quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Indefectível

Sua pirâmide não serve para mais nada.
Exposto, cortes na cara, prepare-se um pouco.
Chegou a hora de se arrepender.
Mostre como foi sodomizado.

A banda parou de tocar agora.
Ouça o silêncio de seus atos.
Aprecie os corpos atirados no chão.
Cante à capela para satisfazer seu ego.

Sua solenidade é patética.
Não me importo mais com os quadros na parede.
Os enganos todos estão límpidos.
As crianças comem terra lá fora enquanto você se admira no espelho.

Bom garoto, traga o osso logo.
Apenas não me suje com suas patas.
Coelhos e cartazes estão espalhados por aí.
Estou surdo e em chamas.

Ri baixinho enquanto você gaguejou.
Se sente suficientemente pequeno agora?
Finja mais um pouco antes de chorar pelos cantos.
Brinque mais um pouco em cima do seu tabuleiro.

O ápice era só uma mentira.
Arranque seus olhos de uma vez!
Os cegos enxergam muito mais.
A vida é um quarto escuro e aleatório.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Uma garota

Alguns momentos em nossa vida são verdadeiramente emblemáticos. Neles, passamos a ver que isso tudo que a gente passa cotidianamente faz, sim, um sentido. Há uma pessoa que, confesso, tem me feito um bem danado pelo simples fato de existir.

Não há como negar que gosto dela. Ela é verdadeiramente especial. Ela é linda, capaz, criativa, delicada, inteligente, divertida... Ela me levou a uma outra dimensão de existência. Ela é diferenciada.

O mundo é uma quase completa vala comum. Vala de gente que não vale a pena, gente que não se combina com aquilo que pelo menos eu espero da vida. Mas, eis que nesse monte de lixo, lixo que o caro amigo pode verificar quase sempre exprimido neste humilde espaço, emergem algumas pessoas diferentes. Pessoas que me dão esperança. Pessoas que me fazem acreditar nessa coisa quase mítica chamada felicidade. E essa garota de quem falo é exatamente isso.

Ela me deixa ansioso, ela me deixa cheio de expectativas a cada gesto. Ela me toca, de verdade. Ela mexe comigo de uma maneira incrível. Ela faz florescerem algumas dores, inegáveis para corações meio frágeis como o meu. Vê-la e não poder praticamente falar com ela possui o efeito de um apocalipse interior. Mas isso talvez faça parte do script. Sabe por quê, amicíssimo leitor?

Por que quando ela fala comigo, tudo à minha volta passa a valer mais, como se estivéssemos no mais florido dos cenários. Quando existo para ela, me sinto o ser humano mais forte da face da Terra. Quando faço aquela boca sorrir, o meu mundo para, e me vejo banhado por toda aquela luz.

Não basta para ela a beleza exterior: abusada que é, ela faz questão de ser a coisa mais linda do mundo por dentro, também. Aí, me sinto verdadeiramente privilegiado. Ela consegue me transformar, com seu jeito doce e simples de ser, de um maluco pessimista em um maluco beleza que faz questão de ser maluco se esse for o pré-requisito de sua alegria.

Ela faz a diferença, de verdade. Ela sabe disso.

Cabeça baixa

Ei, garoto, você aí!
Vá ao banheiro e vomite tudo.
Aquele pudim não era pra você.
Você me mata de vergonha.

Ei, garoto, você é tão estúpido!
Comece a se penitenciar.
Quem disse que você podia sonhar?
Permaneça secando.

Ei, garoto, se esconda de uma vez.
Nunca aprendeu a andar de bicicleta.
Baixe a cabeça enquanto te humilham.
Você é um completo incapaz.

Ei, garoto, não foi isso que te ensinei.
Converse com sua solidão.
Não entende que não tem vez?
Quanto mais você rasteja, maior a piada que você é.

Ei, garoto, largue essa arma.
Seu papel de covarde não combina com seu gesto.
Jogue-se na sua cama e aceite sua condição.
Você nasceu pra ser um nada.

Ei, garoto, aprenda a ficar quieto.
Ninguém nunca vai te ouvir.
Todos aqui só querem gozar, não vê?
Por mais que corra, jamais sairá do lugar.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Aprendiz

Estou um pouco atrapalhado.
Suas características me encantam.
Passei a noite toda com você, mas você não sabe.
Será que estou te atrapalhando?

Amo o seu sorriso.
Quero existir um pouco mais.
Me ensine a ser o que você deseja.
Você sabia que me deixa feliz quando olha pra mim?

Por favor, espere um pouco enquanto eu melhoro.
Sei que posso ser bom o suficiente.
Não posso ter tanto cuidado.
Preciso contar com você.

Quando estivermos velhos, lembraremos nossas histórias?
Preciso marcar e ser marcado.
Quero tomar um banho de chuva com você.
Podemos nos entregar às loucuras de nossos mundos paralelos.

Se tudo que você pode hoje é me abraçar, então me abrace forte.
Quero te sentir e me aquecer.
Até quando terei que esperar?
Siga sorrindo para mim, isso me conforta um pouco.

A cada dia me importo mais com você.
Adoto suas preocupações e alegrias.
Fiz e farei tudo o que puder, sempre.
Você já é um pedaço de mim.

domingo, 26 de setembro de 2010

Pirilim

A noite chega e ainda estou aqui.
Espero pelo pirilim com ansiedade.
É necessário ter paciência.
Me alimento da esperança de que o pirilim virá hoje.

Meu barco em diversos mares e oceanos.
De alguma maneira, tenho que me distrair.
O pirilim não tem hora certa.
Apenas aceno sem vê-lo.
Sei que você está aí.

Por mais que eu me divirta, não tiro a cabeça do pirilim.
É só por causa do pirilim que ainda estou aqui.
No fundo, me pergunto se você não estaria aí também esperando o pirilim.
Não há como saber, no entanto.

É sempre bom ter uma desculpa convincente para o pirilim.
Nenhuma me vem à cabeça.
Apenas quero te dar um beijo e uma flor.
Pode ser agora ou amanhã.

Você não tem ideia da alegria que sinto quando surge o pirilim.
O pirilim me avisa que você não me esqueceu ainda.
Pirilim, pirilim, pirilim.
Você não imagina, mas eu estava morrendo de saudades.

sábado, 25 de setembro de 2010

O dia em que não puder te ver

É meio de noite. Penumbra no quarto. Insônia. É você em minha mente. Fico me torturando, hipotetizando um futuro incerto, inseguro, imprevisível. Fico pensando no dia em que eu não puder mais te ver.

Sei que você estará presente. Mas sei que sequer tenho você. Talvez seja uma sina, um carma, pensar em quem não pensa em mim. Ou pensa? Não sei. Mas não vem ao caso. Vem ao caso, isso sim, que nesse exato momento, com o caderno e a caneta sobre a cama iluminados pela luzinha do celular, penso em você. Vejo e sinto todo o tesouro que você guarda. Ainda preciso, entretanto, de um mapa para encontrá-la, algo que torne isso um pouco menos impreciso. Enquanto isso não acontece, vou remoendo minha mente com os obscuros pensamentos sobre o obscuro dia em que eu não puder mais te ver.

Tento não me ferir, mas sei que não tenho volta. Lembra daquele silêncio sepulcral? Ele disse tudo. Tento engolir a seco o que sinto, mas o coração aperta de modo a me recordar que sou humano, e, enquanto humano, te amo. E o que farei no dia em que não puder mais te ver? Esperarei você lembrar que existo? Buscarei forças para tornar o óbvio mais óbvio do que o já óbvio? Calarei com a tristeza solene de quem não soube se expor da maneira certa?

Pensar neste dia impreciso dói. Muito. Me dá medo. Muito. Sou ruim em ler sinais. Ainda assim, os leio, mesmo que distorcidamente. É minha sina. Assim como é minha sina guardar no peito a ansiedade infinita e sufocadora de quem nunca sabe se o que faz é suficiente. Tento, de todas as formas possíveis, cabíveis e não ridículas, transfigurar para seus olhos vivos aquilo que bate no meu peito. Mas nunca sei se estou conseguindo. Por não ter tato com essas coisas, fico entre o exagero e a sobriedade excessiva, mesmo que esta sobriedade seja dada quando me encontro ébrio. As coisas poderiam ser muito mais simples.

Talvez alguma providência divina, um milagre, nossos sonhos conectados ou nossos anjos amigos, enfim, alguma dessas coisas nas quais precisamos acreditar para sobreviver, faça, pelo menos uma vez, termos a certeza de que podemos compartilhar nossas luzes, nossas sombras, nossas razões e, principalmente, nossas loucuras. Será, então, este um grandioso dia: o dia em que não me preocuparei mais com o dia em que eu não puder te ver.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Os olhos e a rua

Vasculho por todos os lados e não acho nada.
Ouço cada voz, olho para cada rosto.
Sou uma sacola cheia de esperanças que não se concretizam.
Todos são ricos, felizes e belos.

Cortinas escondem o sol que me inferniza.
Estava angustiado sem te ver.
Fiquei mais angustiado quando te vi.
Nada acontece dentro do meu controle.

Abraços vagos e distantes anunciam minha mais nova queda.
Pés descalços e cacos de vidro: já não sinto tanta dor.
Eu tinha tudo planejado.
Faltou combinar com o mundo.

Com quem você conversa enquanto escrevo isso?
Com quem você transa enquanto sonho com você?
Qual é o seu alvo de verdade?
Em que dia a chuva passará?

Torturo a mim mesmo com um monte de roteiros.
Cada estrada alternativa se fecha.
Limpo seus sapatos com a língua.
Será que isso te dá prazer?

Não consigo parar esses impulsos.
Quando parar, vou explodir.
Mais adiante vejo o fim da linha.
Ele é tão parecido com o começo...

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Nada

Como um palhaço, um verdadeiro trouxa, esperei.
Olhei para o relógio, fiz mil projeções, e nada aconteceu.
De volta ao pó e ao caixão, fico procurando motivos.
Não teve nenhuma graça sem você.

Mas tudo bem, você está feliz.
Deve estar cavalgando, suada e satisfeita.
Ou, quem sabe, tocando uma sinfonia dos infernos?
Vocês sabem muito bem, e estão agora zombando de tudo.

Atravancador, um tanto de ódio.
Ele podia saber o que acontecia.
Balelas, malditas balelas que liquidam com tudo.
Um esforço, uma vida, um sonho, tudo pelos ares.

Um bibelô a mais na prateleira.
Corações humanos ainda sangram.
Você pensa que isso não me machuca?
Você pensa que meus olhos estão secos?

Sei bem, você nem pensa nisso.
Só os tolos ainda têm fé.
Apenas não minta mais para mim.
Me deixe dormir e descansar.

Dia após dia, mais velho, mais vazio.
A vida me ensinou a não aprender porra nenhuma.
Esta caneta já não sente minha dor.
Apenas me acompanha e oferece um ombro amigo.

domingo, 19 de setembro de 2010

Cartas marcadas

De longe já sinto o cheiro do desgosto.
O que imagino acontece, a realidade me apunhala.
Malditas relações ingênuas e maldosas que destroem minha mente.
As paranoias são mais reais do que nunca.

Este soco no estômago me deixa revoltado.
Já não há angústia, apenas raiva e vontade de cuspir.
As cartas já estavam marcadas.
Quando falei do que vi, todos riram.

Agora a demência toma conta do salão.
Toque aqui para mim se você pode, seu imundo.
Fale macio até que eu aperte seus miolos com as mãos.
Encha-me do seu vazio ordinário e palatável.

Não pedi para ser testemunha de minha morte.
Com os dentes, rasgo minhas entranhas.
Cubram-me de nojo das suas caras.
Provem que eu nunca tive vez nesse jogo.

Com os corpos nus, masturbem os porcos na lama.
Troquem suas experiências mais a fundo.
Surpreendam a plateia abobalhada.
Esfreguem a verdade nas minhas fuças.

O capitalismo e a infelicidade humana

Sou um pouco cético em relação às alternativas que hoje se colocam em contraponto ao capitalismo. Revolução, socialismo, comunismo, tudo isso descansa em paz, sete palmos abaixo da terra. No entanto, o fato de não vislumbrar alternativas plausíveis não significa que eu ache o capitalismo bom. Pelo contrário, na verdade o capitalismo é uma porcaria. Ele desumaniza tudo que é humano, converte todas as subjetividades em cifras e cria padrões inalcançáveis que só fazem alimentá-lo. O capitalismo é perverso exatamente porque é movido à insatisfação humana.

O modelo capitalista necessita da infelicidade da população para se reproduzir. Tudo se compra. Mas este tudo não tem limite nunca, não tem demarcação, tal a velocidade avassaladora do sistema produtivo. Por isso, mesmo o mais rico dos homens não consegue parar. Ele está sempre em busca deste tudo que lhe foge em velocidade constante. É como se fosse uma imensa e infinita escada rolante, na qual o "objetivo final", em últimos termos a felicidade, comprada sempre pelo dinheiro, está num degrau acima o suficiente para não ser alcançada pelas mãos de um sujeito com os pés presos a um degrau logo abaixo.

Sempre haverá um carro novo, um celular novo, uma helicóptero novo, um iate novo, um padrão novo. O capitalismo cria necessidades novas na exata medida em que o que se pode não seja nunca suficiente. Com isso, ele se reproduz com ainda mais potência. O mais terrível é que, para alargar sua margem de segurança, o sistema capitalista cria necessidades para além do material, que se socorrem do material para serem satisfeitas. É aí que entram, entre outras coisas, aspectos referentes a padrões estéticos absolutamente subjetivos que são objetivados para criar um padrão suficientemente universal e longínquo que torne o ser humano insatisfeito consigo mesmo, com aquilo com o que ele tem de conviver diária e inescapavelmente: sua imagem frente ao espelho. O capitalismo é tão virulento que é capaz de fazer o ser humano ser tão infeliz quanto seja necessário para sua reprodução, das formas mais cruéis e desprovidas de ética e sensibilidade possíveis.

À primeira vista, o dinheiro parece resumir e simplificar a felicidade, criando uma linguagem única e universal para mensurar as subjetividades humanas. O dinheiro pode comprar tudo. Entretanto, este tudo encontra-se sofrendo constantes mutações e violentas ampliações, típicas de um sistema que precisa regular as emoções e desejos das pessoas, sempre em direção à infelicidade, para sobreviver e se reproduzir. Com isso, o dinheiro, apoiado na dinâmica da produção ao mesmo tempo quase ilimitada e intangível para as possibilidades humanas mais ou menos refinadas, torna a felicidade inalcançável, dentro de seus termos disseminados ideologicamente na sociedade capitalista.

Eis então a maior das contradições do capitalismo: um sistema que se apoia em seus termos ideais sobre a liberdade humana, torna o ser humano prisioneiro de padrões sempre fugidios. Refém da busca incessante de uma condição material que se encontra sempre muito à frente, poderá o ser humano praticar a verdadeira e mais límpida das liberdades? Ou a noção de liberdade é um grande engodo para perpetuar um sistema desigual de dominação do homem pelo homem?

A infelicidade é o combustível do capitalismo. Com seres humanos felizes e plenamente satisfeitos, o capitalismo apagaria. Ele se transformaria em qualquer outra coisa que não poderia ser chamada de capitalismo.

sábado, 18 de setembro de 2010

O dia em que eu puder voar

Ainda hoje, feito moleque, sonho com o dia em que eu puder voar. Meu corpo e minha alma estarão leves. Poderei observar tudo com serenidade e paz no coração. Poderei viver integralmente.

No dia em que eu puder voar, tudo o que passo e sinto hoje terá algum sentido. O sol brilhará com mais intensidade. Poderei pousar em um gramado verde e ser acariciado pelo vento.

Nesse dia, tudo será belo. Poderei respirar fundo sem dificuldades. Minhas mãos não tremerão mais, minha face não ficará mais rubra de maneira quase indecente. Poderei te olhar sem medo, o ridículo já não mais atemorizará, porque tudo, nós mesmos, seremos docemente ridículos. Neste dia serei bobo, romântico, cafona, com muito orgulho.

Sonho com o dia em que eu puder voar, porque nesse dia gozarei da mais desejável e utópica liberdade: a liberdade de amar. No dia em que eu puder voar, encontrarei minha essência nua e crua. Minha boca já não terá receio de falar ou beijar. Minhas asas desconhecerão os limites do céu, do infinito, do desconhecido.

Ah, o dia em que eu puder voar... Nesse dia, apreciarei o canto dos pássaros, entenderei a simplicidade e a beleza de uma natureza que hoje passa despercebida. Deitarei descompromissado, comerei maçãs, refrescarei meu corpo num lago limpo e azul.

No dia em que eu puder voar, já não farei mais perguntas: me deliciarei com as respostas. No dia em que eu puder voar, já não terei mais angústias me sufocando: a realidade abrirá meu peito. No dia em que eu puder voar, flutuarei, apenas. Alcançarei o ápice da existência, meu nirvana. No dia em que eu puder voar, a simplicidade substituirá todas as complexidades do meu espírito.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ao quadrado e ao cubo

Procuro meu sofrimento.
Seria mais fácil não olhar para aquela foto.
Mas olho, para esganiçar o meu estômago.
O ar se esconde, respiro e não encontro nada.

Podia levar tudo para um canto qualquer.
Mas você se faz presente.
Penso em sua boca, até que minha cabeça comece a girar.
Faço questão de te erguer ao mais alto posto.

Não sei se vivo um sonho ou um pesadelo.
Preciso da resposta, mas não consigo formular a pergunta.
Mais dias, angustiantes dias.
Minhas entranhas queimam, minha alma derrete.

Eu não imaginava que seria assim.
Meu peito explodiu, estou apequenado diante do que sinto.
Me ajude um pouco, tire um pouco deste peso de minhas costas.
Jogue-o no chão se preciso, mas não me deixe sangrando assim.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

2 anos de Dilemas Cotidianos- 1ª posição: Carta aberta aos jogadores do Sport Club Internacional

O grande campeão do especial de 2 anos do DC é um texto histórico para o blog. Escrito antes da partida contra o São Paulo, no Morumbi, que valia para o Inter a vaga na final da Libertadores e para o Mundial Interclubes da FIFA, fez um sucesso que eu confesso que não esperava. Foi o mais acessado da história do DC. Além disso, para meu imenso orgulho, foi livre e espontaneamente publicado por outros três blogs, o Fanaticolorado (http://fanaticolorado.blogspot.com/2010/08/carta-aberta-aos-jogadores-do-inter.html), o Beco do Sapulha (http://becodosapulha.blogspot.com/2010/08/carta-aberta-aos-jogadores-do-inter.html) e o Colorado's Red Blood (http://coloradoredblood.blogspot.com/2010/08/peleia-vai-recomecar.html). Fiquem então com a "Carta aberta aos jogadores do Sport Club Internacional". Cabe lembrar que com o fim do especial de 2 anos, amanhã o DC volta com texto inédito. Grande abraço a todos, e mais uma vez, obrigado por tudo.

...............................................................................................................

Caros jogadores do Sport Club Internacional,

Logo mais, no gramado do Morumbi, vocês estarão iniciando uma batalha que vale muito, vale a própria vida. Com a camisa vermelha de um clube gigante, vocês jogarão por uma vaga na final da Libertadores da América. Mais do que isso: vocês jogarão por uma vaga no Mundial Interclubes da Fifa, competição que neste velho Rio Grande de guerra e de paz, somente o Internacional pode se gabar de ter disputado, e ganho.

Não é um jogo normal. Para o fortíssimo adversário, também não é. Por isso, não se enganem. Os jogadores do outro lado também querem muito esta classificação. Chegarão ao limite humano. Por isso, vocês, caríssimos guerreiros alvi-rubros, têm que superar a maior das vontades humanas. Vocês terão de ser sobre-humanos. E podem.

Não pensem que os 60 mil são-paulinos no estádio são algo capaz de intimidá-los. Esta camiseta vermelha, gloriosa, carrega uma legião de seguidores apaixonados. Seguidores que já sorriram muito. Seguidores que já choraram muito. Mas, acima de tudo, seguidores que jamais deixaram de amar essa camiseta e de seguir, em todos os cantos, nas ruins e nas boas, o Sport Club Internacional.

A camiseta vermelha que vocês vestem já foi vestida por Figueroa, por Falcão, por Tesourinha, por Manga, por Taffarel, por Clemer, por Gamarra, até pelo hoje atacante adversário, capitão planeta inesquecível, mas para o qual temos de ranger os dentes até o último segundo da partida. Todos estes monstros sagrados vestiram o manto com orgulho, orgulho de defender um clube que transcende a normalidade.

Vocês são, hoje, privilegiados. Representam a maior e mais inexplicável paixão, de um povo que só quer ter o direito de ser feliz, de gritar gol e cantar com a maior das alegrias "vamo, vamo Inter". Representam um clube que vergou gigantes mundo afora. Vocês têm a chance de escrever com suas letras mais um capítulo glorioso dessa história nesta Libertadores.

Pensem, a cada dividida, a cada dificuldade circunstancial, em cada colorado que está com vocês.

Pensem no cara que pega o ônibus lotado todos os dias às seis da manhã, e que deixou uma bandeira em vermelho e branco na janela, preparando o jogo da noite.

Pensem no gurizinho que vai para a escola de camisa vermelha, e no jogo de bola no recreio faz o gol sonhando em ser um de vocês.

Pensem no senhorzinho de oitenta anos que tanto já viveu, tantas façanhas deste clube já presenciou, e ainda hoje, cheio de fé, segue sentado no sofá com o radinho de pilha na orelha e torcendo e vibrando junto com a imaginação proporcionada por cada frase velozmente proferida pelo narrador.

Pensem nos homens e mulheres que talvez nem tenham um teto, ou algo para comer, mas ainda assim sentem-se felizes com cada gol, cada vitória colorada, que conferem o sentido de sua vida aos 90 minutos em que a camiseta vermelha se faz presente nos gramados deste planeta.

Pensem nos torcedores anônimos, para os quais vocês são super-heróis, com quem vocês falam todos os dias sem perceber, nas entrevistas, e para quem vocês jogam, e tanto querem que vocês vençam.

Pensem em suas mães, filhos, irmãos, pais, avós, que tanto lhes amam, e que tanto querem seu sucesso.

Sejam, acima de qualquer coisa, COLORADOS. Lutem, chutem, dividam, cabeceiem, corram mais do que as pernas e a razão permitam. Não desistam nunca, de nenhuma jogada, nenhuma bola. Vocês podem. Nós, torcedores, sabemos disso. Levem no peito os milhões que estão com vocês do lado de fora do gramado. É essa força, essa energia, essa fé, que farão a diferença.

Honrem este momento. Façam o seu melhor. Corpo, alma, pulmões, coração, que fique tudo no gramado do Morumbi. Mas não deixem de se entregar até a última gota de suor nestes 90 minutos. Por vocês. Por nós. Por este clube inigualável.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

2 anos de Dilemas Cotidianos- 2ª posição: Homens de poucas palavras

A segunda posição do especial de 2 anos do DC fica com o texto "Homens de poucas palavras".

.......................................................................................................

Os homens de poucas palavras podem ser revestidos de certo mistério. Tenha certeza, eles têm muito a revelar. Eles têm muitas coisas a dizer. Mas precisam ser instigados.

Os homens de poucas palavras não falam fácil. Para eles, as palavras não são vagabundas que se dão ao desfrute a hora que se quer, do jeito que se quer.

Os homens de poucas palavras são românticos, e tratam elas, as palavras, como damas cujas mãos devem ser beijadas, com um tanto de carinho, um tanto de respeito e um tanto de solenidade.

Os homens de poucas palavras podem parecer frios, distantes e alienados. Mas na verdade fervilham, e se encontram permanentemente prestes a entrar em violenta erupção.

Os homens de poucas palavras têm suas emoções à flor da pele. Eles são seres anacrônicos, deslocados. Eles não se satisfazem com as facilidades fornecidas por palavras simplórias e utilitárias.

Os homens de poucas palavras guardam suas palavras porque sabem que elas são o seu bem mais precioso. Eles sabem que tudo se traduz em palavras. E as palavras são as únicas coisas que eles possuem.

Os homens de poucas palavras são capazes de morrer de amor calados. Eles tomam cuidado, até excessivo, porque sabem que amores não são grama: são flores.

Os homens de poucas palavras sentem dor. Tão mais fácil seria resolver tudo com a grosseria típica dos fracos! Mas os homens de poucas palavras adoram a controvérsia. Há um certo prazer sarcástico nisso, afinal, só sente dor quem está vivo. Mas precisava ser tanta?

Os homens de poucas palavras sonham. Sonham com o dia em que às flores seja permitido tomar mais e mais os espaços sempre verdes, sempre iguais, sempre previsíveis destes campos imutáveis e sem cheiros e cores.

Os homens de poucas palavras guardam suas palavras para o dia em que elas já não sejam ordinárias desprovidas de valor. E mesmo que esse dia nunca chegue, terão sempre a certeza de que valeu a pena. Antes elas morram rainhas do que vivam prostitutas.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

2 anos de Dilemas Cotidianos- 3ª posição: O velho e o sofá

A medalha de bronze do Top 10 do segundo ano do DC vai para "O velho e o sofá".

................................................................................................

Há um velho sentado, sozinho, num sofá daquele asilo. Os idosos, praticamente todos, estão fazendo algo naquela tarde ensolarada de domingo. São diversas as atividades. Uns jogam pôquer, outros olham o futebol na televisão, outros ainda ouvem rádio. Uma senhorinha tricota o agasalho, presente para o dia em que seu filho venha visitá-la. Todo o domingo ela espera. São três anos da mesma rotina. Os agasalhos acumulam-se em sacolas debaixo da cama da tal senhorinha, sem serem buscados.

Mas o que chama a atenção mesmo é aquele velho. Ele já não compartilha atividade nenhuma com seus pares. Não espera mais por ninguém. Não é antipatia, tampouco ódio para com o mundo. É apatia, amargura. Aquele velho já não possui perspectiva nenhuma. Fora largado pela filha e o genro para uma semana de recuperação com cuidados especializados, coisa que lhe faria bem, ele que havia tido recentemente um infarto, estava um tanto sequelado e mijava-se pernas abaixo três vezes ao dia. Passou-se uma semana. Passaram-se duas, três, quatro, cinco... Passaram-se semanas o suficiente para fazê-lo desistir de contá-las.

Tentou se acostumar ao admirável mundo novo. Tentou adaptar-se, tal qual um camaleão, às cores do novo cenário. Não conseguiu. Não era o mundo dele. Não era o cenário dele. Estava conformado, isso sim. A vida impôs-lhe este inelutável destino. Trapaceiro destino.

Seus dias resumiam-se a acordar, tomar uma caneca de café com leite pela manhã, almoçar e jantar. Entre as refeições, claro, um bom banho, que ele conseguia tomar sozinho, e aquele sofá. Não variava. Não pegava sol. Não utilizava outra poltrona, outro espaço daquele asilo. Somente aquele sofá. De tal forma aquele lugar tornou-se dele, que nenhum dos outros velhos sequer se atrevia a sentar ali.

Passava os dias pensando. Escorava a cabeça sobre o braço direito, que por sua vez se postava sobre o braço direito do sofá. Não fazia muito sentido o que vivia. Seus pensamentos eram, ao mesmo tempo, desordenados e claros. Passava em sua cabeça o filme de seus setenta anos de vida. Seus amados pais. A escola, os amigos, a primeira professora. A juventude, as paixões, os amores. O casamento. Ah, como ele amava aquela moça! Com ela, passara os momentos mais belos e vigorosos de sua vida. Infelizmente, ou felizmente, hoje ela descansava, mais em paz do que ele. Com ela, teve sua linda filha. E como se dedicou à sua princesinha aquele homem!

Lembrava-se das trocas atrapalhadas de fraldas. Pensava nas vezes em que abraçava a mocinha, em que lhe contava historinhas para dormir, nas caretas que arrancavam gostosas gargalhadas de sua preciosidade, obra mais amada e bela. Lembrava do resplandecer da mulher que ele havia criado. Mulher madura, bem criada, bem sucedida, que agora estava em algum lugar deste mundo enorme com seu marido. Aquele velho entendia o ciclo, não nutria mágoa pelo esquecimento que lhe foi impingido. Sentia, vez por outra, um aperto no peito, uma inconformidade com sua própria velhice. Era bem provável que hoje sua princesinha, se ainda lembrasse dele, lembrasse com nojo das rugas, da saliva que lhe molhava irritantemente o rosto. Tornar-se um incômodo era, para ele, um incômodo enorme.

Queria ele estar mais jovem, mais forte. Queria poder orgulhar a filha mais uma vez. Queria o abraço verdadeiro da meninota cujas fraldas trocava com tanta abnegação. Queria ouvir, uma vez mais que fosse, palavras direcionadas a ele. Hoje em dia, apenas ouvia "acorde!", "hora do café!", "hora do almoço!", "hora de dormir!". Ninguém perguntava para o velho como ele se sentia, se estava bem, se estava feliz. Nem visitas, nem cartas, nada.

Esta rotina se repetiu de forma absoluta por mais alguns anos. Ele estava bastante adoentado e enfraquecido, mal conseguia comer. Até que um dia, uma das enfermeiras do local, toda sorridente, veio lhe trazer boas novas. Sua filha, sua princesinha, ligou avisando que estaria na cidade durante uma semana, e passaria lá para vê-lo no domingo. Os olhos do velho, costumeiramente opacos durante aqueles anos no sofá, brilharam com o brilho dos olhos de uma criança diante do homem do algodão doce. Não conseguiu falar. Nem precisava.

Chegado o grande dia, o velho mudou totalmente sua rotina. Levantou-se cedo, tomou um café reforçado. Banhou-se com gosto, perfumou-se até em exagero. Preparou todos os detalhes ao seu alcance, vestiu a melhor roupa, fez a barba milimetricamente. Sentou-se no velho sofá. Agora, tudo era questão de esperar. Sua filhota havia marcado a chegada para as 16 horas.

Eram 16:10, e ele já mostrava certa ansiedade, inquietação. Foi quando tocou a campainha. Era ela. Sua filha. Estava linda. Ela abraçou o velho com um tanto de distância, ao tempo em que ele a abraçava, lacrimejando, e tentava babar-lhe o rosto esquivo com um sonoro beijo. Ela perguntou se estava tudo bem com ele, disse que com ela também estava, e que seu marido a esperava no carro, do lado de fora, e por isso não poderia demorar-se. O velho, subestimando tal aviso, pegou-a pela mão, e, chorando, começou a falar o que sentia, das saudades, das lembranças da infância da filhota, quando, então, tocou o celular dela. O marido a estava apressando, tinham um jantar à noite. Então, ela, a princesinha, interrompeu o velho, e desejou tudo de bom, afirmando que tinha de ir embora por causa de um compromisso importante. As palavras e o choro, ficaram guardados na garganta do velho.

Lá se ia, depois de menos de dez minutos, a princesinha, aquela das fraldas, dos abraços, das historinhas de dormir. Sequer olhou para trás, altiva e certa quanto aos rumos de sua vida, e da pressa imposta pelo tempo e pelas prioridades de sua existência. Deixava ali, sozinho e reticente, o velho sentado no sofá, com a cabeça escorada no braço direito apoiado no braço do sofá. Pela última vez.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

2 anos de Dilemas Cotidianos- 4ª posição: No meio da calçada

A quarta posição do especial de 2 anos do DC fica com o texto "No meio da calçada".

.........................................................................................................

Não se sabe ao certo seu nome. Não se sabe ao certo quem ele é. Não se sabe onde nasceu. Não se sabe o que o levou até ali. Não se sabe há quanto tempo ele está daquele jeito, naquele lugar.

Ele está lá, bem no centro, e despercebido no meio da frenética multidão. Dentre tantas e tantas vidas, lá está a dele. Dentre tantos e tantos pensamentos, desejos, anseios, sonhos, lá estão os dele, talvez singelos, tão ridiculamente simples que possivelmente sequer consigamos imaginar.

Ali, no meio da calçada está ele, deitado, meio apático, com sua velha caixa de sapatos à espera de alguma moeda de cinco ou dez centavos. À espera, quem sabe, de um pouco de esperança, alguma dignidade para aquela vida que se arrasta pelo chão.

Ele já não chora, seu rosto já não mais expressa qualquer tipo de emoção. Seu rosto cansado apenas transparece cansaço, desgaste. Sua face é o retrato de uma sofrida continuação, a passagem de minutos, horas, dias, meses, anos...

Não se sabe como, não se sabe por que, mas ele se prorroga. Continua lá, impassível, dia após dia, com sua velha caixa de caixa de sapatos com meia dúzia de moedas de cinco ou dez centavos. Talvez haja pessoas de espírito baixo que defendam que aquele homem se entregou à alternativa mais cômoda, mais fácil, agindo racionalmente. Não preciso, entretanto, ser nenhum gênio para afirmar que não, ele não gosta de estar ali. Está naquele ponto, daquele jeito, porque foi varrido da sociedade. Está ali porque ali residem os limites que a vida lhe impôs.

Sua existência se resume a uma interminável e inglória espera. Desde há muito tempo, sempre e sempre, eis ele lá, no meio da calçada, sobrevivendo, continuando, esperando o seu dia chegar. Até hoje, em seus, sei lá, sessenta, setenta anos, esse dia não chegou. Infelizmente, é muito provável que jamais chegue.

domingo, 12 de setembro de 2010

2 anos de Dilemas Cotidianos- 5ª posição: Surpresa desagradável

Qualquer dia você pode chegar em casa, e encontrar um cenário bastante inusitado... Fique com o texto "Surpresa desagradável", quinta posição do Top 10 do segundo ano do DC.

............................................................................................................

Ao chegar em casa, numa quinta-feira à noite, lá pelas onze horas, Humberto deparou-se com uma cena estarrecedora. E ficou, como talvez não pudesse ser diferente, em estado de choque. Lá, no chão da sua sala de estar, estava atirado um presunto.

A cena deixou o rapaz atordoado. Quem teria entrado em sua casa? Quem teria cometido tal atrocidade? Desnorteado, sentou no sofá e começou a pensar. O que fazer naquelas difíceis circunstâncias? A quem ou a o que recorrer?

Matutava, matutava, e as ideias embaralhavam-se em sua mente. Não havia atitude correta que pudesse ser tomada ali. Tudo parecia perigoso, e um tanto imoral. Humberto pensava em telefonar para alguma autoridade que pudesse, talvez, dar uma luz, ajudar a tirar alguma conclusão. Mas, haveria a chance de ser moralmente julgado por aquilo. O que fazer, então?

A alma corroía-se. Pensou, também, em ligar para algum parente, algum amigo que pudesse pensar junto e ajudar na solução do problema. Mas seria uma tentativa vã, pelo adiantado da hora.

Então, continuou pensando, pensando, pensando, esquentando a moringa. Era um dilema praticamente insolúvel. Já era pra lá de meia-noite e meia quando o rapaz tomou uma decisão, talvez dura, difícil.

Pegou o presunto na mão, levou-o à torneira da cozinha, e deu uma enxaguada. Fatiou, pegou o queijo na geladeira, e fez um sanduíche. Um sanduichinho, quando se chega exausto e faminto em casa, vai bem. E o que não mata, engorda.

sábado, 11 de setembro de 2010

2 anos de Dilemas Cotidianos- 6ª posição: A fornalha

O sexto lugar do especial de 2 anos do DC fica com o texto "A fornalha", que conta o curioso caso de Helder e Priscilla, um casal que se viu envolvido em uma situação no mínimo inusitada.

..............................................................................................................

Faz uns cinco anos. Helder e Priscilla andavam pelo centro de uma metrópole qualquer. Estavam iniciando um namoro. Era tudo novo e absolutamente maravilhoso. Ele estava completamente apaixonado. E ela demonstrava o mesmo interesse e a mesma intensidade. Beijavam-se, beijavam-se muito. Entrelaçavam suas pernas a cada esquina para darem um novo beijo cinematográfico. A felicidade era transparente nos olhos dos dois, como se o mundo tivesse se tornado um verdadeiro paraíso.

Havia uma verdadeira química entre os dois. A troca de olhares era apaixonada, os sorrisos insistiam em vazar. Via-se, ali, um casal feliz, jovem, promissor.

De mãos dadas andaram, visitaram lojas, contaram piadas, curtiram cada delicioso segundo. Mas a tarde começava a cair, e era chegada a hora da partida. Helder elegantemente levou Priscilla para o ponto de seu ônibus. Logo à frente na fila estavam dois rapazes jovens, desses bem aculturados, no pior sentido da palavra.

Priscilla tirou a blusa ali mesmo, em gesto surpreendente e inusitado. Seus seios estavam desnudos, e ela sorria, enquanto Helder observava toda a sua beleza estupefato, constrangido e amedrontado com os olhares alheios. Eram lindos os seios de Priscilla, redondos e durinhos como se fossem duas bolas de futebol de salão. Os dois rapazes da frente olhavam escancaradamente, e riam com cara de tara, para desespero de Helder.

Passaram os dois rapazes a alisar o corpo de Priscilla. Apertavam os seios, beijavam-nos, mordiam-nos, lambiam-nos. Helder não conseguia ter reação alguma. Priscilla se deleitava, sorria com prazer transparente na luz de seus olhos. Priscilla trazia os rapazes para um cada vez mais íntimo contato físico. Eles baixaram as calças da moça, e passaram a fornicar sua genitália.

Helder, num misto de angústia e ódio, com os olhos marejados das mais salgadas lágrimas, retirou-se. Haveria uma desforra, disso tinha certeza. E logo tratou de viabilizá-la.

Seu plano começou pela instalação de uma enorme fornalha em sua casa. Era grande, muito grande mesmo, grande o suficiente para torrar uma pessoa.

Passou então a investigar os rapazes protagonistas da cena com Priscilla. Conversou com motoristas do ônibus daquela linha, descreveu seus rostos e maneiras de vestir, e obteve informação suficiente para saber por onde moravam.

Pediu para o irmão Juliano o carro emprestado. Não só o carro como também um revólver. E foi-se para as redondezas indicadas pelos motoristas. Com certa rapidez, avistou um grupo de rapazes que fumavam e conversavam em voz alta numa esquina. E lá estavam os dois procurados. Helder saiu do carro, sacou o revólver, e obrigou-os a adentrar o porta-malas, onde com incrível agilidade amarrou-os e lacrou suas bocas.

Levou-os para a sua casa. Jogou-os no chão da sala, e imediatamente acendeu a fornalha. Com o mais puro dos ódios correndo nas veias, chutou-os, cuspiu em seus rostos. Gritava. Pegava-os pelos colarinhos, e batia suas cabeças no chão, com toda a força que a fúria proporciona. Arremessou o primeiro à fornalha. Os gritos e gemidos ecoavam pela casa. Quando o primeiro já não conseguia mais debater-se, e sinalizava estar morto, olhou para o segundo. Este implorava piedade, e chorava descontroladamente, sem, no entanto, gritar. Hélder respondeu aos choros do rapaz:

- Lá, na parada do ônibus, você estava rindo mergulhado em luxúria. Agora chora. Irônico, não? Teve dó de alguém? Parou pra pensar no que eu sentia ao ver minha namorada nua nos braços de vocês?

O rapaz continuou a chorar, e Helder arremessou-o à fornalha, para fazer companhia ao corpo já completamente torrado do amigo.

Diz-se que, depois disso, Helder voltou a procurar Priscilla, e os dois voltaram a namorar, mais fervorosamente e apaixonadamente do que nunca. E para cada um que atravancasse os caminhos de Hélder e sua paixão, lá estava a fornalha, pronta e quente. Reza a lenda que a fornalha ainda nos dias de hoje mantém-se ativa e útil, exatamente na finalidade para a qual fora instalada. Por incrível que possa parecer, ninguém jamais suspeitou de nada...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

2 anos de Dilemas Cotidianos- 7ª posição: O dia em que eu tentei viver

A sétima posição do Top 10 de textos do segundo ano do DC vai para "O dia em que eu tentei viver".

....................................................................................................................

No dia em que eu tentei viver, acordei com vontade de brilhar.
Eu só precisava caminhar e inflar os pulmões.
No dia em que eu tentei viver, estive cheio de fé e certezas.
Eu era outro, mas acreditei em minhas próprias mentiras.

No dia em que eu tentei viver, fui pisoteado como uma barata.
Sou uma barata envenenada, tonta pelo inseticida.
No dia em que eu tentei viver, comi o manjar dos deuses para vomitá-lo em seguida.
Sou uma laranja mecânica de verdade.

No dia em que eu tentei viver, me bati contra todas as paredes.
Me joguei no concreto e urinei minhas calças.
No dia em que eu tentei viver, peguei uma metralhadora.
E não consegui matar meus fantasmas.

No dia em que eu tentei viver, corri para conhecer a mim mesmo.
E encontrei somente ossos e carne podre.
No dia em que eu tentei viver, o canto dos pássaros me atordoou.
Fui estrangulado pelas cordas de uma doce harpa.

No dia em que eu tentei viver, coloquei meu coração no alto da prateleira.
E alguém jogou pela janela.
No dia em que eu tentei viver, sequer tentei recolher os cacos.
O lugar deles é no fundo da terra.

No dia em que eu tentei viver, pintei os azulejos do banheiro de vermelho.
É a minha obra mais bela.
No dia em que eu tentei viver, desisti de tentar viver.
Somente tentei dormir em paz.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

2 anos de Dilemas Cotidianos- 8ª posição: Dona Noely

O oitavo melhor texto do segundo ano do DC é intitulado "Dona Noely". Foi escrito depois de ter sonhado com a minha falecida avó, e nele trago alguns sentimentos sobre uma morte que, apesar de já ter ocorrido há pouco mais de três anos, confesso, até hoje não digeri completamente.

.................................................................................................................

Essa noite sonhei com a minha falecida avó Noely. Não são poucas as vezes em que sonho com ela. Aquele 15 de agosto de 2007 ainda não foi inteiramente digerido por mim. Isso é muito estranho. Realmente ainda não assimilei o seu falecimento.

Dona Noely foi a primeira grande perda da minha vida. Antes, só havia perdido minha avó paterna, com quem nunca tive grande contato, na distante Palmeira das Missões, e meu avô Clézio, com quem eu tinha ligação, mas cuja morte nem cheguei a sentir, pois eu era pequeno na época para sacar dessas coisas. O vô Clézio não morreu. Desapareceu. Assim foi na minha cabeça. E assim, incrível, parece ser com a vó Noely.

Os sonhos que tenho com ela são incrivelmente reais. Só me recordo que fico numa alegria que não consigo conter no meu coração. "Ela está viva!" penso eu. E daí eu a abraço. A beijo. A admiro. Digo que a amo e o quanto ela foi importante para a minha vida.

Talvez isso seja psicologicamente explicável: não dei o último abraço, o último beijo. Não me perdôo por isso. Pensava que ela, dramaticamente presa àquela cama da casa geriátrica, com seus 80 anos, esperaria o dia que eu, do alto da minha auto-suficiência e ingenuidade perante às armadilhas da vida, resolvesse dar o abraço, o beijo. Eu guardava esse abraço, esse beijo. Todas as vezes que a via, pensava em fazer isso. Tímido, talvez temeroso da reação dela, adiava, mas pensava que uma hora ou outra, ao meu bel-prazer, poderia fazer isso. Tinha certeza de que o faria. Pois é. Não fiz.

Guardo dela o nosso último toque de mãos. Ela apertou como há muito tempo não fazia. E pediu que eu orasse por ela. Simples assim. Eu, burro, imbecil, limitado que sou, não me flagrei de todo o significado simbólico daquele gesto. Alguns sinais que a vida dá não são aleatórios. Ah, não são mesmo!

De alguma forma, ela vive em mim. Acho que viverá para todo o sempre. Dona Noely não está morta. Não está. E a amo muito, por tudo o que fez, por todo o carinho que me dispensou, me criando com dedicação ímpar mesmo com as limitações impostas pela idade, para que minha mãe pudesse trabalhar mais tranquila. Obrigado, vó. Obrigado pelas sopinhas batidas. Obrigado pelo espinafre com farinha. Obrigado pelas benzeduras. Obrigado até pelos sucos de beterraba. Obrigado pela ternura. Obrigado por ter me amado.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

2 anos de Dilemas Cotidianos- 9ª posição: Ao telefone

A nona colocação do Top 10 do DC no seu segundo ano fica com o texto "Ao telefone", que consiste numa conversa entre uma vendedora de telemarketing e um potencial cliente, que, apesar de parecer surreal, quase kafkiana, reflete muito da realidade do que acontece nesses casos.

.......................................................................................................................

- Olá! Meu nome é Juliana, gostaria de falar com o senhor Rodrigo Salvador.
- Sim, sim, é ele mesmo.
- Senhor Rodrigo, o senhor já conhece a buzina de avião da Air Super Company?
- Não, moça. Nunca ouvi falar.
- Pois bem, senhor. Estou aqui lhe oferecendo uma grande oportunidade. O senhor poderá comprar a nossa buzina de avião pela metade do preço!
- Obrigado, moça, mas acontece que sequer tenho um avião!
- A nossa buzina de avião apresenta um design inovador, além de ser toda cromada! É lindíssima!
- Agradeço muito, mas não tenho interesse.
- O senhor não pode perder esta oportunidade. São 50% de desconto! 50%!
- Olha, moça, Juliana, né?, realmente não quero a tal buzina. Não está entre os projetos imediatos da minha vida ter um avião.
- A buzina de avião da Air Super Company é realmente inovadora, senhor.
- Mocinha, desculpe a grosseria, mas não quero a buzina!
- O senhor não quer porque não a viu! Estarei mandando imediatamente uma foto da buzina, as opções de cores e todas as suas funcionalidades, senhor.
- Moça... er... não!
- O senhor está online neste momento?
- Sim, estou!
- Abra o email, por favor, senhor.
- Mas, mas...
- Já abriu?
- Tá, abri.
- O senhor está visualizando os modelos da buzina da Air Super Comany, senhor?
- Sim, estou.
- O senhor pode ficar à vontade para escolher o modelo que mais gostar, ok? Estou aguardando na linha.
- Acho que você não entendeu, Juliana: não quero a buzina.
- Me desculpe, senhor Rodrigo, mas o senhor acaba de aceitar a compra da buzina. Já temos o seu número de cartão e identidade em nosso cadastro, e acabei de preencher uma autorização de compra virtual. Só falta escolher o modelo.
- O quê???
- Escolha o modelo, por favor, senhor.
- Eu quero desfazer isso! Que absurdo é esse?
- Senhor, agora não poderei mais estar cancelando. O cancelamento só pode ser feito após o pagamento de no mínimo cinco parcelas. Está no contrato, senhor.
- Hã??
- O senhor já escolheu o modelo?
- Não! Nem vou escolher porcaria nenhuma!
- Então nós estaremos lhe mandando o modelo padrão, prateado, da buzina Air Super Company. Alguma dúvida, senhor?
- Não... Quer dizer, só uma... Vocês por acaso também fabricam aviões?
- Sim, senhor.
- Vou querer um, por gentileza...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

2 anos de Dilemas Cotidianos- 10ª posição: Sala de espera

Hoje começamos o especial de 2 anos do DC. O décimo lugar do nosso ranking do último ano vai para o texto "Sala de espera", que trata da história de um rapaz que precisava de um remédio para sobreviver, e para tentar obtê-lo, teve de passar por uma angustiante espera.

.........................................................................................................................................

Aquele rapaz é o primeiro da fila. O primeiro a chegar àquela sala de espera. Ali, são distribuídos remédios para problemas de coração. Uns parentes que já haviam passado pelo mesmo tipo de enfermidade indicaram-lhe o local. Ágil, rápido, fácil. Cada um da fila preenche um cadastro bastante simples com a recepcionista. O rapaz posta-se, confiante, numa das cadeiras, bem à frente do balcão central. Chamariam cada um pelo nome.

Era bastante gente. Mas, como havia sido o primeiro da fila, aquele moço estava absolutamente tranquilo. Ele era prevenido, sabia de toda a necessidade de ter aquelas pílulas, que seriam a sua grande chance de sobrevivência. Por isso, adiantou-se.

De forma muito rápida, coisa de 15 minutos, já começaram a chamar os sujeitos. Ele não foi o primeiro a ser chamado, a despeito de ter sido o primeiro a ter chegado. Deixou passar. Não entendia muito bem do funcionamento das coisas por ali. A recepcionista chamou então o segundo, o terceiro nome. Nada do dele. Então, ele reivindicou:

- Moça, perdão, mas gostaria de saber porque outras pessoas estão passando na minha frente se fui o primeiro a chegar. Inclusive, acredito ser um dos casos de maior urgência.- disse, com falsa paciência e incompreensão no tom de voz.

- Acalme-se, já, já o senhor será atendido. Tudo depende de uma triagem interna que define a ordem de chamada.- respondeu ela.

Ele tornou a se sentar. Mais nomes eram chamados. E as pessoas iam saindo com um imenso sorriso no rosto. Num mundo de tão poucas oportunidades, ali estavam elas em uma quase redenção, de alguma forma. Aqueles remédios significavam muito para muitas delas. É bem verdade que sempre há os trambiqueiros, que não precisam daquelas pílulas, burlam as regras e saem feito comerciantes. Utilitarismo extremado, talvez um tanto covarde. Dizem que havia muitos destes por ali. Mas, enfim, quem saía dali, saía satisfeito, feliz. Pela sobrevivência ou pela contravenção malandra.

O rapaz observava. A manhã ia passando sem ser chamado. Voltava ao balcão, e tudo o que a moça lhe respondia é que seria atendido, na hora certa. Ela fazia questão de deixar claro que ele não estava esquecido. Mas ele se sentia, sim, esquecido.

Ao final daquela manhã, todos os rostos que haviam adentrado o recinto com ele, atrás da fila, já haviam saído dali. Chegavam outros, e outros, e outros. E iam passando à frente. E iam saindo satisfeitos. E o rapaz permanecia sentado, bem em frente ao balcão central.

O rapaz, àquela altura dos acontecimentos, já estava deveras angustiado. Por que sua vez nunca chegava? O que havia de errado? Tornou a falar com a recepcionista, que disse que falaria com o pessoal de lá de dentro para resolver a situação. Na volta, ela fez um sinal de positivo, dizendo que ele já iria ser atendido.

Não foi, porém, o que aconteceu. A tarde virou noite. Havia mais umas três pessoas. Todas foram chamadas e atendidas. Eram oito da noite, e a recepcionista pediu que ele se retirasse, pois era hora de fechar o estabelecimento. Perplexo, o rapaz perguntou:

- Mas... e eu? Fui o primeiro a chegar, estou aqui desde as primeiras horas da manhã, e todo mundo passou na minha frente. Por quê?

- Desculpe, senhor. É chegada a hora de fecharmos. Volte aqui amanhã, que certamente você será devidamente atendido.

Então, conformado e esperançoso do dia vindouro, saiu. Sequer voltou para casa. Dormiu ali, pela rua mesmo, na frente do local. Na manhã seguinte, de novo era o primeiro da fila, com o brilho da expectativa pelo novo nos olhos. E o roteiro permaneceu o mesmo.

Foram tantos os dias, que se tornaram meses, que se tornaram anos, naquela espera pelo remédio que nunca veio, que certa feita morreu ali, na fila mesmo, no primeiro lugar dela, para variar, ironicamente pelo mal que afetava seu coração, e cuja solução estava exatamente dentro daquele estabelecimento.

Quem foi que disse que a vida é justa?

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Aniversário

Hoje o Dilemas Cotidianos está completando dois anos de existência. O tempo passa realmente muito rápido. Parece que era ontem quando eu estava postando o primeiro texto, lá em setembro de 2008, bastante incerto sobre o que aquilo iria originar.

De lá pra cá, muita coisa aconteceu. E ele, o DC, tem sido um companheiro inseparável. Nas boas e nas ruins. Na saúde e na doença. Na tristeza e na alegria. De certa forma, é uma espécie de casamento, mesmo.

Pode parecer bobagem, mas este espaço no qual eu me expresso livremente é algo realmente magnífico para mim. Quem lê o DC não lê um informativo, tampouco deve procurar a perfeição literária, não deve procurar nem sequer coerência.

O DC é um reflexo, creio eu, da minha personalidade. Minhas verdades, minhas fantasias, minhas melancolias, minhas alegrias sem sentido, o confronto do mundo em que eu vivo com o mundo com o qual eu sonho, tudo isso faz parte de mim, um ser absurdamente controverso.

Aqui no DC exercito minha humanidade da forma mais crua possível. Intercalo sombras e luzes aqui, porque intercalo sombras e luzes na minha vida. Eu diria, inclusive, que sou muito mais sombras do que luzes.

É por isso que sinto uma alegria imensa com este espaço. E, de uma forma ou de outra, o DC tem apresentado crescimentos interessantes em termos de acessos, de pessoas que criam alguma identificação, alguma empatia com as coisas que escrevo. Este segundo ano foi um ano de um salto de qualidade, discreto ainda, do blog. Nele, o DC foi indicado ao prêmio Top Blog por alguém que, ora bolas, gostou a ponto de indicá-lo a um prêmio. Nele, o DC teve momentos marcantes, alguns recordes, um reconhecimento que eu sequer esperava.

Mas, tenha certeza, caro leitor, de que este momento não é só meu. A cada dia me sinto mais motivado a escrever aqui, e essa motivação em grande medida se deve a você, que faz eu sentir que não estou completamente sozinho nessa jornada. Gosto de ser lido, por mais que algumas vezes eu sequer ache que mereça. Mas, se as pessoas reconhecem, lêem, se identificam, e gostam, o que me resta fazer a não ser agradecer, do fundo do coração, pela benevolência de ler este blog?

Ele é cheio de defeitos dos mais variados tipos, mas nunca perderá um ingrediente do qual eu jamais vou abrir mão: a capacidade de ser humano e honesto. E sei, que, no fundo, isso é tudo o que o leitor do DC espera de mim. Tem erros, tem acertos, tem textos bons, tem textos ruins, mas, acima de tudo, reflete as minhas verdades, o meu modo de ver a vida, com o qual se pode concordar ou discordar, mas do qual jamais se poderá duvidar.

Em comemoração, a exemplo do que já fora feito no primeiro aniversário, amanhã começa um Especial de 2 Anos do Dilemas Cotidianos, com a seleção dos 10 melhores textos do blog durante este segundo ano. Espero que apreciem.

domingo, 5 de setembro de 2010

Curiosos

Eles tem uma facilidade imensa de proliferação. Basta um carro bater, um corpo estar caído no chão, que lá estão eles. Os curiosos papa-defunto surgem em alucinante velocidade. Se duplicam, triplicam, quadriplicam, em segundos.

Eles não só se reproduzem de forma instantânea, como também vão ensaiando o velho jornalismo marrom. Eles vão dando uma série de palpites, tão grande que se torna quase impossível errar. Mesmo assim, erram. Limitam as hipóteses à desgraceira iminente. Sônias Abrãos por todos os lados. Ih, ele morreu!. Nossa, que horror! A coisa tá feia ali, hein? Meu Deus do céu, que judiaria!

Na verdade, ninguém vê nada. Só o pessoal da ala vip. Aqueles que ficam na primeira fila, de preferência com uma Tek Pix em punhos. O Youtube vai bombar! O resto só especula. Parece a imprensa brasileira investigando dossiês e denúncias para incriminar a Dilma.

Às vezes o pessoal se dá bem. Tem um ou outro presunto fresco no meio das ferragens. Estas pessoas precisam urgentemente de assunto. Passam semanas a fio descrevendo a muvuca para toda e qualquer alma que lhes cruze o caminho.

Entretanto, vez por outra, ninguém morre. É aí que, quando se presta atenção, se podem ouvir centenas de exclamações sussurradas: "Putz, ninguém morreu aí. Vamos embora."

sábado, 4 de setembro de 2010

Vozes

Cale a boca antes que eu dê um soco em sua cara.
Más ideias, o paraíso prometido.
Talvez eu aperte o seu rosto até que sangre.
Tenho que guardar bem no saco de lixo.

Me deixe quieto enquanto cuspo no chão.
Seu silêncio é minha glória.
Enfie goela abaixo as porcarias de sua cabeça.
Estrague todos os planos para que eu possa rastejar feliz.

Posso pisar nessas baratas antes que você grite.
Posso enfiar o rosto neste prato de comida.
Gostaria de ver se você ainda teria apetite.
Vista a roupa mais ridícula e ria da cara de todo mundo.

Malditas vozes atordoam minha mente.
Queimem no inferno de forma divina.
Vou vomitar no seu solo sagrado.
Por mais que eles me sufoquem, ainda assim me manterei vivo.

Sinto o prazer intenso de ser um incômodo.
Nunca perguntaram a minha opinião.
Sou apenas um saco de batatas podres.
Já não me importo mais com isso.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

10 músicas que tocam fundo no meu coração

Todos nós temos aquelas músicas que tocam fundo no coração, na alma. Aquelas que afloram a angústia, a alegria, a dor, enfim, tudo aquilo que compõe a nossa capacidade de amar. São músicas que, por mais que escutemos milhares de vezes, sempre irão mexer com nossos recantos mais íntimos da mesma maneira. É esse o tema da lista que apresento abaixo, as 10 músicas que tocam mais fundo no meu coração:

Décimo lugar- Certas coisas (Lulu Santos): Composta por Lulu Santos e Nelson Motta, esta música possui letra profunda e marcante, lindamente poética. Só o que estraga é o solo de saxofone. Odeio saxofones (http://www.youtube.com/watch?v=iKrzyss8JsU&feature=fvst).

Nono lugar- Tear (Red Hot Chili Peppers): Essa linda baladinha pertence ao álbum "By the way" (http://www.youtube.com/watch?v=YFVhkAQJzXw&feature=related).

Oitavo lugar- Love, hate, love (Alice In Chains): Música forte, vocal marcante, arranjo sombrio: sim, o amor tem seu lado sombrio. "Vivo por você mas não estou vivo. Pegue minha mão antes que eu te mate. Eu ainda te amo, mas eu ainda queimo" (http://www.youtube.com/watch?v=tPFGsGlHeos).

Sétimo lugar- Walking after you (Foo Fighters): Canção simples e doce. Minha preferida da banda do ex-baterista do Nirvana, Dave Grohl (http://www.youtube.com/watch?v=R2oTmdZ-Q7g).

Sexto lugar- Vento no litoral (Legião Urbana): Renato Russo era um gênio. É o que essa música prova (http://www.youtube.com/watch?v=OR1_dmqAoGY).

Quinto lugar- Vida real (Engenheiros do Hawaii): Esta música retrata de maneira formidável o dilema inerente à timidez e sua relação com o amor. O tímido vive neste limite entre dizer o que sente (e geralmente não sabe fazê-lo) e correr o imenso risco de estragar tudo, ou esperar, esperar, esperar... até que chegue outro caboclo e... zapt. Já era. "Esperei chegar a hora certa por acreditar que ela viria" é uma frase absolutamente emblemática dessa situação (http://www.youtube.com/watch?v=CJo9ZTumIoI).

Quarto lugar- Chance (Attaque 77): "Te miro fijo e me sonreís, no pierdo un día lejos de ti. Mi chance es hoy". A belíssima canção da banda argentina aparece no quarto lugar das músicas que tocam fundo no meu coração (http://www.youtube.com/watch?v=xuxS8lfxD4E).

Terceiro lugar- Na sua estante (Pitty): Além da letra lindíssima, o clipe é um show à parte, retratando o singelo e mais puro amor que um ser pode sentir. Quem não se identifica, nem que seja um pouquinho, com o Homem de Lata do vídeo? Hein? Hein (http://www.youtube.com/watch?v=kbNCPtZpGm8&feature=fvsr)?

Segundo lugar- Here without you (3 Doors Down): Acho essa banda muito fraca. Ainda assim, num surto de musicalidade, conseguiu fazer uma canção extremamente inspirada, que me faz sentir como se estivesse tendo o coração docemente arrancado do peito cada vez que a ouço (http://www.youtube.com/watch?v=kPBzTxZQG5Q&ob=av3e).

Primeiro lugar- Elephant Gun (Beirut): Essa música foi tema da minissérie Capitu, exibida na Globo. Como sou um eterno e irremediável Bento Santiago, a identificação e o impacto foram imediatos. Me arrepia (http://www.youtube.com/watch?v=bYmaGvexazI).

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Gente maluca

Vou andando pelo centro da cidade. E quanta gente maluca eu vejo! O punk de cabelo em pé tenta ser anárquico sem saber quem foi Bakunin. O mendigo pede esmolas usando o boné com o nome do político que o sacaneou a vida inteira.

Vou andando pelo centro da cidade. E quanta gente maluca eu vejo! A menina de saia curta e quatro marmanjos em volta sente-se a Britney Spears. São os referenciais de comportamento pós-modernos. O cara de camisa do Grêmio ainda acredita em imortalidade. Lembro-me, não sei por que, daquele filme, "Um morto muito louco".

Vou andando pelo centro da cidade. E quanta gente maluca eu vejo! O hippie pensa que está em Woodstock. Mas é só a Rua da Praia. O homem de meia idade engravatado acredita que será promovido. O folder da empresa foi bem convincente.

Vou andando pelo centro da cidade. E quanta gente maluca eu vejo! O sujeito que vende água pensa que sua esposa está planejando a janta. Mas ela está sendo jantada pelo padeiro. A garota de aparelho nos dentes pensa no seu colega de aula. Mas ele nem sabe que ela existe.

Vou andando pelo centro da cidade. E quanta gente maluca eu vejo! O sujeito que compra e vende ouro só pode dar bijuterias para a mulher que ama. Viva o capitalismo, suas justiças e coerências! A estátua viva se finge de morta. E se pergunta se algum dia já se deu o direito de viver.

Vou andando pelo centro da cidade. E quanta gente maluca eu vejo! O cara que vende chicletes não tem dentes. O velhinho que vende algodão doce sente correr pelo seu rosto um suor salgado.

Vou andando pelo centro da cidade. E quanta gente maluca eu vejo! Em uma vitrine, meu reflexo. Fantasioso e sonhador, sou o mais maluco de todos.