sábado, 23 de outubro de 2010

Ciúme

A pós-modernidade traz no seu ideário uma série de premissas, algumas interessantes, várias estapafúrdias. A maior de todas as bobagens pós-modernas pode ser resumida a uma sentença: quem ama não sente ciúme. Como assim, cara-pálida?

Quem ama sente ciúme, sim! É normal, e eu diria, é inerente ao amor. Chega a ser, em algum termo, "natural". Claro que aqui estou considerando uma estrutura cultural monogâmica. É a minha estrutura cultural. E alguém se atreveria a dizer que a cultura não estabelece relações diretas com a natureza?

Tendo o ponto a partir do qual argumento bastante esclarecido, afirmo que o ciúme denota, ao mesmo tempo, sensibilidade e racionalidade. Vou começar pela racionalidade. Não sou daqueles que acreditam na simplória fórmula "homem + mulher= reprodução". Acho que pode haver uma série de tipos de relação homem-mulher. Principalmente se o homem em questão gostar de Restart.

Opções musicais/sexuais à parte, acredito, sim, que possa existir amizade entre homem e mulher. Mas essa é UMA das alternativas. Quando há um homem e uma mulher na parada, a priori, seria ingenuidade descartar, digamos, "algo mais" que amizade. A fórmula, então, seria mais ou menos a seguinte: "homem + mulher≈ reprodução".

Em sã consciência, um homem que ama uma mulher (ou vice-versa), não tem porque gostar da ideia de colocar minimamente em risco a relação com a pessoa que ama. Isso me parece ridículo de tão simples! Então, é até certo ponto racional que se sinta um certo incômodo ao ver a pessoa amada interagindo com uma pessoa do sexo oposto. Se a pessoa é heterossexual, tem toda a lógica se pensar na ameaça, mínima que seja, de que ela se interesse pela pessoa do sexo oposto com a qual interage. O mesmo vale para homossexuais, trocando-se apenas a expressão "sexo oposto" por "mesmo sexo".

Mais do que racional, sentir ciúme é um sintoma inevitável de quem ama, é um sinal de sensibilidade. Só não sente ciúme, um pouquinho que seja, a pessoa que não ama. Ela pode sentir qualquer coisa. Mas amor não é. A ausência de ciúme, para mim, significa desleixo, desprezo. No pacote do amor, sentir ciúme está incluído. E não é peça opcional.

Claro que a pós-modernidade, com seu relativismo devastador, tenta nos convencer do contrário. E tenta ridicularizar quem sente ciúme, rotulando como inseguro. Ora bolas, rotulem como acharem melhor! Neste verdadeiro estado de natureza das relações humanas, quem não sente ciúme não sente nada: trata o outro como objeto descartável e substituível. A ausência de valores promovida pela pós-modernidade desumaniza o convívio humano. Particularmente, acho que essas coisas retrógradas, tipo sentimentos e noção de certo e errado, ainda são necessárias para que não voltemos à barbárie.

De todo modo, gostaria de deixar claro, se assim não o fiz até aqui, que não defendo o ciúme doentio, que corrói as relações. Apenas acho que uma certa dose de ciúme é indispensável, embora não suficiente, para chamarmos uma relação de amorosa. Mais do que isso, perceba o amigo leitor que falo em sentir ciúme, não em demonstrar ciúme. O ciúme é algo que, em 90% das vezes, é algo que tem de ser mastigado, mastigado, mastigado, até que possa ser engolido. Nos outros 10%, eu me atreveria a recomendar: demonstre, sim! Claro, com moderação, com limites. Mas demonstre! Isso mostra que você tem sangue correndo nas veias. Isso mostra que você se importa com quem você ama.

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