terça-feira, 20 de julho de 2010

Sobre o direito à morte

Leio no Globo.com que um britânico chamado Tony Nicklinson, depois de ter um derrame, ficar paralítico, sem poder falar e vegetando, está lutando na justiça para conferir à sua esposa o direito de realizar uma espécie de eutanásia (http://g1.globo.com/mundo/noticia/2010/07/britanico-paralitico-busca-na-justica-direito-de-morrer.html). É uma situação delicada, não há dúvidas. Mas não deveria ser tanto. Tony está pedindo para morrer. Ele quer isso. Só não pode fazê-lo com suas próprias mãos.

O direito à vida é lindo na teoria. A esmagadora maioria das pessoas quer viver. Seja porque gosta da vida ou porque ainda tem alguma expectativa, utópica que seja, sobre a mesma. Em suma, o direito à vida deve ser protegido a quem quer viver, por um motivo ou por outro. O que não faz sentido é obrigar uma pessoa que não quer viver a viver.

Exemplo simples de como direito não pode ser transformado em obrigação. Enquanto cidadão brasileiro pleno eu tenho todo o direito, garantido por lei, de assistir a shows do Calypso. Beleza, é bom saber que eu posso ver um show do Calypso, se um dia eu passar a gostar da banda e tiver vontade de assisti-la. Mas eu não quero! Eu não gosto! O fato de eu ter direito a ver um show do Calypso não quer dizer que eu TENHA que ver um show do Calypso. Simples como descascar uma banana.

Com a vida é a mesma coisa. O direito à vida deve ser protegido à medida que presumamos que as pessoas, em geral, não têm vontade de morrer. Não tenho nenhuma restrição em relação a isso. Mas, repito: Tony Nicklinson quer morrer, ele não suporta mais a vida, que tornou-se um fardo insuportável. Por que ele deve passar por todo um trâmite complexo para isso? Não se poderia fazer algo mais simples, arranjar-se um modo de comprovar que ele autoriza e ratifica sua própria morte, e assim, deixá-lo descansar em paz?

Está difundida e confundida uma gama de valores controversos e incongruentes. A sociedade atual é hipócrita, e somente reconhece os valores convenientes para sua subsistência, quando assim o são. Onde estão os valores humanos quando milhões de pessoas passam fome enquanto outras faturam dinheiro que sequer conseguirão gastar em vida, à custa delas? Onde estão os valores humanos quando se espalha para pessoas que não podem ganhar dinheiro a falácia de que a vida foi feita para ganhar dinheiro? Onde estão os valores humanos quando se enfatizam as relações de interesses utilitários e o fanatismo pela superficialidade estética?

Na prática, não há valores sendo prezados. Somente quando se esbarra nesse tipo de burrocracia aé que os "nobres valores humanos" emergem. É a hipocrisia do valor da vida em si mesma. Mas, pergunto, cara-pálida: de que vida estamos falando mesmo?

Uma pessoa que opta por morrer só o faz porque considera a morte menos dolorosa do que a vida. Qual o problema nisso? A vida pode, sim, ser uma imensa porcaria. E as pessoas, podem, sim, ter o direito de morrer a hora que quiserem, desde que assim o queiram. Chegamos a um ponto em que nos imploram que não vivamos para que possamos continuar vivos. Não beba! Não fume! Viva 189 anos de sua vida sem fazer as coisas boas dela. Ainda bem que ainda não se achou nenhum problema em fazer sexo. Ou melhor, se achou, sim. Mas para isso serve a camisinha. Menos mau.

Um comentário:

cleuzavaleria disse...

è isso ai,bruno sociedade hipocrita,te amo,bj