domingo, 27 de março de 2011

Mídia jagunça

Reproduzo abaixo excelente texto de Alexandre Figueiredo, do blog Mingau de Aço (http://mingaudeaco.blogspot.com/2011/03/verdade-como-mercadoria.html), sobre a mídia jagunça, na qual se enquadram Datenas, Alexandres Mottas, e Diários Gaúchos da vida. Vale a pena conferir.

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A "VERDADE" COMO MERCADORIA

Por Alexandre Figueiredo

Ainda impera a visão de que a cultura popularesca é a "verdadeira cultura popular". Embora seus defensores falem tanto em "ruptura de preconceitos", são eles mesmos os preconceituosos, porque se baseiam numa visão de povo pobre ao mesmo tempo pitoresca e domesticada, piegas e grotesca, como se o povo fosse "melhor" sendo sempre o pior.

Isso favorece o pretenso carisma que a imprensa jagunça possui, com associações até mesmo contraditórias. Uns a classificam como "imprensa de humor", extra-oficialmente. Outros a classificam como a "imprensa-verdade". Como se o "mundo cão" fosse, em si, a "realidade pura", da mesma forma que se atribui à hegemonia do popularesco à visão elitista da pobreza, associada a um pretenso estado de "pureza social".

Mas o que vemos é que a "verdade" é tratada como mercadoria. Isso em toda a imprensa jagunça, inclusive o Notícias Populares, que ninguém deve esquecer que foi um veículo do Grupo Folha. E isso vale tanto para o Jornal da Bahia que Mário Kertèsz desenvolveu em 1990 quanto o Meia Hora do Grupo Ejesa, de O Dia.

Estudiosos sérios de jornalismo definem esse tipo de imprensa sensacionalista, que se baseia no tripé "sexo, crimes e aberrações", além da obsessão por banalidades da TV (no momento temos, por exemplo, o Big Brother Brasil) e futebol, além da trilha sonora brega-popularesca, é claro (só para se ter uma ideia, o Exaltasamba é um dos mais "sofisticados" nomes musicais divulgados por essa imprensa. Fábio Jr., então, é quase o "Tom Jobim" dessa mídia tosqueira).

Essa mídia pitoresca cresceu muito durante a ditadura militar. Não vamos nos esquecer que, com o golpe de 1964, a sociedade trocou Silveira Sampaio por Jacinto Figueira Jr., as pegadinhas de Dom Rossé Cavaca por outras mais grotescas e humilhantes, e lá se vai o tempo em que o noticiário esportivo tinha Nelson Rodrigues, Ary Barroso e Antônio Maria.

O povo era humilhado duas vezes. Pelo poder político autoritário, seja do latifúndio, seja do capitalismo antes militarizado, depois apenas tecnocrático, e pela mídia que domesticou o povo, transformando-o numa caricatura pior do que a inocente caricatura das chanchadas.

E isso criou um paradigma de povo que tanto a direita dente-de-leite quanto a intelectualidade etnocêntrica "romantiza" como se fosse o "povo de verdade, em estado puro". Até chamaram este que lhes escreve de "playboyzinho de favela", um adjetivo pejorativo, que, no entanto, tem um sentido muito melhor do que ser "etnólogo de escritório" ou "filantropo de casarão".

Mas aqui não cabe eu detalhar as minhas andanças pelas comunidades pobres, coisas que a direita dente-de-leite tão "vangloriosa" em dizer que "gosta de pobre", que só vê a periferia pela tela da televisão, nunca faz.

A "verdade" mercadológica da imprensa jagunça - definida pelo eufemismo de "imprensa popular", embora ela nada atue em benefício das classes populares - soa tão falsa quanto vender a "opinião" como mercadoria (algo que falaremos noutra oportunidade). É o tendenciosismo que impera nessa mídia "popular", de forma até tão cruel que a imprensa conservadora propriamente dita.

Afinal, é um grande engano acreditarmos que um Diogo Mainardi da vida manipule diretamente as classes pobres. Ele nem sequer é conhecido por elas. Quem manipula a opinião pública do povo pobre é a "inocente imprensa popular" que a classe média tão alegremente admira e defende. Como a tal "cultura trash" foi tão levianamente adaptada e ganhou adeptos no Brasil...

Assim como uma Valesca Popozuda dissolve mais os protestos de operários e camponeses do que mil capatazes armados juntos, e que uma Solange Gomes vestida de "freira sexy", por incrível que pareça, age de acordo com as manobras da Opus Dei, a imprensa jagunça manipula o povo sem atacá-lo, sem afrontá-lo.

Por isso poucos percebem o que foi o Notícias Populares, o Aqui Agora, o Cidade Alerta, ou o Povo na TV, com Roberto Jefferson, Wagner Montes e Sérgio Mallandro de mãos dadas com o charlatão Roberto Lengruber.

Quando o entretenimento, aparentemente, não ofende o povo pobre, por mais que o ridicularize na distorção de seus valores, no uso do grotesco para evitar qualquer iniciativa de movimentos populares, a classe média "sem preconceitos" (mas tão ou mais preconceituosa que muita dondoca do Tea Party) não define a "imprensa popular" como mídia golpista. Mas é.

E o rótulo de "imprensa jagunça" se deve pelo fato de um Notícias Populares ou Aqui Agora, de um Meia Hora ou Brasil Urgente, de um Supernotícias ou de um Balanço Geral, complementarem o que Veja, Globo, Estadão e Folha fazem.

Estes veículos da mídia conservadora, no conjunto da obra, defendem interesses do público de classe média, condenam os movimentos sociais sob o ponto de vista alarmista das classes dominantes.

Já a "imprensa popular", em complemento a isso, faz das classes populares gato e sapato, manipulando seus gostos, desejos, preferências, fazendo o serviço da mídia golpista em transformar o povo em paródia de si mesmo, para assim tentar reprimir de forma bem mais eficaz os movimentos populares.

Por isso a tal "imprensa popular" não pode ser considerada cult. Pelo contrário, ela está para a mídia golpista assim como o jagunço está para o latifundiário. Esse tipo de imprensa, através do sensacionalismo, tenta transformar o povo numa massa conformada com sua miséria, tornando-se viciada na sua pobreza e nos valores grotescos.

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