terça-feira, 17 de agosto de 2010

O velho e o sofá

Há um velho sentado, sozinho, num sofá daquele asilo. Os idosos, praticamente todos, estão fazendo algo naquela tarde ensolarada de domingo. São diversas as atividades. Uns jogam pôquer, outros olham o futebol na televisão, outros ainda ouvem rádio. Uma senhorinha tricota o agasalho, presente para o dia em que seu filho venha visitá-la. Todo o domingo ela espera. São três anos da mesma rotina. Os agasalhos acumulam-se em sacolas debaixo da cama da tal senhorinha, sem serem buscados.

Mas o que chama a atenção mesmo é aquele velho. Ele já não compartilha atividade nenhuma com seus pares. Não espera mais por ninguém. Não é antipatia, tampouco ódio para com o mundo. É apatia, amargura. Aquele velho já não possui perspectiva nenhuma. Fora largado pela filha e o genro para uma semana de recuperação com cuidados especializados, coisa que lhe faria bem, ele que havia tido recentemente um infarto, estava um tanto sequelado e mijava-se pernas abaixo três vezes ao dia. Passou-se uma semana. Passaram-se duas, três, quatro, cinco... Passaram-se semanas o suficiente para fazê-lo desistir de contá-las.

Tentou se acostumar ao admirável mundo novo. Tentou adaptar-se, tal qual um camaleão, às cores do novo cenário. Não conseguiu. Não era o mundo dele. Não era o cenário dele. Estava conformado, isso sim. A vida impôs-lhe este inelutável destino. Trapaceiro destino.

Seus dias resumiam-se a acordar, tomar uma caneca de café com leite pela manhã, almoçar e jantar. Entre as refeições, claro, um bom banho, que ele conseguia tomar sozinho, e aquele sofá. Não variava. Não pegava sol. Não utilizava outra poltrona, outro espaço daquele asilo. Somente aquele sofá. De tal forma aquele lugar tornou-se dele, que nenhum dos outros velhos sequer se atrevia a sentar ali.

Passava os dias pensando. Escorava a cabeça sobre o braço direito, que por sua vez se postava sobre o braço direito do sofá. Não fazia muito sentido o que vivia. Seus pensamentos eram, ao mesmo tempo, desordenados e claros. Passava em sua cabeça o filme de seus setenta anos de vida. Seus amados pais. A escola, os amigos, a primeira professora. A juventude, as paixões, os amores. O casamento. Ah, como ele amava aquela moça! Com ela, passara os momentos mais belos e vigorosos de sua vida. Infelizmente, ou felizmente, hoje ela descansava, mais em paz do que ele. Com ela, teve sua linda filha. E como se dedicou à sua princesinha aquele homem!

Lembrava-se das trocas atrapalhadas de fraldas. Pensava nas vezes em que abraçava a mocinha, em que lhe contava historinhas para dormir, nas caretas que arrancavam gostosas gargalhadas de sua preciosidade, obra mais amada e bela. Lembrava do resplandecer da mulher que ele havia criado. Mulher madura, bem criada, bem sucedida, que agora estava em algum lugar deste mundo enorme com seu marido. Aquele velho entendia o ciclo, não nutria mágoa pelo esquecimento que lhe foi impingido. Sentia, vez por outra, um aperto no peito, uma inconformidade com sua própria velhice. Era bem provável que hoje sua princesinha, se ainda lembrasse dele, lembrasse com nojo das rugas, da saliva que lhe molhava irritantemente o rosto. Tornar-se um incômodo era, para ele, um incômodo enorme.

Queria ele estar mais jovem, mais forte. Queria poder orgulhar a filha mais uma vez. Queria o abraço verdadeiro da meninota cujas fraldas trocava com tanta abnegação. Queria ouvir, uma vez mais que fosse, palavras direcionadas a ele. Hoje em dia, apenas ouvia "acorde!", "hora do café!", "hora do almoço!", "hora de dormir!". Ninguém perguntava para o velho como ele se sentia, se estava bem, se estava feliz. Nem visitas, nem cartas, nada.

Esta rotina se repetiu de forma absoluta por mais alguns anos. Ele estava bastante adoentado e enfraquecido, mal conseguia comer. Até que um dia, uma das enfermeiras do local, toda sorridente, veio lhe trazer boas novas. Sua filha, sua princesinha, ligou avisando que estaria na cidade durante uma semana, e passaria lá para vê-lo no domingo. Os olhos do velho, costumeiramente opacos durante aqueles anos no sofá, brilharam com o brilho dos olhos de uma criança diante do homem do algodão doce. Não conseguiu falar. Nem precisava.

Chegado o grande dia, o velho mudou totalmente sua rotina. Levantou-se cedo, tomou um café reforçado. Banhou-se com gosto, perfumou-se até em exagero. Preparou todos os detalhes ao seu alcance, vestiu a melhor roupa, fez a barba milimetricamente. Sentou-se no velho sofá. Agora, tudo era questão de esperar. Sua filhota havia marcado a chegada para as 16 horas.

Eram 16:10, e ele já mostrava certa ansiedade, inquietação. Foi quando tocou a campainha. Era ela. Sua filha. Estava linda. Ela abraçou o velho com um tanto de distância, ao tempo em que ele a abraçava, lacrimejando, e tentava babar-lhe o rosto esquivo com um sonoro beijo. Ela perguntou se estava tudo bem com ele, disse que com ela também estava, e que seu marido a esperava no carro, do lado de fora, e por isso não poderia demorar-se. O velho, subestimando tal aviso, pegou-a pela mão, e, chorando, começou a falar o que sentia, das saudades, das lembranças da infância da filhota, quando, então, tocou o celular dela. O marido a estava apressando, tinham um jantar à noite. Então, ela, a princesinha, interrompeu o velho, e desejou tudo de bom, afirmando que tinha de ir embora por causa de um compromisso importante. As palavras e o choro, ficaram guardados na garganta do velho.

Lá se ia, depois de menos de dez minutos, a princesinha, aquela das fraldas, dos abraços, das historinhas de dormir. Sequer olhou para trás, altiva e certa quanto aos rumos de sua vida, e da pressa imposta pelo tempo e pelas prioridades de sua existência. Deixava ali, sozinho e reticente, o velho sentado no sofá, com a cabeça escorada no braço direito apoiado no braço do sofá. Pela última vez.

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