quinta-feira, 7 de outubro de 2010

As nuvens e o sol

O dia estava feio. Mais feio que o José Serra chupando manga. As nuvens no céu estavam carregadas, pesadas, escuras. Chovia razoavelmente. Era um dia nada convidativo. Eu estava enfurnado na biblioteca com minhas leituras sobre a mesa. Era, de fato, o que de melhor eu poderia fazer num dia tão horroroso. Chuva, mais chuva, e um entardecer fechado e melancólico: era tudo o que se poderia esperar dali para frente, até a noite.

Mas, incrivelmente, de forma repentina, quase abrupta, o sol deu o ar da graça, lá do lado de fora. Atreveu-se a desafiar o imponente e carrancudo cinza do céu. Aquele momento curto, singelo, foi uma das coisas mais belas que vi na vida. O brilho dourado claro banhando a grama, a árvore, as pessoas... O dia teve um espasmo de alegria. Em meio a tantas lágrimas, deu um sorriso, inocente e descompromissado como o sorriso gostoso de uma criança que não se importa com as agruras da vida.

Aquele instante, que deve ter durado no máximo uns dois minutos, foi como uma espécie de recado divino, conforto, consolo para minha alma. Está tudo nublado e enegrecido. Mas o sol fez questão de me lembrar de que ainda está lá. Luminoso, amoroso, cheio de vida, como sempre. Minha vida está pesada, cinzenta e chorosa como o dia lá fora estava. Mas o sol não se apagou.

Que passem logo essas nuvens, então, e o céu se descortine com o mais lindo dos dias, me dando a certeza de que aquele desprezo, aquela distância e aquela frieza foram passageiros. Como um dia chuvoso de outubro.

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