segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A MTV e seu desserviço à democracia brasileira

Ao acompanhar algumas vinhetas de uma campanha que em tese destina-se à conscientização eleitoral dos jovens por parte da MTV, fiquei absolutamente estupefato com algumas formas propagadas de se pensar política. Minto: não é de hoje que a MTV só serve para despolitizar os jovens brasileiros, então isso não chega a ser exatamente algo que surpreenda. Mesmo assim, me surpreende o paradoxo discursivo de uma campanha que se intitula "Tome conta do Brasil", em uma televisão que apregoa a inclusão política de nossa juventude.

Numa dessas vinhetas, o inteligentíssimo Bento Ribeiro (quem mesmo?) diz que tudo é um lixo, as leis são uma porcaria, e é necessário um cara que vá lá e mude tudo. Peraí, deixa eu ver se entendi: a emissora do Grupo Abril quer convencer os jovens a participar e fiscalizar a política dizendo que é tudo uma porcaria e só um líder messiânico poderia reverter a situação de completo caos? É isso?

Suspeito que a emissora do Grupo Abril não esteja fazendo mais do que reproduzir o status quo. Os principais traços da cultura política brasileira, em termos bem generalizantes e até grosseiros, são a alienação, o cinismo político, o personalismo e o clientelismo. Ora bolas, há discurso mais alienante, distanciador e personalista do que o "é tudo uma porcaria, ninguém presta e precisamos de um líder que resolva tudo"? A MTV, com seu discurso anti-político, só faz reproduzir a alienação e o desprezo dos jovens pela política. Traveste-se de moderna e revolucionária para reproduzir um ideário imposto pelas elites do país para manter a população longe dos centros de poder.

A MTV, do notoriamente direitista Grupo Abril (o mesmo da absolutamente imparcial e credibilizada revista Veja), presta, isso sim, um imenso desserviço à democracia brasileira. Há graves problemas no nosso panorama político? Não restam dúvidas de que sim. Mas não é se afastando e se desinteressando que os cidadãos de nosso país poderão mudar isso. Há, pelo contrário, a necessidade de se informar cada vez mais, compreender com maior profundidade os nossos processos políticos, aumentar o interesse e a consciência de patrimônio público, expandir o domínio da população sobre as esferas de governo, e aumentar a capacidade dos indivíduos de se unir em prol de um bem comum estabelecido consensual e democraticamente entre eles.

Muito da podridão institucional da democracia brasileira se deve exatamente ao afastamento e alienação do cidadão comum em relação à política. Tal afastamento cria o terreno ideal para a germinação de oportunistas que passam a se encontrar permanentemente nos ambientes decisórios, utilizando o povo como massa de manobra, estabelecendo relações de patrão-cliente, tomando as instituições públicas com finalidades de interesse pessoal. Então, logicamente, não é afastando ainda mais o cidadão comum da arena política que o estado atual das coisas vai mudar.

Mais do que isso, há que se salientar que existem, sim, mesmo nestes ambientes inóspitos às demandas da maioria, sujeitos sérios, trabalhadores, que acreditam num país melhor, de verdade. Quem não parece acreditar num país melhor, ou mais claramente dizendo, quem parece não querer um país melhor, são os jovens de mente autoritária e conservadora da MTV Brasil, inculcando nas mentes da nossa juventude, que está em fase de construção (ou não), de uma identidade política, que a participação política é uma tremenda bobagem, e o que realmente importa é votar no prêmio de melhor videoclipe do ano do VMB.

Um comentário:

Lu Sieber disse...

A MTV está colocando várias opiniões diferentes no programa Tome Conta do Brasil. A proposta perece ser justamente essa.
Agora, claro que a maioria das pessoas faz comentários infelizes sobre a política, como é normal entre os jovens, principalmente.
Se tu olhar com mais calma, vai ver que eles também divulgam opiniões bem diferentes dessas do Bento.
Não vejo a MTV como algo tão maligno assim. Pelo contrário, ela apresenta programas mais "alternativos" e interessantes, se comparados com a maioria dos programas brasileiros.