sábado, 10 de setembro de 2011

3 anos de Dilemas Cotidianos- 7ª posição: O menino que comia merda

O sétimo melhor texto do último ano do DC foi publicado no último dia 3 de janeiro.

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Lá estava o garotinho de cinco anos de idade preso em sua jaula. Era a maior atração da cidadezinha, do curioso nome Boas Intenções. Virara até atração turística. Era o menino que comia merda. Desde o dia em que nasceu, fora ensinado a comer merda. Era exótico. Virou o lucro de seus pais. Quando notaram seu potencial, decidiram colocá-lo imediatamente numa jaula, com um monte de merda em uma tigela. No início, não cobravam nada para que as pessoas de fora o vissem. Mas aquele garoto passou a chamar mais e mais a atenção de todos. Formavam-se filas na porta da casa, cada vez maiores. A situação deveria ser melhor aproveitada.

Então, a coisa se profissoinalizou. Marido e esposa passaram a cobrar ingressos para que os curiosos vissem o menino comedor de merda. O sucesso só cresceu. E o negócio se refinou. Preços diferenciados passaram a ser cobrados. Tinha o pacote básico e o pacote luxo. No básico, os curiosos apenas olhavam o menininho comer merda. No luxo, tinham o direito de ir ao banheiro fazer cocô numa tigela especial, e levar para o menino. Era uma emoção só! O garotinho comendo a bosta advinda do próprio ânus do vivente era fantástico. Os pais levavam a meninada pra se divertir com o espetáculo todos os finais de semana. Tiravam fotos. Filmavam. O turismo foi fomentado na região, e até a Prefeitura de Boas Intenções passou a apoiar o evento, e adotou o slogan: Boas Intenções- Terra do Menino Comedor de Merda. Era incrível, realmente incrível.

Às vezes o menininho recusava-se a comer. Empanturrava-se de tanta bosta. Aí, nessas horas, os visitantes, sim e sim, sempre e sempre, começavam a vaiar e resmungar, ansiosos. Alguns pediam o dinheiro do ingresso de volta. O pai, então, adentrava a jaula com um chicote, e, na base do "schlept, schlept", fazia o menino comer mais um pouco. Não podia decepcionar aqueles que pagaram para ver o espetáculo. Sem profissionalismo e disciplina não se chega a lugar nenhum, sempre dizia o homem de meia idade.

O local, com o tempo, passou a oferecer até souvenirs, a módicos preços. Eram bonés e camisetas que traziam estampas do menino de boca lambuzada, bonequinhos que replicavam o garoto com a tigelinha cheia de merda... Tinha de tudo.

O moleque cresceu, perdeu o encanto, mas ainda comia merda. Programas de televisão vespertinos procuravam-no, em quadros do tipo "Por onde anda?" Virou mais uma sub-celebridade instantânea, dessas que se proliferam de forma cada vez mais intensiva e extensiva por aí. Mas agora era apenas um homem que come merda. Não era mais uma criancinha bonitinha. Estava gordo e barbudo. Tinha apenas cachês miseráveis de shows de bizarrices. O ser humano adora bizarrices. Deleita-se com elas.


O menino que comia merda nunca teve direito à vontade própria. Ninguém nunca perguntou a ele o que queria da vida, nem se gostava de fazer aquilo. Tudo que aprendera a fazer foi comer merda. E disso, deveria subsistir. Disso, subsistia. E disso subsistiria até o fim dos seus dias, que não demorou muito a chegar. Sua vida foi divertir os outros sem se divertir. Sua existência resumira-se a comer merda para que os outros rissem. Mas ninguém se importa com isso, né?

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