sexta-feira, 16 de julho de 2010

Benjamin Button e o tempo

Certa feita eu havia tentado assistir ao filme "O Estranho Caso de Benjamin Button". O problema é que eu havia bebido uns tragos a mais, e acabei dormindo, digamos, durante 95% do tempo do filme. Isso criou um certo tabu, e desde então, jamais tinha tentado ver este filme novamente. Mas ontem à tarde resolvi superar o bloqueio psicológico e assisti-lo, agora a valer. Nada como fazer uma bela sessão da tarde num dia frio debaixo de dois edredons. E valeu muito a pena.

A história de Benjamin Button, o homem que nasceu velho e morreu bebê, é absurdamente humana. Sim, porque hoje em dia, numa sociedade em que tudo é nivelado por números e padrões enlatados, coisas humanas são absurdas. A subjetividade é relegada a um segundo plano perante a necessidade de resultados e posturas pragmáticas para alcançar um "sucesso" que nunca é o suficiente quando se vive em busca de um "mais" que jamais foi delimitado. Contrariando esta lógica de desumanização, o filme é lindo e tocante do início ao fim. Apesar de longo, não é enfadonho e cansativo em nenhum momento.

Ali, vemos a incrível capacidade de um homem em amar uma mulher por toda uma vida. E também a reciprocidade desta mulher que, no entanto, hesitou por alguns momentos. Benjamin e Daisy formam um casal real. Não é aquela coisinha água com açúcar feita para afundar o Titanic com perfume de pétalas de rosa. Eles têm problemas, eles possuem controvérsias psicológicas, eles também são capazes de se magoar. Mas Benjamin é um obstinado. Seu coração possui uma pureza comovente. Confesso que fico bastante impressionado com esse tipo de trama. Ainda acredito no amor, ainda acredito que tudo na vida não passa de meio para que possamos amar em paz, conviver com uma alma que nos complete, que nos faça sentir aconchegados e com o coração leve e feliz. Sei que sou piegas e retrógrado, mas sou assim, por isso fico tocado, e confesso, lacrimejei vendo a história de Button e Daisy.

Além disso, "O Estranho Caso de Benjamin Button" é uma lição de vida, com um ingrediente filosófico bastante profundo. Apesar da trama ser completamente inusitada em sua natureza, é exatamente graças a esta natureza que vemos como o tempo é jocoso na lida com o ser humano. O tempo brinca conosco, ele passa solenemente sem nenhuma amarra, ele é um paralelo impossível de desalojar de nossas entranhas. A vida vai correndo com atordoante rapidez. É um padrão que não possui cotação nem variabilidade qualquer. Ele simplesmente é. Dinâmico e estático ao mesmo tempo!

Não nutro muita simpatia por este ente chamado tempo. Sua relação com a dor é intrínseca. Mesmo em sua dimensão positiva, o tempo apenas serva para cicatrizar cortes que um dia arderam, e que portanto foram dor e sempre estarão presentes como lembrança de dor. Na dimensão negativa, ele serve para afastar, esfriar, e com isso, gerar saudade e dor. O tempo é uma régua líquida e infinita, de fluxo permanente. Ele é maior do que tudo, intransponível, imbatível, imparável, determinado e incansável. Talvez por isso ele me dê tanto medo.

Boa noite, Daisy. Boa noite, Benjamin.

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