quinta-feira, 9 de setembro de 2010

2 anos de Dilemas Cotidianos- 8ª posição: Dona Noely

O oitavo melhor texto do segundo ano do DC é intitulado "Dona Noely". Foi escrito depois de ter sonhado com a minha falecida avó, e nele trago alguns sentimentos sobre uma morte que, apesar de já ter ocorrido há pouco mais de três anos, confesso, até hoje não digeri completamente.

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Essa noite sonhei com a minha falecida avó Noely. Não são poucas as vezes em que sonho com ela. Aquele 15 de agosto de 2007 ainda não foi inteiramente digerido por mim. Isso é muito estranho. Realmente ainda não assimilei o seu falecimento.

Dona Noely foi a primeira grande perda da minha vida. Antes, só havia perdido minha avó paterna, com quem nunca tive grande contato, na distante Palmeira das Missões, e meu avô Clézio, com quem eu tinha ligação, mas cuja morte nem cheguei a sentir, pois eu era pequeno na época para sacar dessas coisas. O vô Clézio não morreu. Desapareceu. Assim foi na minha cabeça. E assim, incrível, parece ser com a vó Noely.

Os sonhos que tenho com ela são incrivelmente reais. Só me recordo que fico numa alegria que não consigo conter no meu coração. "Ela está viva!" penso eu. E daí eu a abraço. A beijo. A admiro. Digo que a amo e o quanto ela foi importante para a minha vida.

Talvez isso seja psicologicamente explicável: não dei o último abraço, o último beijo. Não me perdôo por isso. Pensava que ela, dramaticamente presa àquela cama da casa geriátrica, com seus 80 anos, esperaria o dia que eu, do alto da minha auto-suficiência e ingenuidade perante às armadilhas da vida, resolvesse dar o abraço, o beijo. Eu guardava esse abraço, esse beijo. Todas as vezes que a via, pensava em fazer isso. Tímido, talvez temeroso da reação dela, adiava, mas pensava que uma hora ou outra, ao meu bel-prazer, poderia fazer isso. Tinha certeza de que o faria. Pois é. Não fiz.

Guardo dela o nosso último toque de mãos. Ela apertou como há muito tempo não fazia. E pediu que eu orasse por ela. Simples assim. Eu, burro, imbecil, limitado que sou, não me flagrei de todo o significado simbólico daquele gesto. Alguns sinais que a vida dá não são aleatórios. Ah, não são mesmo!

De alguma forma, ela vive em mim. Acho que viverá para todo o sempre. Dona Noely não está morta. Não está. E a amo muito, por tudo o que fez, por todo o carinho que me dispensou, me criando com dedicação ímpar mesmo com as limitações impostas pela idade, para que minha mãe pudesse trabalhar mais tranquila. Obrigado, vó. Obrigado pelas sopinhas batidas. Obrigado pelo espinafre com farinha. Obrigado pelas benzeduras. Obrigado até pelos sucos de beterraba. Obrigado pela ternura. Obrigado por ter me amado.

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