sexta-feira, 8 de abril de 2011

O massacre do Realengo

O lamentável massacre ocorrido numa escola do Rio de Janeiro tem trazido à tona uma série de debates sobre segurança, patologias psíquicas, bullying, e comportamentos individuais. Os "diagnósticos" repousam, em última análise, no aspecto psicológico do indivíduo que cometeu aquela barbaridade para depois se suicidar. Não há porque duvidar da seriedade de tais diagnósticos. Mas há um debate um pouco mais profundo que precisa ser feito. Um debate no nível do tipo de sociedade que tem sido construído no ocidente. Um tipo de sociedade que aumenta consideravelmente a possibilidade de afloramento de comportamentos como o de Wellington de Oliveira Menezes.

Vivemos numa sociedade doente. O relativismo exacerbado, combinado com uma globalização que integra consistentemente mas, paradoxalmente, atomiza ainda mais violenta e abruptamente, tornaram a convivência social muito mais complexa. Símbolos, sistemas de crenças, comportamentos, tudo isso ganhou uma dinâmica de difícil acompanhamento. O resultado é que muitos indivíduos acabam por se encontrar deslocados do mundo, sugados por uma relação tempo-espaço que mais se parece um buraco negro pronto a sugá-los no menor descuido. Como defesa, muitas vezes adotam um fanatismo esquizofrênico como o que Wellington utilizou para justificar aquela barbaridade.

Parâmetros morais estão cada vez mais diluídos. Estes parâmetros não precisam ser necessariamente religiosos. Podem ser de ordem humana, de valores que até anteontem eram ponto pacífico e indiscutível. Mas precisam existir. São os pilares que sustentam a convivência entre os indivíduos. Uma sociedade sem certo e errado, sem respeito ao próximo, onde os limites e fronteiras morais estão permanentemente em disputa num jogo sem nenhum tipo de previsibilidade tende a, digamos, potencializar comportamentos psicóticos como o visto no Realengo.

Um grande estrago já está feito, e parece de difícil reversão. Indivíduos sem referências estão sendo multiplicados em escala industrial, a todo momento. Não há como parar esta máquina, que se autonomiza permanentemente. Neste imenso jogo sem regras e fair play, em que o prazer individual é o único benefício a ser perseguido, custe o que custar, doa a quem doer, tende a prevalecer o mais forte, o mais egoísta, o mais frio e calculista. Um modelo social agressivamente competitivo, em que o indivíduo tem de lutar despudoradamente contra outros indivíduos pela sobrevivência não só física como moral, numa grande e nada ingênua dança das cadeiras, faz perder-se o próprio sentido da palavra "sociedade", concebida por si mesma. Estaríamos voltando a um estado de natureza disfarçado de modernidade e liberalização comportamental? É pra se pensar...

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