sexta-feira, 4 de março de 2011

Americanas

As Lojas Americanas são um templo do consumo. Um fenômeno social digno de estudos mais aprofundados. Dia desses, estive numa delas, no centro de Porto Alegre, no horário de pico, cerca de 19 horas, para comprar um caderno. A fila do pagamento era enorme e demorada. E, observando-a, percebi que era composta por cerca de 90% de mulheres.

As Lojas Americanas são um fenômeno eminentemente feminino. Me parece lógico, vista a desproporção de gênero. Não se vê essa desproporção nas ruas do centro de Porto Alegre. Mas, nas Americanas, se vê! As Lojas Americanas são uma espécie de happy hour das mulheres que as frequentam. Mesmo na fila, percebe-se certa satisfação em seus rostos. Satisfação do consumo.

Elas, as frequentadoras das Americanas, ficam atentas a tudo, como se as ofertas pudessem saltar rapidamente das prateleiras e elas tivessem a obrigação de pegá-las o mais rápido possível, como numa competição. Ficam sedentas por comprar mais. Quando chegam ao caixa, ainda fazem questão de pegar uns bombonzinhos. "Se eles estão aqui, é para serem comprados, querem ser comprados, precisam ser comprados", devem pensar. Compram por comprar. Gostam de comprar. Não importa o quê. Não importa o objeto: importa o ato. O gesto de comprar, em si, é que parece causar aquela satisfação quase infantil.

E essa compra por comprar, em especial nas Lojas Americanas, não é uma compra direcionada, como seria numa loja de roupas, onde você vai para comprar roupas, ou pragmática, movida por necessidades mais ou menos imediatas, como seria num supermercado. É uma compra anárquica, meio aleatória, quase desprovida de qualquer sentido. Uma das mulheres da fila, que estava à minha frente, levava em sua cesta salgadinhos, meias, creme de cabelo, uma espécie de tapete, e mais uma série de coisas. Ela não queria comprar nada específico. Ela queria comprar. Simples assim.

A própria movimentação no interior da loja denota isso. É um negócio frenético. As pessoas andam quase em zigue-zague, sem direção definida, observando desordenadamente as prateleiras que aparecem pela frente. Tudo pode ser comprado a qualquer momento, e sem critério ou motivo aparente.

As Lojas Americanas configuram quase um mundo paralelo para as mulheres que nelas adentram. Elas se divertem comprando, como homens se divertem vendo futebol ou filmes estúpidos com o Steven Seagal. Sentem prazer em ficar na fila, olhar preços, pagar por coisas desnecessárias, e, sempre que possível, pegar "mais uma coisinha que tá em promoção". Claro, necessidade é um conceito bem relativo. De qualquer maneira, aquelas mulheres da fila transpareciam certa realização. São amostra e reflexo da sociedade de consumo.

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