terça-feira, 16 de novembro de 2010

O cachorro feio

Praticamente todos os dias, quando passo pela rua de manhã, vejo um cachorro todo deformado. Não sei se em alguma briga canina, ou se fruto da agressão de algum covarde. O fato é que ele tem várias cicatrizes na cara, os olhos meio avermelhados, e parte da boca rasgada. Seus dentes ficam permanentemente expostos, exatamente pela falta de parte dos lábios. Isso o torna um cachorro bem feio.

As pessoas parecem sempre se assustar quando se deparam com ele. Algumas evitam olhá-lo. Confesso que da primeira vez que o vi também me assustei um pouco, fiquei um tanto chocado com a imagem não muito agradável. Porém, quase imediatamente esse susto se transformou numa espécie de piedade, e também algum tipo de "afeto de observador". Não sei se isso é bom ou ruim. Mas é o que sinto.

Fico imaginando o quanto aquele cachorro deve ter sofrido. Para mim, a hipótese mais plausível é a de que tenha sido agredido por algum ser vivo travestido de humano. Posso estar errado. Mas é a minha impressão.

Aquele cachorro tem um olhar triste como nunca tinha visto na vida. Às vezes, ele fica deitado, olhando para o nada, e quando alguma pessoa passa ele olha com certo temor conformado. Seu olhar expressa uma melancolia impressionante nesses momentos. É como se com os olhos ele pedisse: "por favor, me deixa quieto aqui. Sou inofensivo, apesar de minha feiura. Já sofri pra caramba. Apenas não me faça mal."

Aquele cachorro feio de rua mexe comigo. Talvez seja por estar convencido de que algum babaca fez aquilo com ele, mas o fato é que noto uma pureza incrível em sua postura, pureza que os animais decerto possuem, mas que nele, pelo que deve ter passado, parece elevar-se à enésima potência. Ele foi surrado por um mundo que jamais compreendeu. Ele foi surrado por um mundo no qual sequer pediu para estar. Hoje, sobrevive rejeitado pelas calçadas, com gente fazendo cara feia para ele. Acostumou-se à solidão. Apenas segue. Não sabe por quê. Mas segue.

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