segunda-feira, 19 de julho de 2010

Carta

Bernardo é um amigo de longa data. Sábado, quando abri a caixa de correspondências, me deparei com uma carta justamente dele. Espero que ele não fique chateado, mas tomarei a liberdade de compartilhar o seu conteúdo.

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Olá, Bruno!

Como vão as coisas aí por Porto Alegre? Por aqui está tudo bem, na medida do possível. Sim, sempre estou bem, assim, com asterisco. Você bem sabe como me sinto perante a vida. Os dias chuvosos são sempre iguais. Mesmo que haja sol lá fora, por dentro estou sempre chovendo.

Não tem sido fácil levar a minha vida. Nunca foi. Mas a cada dia isso se torna mais cansativo. Creio que a esperança é apenas um engodo para evitar o suicídio em massa e assim impedir um colapso produtivo global. Mas não consigo abandonar essa tal de esperança. Mesmo sabendo que ela é uma mentira.

Assim, vou seguindo. Todas as manhãs, me encho de expectativas de que as coisas sejam melhores. Me dizem que só depende de mim ser feliz, e baseado nisso acordo de peito aberto. Mas é como se existisse uma barrinha de esperança que vai se esvaziando com o passar do dia. Quando deito à noite, restam-me apenas dor e vazio. Quase toda a noite é assim. Uma ou outra é um pouquinho melhor. Mas são apenas exceções. E as exceções servem tão somente para reforçar a regra.

Sei que tenho ótimos amigos. Você sabe que se inclui dentre eles. Mas sinto falta de algo mais. Tenho necessidades muito peculiares quando se pensa no mundo atual. Gostaria muito de amar e ser amado por alguém. Sei que digo uma besteira sem tamanho, sem sentido para os corridos dias de hoje. Mas também sei que você tem sensibilidade suficiente para me compreender. Ambos somos cancerianos, afinal. Aliás, creio que só não vivemos desde já no Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley por causa dos cancerianos. Somos nós que nos recusamos a enxergar a mecanicidade funcionalística das relações humanas. Nada contra os outros signos. Mas o nosso realmente é um signo demasiado humano e tolo.

Então, como eu ia lhe dizendo, realmente tenho essa lacuna forte na minha vida. Tentam me convencer de outros valores como sucesso, dinheiro, ou mesmo a saúde. Tudo isso é ótimo. Mas de que adianta todo o sucesso do mundo se não temos alguém para quem possamos dizer ou ouvir "eu te amo"? De que adiantam as cifras, os reais, os dólares, os euros, se não podemos gastá-los num singelo buquê de flores com um cartão de coração sem parecermos patéticos e imbecis? De que adiantam os pulmões fortes se não podemos respirar fundo e pensar que há alguém por quem zelar e que nos dará suporte diante das tempestades e trovoadas? De que adianta mesmo ter um coração saudável que não possa bater com segurança por ninguém, e que não possa se dar o direito de transbordar todo o amor que guarda para alguém que nunca chega?

As decepções se sucedem uma após a outra. Sei que o problema é comigo. Você pode rir se quiser, Bruno, mas sou como um cachorrinho vira-latas abandonado na rua. Basta alguém me dar um minuto de atenção, se importar um pouquinho só comigo, que me derreto todo, e balanço o meu rabinho, feliz. Mas o fato é que continuo na rua, levando chuva, revirando as lixeiras para me manter vivo. Eu me entrego demais, sempre. Sou excessivamente idiota, e por isso tendo sempre a acreditar que mostrando o que sinto, as pessoas vão entender. Não entendem nunca! Para elas, é sempre desproporcional.

Sei bem das regras do bom conquistador. Sei que devemos ser frios, não nos envolver afetivamente, deixar as coisas acontecerem com o tempo. Mas não nasci para isso, não tenho esta frieza dos manuais enlatados. Não consigo internalizar essas normas. Por que será que as pessoas que se atrevem a amar são vistas como seres tão repugnantes? Elas são ridicularizadas. São chamadas de melosas e cafonas. Por quê?

O que é o bom? Tratar as pessoas como pedaços de carne que se escolhe num espeto corrido? Chamar as mulheres de cachorras, piranhas, vagabundas? Ou então colecioná-las como se a vida sentimental fosse um grande álbum de figurinhas? Que porcaria é essa? Nunca vou aprender a fazer isso. Infelizmente. Ou felizmente, sei lá.

A verdade é que não encontrei o meu lugar no mundo até hoje. Creio que nunca vou encontrar. Vou alternando os meus momentos entre a fraqueza explícita e a a fraqueza oculta. Ocultá-la, mal e mal, é o máximo que consigo fazer. Sou um sujeito de prioridades erradas, que reza todas as noites por coisas que não existem no mundo real. Sabe, Bruno, isso cansa. Muito.

Te confesso, amigo, que o que me alivia um pouco é a possibilidade do suicídio. Não se assuste, por favor. Não pretendo me matar por agora. Talvez eu nunca venha a me matar. Mas somente o fato de saber que isso é possível me faz respirar mais tranquilo. Sabe aquela poupança que você faz sem saber exatamente em quê e quando vai gastar, mas que você sabe que está lá para qualquer eventualidade? É assim que vejo o suicídio. Quando a vida estiver tão insuportável que eu já não consiga mais ver motivos para nada, ele é a grande possibilidade de me libertar das minhas dores.

Bem, Bruno, acho que já me alonguei demais nesta carta. Só queria mesmo sinalizar como estou levando as coisas por aqui. Espero que você esteja bem, e vamos mantendo nossos contatos pelas cartas. Desculpe-me este desabafo. Só o faço porque sei que temos muitas ideias em comum, e que você realmente me entende quando digo minhas asneiras.

Grande abraço,
Do amigo Bernardo

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