quinta-feira, 30 de junho de 2011

Triste certeza

Lá está o velho, solitariamente sentado naquele banco da praça. Ele está pensativo. Passa por seus últimos dias. Faz um balanço natural daquilo que viveu. É uma mera questão de tempo, de passar de dias ou horas.

Suas lembranças estão mais vivas do que nunca. Recorda-se da infância, dos bolos de cenoura formidáveis feitos pela sua mãe. Lembra-se do pai, sempre muito bem alinhado e correto. Lembra-se do seu cachorrinho Dingling. Lembra-se do parque de diversões, e dos jogos de bola. Lembra-se das crianças correndo descompromissadas, sem destino, sem ganâncias.

Visita sua adolescência. Muito estudo. Lindas garotas. Amores eternos que partiram rápido. Amores passageiros que jamais passaram. Estudo compenetrado. Velhas brincadeiras.

Amadureceu rápido. Tinha objetivos perfeitamente definidos. Não fugiu da linha. Nunca. E assim foi alcançando tudo o que traçara. O planejamento era executado de acordo com tudo o que postulara, impecavelmente.

Nesse período, amou muito. E foi muito amado. Mas nunca valorizou isso. Estava fora do planejamento. Sentimentos atrapalham projetos maiores. Sentimentos são meros e insignificantes acessórios. Não estavam dentro dos seus objetivos. Por isso, nunca deu a devida importância. Suas ações eram pontuais. Evitava "desperdiçar" energias em algo que não estava previsto na planilha.

Assim, foi passando o tempo, deixando coisas supostamente supérfluas passarem em detrimento de metas maiores. Cada vez mais rico. Cada vez menos realizado. Casou-se, por conveniência, com uma esposa mais jovem que não o amava. Na primeira doença, ela o abandonou. Não teve filhos. Hoje, ele não tem nada. Tem, sim, o ouro. Mas é ouro que não brilha, não tem graça.

Mais do que qualquer barra de ouro ou pedra de diamante, o que realmente brilha são os olhos de quem ama e é amado. Esse brilho, talvez o mais fundamental de todos, ele perdeu. Teve a oportunidade de agarrá-lo, de vivê-lo. Mas não o fez. Superestimou o cérebro e a calculadora. Subestimou o coração e as cartas de amor.

Andou no melhor carro. Apreciou os melhores pratos e vinhos. Aconchegou-se em sua mansão. Nadou em luxuosa piscina, toda sua. Sozinho. Esteve, sim, acompanhado de muita e muita gente nos áureos tempos. Mas estas centenas, talvez milhares de pessoas, não valiam nem um porcento do que é ter ao lado, vivendo estes momentos, uma pessoa que realmente se ama. Não eram pessoas: eram hologramas, ilusões de ótica desprovidas de vida. Mas ele jamais se deu conta disso.

Ele esteve o tempo todo sozinho e jamais percebeu. Mas agora é tarde. A ampulheta vai descendo seus últimos grãos. Já não pode virá-la. Mergulhado num sentimento terrível de conformidade compulsória, deixa correr uma lágrima em seu rosto. Fez tudo o que planejou. Não fez nada do que realmente queria. Cansou os pés caminhando na estrada. Depois de chegar, dolorosamente concluiu que nunca quis estar ali. Fez tudo certo. Não errou jamais. Não correu riscos. E, não correndo riscos, jamais se machucou. Pergunta-se agora, estupefato: e daí?

Hoje, não se importaria um milímetro em ter o corpo coberto de cicatrizes, se tivesse vivido as coisas mais simples, lindas e baratas da vida, se tivesse olhado a beleza dos campos cobertos de flores, se tivesse se encantado com o sorriso sincero de uma criança, se tivesse enchido a cara e falado bobagens para amigos de verdade num boteco de esquina, se tivesse vivido um amor genuíno, daqueles que nos desorientam e nos fazem ter a certeza de que existimos, de que nesse imenso caos que consome tudo com velocidade assustadora, teremos algo que vai pairar para todo o sempre no ar, em algum lugar escondido que preservará intacta a beleza do que é ser humano. Se... Se... Se... E mais "ses"...

Sempre preferiu a bússola a seus sentimentos. Nunca parou. Hoje, a vida o obriga a isso. E a ele só resta a triste certeza de que o tempo não volta, de que nada disso pode ser corrigido. A ele só resta a triste certeza de que é tarde demais...

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Ilusão de ótica

Seu dia chegou, meu velho amigo.
Recolha as migalhas no chão, levante-se!
Você não terminaria assim!
As nuvens finalmente sumiram do céu.

Agora tudo vai ser melhor.
Lembre-se dos antigos planos.
Viva a sua liberdade.
Não há mais grades, você está de volta.

Tanto tempo passou, e suas dores persistiram.
Por quantos e quantos dias você deixou o relógio correr sem fazer nada?
Alguma força lhe chamou de volta, mais forte do que nunca.
Ela emerge do chão, esteve enterrada e fora do alcance da destruição.

Olhos abertos, confusão mental.
Queda livre, que lugar é este?
Anjos e demônios em guerra, luta sangrenta.
Bem em sua frente está uma estranha conjugação de bem e mal.

Agora veja bem, meu amigo.
As grades continuam à sua volta.
O tempo todo que ficou pra trás visita o resto dos seus dias.
Talvez seja um pesadelo sem fim.

Angustiante ciclo de momentos vazios e mentirosos.
No espelho, um rosto em desespero.
De novo assim, à espera de seu próprio milagre.
Algo lhe mantém vivo somente para torturá-lo ainda mais.

Seu dia não chegou ainda, meu velho amigo.
Jogue as migalhas de volta, deite-se novamente!
Talvez você termine exatamente assim!
O céu está novamente tomado por nuvens negras.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Bolinhos

Sempre que vou a um buffet, sirvo bolinhos. Muitas vezes não sei nem do que são. Mas sei que são bons. Sempre são bons.

Existe alguma lei culinária universal que proíbe bolinhos de serem ruins. Já comi pizzas ruins. Já comi churrascos ruins. Já comi até lasanhas ruins. Mas nunca, nunquinha, comi um bolinho ruim.

Tanto faz o sabor. Importa apenas ter o nome de bolinho. Se alguém fizer bolinho de radite, vai ficar bom. Se alguém fizer bolinho de olho de cabra, vai ficar bom. Acho que até bolinho de cocô ficaria bom. Basta ser bolinho. Nada que comece com a palavra "bolinho" pode ser ruim.

Existe rodízio de muitas coisas. Mas o bolinho é um injustiçado. "Ele é bom? Não faz mais do que a obrigação!" É isso que as pessoas pensam. Talvez por isso nunca tenham criado um rodízio de bolinhos. Perderiam o fator surpresa, a exclamação "Nossa! Como é bom!", porque bolinhos são inerentemente bons.

O bolinho é como aquele artista talentosíssimo que, de tão talentoso, as pessoas sequer se dão o trabalho de elogiar, porque é óbvio demais. O bolinho é assim: discreto, irrepreensível, sempre faz o seu papel com perfeição. Culinariamente eficiente, é um sucesso absoluto sem precisar ser pop star.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Falso tesouro

Todos estão loucos, à espera da hora de vingar.
Reino de hipocrisia querendo me roubar.
Mas esse jogo não me atrai.
Dou as costas para as mentiras que me contaram.

Deram-me o mapa de um tesouro que não quero encontrar.
Sei passo a passo para onde não ir.
Minha alma não está à venda.
Não, nenhum dinheiro pagará.

Vejo apenas dor nessas ruas.
Ninguém sabe exatamente quem é, triste absurdo.
Amnésia coletiva, insanidade exacerbada.
Algumas escolhas são irreversíveis.

A multidão enlouquecida está destituindo a nobreza.
Agora os ladrões estão sendo roubados.
Imploram piedade, mas já não acreditam em nada.
Suas pernas não aguentam mais correr.

Livros no fogo, agora a lei é outra.
Já não existe proteção contra o novo mundo.
Minha alma nunca esteve à venda.
Não, nenhum dinheiro pagaria...

domingo, 26 de junho de 2011

Gravadores

Quando uma pessoa coloca um gravador na mesa de um palestrante, não tem meio-termo. Isso só pode querer dizer duas coisas. Duas coisas extremas, opostas.

Num primeiro momento, penso que é uma declaração de desprestígio. Algo como: "Olha aqui, você me desculpa, mas não vou prestar atenção agora. O que você vai dizer até pode ser legal. Mas agora não tô a fim. Em casa, quando tiver tempo, quem sabe eu escuto. Agora não. Não vou ouvir, não vou prestar atenção, e nem tô com vontade de anotar nada."

Porém, pode ser o contrário. Pode ser um sinal de prestígio extremo. Como dizer: "Seguinte: vou me arrebentar de prestar atenção. Vou anotar tudo, ficar fixado até na sua respiração. Mas é tão bom e tão interessante que vou gravar. Certamente vou perder detalhes. E cada detalhe é fun-da-men-tal! Não quero perdê-los. Não posso perdê-los!"

Quem fica no meio-termo não usa gravador. Nunca. Simplesmente pega um papel e uma caneta. E anota as coisas interessantes. Se houver coisas interessantes para anotar. Às vezes me sinto até meio culpado. Não consigo me interessar nem me desinteressar o suficiente por uma palestra, a ponto de pensar em usar gravadores. Estou me tornando blasé. Isso me preocupa. Mas não me preocupa o suficiente...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Lembranças

Estava pensando naqueles dias em que estive feliz.
Minha alma estava em paz.
Os dias passavam leves, e eu sentia prazer em respirar.
Ainda me pego um pouquinho lá, quando as coisas já estavam explicadas.

O sol nascia sorrindo, tudo era belo.
Cada segundo era vivido em todo o seu esplendor.
Espero poder voltar lá...
Espero descansar meu espírito...

Em algum momento, tudo era novo e interessante.
E como uma criança, eu me via tão disposto a descobrir o mundo ao meu redor...
Hoje sou apenas saudade, incerto, sozinho, desgastado.
Mas ainda há tanto por viver...

Naqueles dias encontrei meu lugar.
Olho para tudo que valeu a pena, lembranças e mais lembranças...
Não havia nada a temer, e nada poderia me parar.
Tudo tinha um significado ímpar...

Ainda gostaria de estar lá...
Ainda gostaria de apreciar a riqueza de um encontro comigo mesmo...
Alguns momentos insistem em fugir, mas eu os guardo no peito.
Alguns dias se passaram, mas já sou outro, e ainda me sinto igual...

terça-feira, 21 de junho de 2011

Pessoas que compram só pela marca

Minha mãe adquiriu nos últimos tempos o hábito de ir a Rio Branco, no Uruguai, para fazer compras nos free shops de lá. Confesso que não é o tipo de programa que me atrai. Para eu comprar alguma coisa, eu tenho que querer muito. Mas muito mesmo. Porém, minha querida mãezinha adora. Comprar é quase um dom inato dela. Ela sente prazer em fazê-lo. Principalmente se no produto estiver escrita a palavra "promoção". Daí, ninguém segura a mulher. Pode ser um vidro de comprimidos contra impotência para coalas. Ela compra. Por quê? Ora, porque está em promoção, poxa vida!

Numa dessas idas, ela voltou toda feliz com um desodorante para mim. Da Nike. Pois é, não gostei muito. É bem ruinzinho, pra falar a verdade. E ela viu que me desagradou. Não deu outra. Na ida posterior ela me trouxe três desodorantes! Mas agora não eram da Nike. Eram da Adidas. Me segurei. Eu juro que me segurei para não falar. Mas morri de vontade de perguntar a ela por que cargas d'água ela pensa que, pelo fato de produzirem tênis bons, Nike e Adidas fariam desodorantes bons. Caramba!

Mas isso não é propriedade exclusiva dela. Tem muita gente que adota essa lógica rudimentar da marca pela marca. Eu, particularmente, nunca fui adepto. Se a Coca-Cola lançasse uma linha de xampus e sabonetes, eu não compraria! Provavelmente sairia grudento do banho, e seria atacado por um enxame de abelhas. Se lançasse uma pasta de dentes, eu já sairia com cáries após a primeira escovação.

Se a Nestlé lançasse uma linha de ferramentas, eu também acharia bizarro. Fico até imaginando meu pai instalando armários com a furadeira Chokito, e pedindo para alguém lhe alcançar a chave Prestígio, e o martelo Milkybar. O único caso de produtos "diferentes" da Nestlé que eu poderia pensar em comprar seriam camisinhas. Imaginem, para agradar a namorada, uma camisinha Nestlé! Seria interessante. Bom, claro que o recheio seria personalizado. O Alpino pode ficar por conta da Nestlé. Mas o Leite Moça, pode deixar comigo...

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Do topo ao abismo

Eis uma trupe que pensa que chegou ao topo.
Perseguiram o auge, mas agora não sabem o que fazer.
Festejam sua pobreza de espírito.
Apenas limpem a sujeira que fizerem.

O acordo está fechado, mãos sem valor se cumprimentam.
Me orgulho de nunca ter entrado nesse jogo.
Vejo os lados bem definidos, cada vez mais.
Mas eles tentam levar mais gente para seu inferno particular.

Sociedade na privada, seita das trevas.
Lambuzam-se com o sangue e a dor alheia.
Chegou a hora de atear fogo nessa casa das profundezas.
Dedico este momento àqueles que morreram por causa disso.

Agora eles estão desesperados, era muito fácil cair.
Beijam o abismo, lambem o chão.
Nenhum esforço foi necessário.
Um pequeno mensageiro avisa que finalmente estamos livres.


domingo, 19 de junho de 2011

Medo abstrato

Coração arrancado, apenas um zumbi.
Seria mais fácil ficar escondido.
Agora está exposto, e a plateia ri.
Aberração exausta, atração principal.

Construíram edifícios, mas destruíram tantas almas!
Espíritos vagos, gritos em becos vazios.
Naquele canto alguém pediu socorro há muitos anos.
Cada palavra dita ainda se faz presente.

Ele caminha como se tivesse algo para encontrar.
Conseguiu fugir, mas ainda não está livre.
Bares, esquinas, rostos sorridentes, corações entristecidos.
Todos estão sendo consumidos por um medo abstrato.

Por alguns segundos, tudo teve sentido.
Mas não se pode recolher isto num vidro.
As portas estão fechadas.
Os dias já estão contados.

Compraram cápsulas de felicidade.
Agora vomitam no chão, eis o destino.
Vão queimando até os ossos.
Estão sobrevivendo num mundo que os expele a toda hora.

sábado, 18 de junho de 2011

Catálogos

Eu acho muito legais aqueles catálogos nos quais encomendamos produtos para receber dentro de um mês. Eles têm uma variedade imensa de coisas: camisas, calças, chupetas, brincos, bolinhas de gude, lingerie, DVDs, batinas, vibradores...

Acho incrível principalmente a parte das camisas, em que a personalidade da pessoa é descrita a partir do produto. Dia desses estava folheando um destes catálogos, e tinha um cara com uma camisa polo verde. A descrição era mais ou menos assim: "O homem que veste esta camisa polo verde tem a aventura correndo nas veias. Gosta de descobrir coisas novas, flertar com as fronteiras do perigo, superar obstáculos."

Uau! É fantástico como pela camisa eles conseguiram descrever com tanta riqueza de detalhes a personalidade daquele cidadão! Tudo que eu, com minha visão rasteira e limitada das coisas, conseguiria afirmar vendo aquela foto, é que aquele cara gosta de usar camisa polo verde.

Porém, o mais impressionante ainda estava por vir. Virei a página, e ali aparecia o mesmíssimo cara com uma camisa de seda cor de vinho. E a descrição era a seguinte: "O homem que veste esta camisa de seda cor de vinho é um homem de espírito clássico. Refinado, elegante, é dono de uma finesse e gentileza cativantes para todos que o cercam."

Confesso que fiquei estupefato, até um pouco perturbado. O pessoal do catálogo, ao invés de colocá-lo fazendo poses com camisas polo, deveria encaminhá-lo a um bom psiquiatra! Aquele homem sofre de transtorno de dupla personalidade! Coitada da mulher dele! Não deve saber como agradá-lo. Uma hora, o cara quer desbravar a floresta amazônica, e na outra quer tomar champanhe nas altas rodas da sociedade! Que loucura!

Mas ainda há outra hipótese: talvez o fenômeno não se dê com aquele homem, especificamente; pode ser que a mágica esteja nas camisas. Tipo a máscara do Stanley Ipkiss, ou a roupa do Super-Homem. Neste caso, vou encomendar aquela camisa polo verde. Sempre quis, mas nunca tive coragem, de escalar montanhas, correr num rally, e pular de bungee jump. Com aquela camisa polo verde, meus problemas acabaram!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Cidade do mal

Está aberto o leilão de almas inocentes.
As trevas estão consumindo toda a luz.
Agora a casa está incendiando.
Entrem e divirtam-se!

Estão louvando o fogo.
Está frio, mas é o inferno!
Tudo o que tocam apodrece.
Carta na manga, vingança pela vaidade perdida.

O cheiro do pecado e do contra-senso tomam conta do ambiente.
Pílulas de felicidade artificial, agora você pertence a eles.
Há corpos pendurados no teto.
A besta bebe o sangue que está pingando.

A cidade toda está às escuras.
Crianças choram e pedem socorro.
Mas já não há salvação, todos foram tocados.
Zumbis caminham sem rumo, abismo e gargalhadas.

Ratos no esgoto, bichinhos de estimação.
Um poder oculto vai explodindo todos os corações.
Será que você ainda tem pernas para correr?
Ninguém pensou nisso enquanto se deliciava no paraíso?

Os mensageiros chegam, e a armadilha está pronta.
Agora é minha vez, contra-ataco sutilmente.
Com um sorriso no rosto, destruo a maldição.
Agora temos a chave, estamos libertos!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Terminal

Estou sentindo náuseas.
Momentos malditos, malditas palavras mal ditas.
Tudo corre, mas preciso ficar parado.
Minha alma está sendo estuprada.

Que esses dias passem logo.
Preciso acordar depois disso e ver que nada mudou.
Ninguém perguntou, então por que responder?
Febre, dor de cabeça, mal estar...

Estamos caminhando para o nada, não vamos a lugar algum.
Terríveis traumas, lembranças que atormentam.
Por que me sinto tão fraco?
Golpe de mestre, doces premeditações.

Falência múltipla de órgãos podres.
O martelo está batido, mas insistimos em lutar.
Estado terminal, doença irreversível.
Pinte as paredes do seu quarto com meu sangue.

Vou estragar o ritual, e rir na cara de todos.
Final cômico para uma história não escrita.
Eis a festa, eis o leilão da pureza alheia.
Estão todos famintos à sua volta.

Animais incontroláveis com olhos ferozes.
A bandeja está no centro da mesa.
Você é o prato principal, e vão sugar todas as suas energias, pode ver?
Talvez seja tarde demais para avisar isso...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Exposição das aberrações

Sejam bem-vindos à Exposição das Aberrações. Aqui, veremos alguns exemplares raros, de um tempo muito longínquo da humanidade, que, sabe-se lá como, sobreviveram, mas estão, obviamente, em iminente processo de extinção. São quatro jaulas. Parece pouco. Mas há muitas coisas curiosas e engraçadas a observar. Vocês não vão acreditar! São maluquices que vocês nunca viram na vida!

Na primeira jaula temos um exemplar do Homo Honestus. É uma espécie muito peculiar. Possui um defeito grave chamado "honestidade". É uma coisa engraçada: ele cumpre as coisas que diz, quando vê algo "dando bobeira" na rua devolve ao dono, dentre outras coisas muito primitivas. Se quiserem, podem testar. Não se sabe ao certo como, mas ele consegue NÃO priorizar o mais sagrado dos valores humanos: o dinheiro. Joguem uma carteira. Você, senhora, não fique com medo. Pode jogar. Ele vai devolver. Isso! Olha lá, olha lá! Ele tá recolhendo! Vai devolver! Olha, tá devolvendo! Viu só? Isso! Podem tirar fotos! É um fenômeno muito curioso!

Aqui na segunda jaula temos dois exemplares de Homo Coletivus. Vejam só, eles acreditam em bem comum, e em cooperação entre as pessoas! É muito engraçado! Quando jogamos a comida para eles, eles dividem! Isso, vocês ouviram bem! DI-VI-DEM! Incrível, não? Ai, ai, não fiquem constrangidos, podem rir! Isso um dia foi comum na nossa espécie! Ainda bem que evoluímos!

Na terceira jaula temos o fantástico Homo Revolucionarius. É uma versão radicalizada do Homo Coletivus. Ele não só acredita em balelas como igualdade e justiça, como acha que pode fazer a revolução e implantar uma coisa muuuuito antiga chamada "Comunismo". É um sistema que alega dividir tudo proporcionalmente e com justiça na sociedade. Até hoje não existiu. E, ora bolas, jamais vai existir! O Homo Revolucionarius caracteriza-se por ter alucinações o dia inteiro. Por isso, não se assustem se ele começar a gritar umas palavras de ordem esquisitas. Ele é assim mesmo.

Por fim, na quarta jaula temos o Homo Sentimentalis. Fica por último porque é a principal atração da nossa exposição. É a aberração das aberrações. Ele possui uma patologia devastadora chamada "capacidade de amar". Isso liquidou com muitas pessoas, há muito tempo atrás. Era uma doença das mais graves. Nessa época, algumas pessoas "gostavam" umas das outras! Conseguem imaginar uma coisa dessas? Ele fica ali, lendo poesias retrógradas e sem sentido, o dia inteiro. Às vezes até chora! Mas felizmente, com a evolução de nossa organização social e da medicina, hoje em dia essa doença foi erradicada. Tomamos uma vacina de dose única contra essa doença maldita quando nascemos, e portanto, não corremos mais risco nenhum. Por isso, se quiserem chegar um pouquinho mais perto da jaula, podem chegar, sem medo. Porém, não se aproximem muito. Às vezes ele resolve fazer umas coisas meio nojentas, como dar abraços e beijos. De qualquer forma, se isso acontecer, apesar do trauma, vocês podem ser desinfetados na saída, sem problemas.

Pois bem, chegamos ao fim da nossa Exposição das Aberrações. É sempre interessante conhecer o passado mais remoto e rudimentar do ser humano. Sei que é difícil, mas não devemos nos envergonhar disso. Faz parte do processo evolutivo. Temos é que ver isso e ficarmos satisfeitos sobre como hoje melhoramos tanto e somos tão avançados. Agradecemos muito a visita de todos vocês. Na saída, tem chaveirinhos e lembranças a preços módicos. Voltem bem para as suas cápsulas, e descansem bastante. Amanhã é segunda-feira, e 20 horas de trabalho, cansativo, é verdade, mas acima de tudo feliz e produtivo, aguardam por vocês. Até mais!

terça-feira, 14 de junho de 2011

Cobrança

Uma corrente elétrica atravessa aqueles corpos.
Envelopes lacrados, selos envenenados.
Traga-me uma taça de vinho para brindarmos à hipocrisia.
Estamos fora do jogo, estamos fora do ciclo de destruição.

E agora eles estão organizando sua celebração.
Sodomia coletiva, lágrimas do fundo da alma.
Engula mais e mais moedas até vomitar, garoto.
Morra asfixiado pela sua ganância.

Corpos suados se esfregam pelo chão.
Eis o cenário de uma seita animalesca.
O vinho virou sangue, e a pureza é engolida pela devassidão.
Mas ainda estamos longe disso tudo.

Em meio à dor e ao prazer, eles já não conseguem fugir.
Fizeram a escolha errada, e agora pagam por isso.
Um dia aqueles sorrisos seriam cobrados.
Estamos assistindo à destruição e nos deleitando com o que vemos.

Por longos anos essas trevas estiveram à espera desse momento.
As almas obscuras estão sendo tragadas com força assustadora.
Mas ainda restaram alguns objetos não recolhidos.
Reciclagem do lixo, inocência perdida.

É assim que agora podemos virar as costas com desprezo.
A razão e a fé não podem ser compradas.
Por isso nesse momento estamos fazendo nossa comemoração particular.
Estamos livres, e sempre estivemos certos.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Algumas constatações depois da partida de ontem

O Inter ontem realizou sua quarta partida no Brasileirão. Parece pouco. Algumas conclusões podem parecer precipitadas. Mas o campeonato está em andamento, e algumas coisas precisam ser urgentemente corrigidas. Nem falo mais em perspectiva de título. Falo em algo mais amplo, projetando já a próxima temporada, já que a atual já ganha ares melancólicos: o Inter parece fadado a ser coadjuvante no Brasileirão 2011. Algumas constatações são inevitáveis:

1. Renan não pode ser titular do Inter: o goleiro, desde que voltou ao clube, tem uma média de falhas por número de jogos absolutamente assustadora. Ele não consegue passar três jogos seguidos sem falhar.

2. Nei não tem as mínimas condições de ser titular na lateral direita colorada: ele é fraquíssimo. Tem raça. E só. Não sabe marcar e não tem qualidade no apoio. Os adversários fazem a festa pelo seu lado.

3. Bolívar já não tem as mínimas condições de jogar futebol em alto nível: para clubes médios, ele ainda pode servir. Para a necessidade do Inter, não. Se arrasta em campo, e tem tido atuações constrangedoras. Está jogando no carteiraço. Prestou grandes serviços ao clube. Mas não dá mais.

4. Rodrigo não pode ser titular: como reserva, até pode quebrar um galho. Mas está longe de suprir as necessidades defensivas do colorado. Ao lado do horroroso Bolívar, forma uma defesa desastrosa.

5. Guiñazu não pode ser primeiro volante: não tem o cacoete da função. Está sempre fora do lugar, e abusa das faltas. Até mesmo sua titularidade poderia ser repensada. Há mais de um ano, não joga o mesmo que jogava outrora. Tecnicamente, anda muito mal.

6. Tinga é ex: e, como ex, não pode ser titular. Chega a ser deprimente ver um jogador que já nos deu tantas alegrias jogar uma bolinha tão curta quanto tem jogado desde que chegou.

7. D'alessandro está devendo: é um craque. Mas precisa de uma sacudida. Parece acomodado.

8. Zé Roberto não é atacante: é bom jogador, sim. Mas o colorado precisa de um atacante mais característico, que não apenas se movimente, como Zé Roberto se movimenta, mas que também finalize mais. Este jogador me parece mais adequado como opção quando da ausência de Oscar, como quarto homem de meio campo.

9. De boas notícias, mesmo, só Oscar e Damião: o centroavante já é uma realidade. Está carregando o time nas costas com seus gols. E Oscar é extremamente talentoso e insinuante. Sua titularidade é inquestionável, no mar de mediocridade no qual o colorado anda mergulhado.

10. Com tudo isso, colocar a culpa toda em Falcão é covardia: são muitos os problemas. Se é verdade que o colorado ainda está sem padrão de jogo, também é verdade que o atual treinador tem tido muitas dificuldades de superar certas relações viciadas que parecem existir no interior do vestiário. O problema é muito mais profundo do que treinador. Na atual toada, o Inter poderia contratar Mourinho ou Guardiola que muito pouco mudaria. Há uma questão estrutural na política de futebol colorada que precisa ser enfrentada, para o bem do clube.

Os problemas são inúmeros, como se pode ver. Espero estar errado, mas acho que este Brasileirão já era para o Inter. Jogando a bola que está jogando, brigará pra não cair. É muito jogador decadente num time só. A consequência é um time sonolento e lento em campo. Uma vez que, do jeito que está, o colorado não deve chegar a lugar algum, talvez seja a hora de fazer uma renovação. Pelo menos com isso, o Inter começa a se oxigenar para a próxima temporada, e vai levando a atual para ter dignidade e ficar entre os dez. Como diria o filósofo: pior que tá, não fica.

Esta renovação é fundamental, e é algo que o São Paulo vem fazendo desde o início do ano: é uma atitude custosa, difícil, que exige certa paciência, mas que já começa a dar resultados no tricolor paulista. É este o caminho que o colorado precisa seguir.

No gol, o Inter tem que trazer um goleiro de qualidade comprovada. Se não houver opções de mercado, o negócio é apostar nos jovens, como Muriel, já que Lauro parece estar de saída.

Na lateral direita, o Inter tem que contratar. Ou apostar em Alisson.

Na zaga, seria importante contratar um jogador pronto que pudesse formar dupla com Juan, ou mesmo com Rodrigo Moledo. Colocar os dois jovens ao mesmo tempo seria uma temeridade. Ficar com Bolívar, Rodrigo ou Índio, qualquer um deles como titular, também.

No meio campo, Bolatti, mesmo em má fase, é titularíssimo na primeira volância. Seria bom também começar a dar espaço aos jovens, mesmo que aos pouquinhos.

No ataque, Gilberto, mesmo com a pequena amostra, parece a melhor opção disponível no elenco. Tem velocidade, é aguerrido, e até agora não parece ter sentido o peso da camisa: ele vai pra cima e não quer nem saber. Mas não seria nada mau se o Inter providenciasse um atacante de peso para fazer companhia ao Damião.

O momento é crucial e o colorado tem que dar uma guinada na sua visão de futebol. O time e o elenco precisam ser oxigenados. Os atuais medalhões já nos deram muitas alegrias. Mas passaram. Já não conseguem render o que deles se espera. O Inter pode ser grato a eles, reconhecê-los, sim. Mas fora de campo. Dentro das quatro linhas, eles têm comprometido.

Cabe perguntar se os atuais dirigentes terão a coragem e a disposição necessária para fazer esses ajustes. Infelizmente, acho difícil...

domingo, 12 de junho de 2011

O tempo e a realidade

O tempo passou tão rápido.
Você não soube lidar com as passagens.
Agora lamenta as oportunidades perdidas.
O perdão nunca virá.

Eu sei que viver às vezes é traiçoeiro.
Mas entenda que nunca fomos donos de nós mesmos.
Fomos enganados por longos anos.
E você pensava que suas decisões estavam corretas e precisas.

Olhe-se no espelho: você já não é mais aquele garoto.
Observou o tempo passar, não soube arriscar.
Engula a seco todo o seu remorso.
Às vezes a segunda chance nunca se apresenta.

Relógio quebrado, calendário rasgado.
O tempo não voltará jamais.
Seus momentos de brilho ficaram apenas em sua memória.
E hoje as ruas estão frias demais para seu romantismo e nostalgia.

Sei que você tinha um pouco de razão quando se rebelou.
Você acreditava no que sentia.
Mas onde você chegou com isso?
Os anos passaram, e só agora a realidade aflora.


sábado, 11 de junho de 2011

Revistas de fofoca

Uma coisa que nunca vou entender na vida são as revistas de fofoca, tipo Contigo. Não só a existência delas. Não entendo principalmente quem as compra. O que passa na cabeça dessas pessoas?

As pessoas vêem novelas. Tudo bem. Elas se envolvem com as novelas. Tá... Beleza... Elas comentam as novelas... Ok... Mas elas vão além! Elas compram revistas, e não para saber o que aconteceu. Elas compram pra saber o que vai acontecer! E o pior: elas não comprar pra saber exatamente o que vai "acontecer". Elas compram pra saber o que um cara vai decidir que vai acontecer na cabeça dele! Se ele decidir que ETs com cabeça-de-melancia vão invadir a novela e destruir todos os personagens, é isso! "Uau! Eu sei em primeira mão coisas que não vão acontecer de verdade, mas que um bando de atores vão fingir que aconteceram!" É demais!

Isso sem contar a mais fundamental das perguntas: pra quê? Qual é a graça? É como ver um tape de um jogo de futebol depois de saber tudo o que aconteceu nele. "Tá vendo o Índio ali pela direita? Agora ele vai dar um balão, o Luis Adriano vai raspar de cabeça pro Iarley, que vai cortar o Puyol e tocar pro Gabiru. Ele vai fazer o gol e o Inter vai ser Campeão do Mundo". Tá bom, tá bom, eu confesso: realmente faço isso. Mas é o Inter, né? Novelas são diferentes. Duas semanas depois, todo mundo já esqueceu: já estão confundindo o personagem da Deborah Secco com o da Glória Menezes.

Além disso, por si só, é bizarro comprar uma revista para saber o que vai acontecer. Geralmente, nos informamos sobre o que já aconteceu. Para saber o futuro, é mais fácil consultar tarô, búzios, etc. Imagine se comprássemos jornal pra saber as notícias de amanhã? Fico imaginando o pai de família tomando café, lendo e comentando, logo pela manhã: "Opa, amanhã um avião vai cair na Indonésia. Ah, tudo bem, eu não ia pra lá mesmo... Viu só? Nada de interessante vai acontecer, perda de tempo do caramba... Espero que amanhã essa porcaria tenha notícias mais úteis para depois de amanhã! Se não eu cancelo a assinatura! Eu juro!"

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Cheiro de pele

Pedro e Sérgio conversando no bar:

- Pedro, hoje fiz a barba!
- Nossa, que novidade! Não vai me dizer que também escovou os dentes e tomou banho?
- Sim! Como adivinhou? Mas não, não falo de simplesmente me barbear. Tirei a barba toda. Estou com a pele lisinha como a de um bebê!
- Ah, bom. Pois é, eu sempre mantenho a barba totalmente feita. Não nasci para ter bigode, barba, ou cavanhaque.
- Já eu sou o contrário. Gosto de manter pêlos no rosto. É o que nos diferencia das mulheres.
- Como assim, Sérgio? Acho que tem algo mais que nos diferencia das mulheres, NÃO É?
- Ah, sim, claro... Hehehe... Mas falo do contato visual imediato. Homens podem ter pêlos no rosto... Mulheres não. E, sabe como é, hoje em dia as coisas andam tão híbridas...
- Bom, ainda assim, depende da mulher...
- Enfim, mesmo gostando de ter pêlos no rosto, hoje resolvi deixar lisinho.
- Sim, é sempre bom ficar lisinho.
- Afinal, ora bolas, durante a infância, não tínhamos pêlos no rosto, e nem por isso éramos confundidos com meninas... Por isso, desencanei.
- É, isso é fato.
- Quer tocar no meu rosto? Olha como tá lisinho!
- Não, não, obrigado, Sérgio. Deixa assim, só no campo visual.
- Ih, tá com medo de alguma coisa?
- Ora, claro que não.
- Então toca, toca... Passa a mão!
- Não, cara! Já falei que não!
- Não sabe o que tá perdendo. Uau, minha pele nunca esteve tão suave!
- Imagino.
- E isso que nem uso aqueles cremes que as mulheres usam.
- Cara, aquilo não são cremes! São melecas que elas passam para se sentirem mais cheirosas. Vai por mim. Aquilo não funciona. É efeito Placebo, manja? Elas só não gostam de ficar com "cheiro de pele".
- Ah, que bobagem! "Cheiro de pele"...
- A pele tem cheiro sim!
- Não a do rosto!
- Tem sim.
- Você já ouviu falar de alguém que tem "cc" na cara? Ora...
- Não é um cheiro ruim. Mas é um cheiro. E para algumas mulheres, todo o cheiro natural do ser humano é uma espécie de fedor...
- Nunca senti esse cheiro natural. E, de qualquer maneira, existe diferença entre cheiros neutros e cheiros fedorentos.
- Para nós, talvez. Mas para elas... Ou é cheiro bom, tipo, de rosas, ou é fedor...
- Continuo não entendendo isso...
- É um mistério da humanidade... Mas deve ser pelo mesmo motivo pelo qual desodorizamos nossos carros.
- Ora, mas que absurdo! Desodorizar o carro é fundamental! Nunca sentiu o cheiro que fica nele?
- Que cheiro?
- Um cheiro de pele. Não é cheiro de chulé ou sovaco, mas é um cheiro característico... E não é um cheiro bom. É um cheiro meio fedido. Nunca sentiu?
- Não, Sérgio... Nunca senti...

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Fantasmas

Pesadelos estão me atordoando esta noite.
Como transformar essa dor em força?
Um dia a mais, tempo que não volta.
Aguardo a tempestade, mas na verdade as nuvens já sobrevoam meus sonhos.

Será a reunião dos fantasmas que me perseguem.
Agrida-me, arranque meu coração, mas não fique parada.
Estamos longe do nosso fim, e isso é torturante.
Queimaremos por séculos e mais séculos.

O enterro está sendo preparado.
Já vejo tudo o que vai acontecer.
E mesmo que esteja errado, sei que vou sangrar.
A besta está cooptando todos que pode.

Se todos ficassem calados, a paz iria prevalecer.
Me diga apenas como faço para sobreviver a isso.
Prometa resistir e manter-se viva.
Ainda podemos permanecer ilesos, apenas fique firme.

Há vermes saindo daquele corpo.
Alucinação e esquemas definidos.
Podemos enterrar quem nos enterrou, e esquecer essa maldita noite.
Até quando estarei fadado a recolher minhas imaginações do esgoto?

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Pensar

Pensar me faz bem.
Pensar me faz mal.
Pensar me leva ao céu.
Pensar me leva ao inferno.

Pensar me faz voar para longe.
Pensar me faz mergulhar nas profundezas de mim mesmo.
Pensar me coloca nos seus braços.
Pensar me faz te colocar nos braços de outrem, e como esses pensamentos doem!

Pensar me torna mais vivo.
Pensar me mata devagar.
Pensar me faz construir um futuro mais feliz.
Pensar me conduz aos piores fracassos que se possa imaginar.

Pensar me faz acertar, às vezes.
Pensar me conduz ao erro, muitas vezes.
Pensar me faz construir lógicas que de lógicas não têm nada.
Pensar me faz sofrer.

Insisto em pensar.
Penso, penso, penso...
Te penso, te penso, te penso...
E estou aqui, enterrado em meus próprios pensamentos.

terça-feira, 7 de junho de 2011

070611

Enquanto a chuva cai lá fora, fico aqui pensando em como estaríamos se aquele dia não tivesse existido.
Podíamos ter feito muito melhor.
Mas já não adianta nada ficarmos lamentando.
Algumas coisas jamais voltarão.

Preencho-me, porém, de esperança.
Ainda não morremos, e ainda poderemos nos encontrar em uma tarde qualquer.
Há vozes que insistem, há vozes que nos fazem seguir.
O fim ainda não chegou.

Arranco toda a mágoa do peito.
Aguardo o telefone, mas ele nunca toca.
Está em suas mãos, não jogue fora os nossos bons dias.
Na noite que passou meus pensamentos estavam desorganizados e caóticos.

Nosso tesouro ainda está bem guardado.
Uma notícia boa chegará em breve, creio nisso.
Estanque meu sangue, leve-me para junto de você.
Ainda chove, e meus olhos ainda insistem em fechar.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Aparição

Surge e desaparece.
Fui pego de surpresa, sempre é assim.
O mundo desaba dentro de mim.
É impossível não sentir essa dor.

Fique um pouco, lembre que eu existo.
Acalme minha alma.
Insisto em me machucar.
Mas ainda posso esperar.

Garota, você tem ideia do impacto que causa em mim?
Já não existe estrutura para deter esta força.
Agora não posso me defender.
Ainda falta terminar isso tudo.

Por favor, pegue minha mão.
Não me deixe cair.
Preciso de sua ajuda, porque meus braços já não conseguem me manter aqui.
Há uma tristeza dentro de mim que só você pode tirar.

Você é uma parte que não posso arrancar do coração.
Tudo poderia ser melhor.
Mas ainda estou aqui.
Sou síntese de angústia, espera e esperança.

domingo, 5 de junho de 2011

Acordar

Estive dormindo por um longo tempo.
Chegou a hora de ressurgir.
Preciso movimentar o mundo à minha volta.
É questão de sobrevivência.

Continuo pensando naquela garota.
Mas tenho que pensar em mim também.
Chegou a hora de botar a cara pra bater.
Chegou a hora de vencer.

Estamos aqui para fazer o que tem de ser feito.
Não posso desistir agora, e tornar vão o todo o tempo em que lutei.
Levanto e respiro fundo, já não dá mais pra adiar.
Somente as minhas forças podem fazer a diferença.

Ninguém pode lutar em meu lugar.
Busco todo o poder que tenho no fundo da minha alma.
Preciso colocar o coração em um canto qualquer.
Somente dessa maneira poderei dar passos firmes.

Não desaprendi a viver.
Não desaprendi a ganhar.
Ainda sou o mesmo.
Tudo o que já fiz posso fazer em dobro, mesmo que esteja sozinho.

Com disciplina e vontade, chegarei onde quero.
Eles podem tentar, mas não conseguirão me deter.
Acordei, estou pronto para enfrentar todas as barreiras.
Estou mais forte e com mais gana do que nunca.

sábado, 4 de junho de 2011

Olhar indiscreto

Ele não parava de olhá-la. Questão de instinto. Necessidade incontrolável. Toda bronzeada. Que peito! Nossa! Que delícia!

E aquelas coxas? Absurdo! Loucura total!

Todas as suas fantasias resumiam-se a apenas uma coisa: queria, mais do que tudo, comê-la.

Seus olhos não se desviavam um segundo sequer dela. As outras pessoas no bar chegavam a ficar um tanto constrangidas. Era um negócio descarado!

Alguém reclamou daquele desconforto. Pediu para que ele parasse de olhar para ela, e se retirasse imediatamente. Ele aceitou sair, meio aos resmungos.

O mendigo, então, deu as costas para a máquina de assar frangos, com a última galinha girando. E foi embora.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Fronteira

Meus pés estão doendo.
Caminhei muito, e continuo caminhando.
Mas não sei para onde estou indo.
Ninguém me dá as respostas de que preciso.

Vejo corpos no chão, todos com o mesmo destino.
Serei eu o próximo?
Linha divisória, tenho algo, não tenho nada.
Sobreviverei a esta noite e suas consequências?

Guardo uma dor que pulsa dentro de mim.
Mas continuo disfarçando o medo e a incerteza de estar rumando para o nada.
Sei que não posso abandonar meus sonhos agora.
Por isso, ainda caminho com as pernas pesadas.

Em que momento exato roubaram aquele raio de luz?
Me iludi pensando poder segurá-lo com a mão.
Então, do nada, tudo escureceu.
A chama de minha vela ainda não se apagou.

O estômago dói, imaginações, paranoias, acidez conjugada com a resistência de minhas esperanças.
Nunca desejei tanto a chegada do amanhã.
Quero acordar e ver que estou vivo, está tudo bem, e o sol nasceu como sempre.
Ainda quero respirar, preciso disso para prosseguir.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Doação de sangue para Natalia

O leitor mais assíduo do DC já conhece a história da Natalia (http://dilemascotidianos.blogspot.com/2010/11/ajuda-doacao-de-sangue.html; http://dilemascotidianos.blogspot.com/2010/11/natalia.html). Ela é prima de uma grande amiga minha, e possui uma doença rara no sangue.

A menina ainda encontra-se hospitalizada, e está precisando de mais doadores de sangue. É fundamental que todos que puderem ajudem a Natalia. Qualquer tipo sanguíneo é bem-vindo.

Peço, então, a cada leitor do blog, que não somente faça a sua doação, como também divulgue, de todas as maneiras possíveis, a situação. Quanto mais doadores, melhor. Além disso, trata-se de uma corrida contra o tempo.

É fundamental que, ao se apresentar para a doação, o doador apresente o nome da menina, Natalia Marroni Marques, para que o sangue doado seja destinado especificamente para ela. O número de prontuário não é mais necessário.

O endereço para a doação é Rua São Manoel, 543 (segundo andar). É a rua ao lado do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Recapitulando os dados:
Paciente: Natalia Marroni Marques.
Banco de Sangue do Hospital de Clínicas de Porto Alegre: Rua São Manoel, 543 (segundo andar).

Conto com a solidariedade do amigo leitor do DC.

Para mais informações, acesse: http://www.hcpa.ufrgs.br/content/view/601/800/.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Onde está a polêmica?

Ainda repercutem as declarações do treinador colorado Paulo Roberto Falcão, de que o Inter não teria qualidade o suficiente para ser campeão brasileiro em 2011. É uma repercussão necessária, sim, mas não vejo polêmica alguma em tal declaração. É, mais do que opinião, uma constatação.

Roberto Siegmann logo tratou de dizer que o elenco do Inter é qualificadíssimo. Citou os nomes de sempre. Bolívar, Guiñazu, D'alessandro, Kléber... Há um ano, essa análise poderia ser considerada mais a sério. Hoje, não. Isso não quer dizer que os atletas não possam reverter as expectativas. Ninguém duvida da raça de Guiñazu, do talento de D'alessandro, da qualidade de Kléber, da liderança de Bolívar. Porém, o futebol é dinâmico e feito de fatos. E o fato é que se contam nos dedos as boas atuações do Inter, principalmente destes jogadores, desde a Libertadores do ano passado.

E, ainda que considerássemos que estes atletas estivessem no auge de sua performance, o Inter, mesmo assim, não deixaria de ter carências evidentes no seu elenco. A lateral direita é um horror. O reserva Daniel é tão fraco que faz a torcida sentir saudade do titular e limitadíssimo Nei. A zaga é lenta, e Juan, o zagueiro de velocidade, além de não ter oportunidades efetivas, servirá a gloriosíssima seleção sub-20. O meio campo carece de objetividade, já que Oscar tem sido relegado ao banco. E no ataque falta um companheiro para Damião.

É bem verdade que aí estão diluídos equívocos de Falcão e da diretoria. Com Oscar e Juan no time, por exemplo, o rendimento tenderia a aumentar. Ambos, porém, são, ainda, apostas. Apostas não deveriam ser soluções para um time que almeja título brasileiro. Elas devem ser complementos, com o devido suporte dos mais experientes (suporte esse que não tem sido dado). Não pode cair sobre estes atletas a responsabilidade de resolver todos os problemas do time.

Achar que está tudo certo com o elenco colorado é viver num mundo paralelo. Já elogiei muito o elenco. Mas a dinâmica do futebol exigiu que eu revisse alguns conceitos. Tem gente com o prazo de validade vencendo. O Inter não pode ser refém dos veteranos, mas também não pode juvenilizar drasticamente sua equipe. Resta, então, reforçar o grupo, oferecer opções ao treinador.

Falcão tem deixado a desejar? Sim. O time poderia estar rendendo mais? Evidentemente. É aceitável que com este elenco se empate com os reservas do Santos e se perca em casa para o Ceará? Óbvio que não. O momento, então, é de cada setor assumir sua parcela de responsabilidade. Aos jogadores, cabe se dedicarem mais: o colorado tem atuado em ritmo de bossa nova. Ao treinador, cabe escalar os melhores, e fazer esse time mesmo render o que pode, que é mais do que vem rendendo. À direção, cabe trazer reforços, preencher as posições carentes, tornar o elenco mais consistente e adequado para a disputa do Brasileirão, e, só então, fazer uma cobrança mais efetiva sobre Falcão. Pode parecer complexo, mas é extremamente simples.

Com cada um fazendo a sua, as coisas podem melhorar. O campeonato recém começou. Mas tem que se mexer.