostava dela. Não existia prova maior de carinho do que aquela.   

João nem queria comer. Seu prazer era apenas o de admirar sua amada feliz, comendo sua ceia. Estava ali configurada a mais linda das cenas de amor. Amor de verdade. Sim, porque amar não é dividir uma abundância que não precisa ser dividida. Amar é se entregar. Amar é se doar ao outro. Amar é compartilhar o que de mais rico um ser humano possui: seus sentimentos, seu afeto, sua alma. Amar é fazer de si um pouco do outro. E dar ao outro um tanto de si, sem pedir nada em troca. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Limites e vontades

Na linha entre o certo e o errado.
Não ultrapasse os limites! 
Isto é atrevimento demais.
Tudo o que eles dizem não passa de uma grande farsa.

Decida o que fazer, satisfaça suas vontades.
Nós não temos culpa do que vemos ao nosso redor.
Já não há diferença entre a vida e a morte.
Façamos dessa história algo que possa ser contado por anos e anos.

Perdemos sem ter a chance de ganhar.
O jogo já estava jogado desde o início, consegue perceber?
Então levante e vire a mesa.
Só assim a liberdade habitará os nossos corações.

Estamos prontos para saltar do precipício.
Nunca tivemos outra opção.
Vento no rosto, ainda há muita estrada pela frente.
Pise fundo, não pare justo agora.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Um drama pessoal

- Pai, o que você está fazendo aí sozinho?
- Nada, filho. Nada...
- Você está chorando?
- Não, não... Impressão sua...
- Está sim... Me conte o que aconteceu. Nunca te vi chorando antes...
- Ah, filho, deixa pra lá...
- Pode se abrir comigo. 
- Já faz muito tempo... Você era criança... Nem vai lembrar...
- Mas não importa! Diga o que está te angustiando.
- Sabe, filho... Há momentos que marcam a vida de um homem. Momentos que para sempre ficam guardados, e acabam vindo à tona num turbilhão, provocando uma dor quase insuportável. Tem certeza de que quer ouvir essa história?
- Sim, pai. Tenho certeza.
- Bom... Foi há uns quinze anos. Estava ainda no início do casamento com a sua mãe. Tinha um emprego novo, maravilhoso. Cada dia era uma alegria imensa. Eu me sentia vivo. Realmente vivo. Tudo era perfeito. Você tinha cinco aninhos, e era lindo, alegre e saudável. Tudo dava certo. Eu era um homem realizado. Nessa imensa onda de alegria, um certo dia, eu estava escutando um programa de rádio. E ouvi uma piada. Era sobre um papagaio, uma loira e um português... Nunca ri tanto. Era a piada mais engraçada que eu tinha ouvido em toda a minha vida! Passei dias e dias rindo ao lembrar daquela piada. E passei a contar para mim mesmo, na frente do espelho. Escondido, é claro. Comecei a imitar todos os trejeitos, as vozes. Adotei para mim a missão de tornar aquela piada uma piada perfeita. Acho que passei uns dois meses fazendo isso. Cuidei minuciosamente de cada detalhe, cada frase, cada entonação. Dediquei minha vida àquilo. E alcancei a perfeição. Ah, meu filho, eu alcancei a perfeição absoluta. E então, senti a necessidade de compartilhar esta perfeição. Isso aconteceu num churrasco de família. Todos reunidos, felizes, bêbados, comendo um vazio delicioso e suculento. Levantei-me da mesa, e comecei a contar a piada. E aí, filho querido, aí, começou o meu imenso drama: as pessoas se olhavam com rostos perplexos. Algo do tipo: "O que esse sujeito está fazendo?" Eu me dedicava a executar milimetricamente cada palavra, cada gesto determinado. E, ao final da piada... Ninguém riu. Foi horrível. Um silêncio infernal tomou conta do ambiente. E saí correndo em disparada, chorando como uma criança, com as mãos cobrindo o rosto envergonhado. Sentei à sombra de uma árvore, e lavei meu rosto em lágrimas. Daí por diante, seguiram-se dias de vexame, dor e humilhação. Ninguém falava nada. Mas eu sabia o que todos pensavam. Meu coração não suportava aquilo. Pensei em me matar. Bebia todo santo dia para esquecer aquela dor. Sua mãe não olhava mais para a minha cara. Fui demitido. Minha vida estava afogada em um oceano de sofrimento. Acho que passei um ano assim, bêbado, desempregado, fedendo... Até um dia em que levantei, olhei meu rosto inchado no espelho, e decidi: iria superar aquilo. E aos poucos, superei. Arranjei um emprego, fiz as pazes com sua mãe, parei de beber e de contar piadas... Porém, essa dor ainda existe escondida em algum canto do meu coração. O sofrimento daquele dia ficou marcado a ferro e fogo em minha alma. E, de vez em quando, me pego assim, sozinho, chorando e recordando aquele momento...
- Poxa, pai, que história triste... Vem cá, me dá um abraço. Pare de chorar. E conte comigo sempre, viu? É importante desabafar de vez em quando. Enxugue esse rosto. Agora está tudo bem.
- Obrigado, filho. Muito obrigado!       

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Lições

Mais um dia que se passa, apenas mais um dia.
Respire fundo antes de mergulhar, meu amigo.
Da mais pura vontade de viver, você sabe que pode voar.
Restaram lições, aproveite-as ao máximo.

A noite e a escuridão sempre passam.
A noite e a escuridão passarão para sempre.
Não deixe de acreditar, não agora.
Estamos fadados a renascer junto com o sol.

Abrace aqueles que sempre estarão próximos.
Encha o peito e grite por todo o amor que existe em seu coração.
Jogue-o ao vento: alguém haverá de vê-lo e recolhê-lo para um canto aconchegante.
Jamais poderão nos culpar por fazermos de nossa existência uma tola busca por aquilo que nos completa.

Aqueles que já não buscam nada estão mortos por antecipação.
Por isso, meu amigo, dedique-se a viver.
Morra de vez em quando, isso é normal.
Mas saiba fazer disso um momento passageiro, e continue a caminhar.

Mesmo que a chegada não seja certa, não abandone a sua estrada.
Mantenha a pureza em sua alma, não deixe que lhe proíbam de sonhar.
Querido amigo, somos muito mais do que aquilo que fora pré-determinado por mentes vazias e sem ternura.
Vá em frente, sorria, caia, levante, mas nunca desista.  

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Na pizzaria...

- Ô, garçom. Tem pizza de arroz?
- De arroz? Não, não. Não temos.
- E de feijão? Tem pizza de feijão?
- Feijão? Hum... Também não.
- Nossa... E pizza de ervilha? Tem?
- Não... Mas tem de milho.
- Milho não. Não gosto de milho. Queria de ervilha... Pizza de fígado? Vocês têm?
- Não, senhor... Não temos pizza de fígado.
- Meu Deus! Isso é um pesadelo? Que raio de pizzaria é essa que não tem um sabor decente sequer? Vou me retirar. E diga ao seu gerente que nunca mais apareço por aqui! Que absurdo!  

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Revelação

- Pai, eu estive pensando muito seriamente sobre um assunto durante a última semana. É muito delicado. Mas decidi falar...
- Hum... Bom, diga-me, filho.
- Pode ter certeza que é um momento muito difícil para mim. Por favor, peço que o senhor me compreenda.
- Vou tentar, meu filho. Mas você tem que me contar, para eu tirar uma conclusão.
- Eu espero de coração que a relação não mude. Que possamos manter a nossa amizade, enfim.
- Poxa vida... Desse jeito você está me deixando tenso. Fale logo!
- O senhor tem certeza de que está preparado, mesmo?
- Estou... Eu acho que estou. Mas isso está me angustiando. Diga de uma vez.
- Tá bom, tá bom... Ufa... Deixa eu respirar fundo... Olha só, é o seguinte... Ufa...
- Diga! Diga!
- Bom, olha só... Er... Não fique bravo, ok? Assim, ó... Acontece que eu não gosto de cebola na salada de maionese... Desculpa...
- O quê? Não gosta de cebola na maionese? É isso? Não, não, não. Poderia tolerar qualquer coisa. Se você fosse gay, drogado, assassino, tudo isso eu poderia compreender. Mas um filho que não gosta de cebola na maionese, não dá pra tolerar. Não mesmo. Vá fazendo suas malas, se despeça da sua mãe. Você morreu para mim. Suma da minha casa, suma da minha vida, e esqueça que eu existo. 
- Mas, pai...
- Não me chame de pai! E nunca mais olhe na minha cara! Fora daqui! Fora daqui!

domingo, 16 de outubro de 2011

Disque-amizade

Esses dias, eu estava vendo na tv um comercial destes serviços telefônicos do tipo "disque-amizade". Se tem uma coisa que não me convence de jeito nenhum, são estes comerciais.

Eles sempre anunciam uma espécie de paraíso na Terra. "Venha conhecer gente bacana, bonita, legal e descolada! Venha para a grande curtição!"

Acho muito difícil que isso seja verdade. Se fosse uma galera bacana, bonita, legal e descolada, esse pessoal não estaria desesperado ligando para desconhecidos.

Pessoas bacanas, bonitas, legais e descoladas não ligam para o disque-amizade. Elas já têm amigos! Quer encontrar alguém bacana, bonito, legal e descolado? Experimente sair para a rua!

Uma pessoa que apela para o disque-amizade declara que está oficialmente desistindo de uma vida social minimamente digna. O próximo passo depois disso só pode ser o suicídio. Enforcamento com o fio do telefone. 

sábado, 15 de outubro de 2011

Beijinho

- Me dá um beijinho, Catarina?
- Não.
- Ah, só um beijinho!
- Já disse que não.
- Não custa nada, vai... Um beijinho. Só isso. E não te incomodo mais.
- Você é insistente, né? Não, não e não!
- Por que você está fazendo isso comigo? Um beijinho vai fazer tanta diferença assim?
- Não, fora de cogitação. Só sobrou brigadeiro e cajuzinho.
- Puta mundo injusto...

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Virgem

- É virgem, tô te falando...
- Não, não é virgem, não. Nem a pau!
- Cara, tenho certeza que é virgem!
- Olha através do buraquinho! Coloca o foco ultrapassando ele! Consegue ver por dentro? Não é virgem!
- Nossa, quanta teimosia!
- Conheço dessas coisas! E tô te garantindo: não é virgem.
- Faz o seguinte, então... Abre e coloca lá dentro.
- O quê? Será que eu devo?
- Vamos lá, faz isso! Abre e coloca dentro. Daí vamos tirar a prova dos nove se é virgem ou não é.
- Ai, ai, ai... Tá bom... Vou colocar dentro... Pronto.
- Tá vendo? Tá vendo? Olha ali, ó! Falei que o cd era virgem! Não tem nada gravado! Eu sei do que eu falo! 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Sequestro

- Alô. É o senhor Antônio?
- Sim, ele mesmo. Antônio. Santo Antônio.
- Seguinte, oh, meu nome é Viviana, e espero que o senhor mantenha a calma: vai ser melhor pra todo mundo, ok?
- Ok...
- Eu estou aqui com o seu bebê.
- Ai, meu Deus... Eu sabia que não podia confiar naquela babá!
- Sim, sim... Estou com ele aqui, posso garantir isso... Pode ouvir o choro ao fundo, né?
- Oh, não... Por favor, não faça nenhum mal a ele.
- Vai ficar tudo bem se o senhor cooperar, seu Santo Antônio.
- O que eu preciso fazer?
- Eu devolvo o bebê se o senhor me entregar um marido. Só isso: um marido. Rico e bonito.
- Er... Vamos negociar... Só bonito, pode ser? Tenhamos bom senso nessa hora...
- O senhor está tirando onda com a minha cara? Não quero partir para a ignorância!
- Tá bom, tá bom... Rico e bonito.
- Isso, agora falou minha língua. O senhor deixe o meu marido na esquina entre as ruas Santo Expedito e São Jorge, certo? Enquanto isso, vou deixar o menino na frente da Igreja São Francisco. Compreendeu? 
- Certo...
- Espero que ele esteja na esquina às dez da noite. Nem um minuto a mais! Caso contrário, o senhor já sabe...
- Tudo bem, tudo bem... Vou providenciar. Vamos nos acalmar.
- Olha lá, hein? Até a noite. E nada de polícia envolvida, hein?
- Pode ficar tranquila. Isso vai ficar apenas entre nós...   

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Nádegas

Pedro e Sérgio, conversando na lancheria.

- Pedro, você viu aquela do parapsicólogo especialista em nádegas?
- Não, não vi...
- Ele é cego, e diz que consegue decifrar detalhes da vida das pessoas apalpando suas nádegas. Não é interessante?
- É exótico, isso sim. Mas não vejo grandes méritos.
- Uau... Como assim? Não sei se é um dom de verdade, mas, se for...
- Não, não... Eu também conseguiria saber detalhes da vida de uma pessoa examinando as nádegas. Posso, por exemplo, saber se ela gosta de comidas gordurosas. Posso saber se os homens olham pro traseiro dela. Se estiver fedendo, eu sei que ela é porca. E podia facilmente fazê-lo de olhos fechados. Viu só? O mérito não é tão grande...
- É, visto por esse ângulo...
- Imagine se tivesse que existir uma graduação em "Bundologia"...
- Seria divertido.
- Nem sempre, meu querido amigo... Claro, teria cadeiras legais... Introdução à Nadega. Bundas Malhadas I e II. Mas também teria disciplinas não tão legais assim: Bunda de Gelatina I, Bunda Casca de Laranja I e II... 
- É... Seria um curso bizarro...
- A saída de campo seria uma ida à praia. E as referências bibliográficas seriam edições da Playboy e da Sexy!     
- Podiam também incluir, sei lá, a Peitologia. Ficaria mais abrangente.
- Não, nem pensar! Vivemos a era da especialização. Até poderia haver uma certa interdisciplinaridade. Mas tinha que ser separado. Haveria muitos atritos na área.
- Ah... Mas atritos de peitos e bundas são legais...
- Nem sempre, Sérgio... Depende dos peitos. Depende das bundas.  

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Bebidas diversas

- O senhor quer água?
- Não, obrigado.
- Refrigerante?
- Não, não, também não. Obrigado.
- Tem de laranja, de limão. Tem guaraná. Não quer mesmo?
- Não, não...
- E cerveja? O senhor quer cerveja?
- Não.
- Tem bock, também...
- Não. Já disse que não.
- Suco, talvez? Tem de laranja, limão, morango, pêssego...
- Não. Não quero. Obrigado.
- O senhor não quer um refri, mesmo?
- Não, cacete! Já falei que não quero nada! Apenas tire a porcaria da roda desse caminhão de cima da minha perna!   

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* O DC está concorrendo ao Prêmio Top Blog 2011. A votação do primeiro turno vai até o dia 11/10/2011. O link para o voto encontra-se à direita da tela. Participe! Vote! Divulgue! 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Nomes no arroz

Um dos talentos mais exóticos que existem é o daqueles sujeitos que escrevem nomes em um grão de arroz. "Escrevo até quatro nomes num grão de arroz", diz o cartaz. Legal, beleza. Mas... Pra quê?

Eu teria muitos problemas para dar um presente desses. O principal: eu perderia antes de entregar. É um grão de arroz, ora bolas! O embrulho também teria que ser algo muito delicadinho, pequenino.

Além disso, a ideia de presentear com arroz, por si só, é bizarra. Arroz de presente... Talvez na Somália arroz seja um bom presente (aliás, quem puder, por favor, colabore, pois eles estão precisando: https://www.wfp.org/donate/fillthecup). Aqui, não necessariamente.

Fico imaginando o dia em que o cara que escreve num grão de arroz resolver lançar um livro. Bom, claro que não vai ser um livro convencional: vai ser um saco de dois quilos de arroz. Seria o best-seller dos mantimentos. "Estou procurando o livro daquele cara... O do arroz. Mas não tô achando." "Ah, não, ele não está aqui junto com os de auto-ajuda. Procure do lado do feijão. Lá você vai encontrar..."

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domingo, 9 de outubro de 2011

Manhãs de domingo

Acho muito engraçado quando a Globo resolve transmitir esportes como skate, bicicleta, e outros que tais, nas manhãs de domingo. Primeiro, porque eu não conheço porcaria nenhuma dessas modalidades. E, segundo, porque acho estranho televisionar essas coisas.

Não estou subestimando estes esportes, fique claro. Mas, na tv, fica meio esquisito. Qual vai ser o próximo passo? A Globo vai transmitir o Campeonato Mundial de Ioiô? Ou então, quem sabe, pião? Campeonato Sul-Americano de Bolinha de Gude, de repente? Me parece muito mais lazer do que esporte. Não me interessa saber quem é o Campeão Mundial de Carrinho de Rolimã. Então, por que me interessaria saber quem é o Campeão Mundial de Skate?

E os "comentaristas"? Estes são os melhores. "Uaaaaaau! É isso aí, moleque!! Iiiiissa!!! Caraca! Agora ele deu um 'dangerous twix book is on the table'! Demaaaaais! Yeeeeeah!" 

Eu não consigo entender bulhufas. Sei que o comentarista tá curtindo pacas. E só. Eu até tento repetir do sofá, com a camiseta cheia de migalhas de Ruffles: "Issaaa! Ae, moleque! Uaaaau!" Mas não consigo ficar empolgado. Acabo fazendo com um tom de voz parecido com o do Willian Bonner noticiando a alta do dólar.

Imaginem se no futebol os comentaristas fizessem a mesma coisa. O Falcão, comentando a final do Mundial, por exemplo: "Issaaaa! É isso ae, Gabiru! Iaaaarley! Yesss! Olha o Clemer! Uaaaaaau, moleque! Um salto carpado de mão trocada com um tip toe invertido!! Beleeeeeza, Galvão!"

No final do jogo, só ia dar ele, enquanto o Fernandão recebia a taça do Blatter: "Yeeeah, Fernandão! É nóis na fita, moleque!! Uaaaaau!"

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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Em direção à liberdade

Era apenas mais uma noite modorrenta de domingo.

Estava deitado em sua cama.

Seu anseio, a liberdade.

Queria encontrar a si mesmo.

Resolveu levantar e sair às ruas.

Caminhar, simples e despretensiosamente.

A paisagem era extremamente deserta.

Sentia um tanto de medo, mas continuava.

Havia uma força estranha que não lhe permitia parar.

No céu, nuvens pesadas lindamente esculpidas.

Era uma beleza melancólica, inigualável.

A cada passo, sentia seu coração tomado por um sentimento estranho.

Num repente, as nuvens se aproximavam mais e mais.

Tudo se tornou neblina forte, entre alguns raios de luz que apontavam uma direção incerta.

Homem geralmente de pouca fé, passou a rezar com intensidade nunca vista.

Estava em contato direto com algo absolutamente diferente em sua vida.

Era um momento grandioso, único. 

Ele olhava para aquele cenário embasbacado, mas continuava a andar em passos firmes.

Seu rosto estava encharcado de lágrimas, as mais puras. 

Tinha cada vez mais certeza.

Até o momento em que não enxergava mais nada.

O vento rasgava seu corpo, arrastava-o naquele furacão repentino.

Ele sabia que em algum lugar, aqueles que o amavam estavam chorando e fazendo perguntas.

Sentia-se desaparecer.

Mas sabia que era por algo maior.

Estava livre.

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Compras

João adentrou o mercado. Tinha algumas compras para fazer.

Primeiramente, foi para o setor de frutas e verduras. Pegou algumas cebolas, uns tomates, bananas e maçãs.

Em seguida, colocou duas caixinhas de leite integral no carrinho. No setor de pães, pegou um saco de pães de sanduíche. Ele adorava pão de sanduíche.

Nos resfriados, pegou um copo de requeijão e um pote de margarina. Não esqueceu do salamito e do queijo cheddar.

No setor de café, pegou um pacote de Melitta, e uma caixa de filtros. Além disso, pegou um pote de Nescau.

Então, João foi para o setor de higiene. Colocou uns dez sabonetes e cinco tubos de pasta de dente no carrinho. Também pegou shampoo e condicionador.

Em seguida, tratou de encontrar papel higiênico, detergente e sabão em pó. Isso também estava em falta na sua casa.

Lembrou também do arroz, do feijão, da massa e do molho. Como mimo, pegou uma lata de leite condensado, que comeria inteirinha naquela noite.

Depois disso, pegou duas garrafas de Coca-Cola.

Foi para a fila do caixa. Havia três pessoas em sua frente. Duas senhoras e um senhor. Quando chegou a sua vez, passou as compras. Viu o valor total, pagou, recebeu o troco. E foi embora.

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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Cabelo

Pedro e Sérgio, conversando numa lancheria:

- E aí, Pedro? Tá na hora de cortar esse cabelo, né?
- Pois é... Hoje, quando acordei, ele estava terrível. Tomei um susto quando me olhei no espelho. O grande problema é que ele perde o corte muito fácil.
- Nossa... Isso é um grande problema, mesmo. Por esse motivo, vou ao cabeleireiro mais barato que conheço. Assim, posso cortar o cabelo mais vezes. Sacou? Sacou?
- Genial. Cabelo sempre mal cortado. Mas sempre cortado. Esse é o Sérgio que conheço!
- Ah, tá... Vai ver que o bom mesmo é tomar sustos na frente do espelho quando acorda, né, bonitão?
- Sei que é um problema. Admito isso. Por isso que eu gostava quando eu raspava.
- É... É bem mais prático. E por que você parou de raspar?
- Ah... Porque eu não gostava...

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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Humanitário

Pedro entra no ônibus, e começa e devanear...

"Ufa! Finalmente consegui entrar...

Tá cheio, isso aqui...

Odeio ficar de pé...

Será que não vai vagar um lugarzinho?

Opa, tem um tiozinho se levantando...

É agora!

Puta que pariu! Aquele imbecil foi mais rápido...

Porcaria...

Inferno andar de ônibus...

Humm... Olha lá... Aquele cara tá se preparando pra levantar...

É agora...

Lugar dos deficientes e idosos...

Dane-se.

Vou sentar, não quero nem saber. E se chegar alguém, foda-se.

Consegui!

Beleza!

Nossa... Como esse cara é gordo... Mal consigo me mexer...

Droga...

Quando abre lugar, é do lado de um gordão, e no banco especial...

Sou muito sortudo, mesmo.

Argh... Olha a unha desse cara! Que porco!

Puta merda, ele tá fedendo...

Caraca, há quanto tempo esse sujeito não toma uma banho? 

Tomara que não passe essa inhaca pra mim...

Putz...

Ah, olha só, uma velhinha!

Isso! Vou oferecer o lugar pra ela!"

- A senhora quer sentar aqui?
- Claro! Muito obrigada!
- Não tem de quê!

"Ufa... Como é bom ficar de pé de novo!

Ela está sentada agora, do lado do gordão fedido.

Acho que ela está feliz...

Deve estar... Não é todo dia que se encontra alguém tão gentil e educado como eu...

Fiz a boa ação do dia.

Ainda bem que sou um cara altruísta...

Quem mais seria tão bondoso e humanitário?

Eu sou demais!"

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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Fígado

Pedro e Sérgio, conversando numa lancheria:

- E aí, Pedro? Como é que vai?
- Vou bem. E você?
- Bem, também. E a vida, como anda? Tudo certo com a Lídia?
- É Lígia...
- Isso, isso...
- Na verdade, nós terminamos.
- Nossa... E por quê?
- Você acredita que esses dias ela resolveu fazer bife de fígado no jantar? Como é que ela faz uma coisa dessas? Eu odeio fígado!
- Er... Você odeia fígado, então... Claro... Você odeia fígado...
- Claro que eu odeio fígado! Quem não odeia fígado? E ela fez sem nem me consultar! Por que ela não fez estrogonofe?
- Hum... Interessante... Er... E você gosta de estrogonofe, então...
- Sim, eu adoro estrogonofe! E até tinha dito pra ela que adoro estrogonofe!
- É um absurdo, mesmo. Que tipo de mente doentia trocaria estrogonofe por fígado?
- Pois é!
- E você terminou com ela por causa do fígado? Digo, este foi o único motivo?
- Sim, na verdade foi o único motivo. A gente se dava muito bem. Nos divertíamos, gostávamos dos mesmos filmes, das mesmas músicas. Tínhamos bastante sintonia. Mas o fígado... O fígado liquidou tudo.
- É... Você está certo. Ela não teve consideração pelo seu gosto gastronômico. Na verdade, ela não merecia você. Mas, Pedro, não fique assim: você ainda vai encontrar uma garota que cozinhe estrogonofe. Vai por mim...
- Poxa, Sérgio... Muito obrigado pelo apoio, amigão. Não tem sido nada fácil lidar com isso.
- Não tem o que agradecer, Pedro. Amigos são pra isso.

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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O afastamento de Rafinha Bastos

Leio no blog de Ale Rocha, no Yahoo, que Rafinha Bastos está temporariamente afastado da bancada do CQC (http://br.omg.yahoo.com/blogs/poltrona/rafinha-bastos-calar-humoristas-%C3%A9-um-comportamento-perigoso-001505009.html). Tal decisão foi tomada porque uma piada do humorista teria sido muito mal digerida. Ao comentar o visual de Wanessa Camargo grávida, ele disse: "Comia ela e o bebê".

É óbvio que a piada não foi uma piada refinada e de bom gosto. Mas não é isso que está na pauta. O que me parece cada vez mais claramente na pauta é o policiamento absurdo que está havendo sobre a liberdade de expressão, principalmente no que se refere ao humor. Rafinha Bastos fez uma piada. PI-A-DA. Parece um raciocínio meio circular, mas que a patrulha do politicamente correto não entende: piadas não são para ser levadas a sério. Por quê? Porque são piadas, ora bolas. Repetindo, para quem não entendeu: PI-A-DAS.

Certa feita, escrevi aqui mesmo no DC o que penso sobre essa onda do politicamente correto (http://dilemascotidianos.blogspot.com/2011/03/politicamente-correto.html). Hoje, não mudaria uma vírgula. Percebam o absurdo ao qual a patrulha do politicamente correto chegou: estão condenando um humorista por fazer uma piada. Reitero: se é de bom ou mau gosto, pouco importa. 

Quem não gosta do humor de Rafinha Bastos tem uma opção muito simples. Vou ensinar como se faz. Você está vendo uma coisinha retangular, que geralmente fica perto da tv? Aquilo se chama controle remoto. Nele, tem vários numerozinhos. Se você não gosta das piadas do Rafinha Bastos, ou de qualquer programa de tv que lhe ofenda grosseiramente, é só apertar numerozinhos diferentes daquele ao qual você está assistindo. Uau! Agora você pode ver "Tela Quente"! Parabéns! Se você ainda tiver dúvidas sobre este procedimento de complexidade einsteiniana, me mande um e-mail.

Eu, particularmente, me sinto muito mais agredido vendo "Zorra Total" ou "Turma do Didi", com suas piadinhas velhas, repetitivas, previsíveis, e abobalhadas. Gosto de humor imprevisível, destemido, livre de fórmulas batidas. E considero Rafinha Bastos mestre nessa arte. Mas a patrulha do politicamente correto não gosta. Para ela, qualquer coisa é ofensiva, inaceitável, e passível de severa punição. Até fazer piadas.

Essa turminha do politicamente correto tem sido extremamente nociva para o Brasil. Ela só contribui para aumentar a burrice, a paranoia, o conspiracionismo e, principalmente, para tornar o país carrancudo e cheio de não-me-toques. Não se pode mais falar nada, não se pode mais falar de ninguém. O paredão está voltando em forma de bom-mocismo. Tomemos cuidado. 

"Se liberdade significa alguma coisa, é o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir" (George Orwell).

"Posso não concordar com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo" (Voltaire).

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domingo, 2 de outubro de 2011

No quarto

Ela estava quase pronta. Faltava muito pouco. 

Ele, embasbacado, em cima da cama de casal, apenas observava os movimentos daquela mulher.

Para lá e para cá, ela se movimentava sutilmente.

Tirou a blusa.

Tirou os sapatos.

Tirou a meia-calça.

Tirou o sutiã.

Tirou a saia e a calcinha, bem devagarinho.

E guardou tudo na mala. 

Ela estava indo embora. Para sempre.

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sábado, 1 de outubro de 2011

Etiquetas de preço

Quando vamos dar um presente a alguém, um dos cuidados mais fundamentais que tomamos é tirar o preço do produto. Não! O presenteado não pode saber o quanto pagamos! Isso é visto como um constrangimento, uma gafe absurda.

Esses dias, ganhei um vinho Frei Damião. E, obviamente, não tinha preço! Fiquei pensando: "Uau... Não tem preço! Quanto será que custou? Será que foi uns cinquenta reais? Cem, talvez. Duzentos, não! Será que custou duzentos reais? Caramba!" De fato, é muito difícil. O presenteado sempre fica no escuro... Afinal de contas, quem ganha o presente não pode, de jeito nenhum, saber o preço!

É aí que entra a notícia bombástica que vou dar. É inédito, é impressionante, e é genial: EU posso! Sim, preste bem atenção, querido leitor: eu posso saber o preço! É mágica? É um poder paranormal? Não! É o Google! Em trinta segundos, sou capaz de saber o valor financeiro do presente que eu ganho. Não é fantástico? Acho que mereço um Nobel por tamanho brilhantismo. Sim, eu posso romper uma tradição das mais enraizadas socialmente num estalar de dedos!

Um dia ainda vou revolucionar essa tradição de vez. Vou escrever um cartão dizendo mais ou menos assim: 

"Caríssimo Fulano, 

Você é caríssimo, mas este presente não foi. Custou apenas cinco reais. Desculpe, foi mal aí. A crise está braba. 

Um grande abraço, 
Bruno.

PS: A propósito, este cartão custou três reais."

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