sábado, 10 de julho de 2010

O gato

David e Maria formavam o casal mais conhecido daquela faculdade. Andavam para lá e para cá de mãos dadas, eram verdadeiramente unha e carne. O amor dos dois chamava a atenção, o carinho mútuo parecia muito forte. Eram feitos um para o outro, destilavam felicidade por todos os cantos.

De repente, Maria passou a comportar-se estranhamente. Parecia alheia ao mundo real. Andava sempre acompanhada por um gatinho, e parecia ser somente aquele felino a companhia desejada por ela. David estava desnorteado com a forma abrupta e inexplicável com que ela afastara-se dele. E Maria andava pelos corredores como um zumbi.

Ele não se conformava com aquela situação. Sentia-se profundamente perturbado com o que estava acontecendo. Os olhos de Maria, a cada dia que passava, estavam mais vidrados. E o gatinho, companheiro fiel e leal, sempre à frente de seus passos. Era muito estranho.

Vez por outra David, em atos de descalabro, pegava a garota pelo braço para perguntar o que estava ocorrendo com ela. As respostas eram sempre evasivas, e ela rapidamente se desvencilhava. Assim, foram se passando as semanas. Sem respostas. Como um imenso e inexplicável pesadelo.

Certo final de tarde, quando andava pelos corredores da faculdade, David deparou-se com aquele gato numa sala vazia. Da porta, ele observou o gato, que respondeu com um olhar absurdamente demoníaco. Ali estava o mal. Um tanto apavorado e perturbado com a cena, David saiu tomado de horrorosa sensação. Logo ali, no corredor vazio, vislumbrou Maria, tentou falar sobre o que havia visto, mas a moça apenas ridicularizou a situação, pediu que ele a deixasse em paz, e saiu correndo em disparada.

Passaram-se dois dias da semana, e Maria estranhamente deixara de aparecer naquela faculdade, não atendia o celular, e ninguém sabia dar notícias dela, nem seus próprios pais, quando atendiam o telefone residencial.

David, preocupado, voltou a circular por aquele corredor cheio de salas vazias, na esperança de encontrar Maria. Chovia muito, e a faculdade estava erma e inóspita, como nunca antes visto. Mesmo as luzes pareciam enfraquecidas, a atmosfera estava pesada, o silêncio era absoluto. O cenário não era nem um pouco convidativo.

Ele olhava sala por sala em busca de Maria, e, naquela sala em que encontrara o gato no outro dia, tornou a encontrá-lo. Desta vez, estava espatifado no chão. Os olhos, ainda diabólicos, saltados da face semi-destruída, junto àquele monte de patê misturado com pêlos, configuravam uma cena chocante.

Em desespero, David novamente viu Maria, que repentinamente aparecera, já dirigindo-se à saída do prédio. Era um alívio imenso. Correu para vê-la, entender a situação, perguntar se ela estava bem. De costas, ela não o via e parecia não ouvi-lo. Ela não respondia de forma alguma, e continuava a caminhar, com passos calmos e marcados. David pegou-a pelo braço, como da outra vez. Ela virou a cabeça muito rapidamente, e olhou-o com um rosto fantasmagórico, esbranquiçado, desfigurado, assustador. Estava com aquele olhar diabólico. Sorriu satanicamente, e miou. Disto, em fração de segundos, seguiram-se urros e escuridão total.

Um comentário:

Anônimo disse...

Duvidoso o paralelismo do texto... talvez para traçarmos tal ambiente fantástico seria inconveniente incluirmos um ser indefeso e inofensivo em tal contexto brutal. Tal combinação de elementos prejudica a imagem de quem nada tem a ver com o contexto incitando a crueldade gratuita.