quinta-feira, 30 de junho de 2011

Triste certeza

Lá está o velho, solitariamente sentado naquele banco da praça. Ele está pensativo. Passa por seus últimos dias. Faz um balanço natural daquilo que viveu. É uma mera questão de tempo, de passar de dias ou horas.

Suas lembranças estão mais vivas do que nunca. Recorda-se da infância, dos bolos de cenoura formidáveis feitos pela sua mãe. Lembra-se do pai, sempre muito bem alinhado e correto. Lembra-se do seu cachorrinho Dingling. Lembra-se do parque de diversões, e dos jogos de bola. Lembra-se das crianças correndo descompromissadas, sem destino, sem ganâncias.

Visita sua adolescência. Muito estudo. Lindas garotas. Amores eternos que partiram rápido. Amores passageiros que jamais passaram. Estudo compenetrado. Velhas brincadeiras.

Amadureceu rápido. Tinha objetivos perfeitamente definidos. Não fugiu da linha. Nunca. E assim foi alcançando tudo o que traçara. O planejamento era executado de acordo com tudo o que postulara, impecavelmente.

Nesse período, amou muito. E foi muito amado. Mas nunca valorizou isso. Estava fora do planejamento. Sentimentos atrapalham projetos maiores. Sentimentos são meros e insignificantes acessórios. Não estavam dentro dos seus objetivos. Por isso, nunca deu a devida importância. Suas ações eram pontuais. Evitava "desperdiçar" energias em algo que não estava previsto na planilha.

Assim, foi passando o tempo, deixando coisas supostamente supérfluas passarem em detrimento de metas maiores. Cada vez mais rico. Cada vez menos realizado. Casou-se, por conveniência, com uma esposa mais jovem que não o amava. Na primeira doença, ela o abandonou. Não teve filhos. Hoje, ele não tem nada. Tem, sim, o ouro. Mas é ouro que não brilha, não tem graça.

Mais do que qualquer barra de ouro ou pedra de diamante, o que realmente brilha são os olhos de quem ama e é amado. Esse brilho, talvez o mais fundamental de todos, ele perdeu. Teve a oportunidade de agarrá-lo, de vivê-lo. Mas não o fez. Superestimou o cérebro e a calculadora. Subestimou o coração e as cartas de amor.

Andou no melhor carro. Apreciou os melhores pratos e vinhos. Aconchegou-se em sua mansão. Nadou em luxuosa piscina, toda sua. Sozinho. Esteve, sim, acompanhado de muita e muita gente nos áureos tempos. Mas estas centenas, talvez milhares de pessoas, não valiam nem um porcento do que é ter ao lado, vivendo estes momentos, uma pessoa que realmente se ama. Não eram pessoas: eram hologramas, ilusões de ótica desprovidas de vida. Mas ele jamais se deu conta disso.

Ele esteve o tempo todo sozinho e jamais percebeu. Mas agora é tarde. A ampulheta vai descendo seus últimos grãos. Já não pode virá-la. Mergulhado num sentimento terrível de conformidade compulsória, deixa correr uma lágrima em seu rosto. Fez tudo o que planejou. Não fez nada do que realmente queria. Cansou os pés caminhando na estrada. Depois de chegar, dolorosamente concluiu que nunca quis estar ali. Fez tudo certo. Não errou jamais. Não correu riscos. E, não correndo riscos, jamais se machucou. Pergunta-se agora, estupefato: e daí?

Hoje, não se importaria um milímetro em ter o corpo coberto de cicatrizes, se tivesse vivido as coisas mais simples, lindas e baratas da vida, se tivesse olhado a beleza dos campos cobertos de flores, se tivesse se encantado com o sorriso sincero de uma criança, se tivesse enchido a cara e falado bobagens para amigos de verdade num boteco de esquina, se tivesse vivido um amor genuíno, daqueles que nos desorientam e nos fazem ter a certeza de que existimos, de que nesse imenso caos que consome tudo com velocidade assustadora, teremos algo que vai pairar para todo o sempre no ar, em algum lugar escondido que preservará intacta a beleza do que é ser humano. Se... Se... Se... E mais "ses"...

Sempre preferiu a bússola a seus sentimentos. Nunca parou. Hoje, a vida o obriga a isso. E a ele só resta a triste certeza de que o tempo não volta, de que nada disso pode ser corrigido. A ele só resta a triste certeza de que é tarde demais...

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