sexta-feira, 23 de julho de 2010

No chão

É meio-dia. Estou caído no meio da rua. Fui atingido por um carro. Foi muito rápido. Do nada, estou no chão. Percebo o movimento ao meu redor. Não consigo me mexer. A vida é engraçada, mesmo. Curiosidade e desespero me cercam. Mas eu não sinto nada. Somente sinto que estou indo. E me vêm, num turbilhão, uma série de lembranças à cabeça. Muito rápidas, mas muito intensas e significativas.

O picolé de laranja na praça. O bolo de aniversário. A bola de futebol vermelha. Minha fantasia de Rambo. O espinafre com farinha da minha avó. O chocolate das dezenove horas que minha mãe sempre trazia do centro. A tevezinha preto e branco. Lá está o Silvio Santos e a musiquinha do Atroveran. O Deli-Crem na geladeira.

Lembro da escola. A primeira professora, e a segunda também. A excursão para o zoológico. A paulada na cabeça. Meus traumas. As paixonites de criança. Sempre havia uma. Os jogos de futebol na praça, logo depois do almoço. O Inter, meu amado Inter, quando não ganhava nada. As chacotas dos colegas gremistas, cheios de si. Jogadores péssimos, sofrimento, mas sentimento forte, cada vez mais. Perder me fazia amar ainda mais o colorado. Os álbuns de figurinhas. Os jogos de bafo, os tazos. O futebol de pedrinha no pátio do colégio.

A juventude, o álcool. Cerveja depois da aula. Sinuca, a linda bunda da minha colega de mini-saia, empinada sobre a mesa, com o taco na mão. Tentação do capeta. As festas, a falta de sentido. Os novos mundos. Os tempos em que eu acreditava no ser humano, e que o meu partido mudaria o mundo. A cachaça pura todas as tardes, complementada pelo vinho vagabundo suave à noite. Os beijos. Os quase beijos. As transas. As quase transas. Eu e ela no ônibus, bêbados. Os novos amores. Ah, eu sempre precisei amar alguém... As expectativas que se evaporaram em dias. Meu dia de redenção, e as esperanças renovadas. O gol do Gabiru. O Fernandão erguendo a taça. O dia mais feliz de todos. Doce sonho, doce realidade. As coisas maravilhosas, o sol, uma vida nova.

Penso em tudo isso ao mesmo tempo, de maneira intensa. Sei que estou me esvaindo. Eu sabia que essa hora seria exatamente assim. Vou apagando, os sons da rua vão diminuindo, o burburinho fica indecifrável, assim como a minha consciência vai desaparecendo, desaparecendo, inelutavelmente. Não há mais o que fazer. Não tenho mais força, o organismo e a mente estão desistindo. Talvez eu vire um anjo, talvez não exista nada, talvez tudo esteja igual. Talvez meu coração finalmente encontre a paz, quando parar de pulsar. Resta só a contagem regressiva e angustiante enquanto vou mergulhando no vazio... 5... 4... 3... 2... 1...

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