segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O sonho e a vigília

Sonhei esta noite com um dia ensolarado.
Acordei com o cinza do céu.
Sonhei esta noite com a simplicidade de uma brincadeira infantil.
Acordei com as complicações do mundo adulto, e seus brinquedos sem graça.

Sonhei esta noite com corações cheios de paz.
Acordei com tiros na frente de casa.
Sonhei esta noite com a liberdade prometida.
Acordei com as obrigações desta prisão chamada vida.

Sonhei esta noite com um abraço apertado.
Acordei com os rostos indiferentes e entediados de uma manhã modorrenta.
Sonhei esta noite com um brinde à felicidade que finalmente bateu à porta.
Acordei de ressaca, sem lembrar as barbaridades de uma noite devastadora.

Sonhei esta noite com um banquete farto, alegria à mesa.
Acordei com o pão, a margarina e uma caneca de café-com-leite morno, quase frio.
Sonhei esta noite com a arte de se falar a verdade.
Acordei rodeado de mentiras, farsas, desilusões.

Sonhei esta noite que, com as luzes apagadas, tudo seria melhor.
Acordei com a certeza de que as mentirosas luzes nos enganarão para todo o sempre.
Sonhei esta noite com todo o poder e glória que um ser humano pode alcançar.
Acordei rastejando em meio aos farelos, envenenado pelo inseticida.

Sonhei esta noite com muitas coisas interessantes e desejáveis.
Acordei em meio à imundice desses dias patéticos.
Contudo, vi que ainda há algo por resgatar dentro de mim.
Um sorriso, tão singelo, tão pequeno, tão simples, tão grandiosamente lindo, me faz continuar alimentando meu espírito.

Sim, ainda estou vivo.

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