terça-feira, 31 de agosto de 2010

Esquecimento

Estou esquecido num canto de uma gaveta em que ninguém mexe. Talvez eu esteja fadado a isso. O ostracismo, o isolamento, a quietude, tudo isso machuca e me deseduca. Vou me reacostumando ao silêncio, à solidão. Será o silêncio que me leva à solidão, ou a solidão que alimenta e incentiva o meu silêncio?

Cansei de amar e perder tempo. Mas ainda amo e perco tempo, preso a uma esteira que não para, refém do vazio de minha alma que implora por ser preenchido. Sou peça figurativa, um cogumelo insignificante do País das Maravilhas. Não estou feliz e serelepe. Também não estou maltratado e trucidado. Apenas estou. Sem riso nem choro. Sem comédia, nem drama, nem romance. Nada. E isso angustia. Porque sei que tenho um coração que pulsa. Porque sei que tenho um coração que ama e cala.

Talvez seja melhor assim. Talvez eu tenha nascido para ser este espírito medíocre que só serve para ser um livrinho de palavras cruzadas. Acho que nunca me amei de verdade. Tampouco me odeio. Simplesmente não sinto nada por mim mesmo. Sou figurante em minha própria história.

A vida, suas más experiências, as intermináveis frustrações, me ensinaram que o melhor que tenho a fazer é me distanciar de mim mesmo, um passatempo do qual ninguém lembra na hora de dormir. Então, me pego na janela de casa, olhando para cada pessoa que passa na rua, esperando horas e horas por quem nunca veio. Então, me pego ao telefone, feito um bobalhão, ligando para quem nunca me atendeu. Então, me pego chorando no velho banco verde por um amor de mão única, que nunca existiu além de minha tola e insensata imaginação.

O que lamento é que apesar de todas as dores, apesar de todas as lições amargas, apesar da minha própria indiferença em relação a mim mesmo, meu coração, insubordinado e estúpido, ainda se atreve a amar. E mesmo que apanhe mais, e mais, e mais, continuará procurando por alguém pelo qual possa bater feliz.

Apesar de saber que ninguém chegará, ainda perco horas olhando pela janela. Apesar de saber que ninguém atenderá, continuo ligando. Apesar de saber que terminarei chorando sentado num banco verde, continuo mergulhado num platonismo que só faz sentido para mim mesmo.

Opções restritas, silêncio doloroso ou realidade dolorida. Minha desesperança é doentiamente cheia de esperança. No fundo, irracionalmente, ainda espero estar errado, que alguma coisa mude, que minha hora chegue. É o que me mantém vivo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Comunistas

- Arnaldo... Arnaldinho... Larga esse binóculo, sai dessa janela e vem para a cama, amorzinho...
- Desculpe, querida, agora não posso.
- Ai, pára com isso, amor... Vem cá...
- Já falei que não posso, estou olhando os comunistas do prédio em frente.
- De novo essa história, Arnaldo? Esquece isso...
- Você está maluca, é? Não vê que eles estão conspirando?
- O quê?
- Hoje à tarde até colaram um adesivo da Dilma na janela! Da Dilma!!!
- Ai, ai, ai... Você andou conversando com a Christiane e com o William de novo, né? Já te disse que isso não te faz bem...
- Eu sei o que é melhor pra mim! De mais a mais, foi apenas um almoço, coisa rápida.
- Coisa rápida que já encheu sua cabeça de caraminholas de novo! Bom mesmo era aquele seu amigo, o Franklin... Aliás, você nunca mais falou com ele?
- Não pronuncie o nome desse cara na minha frente!
- Pelo menos ele não ficava te assustando com essas caraminholas...
- Caraminholas? Como você pode falar algo tão absurdo? Não vê que o casal do prédio em frente até chamou uns comparsas para planejar a revolução comunista?
- Ai, meu Deus... Pelo que estou vendo, eles só convidaram um casal amigo para jantar e beber vinho.
- Como você é ingênua, querida. Não vê que o cara tem barba? Barba!!!
- Não acredito que estou ouvindo isso...
- Sim, esses bolcheviques aí querem tomar o poder. Bando de Lênins, Trotskys, Stálins, Genoínos...
- Esquece isso, amor. Vem pra cama, vem. Coloquei aquela lingerie vermelha nova, de rendinha.
- Vermelha? Isso é uma afronta! Vista algo decente! Vermelho é cor de comunista! Andou conversando com os vizinhos comunas, é?
- Nossa, como você é paranoico, Arnaldinho... Tá bom... Eu troco a lingerie. Mas vem cá... Estou toda cheirosinha. Vamos fazer amor até o amanhecer.
- Você está maluca, é? Como pode ser tão cega! Os bolcheviques conspirando logo ali, e você pensando em amor? Eles vão acabar com a propriedade privada! Não te assusta a ideia de que sua privada pode se tornar pública?
- Nossa, como sua mente é fértil!
- Você que é alienada! Que absurdo!
- Ah, quer saber? Desisto. Vou dormir que faço melhor.
- Isso, vai dormir, mesmo. Sempre soube que você não liga para os meus sentimentos...

domingo, 29 de agosto de 2010

Entre o lá e o cá

Encontra-se numa sinuca de bico.
Quem disse que armadilhas iguais ficam manjadas?
À noite, os pensamentos tiram-lhe o sono.
Eis um sujeito entregue novamente.

Luta consigo mesmo para disfarçar o indisfarçável sem parecer distante.
Como mostrar sem mostrar?
Como dizer sem dizer?
Como sentir sem sentir?

Não sabe lidar com essas coisas.
Sente que está prestes a demonstrar e destruir de vez.
Ou deixará os dias passarem, até o dia em que alguém mais hábil tome-lhe a vez?
Entre o lá e o cá, seu coração se despedaça quando pensa no sorriso dela.

Gosta de existir para ela.
Mas não sabe se existe o suficiente.
Não sabe se sofrerá novamente, então fica na defensiva.
Ao seu redor, no entanto, isso passa a ser notado, interrogatório e parede.

É aí que a vermelhidão toma cada canto de seu rosto.
Como disfarçar tamanho desconcerto?
Será que foi perceptível?
E, se foi, isso é uma boa ou uma má notícia?

sábado, 28 de agosto de 2010

As 10 músicas brasileiras mais toscas de todos os tempos

Hoje vamos falar de música. Mas não é de qualquer música. É de música ruim. Muito, muito, muito ruim. O Dilemas Cotidianos orgulhosamente (?) apresenta as 10 músicas brasileiras mais toscas de todos os tempos.

Décimo lugar- A Gina (Et e Rodolfo): Uma obra do cancioneiro nacional (http://www.4shared.com/audio/CtguVFh4/rodolfo_e_et_-_a_gina.htm).

Nono lugar- Como fui me apaixonar (Calcinha Preta): Da série "versões brasileiras que dão vergonha alheia" (http://www.youtube.com/watch?v=TYKrf51Xq8M).

Oitavo lugar- Melô da popozuda (De Falla): O hino oficial da punheta brasileira dos anos 90. Quem não lembra da Feiticeira dançando ao som de "vai popozuda, requebra legal!"? (http://www.youtube.com/watch?v=-S8AGWXn94I).

Sétimo lugar- Popozuda da vila (Musical JM): Achou a popozuda tosca? Agora imagine, então, a popozuda da vila... (http://www.4shared.com/audio/eHZj6jLE/Musical_JM_-_Popozuda_da_Vila.htm).

Sexto lugar- Florentina (Tiririca): É humor? Sim. Precisa ser tosco? Não. Mamonas provaram isso (http://www.youtube.com/watch?v=gIDyetR65JE).

Quinto lugar- Na manteiga (Terrassamba): "Esfregue as mãos, bote na nuca. Vai na manteiga, manteiga, manteiga..." (http://www.youtube.com/watch?v=KTaxioTabME).

Quarto lugar- Levo comigo (Restart): Quando ouço essa música, tenho uma certeza: o sujeito não está se declarando para a namorada; está se declarando para o namorado. Aí, para tentar compensar a queimação de filme, no refrão surge um vocal tipo "mamãe, papai, não é isso que vocês estão pensando: ainda tenho tico". O problema é que não adiantou muito. PS: preste atenção no gordinho que invade o palco aos 3:35. É a família Restart cada vez mais bonita e sensata (http://www.youtube.com/watch?v=1pGh-wLu1pA&feature=related).

Terceiro lugar- Pocotó (MC Serginho): Pegue um arranjo ridículo. Acrescente um vocal horroroso, cantando uma letra patética. De brinde, coloque a Lacraia. Pronto, você tem um megahit! (http://www.youtube.com/watch?v=pSCoQrl-VoY&feature=related).

Segundo lugar- É a mulher (Neguinho da Beija-Flor): Uma comovente homenagem de Neguinho da Beija-Flor às mulheres, com uma letra complexa, que nos faz pensar na essência existencial humana (http://www.youtube.com/watch?v=-L83UxrxclA).

Primeiro lugar- Fica comigo agora (Hélio dos Passos): É difícil descrever o grande campeão de nossa lista. É um perfeito arigó. O rei da tosquice. Você vai sonhar com essa porra (http://www.youtube.com/watch?v=mz-18ml6byo).

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Vida de ex-bbb

Fico absolutamente abismado com a quantidade de coisas úteis que ex-bbbs medianos fazem para manter a sua fama. Eles conseguem se manter na mídia através de atos incríveis, destes que realmente fazem o mundo melhor. Fico realmente comovido com o nível deste pessoal que, durante alguns meses, vira referência comportamental neste país. Uma breve pesquisa sobre alguns dos participantes da edição deste ano no Globo.com mostra do que estou falando.

Manchetes de Eliéser:
"Chega ao fim o namoro de Cacau e Eliéser"
"Separado de Cacau, Eliéser cai na noite com ex-BBBs"
"'Nada como um dia após o outro', diz Eliéser sobre fim do namoro com Cacau"
"Solteiro, Eliéser se joga em balada com Angélica e Joseane"
"Recém-separado de Cacau, Eliéser corta o cabelo"
"Separado de Cacau, Eliéser vai a evento e posa com Deborah Secco"

Manchetes de Serginho:
"Dia dos Pais: 'Converso com meu pai sem nenhum pudor ou tabu', diz Serginho"
"Serginho curte noitada em festa do piloto Lucas di Grassi"
"Elenita e Serginho vão a balada em Curitiba"
"Serginho curte balada com modelito novo de inseparável bolsa"
"Pitty e Serginho viajam de avião juntos"

Manchetes de Anamara:
"Anamara mostra o resultado de sua lipo para fãs no Twitter"
"Cacau, Lia Khey e Anamara vão à festa da ‘Playboy’ no Rio"
"Anamara e Milena se evitam em festa em Salvador"

Como bem podemos notar, são pessoas que têm muito a agregar intelectual e humanamente, pessoas que se ocupam com coisas realmente importantes, que por meio do mais puro talento se mantêm nas manchetes dos portais do país.

Antes que me digam que acompanhei e comentei o BBB deste ano no DC, o que é verdade, enfatizo que só o fiz porque, de fato, esteve em xeque uma questão social bastante ampla e inquietante, que é a verdadeira apologia ao homossexualismo que existe no Brasil nos dias de hoje, quando pessoas como Marcelo Dourado são obrigadas a achar bonito e legal algo que elas não gostam, e que não pertence ao seu universo, às custas de serem rotuladas de homofóbicas e preconceituosas, quando simplesmente têm, respeitosamente, uma visão de mundo diferente (para quem quiser ler com mais detalhe: http://dilemascotidianos.blogspot.com/2010/03/dourado-contra-hipocrisia.html; http://dilemascotidianos.blogspot.com/2010/03/imperfeicoes.html).

Agora, quando deixamos de lado este aspecto muito circunstancial e específico que envolveu a décima edição do programa, temos que ter em mente que o BBB é, sim, um lixo, cheio de debilóides que só se importam com questões fúteis e de estética. Isso é fato, com exceções muitíssimo raras. Aí estão as manchetes do Globo.com que não me deixam mentir.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O namorado e o presidente

O ônibus é o local ideal para se começar a pensar nas coisas mais estranhas e nas relações mais curiosas possíveis no que diz respeito à vida do dia-a-dia. Num destes momentos de filosofia barata interior, cheguei à conclusão de qua há muitas semelhanças entre o namorado e o presidente. Quase simetricamente, isto vale para as mulheres também. Mas, por ser homem, para mim é mais fácil falar pela ótica masculina. Mas, fique claro, o aspecto do gênero aqui pouco ou nada importa, ainda que alguns dos aspectos, de fato, se apliquem mais adequadamente ao lado masculino da força.

Também poderia refinar e falar não só em namorado, mas também em noivo e marido. Nesse caso, namorado seria prefeito, noivo seria governador, e marido seria presidente. Mas vou simplificar e denominar apenas de namorado, toda a espécie de cônjuge, e resumir os cargos do executivo ao presidente. A essência é praticamente a mesma. O que importa é que vejo nos relacionamentos homem-mulher algo bastante semelhante às relações de poder.

Sim, relações homem-mulher são relações de poder. E de foder também. Podem ser mais ou menos democráticas e liberais, podem ser até mesmo anárquicas. Ainda assim, o poder está na pauta, em diferentes graus de distribuição e diluição.

O namorado tem uma missão governamental. É um chefe de Estado. O povo, o eleitorado, é a namorada. O namorado tem de ser um bom administrador. Ele tem que ter o dom de conduzir a relação com o menor número de turbulências possível. Muitas vezes, assim como para o eleitorado, a situação econômica pesa. Mas às vezes a dominação carismática pode resolver, ou pelo menos gerar paliativos. Uma boa noite de transa tem o poder de amansar o povo revolto. É o velho pão e circo. Com o perdão do trocadilho infame, neste caso, pau e circo.

O namorado e o presidente tem um amor imenso ao poder. Todos gostamos do poder. Não sejamos hipócritas. O quanto ele, seja namorado ou presidente, puder se propagar no poder, assim o fará. A não ser que possa concorrer a um cargo hierarquicamente superior. Aí, a renúncia pode ocorrer sem maiores remorsos. E o povo que se dane.

Entretanto, o namorado não é tão senhor de si. Existem pressões exteriores absurdas. Sabe aquela amiguinha da namorada que está sempre falando mal de você? É o PSTU. Não tem a intenção de tomar o poder, pelo menos não este poder, não este Estado. Quer apenas tumultuar a relação bovina previamente estabelecida e cômoda. Ou será que o PSTU seria lésbica? Sei lá.

Mais do que isso, o namorado tem de estar permanentemente atento às conspirações. Em questão de dias, pode vir o golpe de Estado. Tenha certeza: em todas as circunstâncias, conspiradores não irão faltar. Às vezes, pode ser até mesmo um ministro de confiança. Relações políticas e amorosas são deveras instáveis. Ainda mais em democracias não consolidadas. Por isso, é bom evitar a convulsão social. O povo tem de estar satisfeito e de barriga cheia.

O povo, e as namoradas, querem um tanto de segurança e ordem. Governos desordeiros dão chance ao azar. Nessas horas, os conspiradores oferecem um governo duro, vigoroso, do jeito que o povo gosta. E daí, senhor presidente, se você não endurecer (mais do que nunca, sem perder a ternura), nada sobrará além do ostracismo do exílio. Não é fácil a vida de presidente. Digo, namorado.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Corrida

Estamos correndo todos os dias atrás da nossa satisfação. Qual satisfação? Não sabemos ao certo. Está atrás do arco-íris. Pote de ouro? Tesouros vis? Um monte de merda? Ninguém sabe. Ainda assim, todos nós continuamos a correr.

A vida é uma sucessão de promessas incompletas. Nunca estamos, de fato, satisfeitos. Consumimos pílulas de felicidade cujo efeito é curto demais. Como diria o filósofo, em outro contexto, é bem verdade, "só acaba quando termina". Mas a hora em que termina não é tarde demais?

Por estas e outras mais, viver é um exercício angustiante. Não há uma linha de chegada, não há margem para que paremos e respiremos aliviados. O devir nos empurra por diversos becos e avenidas.

Como as coisas parecem não ter um fim muito claro e racional, passo a crer que a única racionalidade para corrermos tanto, rumo ao único ponto final claramente definido, é acumular dinheiro o suficiente para uma sepultura luxuosa. Por mais que seja inútil, é a única explicação que me vem à cabeça.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Estupidez

Arraste um pouco de suas lamentações para o centro da sala.
Inteligência emocional zero, é assim que você é.
Desacredite das pistas e doçuras.
Seu caos interior vai lhe destruir.

Você tenta agir como se não fosse estúpido.
Novos dias, velhas histórias.
Tudo muda sem mudar, roteiro manjado.
Até onde você pensa que vai com este com este coração, ô rapazote?

Enquanto todos celebram a mesquinhez, você aí se digladia.
Tente esconder sua doença emocional.
Evite o papel ridículo que está desenhado em sua testa.
Arranque seus olhos, beba todo o sangue.

Desenhe um sorriso no seu rosto com este canivete.
De ponta a ponta, na horizontal, é mais fácil assim.
Não está suficientemente claro que você nasceu para ser um verme viscoso?
Você mostra sua fragilidade, e essa maldita face rubra.

Você só existe para ser a piada de depois do almoço.
Os gestos te desgastam sem que ninguém perceba.
Olhos vermelhos de ver as atitudes de quem nem sabe que te cega.
A luz daquele sorriso só serve para te cegar.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O sonho e a vigília

Sonhei esta noite com um dia ensolarado.
Acordei com o cinza do céu.
Sonhei esta noite com a simplicidade de uma brincadeira infantil.
Acordei com as complicações do mundo adulto, e seus brinquedos sem graça.

Sonhei esta noite com corações cheios de paz.
Acordei com tiros na frente de casa.
Sonhei esta noite com a liberdade prometida.
Acordei com as obrigações desta prisão chamada vida.

Sonhei esta noite com um abraço apertado.
Acordei com os rostos indiferentes e entediados de uma manhã modorrenta.
Sonhei esta noite com um brinde à felicidade que finalmente bateu à porta.
Acordei de ressaca, sem lembrar as barbaridades de uma noite devastadora.

Sonhei esta noite com um banquete farto, alegria à mesa.
Acordei com o pão, a margarina e uma caneca de café-com-leite morno, quase frio.
Sonhei esta noite com a arte de se falar a verdade.
Acordei rodeado de mentiras, farsas, desilusões.

Sonhei esta noite que, com as luzes apagadas, tudo seria melhor.
Acordei com a certeza de que as mentirosas luzes nos enganarão para todo o sempre.
Sonhei esta noite com todo o poder e glória que um ser humano pode alcançar.
Acordei rastejando em meio aos farelos, envenenado pelo inseticida.

Sonhei esta noite com muitas coisas interessantes e desejáveis.
Acordei em meio à imundice desses dias patéticos.
Contudo, vi que ainda há algo por resgatar dentro de mim.
Um sorriso, tão singelo, tão pequeno, tão simples, tão grandiosamente lindo, me faz continuar alimentando meu espírito.

Sim, ainda estou vivo.

domingo, 22 de agosto de 2010

Mãos

Mãos que se tocam.
Mãos que acariciam.
Mãos que abrem e fecham.
Mãos que apertam corações.

Mãos que dão o soco no estômago.
Mãos que matam.
Mãos que se lambusam.
Mãos que são lambidas.

Mãos que indicam o caminho.
Mãos que enganam quando querem.
Mãos, seus dedos que se recusam ao afastamento.
Mãos que cumprimentam.

Mãos, maldições.
Mãos, delicadeza.
Mãos, unhas que arranham.
Mãos que esmigalham.

sábado, 21 de agosto de 2010

Pintor

Pincel em mãos, tintas na mesinha, o quadro branco em minha frente. A liberdade é tão grande que as ideias faltam. Nada parece suficientemente bom. Nada parece suficientemente motivante.

Poderia pintar as pessoas que passam na rua. Poderia pintar o céu azul, as árvores. Poderia pintar rostos entediados. Entretanto, mais que tédio, os rostos estão tomados por angústia. Angústia contida, disfarçada.

Poderia pintar as luzes e sombras do meu peito. Decepções e esperanças. Idas e vindas. Risos e choros. Fantasias e realidades. Dignidade e remorso. Atividade e inaptidão.

Poderia pintar meus sonhos confusos. Um mundo utópico de amor, liberdade e pureza. Poderia pintar a realidade dolorosamente surreal. O egoísmo, a frieza, a alienação, as redomas, as premeditações.

Poderia pintar o nojo que sinto de tudo à minha volta. Poderia pintar o boteco vazio. Poderia pintar a garrafa de vinho, o vômito na calçada, o telefone que não toca. Poderia pintar a minha metamorfose, meu desleixo, minha desistência gradual e ininterrupta.

Poderia pintar as flores de plástico, meu coração tolo, meus caminhos errados. Poderia pintar o desgosto pelo tempo, poderia pintar a solidão que me invade, poderia pintar a multidão que me afoga em desespero.

Poderia pintar minha espera burra, a redenção que nunca chega, a face oculta da felicidade plena. Poderia pintar um sorvete, um gol, meu herói predileto.

Poderia pintar um novo dia, uma nova vida, um novo propósito. Poderia pintar o ontem, as chuvas dos meus olhos, os tombos incalculáveis. Poderia pintar o hoje, esta massa indefinida, esta bússola desregulada e mentirosa, este inacreditável jogo de pisca-pisca, aparece-some. Poderia pintar até mesmo o amanhã, ao mesmo tempo óbvio e obscuro.

Poderia pintar de verde minhas esperanças, de vermelho minhas paixões, de roxo minha alma, tão socada, chutada, surrada nos becos suburbanos de minha existência.

No entanto, por enquanto é melhor não pintar nada. O branco é minha janela aberta para pintar algo que realmente valha a pena, algo que ainda não surgiu em minha mente e meu coração.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Ao amigo colorado e, também, aos não colorados

Caro amigo colorado,

O dia foi difícil, o chefe deu bronca? Esqueça, o Inter é bicampeão da América.

O amor da sua vida lhe deu um pé na bunda? Esqueça, o Inter é bicampeão da América.

O cachorro mijou em suas calças? Ora, esqueça, o Inter é bicampeão da América.

Está no SPC, as contas estão atrasadas? Esqueça, só por esta noite: o Inter é bicampeão da América.

A barriga dói, a cabeça está estourando? Não importa! O Inter é bicampeão da América.

Você está bêbado, que nem eu, e sabe que amanhã o fígado vai pedir arrego? Deixa pra lá, o Inter é bicampeão da América.

Mas, se você, amigo leitor, por alguma infelicidade do acaso, não é colorado,

Você não está sendo, nesse momento, parte da torcida mais feliz do mundo.

Você não está vivendo o delicioso frio da barriga de mais um Mundial Interclubes.

Você, amigo, a quem respeito deveras, não é Campeão de Tudo.

Você não sabe o que é viver esse momento depois de algumas décadas de chacotas e deboches, engolidos, não poucas vezes, a seco. Ah, como é bom!

Você, que por desventura não seja colorado, não sabe o que é saber que o direito de sonhar é de todos, e que quando se luta e trabalha pelo que se quer, o momento de redenção chegará, de um jeito ou de outro, apesar de tudo e de todos.

Você, que vibrou inocentemente com o gol do Chivas, aprenda de uma vez por todas a respeitar o Sport Club Internacional.

Este clube, Campeão de Tudo, pode tudo.

Não peço vibração, tampouco que você diminua a grandeza de seu clube. Só peço uma coisa: respeite o Inter. Quando você aprender a respeitar os outros, talvez tenha a possibilidade de, alguma vez, pelo menos se aproximar do sabor de uma vitória verdadeira, degustada em sua plenitude.

Se você, por algum motivo, não é colorado, entenda e aceite com a humildade que talvez você desconheça: o Inter é bicampeão da América.

Se você não está feliz, não se apequene ainda mais: aplauda e reconheça que o momento é do Internacional. Assim como nós, colorados, desportivamente baixamos a cabeça e soubemos reconhecer, quando assim ocorreu, as glórias alheias. É da vida. É do esporte. É do futebol.

Somente peço que nunca mais, sob hipótese alguma, subestime este clube. Repito: ele pode tudo.

A última batalha para reconquistar a América

Hoje à noite, o Internacional enfrenta sua batalha derradeira na busca pelo Bi da Taça Libertadores da América. Não existe jeito de controlar a ansiedade. Estamos às portas de um momento histórico. O Gigante da Beira-Rio será palco de uma partida inesquecível.

Não está nada ganho. O Chivas não chegou a esta final por acaso. É bom time e merece respeito. Não esqueçamos que a Univerdidad do Chile, após empatar no México, entrou em campo em clima festivo, apenas para cumprir uma formalidade. E levou 2 a 0. O Inter não pode, de jeito nenhum, cair na armadilha do "já ganhou".

Se jogar tudo o que jogou no México, aí sim, podemos afirmar que o colorado não perderá o título. Terá, ainda por cima, o apoio de mais de 50 mil colorados apaixonados. O ambiente é propício, perfeito para a conquista do grande título. Entretanto, há que se jogar os últimos 90 minutos desta Libertadores com o mesmo espírito da partida de ida. Atenção, concentração e raça serão elementos indispensáveis. O jogo não está jogado.

Uma vez conquistada a Libertadores, aí sim, poderemos realmente comemorar. Soltar o grito da garganta, pular, vibrar como crianças. Após quatro anos, o Inter pode reconquistar a América, e firmar-se, de uma vez por todas, como o clube brasileiro mais vencedor nesta década. Este momento ímpar foi antecedido por muita luta, muito trabalho. O desacreditado colorado da década de noventa e do início desta década foi sendo reestruturado paulatina e determinadamente. Tropeçou algumas vezes, mas manteve os olhos onde surge o amanhã. E este amanhã tornou-se hoje. E hoje, está radioso de luz, varonil, seguindo sua senda de vitórias.

Fico feliz por estar vivo e poder presenciar tudo isso.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O velho e o sofá

Há um velho sentado, sozinho, num sofá daquele asilo. Os idosos, praticamente todos, estão fazendo algo naquela tarde ensolarada de domingo. São diversas as atividades. Uns jogam pôquer, outros olham o futebol na televisão, outros ainda ouvem rádio. Uma senhorinha tricota o agasalho, presente para o dia em que seu filho venha visitá-la. Todo o domingo ela espera. São três anos da mesma rotina. Os agasalhos acumulam-se em sacolas debaixo da cama da tal senhorinha, sem serem buscados.

Mas o que chama a atenção mesmo é aquele velho. Ele já não compartilha atividade nenhuma com seus pares. Não espera mais por ninguém. Não é antipatia, tampouco ódio para com o mundo. É apatia, amargura. Aquele velho já não possui perspectiva nenhuma. Fora largado pela filha e o genro para uma semana de recuperação com cuidados especializados, coisa que lhe faria bem, ele que havia tido recentemente um infarto, estava um tanto sequelado e mijava-se pernas abaixo três vezes ao dia. Passou-se uma semana. Passaram-se duas, três, quatro, cinco... Passaram-se semanas o suficiente para fazê-lo desistir de contá-las.

Tentou se acostumar ao admirável mundo novo. Tentou adaptar-se, tal qual um camaleão, às cores do novo cenário. Não conseguiu. Não era o mundo dele. Não era o cenário dele. Estava conformado, isso sim. A vida impôs-lhe este inelutável destino. Trapaceiro destino.

Seus dias resumiam-se a acordar, tomar uma caneca de café com leite pela manhã, almoçar e jantar. Entre as refeições, claro, um bom banho, que ele conseguia tomar sozinho, e aquele sofá. Não variava. Não pegava sol. Não utilizava outra poltrona, outro espaço daquele asilo. Somente aquele sofá. De tal forma aquele lugar tornou-se dele, que nenhum dos outros velhos sequer se atrevia a sentar ali.

Passava os dias pensando. Escorava a cabeça sobre o braço direito, que por sua vez se postava sobre o braço direito do sofá. Não fazia muito sentido o que vivia. Seus pensamentos eram, ao mesmo tempo, desordenados e claros. Passava em sua cabeça o filme de seus setenta anos de vida. Seus amados pais. A escola, os amigos, a primeira professora. A juventude, as paixões, os amores. O casamento. Ah, como ele amava aquela moça! Com ela, passara os momentos mais belos e vigorosos de sua vida. Infelizmente, ou felizmente, hoje ela descansava, mais em paz do que ele. Com ela, teve sua linda filha. E como se dedicou à sua princesinha aquele homem!

Lembrava-se das trocas atrapalhadas de fraldas. Pensava nas vezes em que abraçava a mocinha, em que lhe contava historinhas para dormir, nas caretas que arrancavam gostosas gargalhadas de sua preciosidade, obra mais amada e bela. Lembrava do resplandecer da mulher que ele havia criado. Mulher madura, bem criada, bem sucedida, que agora estava em algum lugar deste mundo enorme com seu marido. Aquele velho entendia o ciclo, não nutria mágoa pelo esquecimento que lhe foi impingido. Sentia, vez por outra, um aperto no peito, uma inconformidade com sua própria velhice. Era bem provável que hoje sua princesinha, se ainda lembrasse dele, lembrasse com nojo das rugas, da saliva que lhe molhava irritantemente o rosto. Tornar-se um incômodo era, para ele, um incômodo enorme.

Queria ele estar mais jovem, mais forte. Queria poder orgulhar a filha mais uma vez. Queria o abraço verdadeiro da meninota cujas fraldas trocava com tanta abnegação. Queria ouvir, uma vez mais que fosse, palavras direcionadas a ele. Hoje em dia, apenas ouvia "acorde!", "hora do café!", "hora do almoço!", "hora de dormir!". Ninguém perguntava para o velho como ele se sentia, se estava bem, se estava feliz. Nem visitas, nem cartas, nada.

Esta rotina se repetiu de forma absoluta por mais alguns anos. Ele estava bastante adoentado e enfraquecido, mal conseguia comer. Até que um dia, uma das enfermeiras do local, toda sorridente, veio lhe trazer boas novas. Sua filha, sua princesinha, ligou avisando que estaria na cidade durante uma semana, e passaria lá para vê-lo no domingo. Os olhos do velho, costumeiramente opacos durante aqueles anos no sofá, brilharam com o brilho dos olhos de uma criança diante do homem do algodão doce. Não conseguiu falar. Nem precisava.

Chegado o grande dia, o velho mudou totalmente sua rotina. Levantou-se cedo, tomou um café reforçado. Banhou-se com gosto, perfumou-se até em exagero. Preparou todos os detalhes ao seu alcance, vestiu a melhor roupa, fez a barba milimetricamente. Sentou-se no velho sofá. Agora, tudo era questão de esperar. Sua filhota havia marcado a chegada para as 16 horas.

Eram 16:10, e ele já mostrava certa ansiedade, inquietação. Foi quando tocou a campainha. Era ela. Sua filha. Estava linda. Ela abraçou o velho com um tanto de distância, ao tempo em que ele a abraçava, lacrimejando, e tentava babar-lhe o rosto esquivo com um sonoro beijo. Ela perguntou se estava tudo bem com ele, disse que com ela também estava, e que seu marido a esperava no carro, do lado de fora, e por isso não poderia demorar-se. O velho, subestimando tal aviso, pegou-a pela mão, e, chorando, começou a falar o que sentia, das saudades, das lembranças da infância da filhota, quando, então, tocou o celular dela. O marido a estava apressando, tinham um jantar à noite. Então, ela, a princesinha, interrompeu o velho, e desejou tudo de bom, afirmando que tinha de ir embora por causa de um compromisso importante. As palavras e o choro, ficaram guardados na garganta do velho.

Lá se ia, depois de menos de dez minutos, a princesinha, aquela das fraldas, dos abraços, das historinhas de dormir. Sequer olhou para trás, altiva e certa quanto aos rumos de sua vida, e da pressa imposta pelo tempo e pelas prioridades de sua existência. Deixava ali, sozinho e reticente, o velho sentado no sofá, com a cabeça escorada no braço direito apoiado no braço do sofá. Pela última vez.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Futuro previsível

Espantosas coincidências me desafiam.
Que fique o que de bom aconteceu, e que isso melhore.
Centímetros podem ser quilômetros, você bem sabe.
Angústias e expectativas dobradas.

Pode ser mais uma brincadeira de mau gosto.
As lembranças doces falam mais alto do que as experiências amargas.
Como posso contrariar as minhas lógicas irracionais?
Não me diga o que pensar, o que sentir.

Permito-me sentir nojo daquelas fotos.
Nelas eu vejo o tanto de tempo e de dignidade que você me tomou.
Mas a culpa é minha, eu sei.
Ainda não me acostumei à frieza humana.

Vi os porcos comendo tudo o que te dei.
Ainda bem que você achou alguma utilidade.
Tome cuidado para não sujar os pés.
Desfile de mãos dadas e esfregue na minha cara.

Toda a diversão anterior não te satisfaz.
Sua sensação de poder se configura às minhas custas.
Bloqueie minhas novidades, mantenha-me refém!
Faça-me perder mais tempo e sono.

Você já tomou a vacina contra a minha doença.
É bom não dar margens aos sonhos alheios.
Nada mudou, nada mudará.
Seguiremos monótonos como uma lagoa em dia primaveril.

Sei o lixo que vem por aí para me soterrar, mas não consigo reagir.
A casca da ferida já foi arrancada.
Tentarei disfarçar a humilhação.
Você adora me mostrar a minha insignificância.

domingo, 15 de agosto de 2010

Receios e vontades

De que forma poderíamos tornar os nossos receios diferentes?
Movimentos cuidadosos, palavras calculadas.
Não há porque ser como um dia já foi, por mais que quiséssemos.
Estamos em meio a movimentos mais fortes e inevitáveis.

Vontades não podem deixar de sê-lo.
Mas é bem verdade que temos que aprender com os fatos.
Você pode lamentar, mas o tempo forma cascas sobre os nossos sentimentos.
Temos, então, de conformar tudo aos novos padrões.

Coloco uma tampa sobre o copo, mesmo que esteja cheio.
Isso me dá a certeza de que não haverá transbordamento.
Mesmo que nossas pernas entrelaçadas e o gosto de tua língua ainda me perturbem, permanecerei silencioso.
Ainda que o acaso trate de nos aproximar, apenas esperarei pelo nada que você tem a oferecer.

Se um dia não tive valor, seria agora que sua ideia mudaria?
Se o tanto que rastejei de nada serviu, seria agora que você iria querer me fazer feliz?
Duvido de suas palavras, espero que você me ofereça provas.
Ainda que você me tire o sono, vou fingir que tudo está bem, e que não preciso de suas mãos.

sábado, 14 de agosto de 2010

Blasé

Rumores na rua. Eu, debaixo dos edredons, não consigo pegar no sono. São as badernas cotidianas. Nada demais. Um monte de jovens imbecis e alienados discutindo alguma idiotice, do tipo "quem pega quem". Deve ser isso. Mantenho-me insone, mas tranquilo.

Vão passando as horas, tento pensar em qualquer coisa, mas, de fato, o sono não vem. Me viro a cada minuto na cama. Tampo o rosto com as cobertas. Será que este bando não tem nada de mais útil para fazer? Tipo, dormir?

De feito em feito, bobagem em bobagem, para ver quem é mais macho, eles vão empilhando palavras de ordem, meio em tom de brincadeira, meio em tom sério. Nunca se sabe o que estes sujeitos pensam.
A discussão parece dar uma esquentada. De repente, barulho de passos em corrida, e "pá, pá, pá, pá!". Sei, sou péssimo com onomatopeias. Mas, traduzindo, eram tiros. Secos. Definitivos. Seguiu-se o silêncio. Sepulcral.

Finalmente, posso dormir em paz.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Espera

Incongruência entre discurso e prática.
Somos mercadorias que compram e se vendem para outras mercadorias.
É muito mais racional lidar com a realidade do que criar desculpas.
Os caminhos estão traçados.

Palavras soam muito bonitas, enquanto as práticas te desmentem.
Vomite logo, me esmague logo, faça o que tem vontade.
Não é a primeira nem a última vez.
Estamos fadados à mediocridade das aparências.

Peço desculpas pelo dia em que imaginei que poderia ser alguém.
Seria de se suspeitar que o meu destino seria tacanho e repetitivo.
Estupidamente, podem se repetir as esperanças.
Não passam de mentiras e deboches de minha cara suja de lama.

Ria um pouco mais, torne-me mais ridículo.
Todo o cuidado com o tempo é desnecessário quando somos seres anacrônicos.
Eu deveria me violentar por você?
Por mais que eu me corrija, continuarei não sendo o que você espera.

Sinto que só devo esperar.
Talvez eu esteja errado, e como seria bom estar errado!
Mas o roteiro já está escrito, e sei que passarei deitado, putrefando, esperando que se lembre de mim.
Estou cansado, mas insisto em querer amar, mesmo me machucando a todo momento.

Talvez eu deva deitar e dormir neste ringue, esquecer a maldita contagem.
Já fui suficientemente massacrado para saber que devo me entregar ao colo da tristeza.
Acho que não existe a hora da estrela.
Se existe, o relógio quebrou.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Roth, meu malvado favorito

A vitória maravilhosa do Inter no México, contra o Chivas, tem vários personagens. A reação impressionante (talvez até surpreendente pela rapidez e contundência) do colorado no pós-Copa, também. Podemos falar na estrela de Giuliano, na personalidade de D'alessandro, na segurança de Bolívar, na raça de Guiñazu, na qualidade de Sandro... Mas tem um personagem que se destaca fulgurantemente nesta retomada que deixa o Internacional muito, mas muito perto mesmo, do Bi-campeonato da Libertadores da América: Celso Juarez Roth.

Quando me disseram, num final de tarde de sábado, se não me engano, que a direção anunciou Roth como o treinador da reta final colorada na Libertadores, pensei que era brincadeira. De mau gosto. Não só pela falta de títulos, mas também pela empáfia que certas vezes Celso Roth demonstrou em sua última passagem pelo Grêmio, eu confesso que não queria ele no Inter, muito menos num momento tão decisivo. Assumo, contudo, que estava absolutamente enganado. A contratação de Roth para o comando técnico do Inter teve precisão milimétrica. É só vermos a metamorfose espetacular que o futebol da equipe apresentou na comparação entre antes e depois da Copa do Mundo. Vieram bons reforços? Sim, vieram. Mas as mudanças vão muito além disso.

Comecemos pelas individualidades. Sandro, que sob o comando de Fossati parecia displicente, perdido, com a cabeça no Tottenham, voltou a jogar a enormidade que sabemos que joga. Bolívar, novo capitão, tem jogado demais, e está atravessando a melhor fase de sua carreira ao lado de um lento, mais ainda assim renovado, Índio. Kléber está apoiando como nunca! Guiñazu encontrou seu espaço no campo, está correndo tanto quanto antes, mas correndo certo. Taison renasceu, voltou a ser o jogador rápido e perigoso que sabemos que pode ser. E Alecsandro finalmente tem feito o que sabe fazer: ser centroavante, sem surtos de Alecbrahimovic (o seu alter-ego indesejável), sem invenções, sem toquezinhos estúpidos e infrutíferos no meio de campo.

O espantoso crescimento destas individualidades tem relação direta com a maneira coletiva de o Inter jogar. O time amedrontado, confuso, indefinido, retrancado de Fossati, deu lugar a um time marcador em todos os setores, aplicado, com organicidade tática, jogadores que sabem perfeitamente o que devem fazer, e que jamais abdica de agredir o adversário. O Inter, nas mãos de Celso Roth, tornou-se um time audacioso, com espírito grande, que faz valer o peso da camisa.

Celso Juarez Roth está muito perto de sua redenção como treinador de futebol. Já foi motivo de chacotas de todo o tipo, inclusive de nossa torcida. Agora, está a um passinho de um título da América, título que os badalados Vanderlei Luxemburgo, Mano Menezes e Muricy Ramalho, por exemplo, não possuem. E merece. Merece demais. Celso Roth é um cara extremamente trabalhador. É sério, dedicado, faz o máximo que pode pelos times que treina, trabalha os mínimos detalhes táticos e técnicos. Faltava o grande título porque, de fato, sempre faltou-lhe material humano capaz de transformar estes trabalhos excelentes em resultados mais concretos. Agora, ele tem. E está aproveitando muitíssimo bem a oportunidade dada pelo Inter.

Muito obrigado, Roth. Levaste o Inter ao Mundial Interclubes. Estás perto demais de nos levar ao Bi da América. Continues trabalhando, talvez mais do que nunca, nestes dias até a decisão. Não deixes a euforia demasiada tomar conta do ambiente. Há, ainda, longos 90 minutos para desentalar, de uma vez por todas, todos os gritos de tua garganta, e, se necessário, chorar todas as lágrimas típicas dos vencedores dignos. Tu és, Roth, um sujeito que honra cada letra da palavra d-i-g-n-i-d-a-d-e.

Desde já, peço sinceras desculpas por cada contestação, cada xingamento, cada deboche de minha parte, mesmo que, com tuas atitudes e palavras à época, os tenha merecido. Senti muita raiva de ti nas vezes em que, talvez contaminado pelo ambiente arrogante da Azenha, menosprezaste alguns feitos do Inter, quando dele perdias pelo simples fato de o teu time ser pior. Mas são águas passadas. Hoje, és meu malvado favorito. Com teu trabalho e tua competência, estás dando uma imensa alegria à nação colorada, que, claro, precisa ser complementada na próxima quarta-feira. De qualquer forma, tenhas a certeza de que, aconteça o que acontecer, passei a te respeitar em absoluto, em todos os sentidos, como pessoa, como sujeito de caráter, como profissional. Valeu, Roth. De coração.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Bobeiras

Suspiro. Cabeça encostada na janela. As coisas se renovam sem se renovar. Buscamos o direito de seguir. Malbenditos pensamentos. Malbenditas sensações. Malbenditas ilusões.

Às vezes é impossível fugir. Cada delírio absurdo faz com que esta loucura tenha sentido. A proteção é fundamental. Fingir força quando estamos fracos pode ser a solução.

Tentamos não errar, e desenhar tudo milimetricamente. Equívoco total. É errando que encontramos as nossas respostas e identificamos nossa essência.

Entretanto, vez por outra, poderíamos nos dar o luxo de acertar. Sair da rotina parece interessante. Alguma notícia boa e real serviria para abençoar nossos passos, nos dar maior segurança para saltar deliciosamente do abismo.

Por que insistimos em tentar? Qual a força que nos faz, mais uma vez, pensar que podemos sorrir? Que tipo de irracionalidade nos permite fazer as bobagens típicas daqueles que estão contra a rigidez de um mundo frio e sem graça?

Os arrepios insistentes não dizem nada. Não há lógica nenhuma nos encadeamentos que nos trouxeram até aqui. Somos reféns do acaso. E, por acaso, poderíamos amar com liberdade, sendo loucos e felizes, como sempre quisemos ser?

Larissa Riquelme e a imbecilização da sociedade

No início até achei legalzinho o fenômeno Larissa Riquelme, principalmente durante a Copa do Mundo. De fato, ela é muito bonita, bem gostosinha. Mas confesso que encheu o saco. Ela já mostrou tanto, e de forma tão vulgar, que, por exemplo, não me sentiria especialmente incentivado a ver a futura Playboy com fotos dela.

Na base de peitos e bunda, a modelo paraguaia virou uma celebridade absurdamente visada. Não que isto seja novidade por estas bandas. Mas é incômodo ao extremo quando percebemos que hoje em dia, nesta sociedade das personalidades descartáveis, aspectos estéticos por si só conferem o valor às pessoas.

Quem, afinal, sabe o que realmente Larissa Riquelme pensa? Ela tem posição em relação ao mundo que a rodeia? O que ela acha de fazer sucesso na base de atributos com prazo de validade pré-estabelecido? Ela realmente acha legal dar entrevistas sentada no colo de repórteres babões, e deixá-los apalpar seus seios? Não sabemos. Talvez nunca venhamos a saber. Só se num futuro não tão distante ela aparecer num desses programas típicos da Rede TV, estilo "Onde foi parar fulana?", dando entrevistas para a Sônia Abrão e se queixando do abandono da mídia e do público.

Infelizmente, uma sociedade que baseia todos os seus valores em padrões estéticos está fadada ao progressivo retardo mental de seus indivíduos, e à substituição permanente (e, nesse caso, necessária e inevitável) de ícones que duram tanto quanto um pote de Danoninho na mão de uma criança de cinco anos de idade.

De fato, criou-se uma poderosa indústria de "esvaziamento de cérebros" (embora sempre fique a questão: como esvaziar cérebros já vazios?), que destina-se a propagar, tanto quanto possível, padrões inalcançáveis, necessidades estéticas permanentes que levam os sujeitos a consumirem mais, mais, mais, e a estarem cada vez mais insatisfeitos, e comprarem, assim, mais e mais e mais ainda.

Trata-se de um processo perverso de retro-alimentação que torna os indivíduos constantemente insatisfeitos, distanciando-se das prioridades básicas da alma e do espírito para entrar na competição de qual embalagem vazia é mais bonita.

No meio dessa maluquice frenética, tudo o que se nota é que, a despeito das mais ricas ferramentas de conhecimento e comunicação as quais estão cada vez mais acessíveis, as pessoas, em sua maioria, estão se tornando seres estúpidos e superficiais, rasos em todos os sentidos, pobres em auto-estima, vulneráveis de forma inelutável aos efeitos do tempo, decidido e impiedoso. Os indivíduos, de forma geral, parecem ter perdido qualquer força para superar os padrões impostos, por meios alternativos de sistematização do mundo à sua volta, seus valores e crenças. É uma pena.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A MTV e seu desserviço à democracia brasileira

Ao acompanhar algumas vinhetas de uma campanha que em tese destina-se à conscientização eleitoral dos jovens por parte da MTV, fiquei absolutamente estupefato com algumas formas propagadas de se pensar política. Minto: não é de hoje que a MTV só serve para despolitizar os jovens brasileiros, então isso não chega a ser exatamente algo que surpreenda. Mesmo assim, me surpreende o paradoxo discursivo de uma campanha que se intitula "Tome conta do Brasil", em uma televisão que apregoa a inclusão política de nossa juventude.

Numa dessas vinhetas, o inteligentíssimo Bento Ribeiro (quem mesmo?) diz que tudo é um lixo, as leis são uma porcaria, e é necessário um cara que vá lá e mude tudo. Peraí, deixa eu ver se entendi: a emissora do Grupo Abril quer convencer os jovens a participar e fiscalizar a política dizendo que é tudo uma porcaria e só um líder messiânico poderia reverter a situação de completo caos? É isso?

Suspeito que a emissora do Grupo Abril não esteja fazendo mais do que reproduzir o status quo. Os principais traços da cultura política brasileira, em termos bem generalizantes e até grosseiros, são a alienação, o cinismo político, o personalismo e o clientelismo. Ora bolas, há discurso mais alienante, distanciador e personalista do que o "é tudo uma porcaria, ninguém presta e precisamos de um líder que resolva tudo"? A MTV, com seu discurso anti-político, só faz reproduzir a alienação e o desprezo dos jovens pela política. Traveste-se de moderna e revolucionária para reproduzir um ideário imposto pelas elites do país para manter a população longe dos centros de poder.

A MTV, do notoriamente direitista Grupo Abril (o mesmo da absolutamente imparcial e credibilizada revista Veja), presta, isso sim, um imenso desserviço à democracia brasileira. Há graves problemas no nosso panorama político? Não restam dúvidas de que sim. Mas não é se afastando e se desinteressando que os cidadãos de nosso país poderão mudar isso. Há, pelo contrário, a necessidade de se informar cada vez mais, compreender com maior profundidade os nossos processos políticos, aumentar o interesse e a consciência de patrimônio público, expandir o domínio da população sobre as esferas de governo, e aumentar a capacidade dos indivíduos de se unir em prol de um bem comum estabelecido consensual e democraticamente entre eles.

Muito da podridão institucional da democracia brasileira se deve exatamente ao afastamento e alienação do cidadão comum em relação à política. Tal afastamento cria o terreno ideal para a germinação de oportunistas que passam a se encontrar permanentemente nos ambientes decisórios, utilizando o povo como massa de manobra, estabelecendo relações de patrão-cliente, tomando as instituições públicas com finalidades de interesse pessoal. Então, logicamente, não é afastando ainda mais o cidadão comum da arena política que o estado atual das coisas vai mudar.

Mais do que isso, há que se salientar que existem, sim, mesmo nestes ambientes inóspitos às demandas da maioria, sujeitos sérios, trabalhadores, que acreditam num país melhor, de verdade. Quem não parece acreditar num país melhor, ou mais claramente dizendo, quem parece não querer um país melhor, são os jovens de mente autoritária e conservadora da MTV Brasil, inculcando nas mentes da nossa juventude, que está em fase de construção (ou não), de uma identidade política, que a participação política é uma tremenda bobagem, e o que realmente importa é votar no prêmio de melhor videoclipe do ano do VMB.

domingo, 8 de agosto de 2010

Vôlei feminino

Estou aqui vendo um jogaço de... vôlei feminino. Ah, as meninas do Brasil, como não torcer por elas? O vôlei feminino, principalmente quando as seleções do Brasil e da Itália estão na quadra, pode ser tão hipnótico para nós, homens, quanto uma peleia decisiva de nosso time de futebol favorito. Por sinal, o vôlei das moças é bem melhor que o vôlei masculino, com aquele bando de barbados peludos.

O vôlei masculino não tem o que de principal apreciamos na modalidade feminina: as mulheres, ora bolas! Esses shortinhos das brasileiras e das italianas são algo fantástico. Tivesse meus quinze anos, seriam o pretexto perfeito para, mais do que simplesmente ver a partida, também me deleitar a cada slow motion sob os edredons.

Há, também, o vôlei de praia feminino. O problema é que, apesar dos shorts um tanto mais, digamos, agressivos, o cardápio é bem menos variado. Jogadora "talentosa" mesmo, só me lembro da May, da multicampeã dupla norte-americana Walsh e May. Que delicinha!

Mas, voltando ao vôlei de quadra feminino, além dos replays cheios de zoom, meus momentos prediletos são as comemorações, quando as jogadoras fazem aquela rodinha e a câmera fecha em cima delas. São os momentos em que o torcedor que há dentro de mim mais aflora. Torço pelo melhor posicionamento tático-estratégico das jogadoras e também pelo câmera e pelo diretor de imagens. É um grande trabalho de equipe. Mais pra cá, Jacque! Sai pra lá, Fabiana! Um pouquinho mais à direita, Scheilla! Desce mais essa câmera, fdp!

Apesar de tudo isso, façamos, nós, homens, cá entre nós, um acordo tácito, em nome da paz e da boa relação com as mulheres que nos rodeiam: eu nunca escrevi isso e vocês nunca leram isso que escrevi. Um pouco de cinismo é pré-requisito da civilização. Afinal, não há nada de estranho em ficarmos vidrados na frente da tv vendo um decisivíssimo jogo de primeira fase do Grand Prix de vôlei feminino. Somos apenas torcedores, apaixonados por esportes. Imagina lá se iríamos nos prestar a ver esses jogos por causa dos shortinhos, perninhas bem torneadas e bundinhas redondas como se houvessem sido desenhadas com um compasso! Prestamos atenção apenas aos saques, manchetes, cortadas e bloqueios. É a técnica do jogo que nos interessa. Por isso, pra frente, meninas do Brasil! Estaremos com vocês, na frente da tv, até o último ponto do último jogo!

sábado, 7 de agosto de 2010

Incertezas

Nunca sei se o que eu faço é suficientemente certo. Sinto-me cheio de limitações. Fico restrito ao óbvio conservador. Ou seria este óbvio tão revolucionário que contraria a lógica da falta de lógica? Não sei. Apenas sei que meus atos são seguidos do remorso de quem sabe que mais deveria ser feito, sem, no entanto, saber como.

Aí, parece que as coisas todas desmoronam sobre a minha cabeça. Não há tempo de se proteger. Ficam somente a incerteza e a angústia, a espera da degola. Me pergunto sobre meus erros, tento localizá-los. Não consigo. Sou péssimo em diagnósticos.

Talvez um café com leite e algumas horas de sono me ajudem. Preciso clarear as ideias. Meus pensamentos mais parecem uma massa confusa, anárquica. Onde será que vou parar?

Já aprendi que as incertezas são parte inerente à vida. Mas precisavam ser tantas e tão profundas? Quero sempre fazer o melhor. Mas o meu melhor nunca alcança um estágio desejável ou mesmo aceitável.

Apenas espero que, mesmo aos trancos e barrancos, tudo dê certo.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Obrigado, Inter!

Não há como descrever com precisão o que aconteceu ontem no Morumbi. O jogo foi espetacular. Cada ato foi carregado de dramaticidade. E, depois da batalha, o Internacional é finalista da Copa Libertadores da América. Está no Mundial Fifa.

Parece um sonho, uma grande doideira. Mas é real. O Inter foi tudo o que se esperava dele. Foi valente. Brigou por todas as bolas. Jogou com alma. Foi um gigante, mesmo nos piores e mais sufocantes momentos. Exigiu o respeito do adversário. Quando seu ótimo goleiro falhou, não baixou a guarda. Quando empatou e logo depois levou outro golpe, levantou, mais forte e imponente do que nunca. Com um a menos, trouxe uma vaga deliciosa, peleando à gaúcha. Que derrota absurdamente saborosa!

Quem não é colorado, JAMAIS saberá o que é isso. O Internacional não precisa inventar mitos, florear capítulos constrangedores de sua história para ter a grandeza que tem. A realidade basta. E ela é lindíssima, tem tonalidades de sonho para o povo alvi-rubro.

O Sport Club Internacional transcende o futebol dos reles imortais, exatamente porque é o clube do povo, não destila a arrogância típica dos pequenos que precisam se auto-afirmar a todo momento, e busca na identidade de uma torcida humilde e batalhadora a garra para superar as mais terríveis adversidades. Sabe que não é invencível, mas sabe igualmente que quando põe a alma colorada em campo, como ontem no Morumbi, adquire uma força que torna praticamente impossível derrubá-lo.

Semana que vem tem mais. É a final da Libertadores! Respeitaremos o Chivas, porque é da índole dos grandes guerreiros respeitar os adversários e seu valor. Mas, com todo o respeito que merecem os mexicanos, a paixão deste povo vermelho, de todas as raças, de todos os credos, o amor colorado, merece mais esta recompensa. Juntos, nós seremos Bicampeões da América. Falta pouco. Pouquíssimo. Estejamos, pois, juntos numa mesma energia, numa mesma pulsação, nestes dois jogos derradeiros.

Obrigado por existir, Inter! Eu te amo, sempre te amarei, aconteça o que acontecer. Tu, Sport Club Internacional, enches a nação colorada de orgulho.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Carta aberta aos jogadores do Sport Club Internacional

Caros jogadores do Sport Club Internacional,

Logo mais, no gramado do Morumbi, vocês estarão iniciando uma batalha que vale muito, vale a própria vida. Com a camisa vermelha de um clube gigante, vocês jogarão por uma vaga na final da Libertadores da América. Mais do que isso: vocês jogarão por uma vaga no Mundial Interclubes da Fifa, competição que neste velho Rio Grande de guerra e de paz, somente o Internacional pode se gabar de ter disputado, e ganho.

Não é um jogo normal. Para o fortíssimo adversário, também não é. Por isso, não se enganem. Os jogadores do outro lado também querem muito esta classificação. Chegarão ao limite humano. Por isso, vocês, caríssimos guerreiros alvi-rubros, têm que superar a maior das vontades humanas. Vocês terão de ser sobre-humanos. E podem.

Não pensem que os 60 mil são-paulinos no estádio são algo capaz de intimidá-los. Esta camiseta vermelha, gloriosa, carrega uma legião de seguidores apaixonados. Seguidores que já sorriram muito. Seguidores que já choraram muito. Mas, acima de tudo, seguidores que jamais deixaram de amar essa camiseta e de seguir, em todos os cantos, nas ruins e nas boas, o Sport Club Internacional.

A camiseta vermelha que vocês vestem já foi vestida por Figueroa, por Falcão, por Tesourinha, por Manga, por Taffarel, por Clemer, por Gamarra, até pelo hoje atacante adversário, capitão planeta inesquecível, mas para o qual temos de ranger os dentes até o último segundo da partida. Todos estes monstros sagrados vestiram o manto com orgulho, orgulho de defender um clube que transcende a normalidade.

Vocês são, hoje, privilegiados. Representam a maior e mais inexplicável paixão, de um povo que só quer ter o direito de ser feliz, de gritar gol e cantar com a maior das alegrias "vamo, vamo Inter". Representam um clube que vergou gigantes mundo afora. Vocês têm a chance de escrever com suas letras mais um capítulo glorioso dessa história nesta Libertadores.

Pensem, a cada dividida, a cada dificuldade circunstancial, em cada colorado que está com vocês.

Pensem no cara que pega o ônibus lotado todos os dias às seis da manhã, e que deixou uma bandeira em vermelho e branco na janela, preparando o jogo da noite.

Pensem no gurizinho que vai para a escola de camisa vermelha, e no jogo de bola no recreio faz o gol sonhando em ser um de vocês.

Pensem no senhorzinho de oitenta anos que tanto já viveu, tantas façanhas deste clube já presenciou, e ainda hoje, cheio de fé, segue sentado no sofá com o radinho de pilha na orelha e torcendo e vibrando junto com a imaginação proporcionada por cada frase velozmente proferida pelo narrador.

Pensem nos homens e mulheres que talvez nem tenham um teto, ou algo para comer, mas ainda assim sentem-se felizes com cada gol, cada vitória colorada, que conferem o sentido de sua vida aos 90 minutos em que a camiseta vermelha se faz presente nos gramados deste planeta.

Pensem nos torcedores anônimos, para os quais vocês são super-heróis, com quem vocês falam todos os dias sem perceber, nas entrevistas, e para quem vocês jogam, e tanto querem que vocês vençam.

Pensem em suas mães, filhos, irmãos, pais, avós, que tanto lhes amam, e que tanto querem seu sucesso.

Sejam, acima de qualquer coisa, COLORADOS. Lutem, chutem, dividam, cabeceiem, corram mais do que as pernas e a razão permitam. Não desistam nunca, de nenhuma jogada, nenhuma bola. Vocês podem. Nós, torcedores, sabemos disso. Levem no peito os milhões que estão com vocês do lado de fora do gramado. É essa força, essa energia, essa fé, que farão a diferença.

Honrem este momento. Façam o seu melhor. Corpo, alma, pulmões, coração, que fique tudo no gramado do Morumbi. Mas não deixem de se entregar até a última gota de suor nestes 90 minutos. Por vocês. Por nós. Por este clube inigualável.

A vontade de sorrir

Vejo daqui que você está tentando preencher sua história de novo, meu amigo. Não entendo por que você permanece caminhando na mesma estrada. Mas compreendo. Os homens que seguem seu coração sempre têm algo a resgatar.

Você desembolsa suas últimas esperanças. Pela milésima vez. Quando lhe disseram que sua valentia e perseverança eram desprezíveis, você não acreditou. Quando pisaram e esmagaram seu coração, ele insistiu em seguir pulsando vigorosamente.

Disfarce este desajeito bobo. A viagem será longa e árdua. Talvez você volte de lá ferido. Mais uma vez. Infelizmente, é o mais provável. Não se proiba, entretanto, de lutar. Sue e sangre até a última gota. Vá em frente. Derrube as barreiras. Mantenha a capacidade de amar, pois esta é a única riqueza que ainda possui.

Ah, meu velho amigo, sei o quanto você sempre tenta acertar. Gostaria de te abraçar e poder te garantir que agora tudo fará sentido. Mas, por honestidade, não posso fazer nada além de torcer para que dê certo. Sei o quanto você merece. Conheço melhor do que ninguém a sua vontade de secar as lágrimas e sorrir da maneira mais doce que a existência humana permite.

Desafortunadamente, o cenário é muito incerto e instável. Mas, por favor, não desista, mesmo que você chore de novo. E se por acaso isso der certo, se houver um flanco, uma flor neste terreno árido, não deixe que lhe escape a oportunidade. Agradeça a Deus, a seu anjo, a todos os santos, e sinta cada segundo da forma mais intensa. Aprecie o que se passou com olhos tolerantes. Aproveite o agora. E seja o melhor que puder, em todos os dias que lhe restarem.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Circo (dos horrores)

O episódio da webcam com os Meninos da Vila B, Felipe, Madson e Zé Eduardo, surge como efeito que, pelo menos para mim, já era esperado com o verdadeiro circo que se tornou o Santos Futebol Clube nos últimos meses.

Sob o comando de jovens bons jogadores e Robinho, o Santos apresentou no primeiro semestre um futebol plástico, ofensivamente poderoso e defensivamente horroroso. A imprensa, claro, só considerou a primeira parte da história, e criou uma aura de super-time, futebol "santástico", e mais um monte de blá blá blás insuportáveis. Não deu outra. Deu merda. Até os jogadores do time reserva santista, os Meninos da Vila B, se acham o supra-sumo do futebol mundial.

Chamado de "mão de alface" por um torcedor, o goleiro Felipe, cheio de caráter e bons valores, disse algo como "o que eu gasto em ração para os meus cachorros é o que você ganha por mês". Sensacional. Ele deve agradecer por viver numa sociedade extremamente desigual em que o trabalhador médio tem que suar feito um maluco para ganhar o pão de cada dia enquanto ele, um bunda mole que não joga nada, e que parece ter a cultura de um dente de alho, ganha um dinheiro considerável e absolutamente desproporcional, com o qual a grande maioria da população deste país sequer pode sonhar.

O senhor Felipe mão de alface deve saber que o salário que ele ganha ele tem que agradecer, e muito, ao torcedor santista, que compra ingressos, se associa, compra camiseta do clube e dá audiência na televisão, torcedor este que ele desrespeitou de forma absurda em sua declaração infeliz.

Não bastando isso, Robinho entrou em contato, sensatamente, pedindo, em nome dele, Neymar, Ganso e o resto do grupo, para os debilóides desligarem a câmera. Quando Robinho, Neymar e Ganso são os porta-vozes do bom senso em qualquer caso que seja, ora bolas, é por que a coisa está mais feia que a Susan Boyle fantasiada de Carmen Miranda. Zé Eduardo, então, do alto de sua maturidade, respondeu a Robinho em tom agressivo, afirmando que ninguém sentiria falta do homem das pedaladas quando ele for embora do clube.

Essa baixaria toda tem um centro que me parece bem claro: o papel frequentemente nocivo que a imprensa tem ao se meter no futebol e tentar transformá-lo num imenso show business formado por grandes personalidades que, na verdade, em sua esmagadora maioria, não sabe fazer nada mais do que chutar uma bola (e que muitas vezes ainda o fazem pessimamente).

Esses caras só se acham desse jeito porque a imprensa e a opinião pública, impulsionada por esta imprensa, transformaram as referências técnicas de um nada mais do que bom time como o Santos atual em celebridades intocáveis, injustiçadas por não irem à Copa do Mundo, às quais devemos reverenciar pela beleza do futebol que jogam. Esta aura de confetes e pirotecnias respingou nos atletas do Santos B, que passaram a se considerar, tanto quanto Robinho, Ganso e Neymar, celebridades, símbolos da "alegria do nosso futebol moleque", quando não passam, utilizando uma expressão de meu pai, de uma bando de piás de merda.

Isso tudo já foi longe demais. Absolutamente lamentável. E que alguma lição seja tirada disso tudo, por parte dos torcedores e da nossa imprensa ufanista. Jogadores, treinadores e dirigentes passam. Torcedores ficam. E são eles, os torcedores, as verdadeiras estrelas do futebol.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Escárnio

Você já reparou nos sorrisos de escárnio ao seu redor? Estamos vivendo uma nova era que não nos pertence. Estamos, mas não somos. Nossa essência contraria os dogmas vigentes. No entanto, é necessário sobreviver. Só por isso é que ainda sorrimos. Faz parte do jogo de cena. O sorriso (nos) vende.

As mentes vazias estão dominando. Elas disfarçam incrivelmente bem a sua mediocridade. Tudo é uma questão de saber vender seu peixe. Eis a falácia do livre mercado. Eis a falácia da liberdade em si mesma.

Estamos perfeitamente organizados. Existe algo mais caótico do que isso? Violentamos nossos desejos em nome da adequação. Alguém nos inculcou de que precisamos pertencer ao clube. Já está suficientemente óbvio que estamos marcados a ferro e fogo pelo nosso dono.

Escolhemos racionalmente sermos irracionais. Estas regras são a nossa maldição imprescindível! Que felicidade é esta, que somos incapazes de alcançar? E o que devemos fazer se a distância entre nossos hálitos se tornar insignificante? Seguiremos as regras ou seremos felizes?

Enquanto o hoje continuar sendo um filho bastardo de nossos calendários, permaneceremos, assim, tingindo sorrisos que não significam nada, jogando um jogo que sempre perdemos em nome de uma ordem comum criada por quem nos odeia. O amanhã, filho pródigo, é um tremendo de um cínico mentiroso. E o ontem, filho mais velho, reconhecido mas fracassado, já não tem moral para dar lição nenhuma. Procuremos pelo hoje, então. Ele deve estar largado, dormindo em algum canto desta cidade imensa.

domingo, 1 de agosto de 2010

Depois das caipirinhas

Estômago se corrói.
É dor aguda.
Tudo tem um preço.
As caipirinhas também.

Visito o banheiro.
Amigo e inimigo, vaso sanitário, meu fígado.
Diálogo desagradável.
Quero passar tudo adiante.

Tempo que não passa, olhos vermelhos, corrida.
Bile Jean, Bile Idol.
Prometo só por hoje: não faço mais isso.
Logo, logo, farei de novo.

Essa é a artimanha do sem-vergonha.
São os desníveis e arrependimentos que fazem isso ter graça.
Agora, estou no caixa acertando a conta.
Pena que não tem cartão de crédito nem parcelamento.