sábado, 31 de julho de 2010

Horizonte

O horizonte está escondido. Sou cercado por prédios. Vou seguindo minhas necessidades mais imediatas. Fico apenas imaginando o que há por detrás de tudo isso. Não posso, no entanto, perseguir o horizonte. Não sei se ele me pertence.

Às vezes tenho medo de imaginar o futuro. As coisas são nebulosas. Tudo o que tenho é o presente. E o futuro só existe quando é presente. Ou seja, o futuro na verdade não existe. As projeções são um grande engano.

Por mais que tentemos ser racionais, somos, na verdade, seres animalescos. Nossas necessidades básicas são menos básicas do que as dos demais seres vivos. Mas não deixam de, por isso, serem básicas. O que projetamos como meta, afinal, que não seja bem-estar, boa alimentação, tranquilidade e alguém para amar? Tudo o que projetamos são meios. Os fins são os mesmíssimos de hoje, apenas em proporções diferentes.

Então, por que nos preocupamos tanto? Por que ficamos imaginando o que vai ser, o que não vai ser, o que devemos buscar, de que forma devemos buscar? Por que insistimos em ver um sentido maior naquilo que fazemos?

Somos reféns do futuro. Mesmo eu, que não o projeto, vivo preocupado, aflito com o que será dele. É uma angústia tola. O horizonte sempre estará além de onde possamos chegar. Sempre.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Cicatrizes

Tranque-se na gaveta mais próxima.
Não espere por mais nada, não se iluda.
Este jogo tem as cartas marcadas.
Aprenda a aprender que o fim é sempre o mesmo.

De que adiantou sonhar se você ainda está aí?
Te olham de cima, de cima eles resolvem sua vida.
Debaixo dos edredons você estará mais seguro.
A ingenuidade machuca seu estômago.

À sua volta só existem coisas podres.
Cheire o lixo que contamina o ambiente.
Você quer mesmo rastejar por aí?
De uma hora para outra, você adormece profundamente.

Jogue seu coração pela janela antes que alguém o pegue.
Você sabe que é o melhor a fazer.
Aqueles dias são só seus, e somente você sabe o que passou.
Não se engane em compartilhar isso e despertar gargalhadas alheias.

Nada disso tem graça.
Somos palhaços de nariz preto.
Palhaços são os seres mais tristes.
Brinque um pouco mais com esta lâmina, talvez isso valha um tanto de satisfação.

As cicatrizes são abertas, cortes profundos ressurgem.
Coloque sal e limão, coloque álcool nesse sangue.
Lembre-se de que você não quer voltar para as noites infernais.
Erga o nariz e apenas se divirta.

Sua estupidez um dia vai matá-lo.
Você está perdido em terreno conhecido.
Só pode estar maluco ao andar por aí.
Mas siga em frente, machuque-se de novo: mas pelo menos faça isso ter algum sentido, por favor.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Inter avassalador

O futebol apresentado ontem à noite pelo Inter foi algo muito próximo do extraordinário. O colorado amassou o São Paulo praticamente o tempo todo, teve posse de bola, criou oportunidades no segundo tempo, e merecia pelo menos mais um gol além do marcado por Giuliano.

A defesa praticamente não teve trabalho. Nas poucas vezes em que foi exigida, se saiu bem. Exceção feita a Nei, que realmente destoa negativamente, mesmo nas boas atuações coloradas. O carequinha é esforçado, mas se posiciona mal, não marca nem horário no dentista, e é tecnicamente muito fraco, contribuindo um pouquinho menos do que nada no campo ofensivo. A lateral direita é a lacuna que falta Celso Roth resolver. Talvez esteja na improvisação de Glaydson a solução: o volante não é brilhante, mas pelo menos não compromete.

O meio de campo do Inter foi muito bem, através dos volantes Sandro e Guiñazu, implacáveis na marcação, e de D'alessandro, que desequilibra com seu talento. Andrezinho, o substituto de Tinga, foi muito mal, comprovando que não é jogador pra iniciar partida. A entrada de Giuliano no lugar do ex-meia do Flamengo foi fundamental para soltar a equipe. O garoto fez o gol e se constituiu em parceria fundamental, que alavancou o futebol de D'ale.

No ataque, vimos em Alecsandro um jogador de atuação regular, e em Taison um capítulo à parte. O menino de Pelotas, que andava tendo atuações constrangedoras sob a batuta de Jorge Fossati, ressurgiu no contexto colorado de maneira impressionante. Taison foi um pesadelo para o sistema defensivo são-paulino. Celso Roth passou a explorar as suas melhores características, como uma espécie de ponta-esquerda recuado, compondo o meio-campo sem a bola, e com a redonda, partindo pra cima dos zagueiros adversários com muita velocidade e dribles desconcertantes. Está jogando demais.

É lógico que nada está ganho. A equipe colorada tem que manter o espírito de luta demonstrado no Beira-Rio. Mas um belo passo foi dado. O fato de não ter levado gols em casa pode pesar muito, como pesou contra o Estudiantes. Agora, é aguardar ansiosamente o jogo da semana que vem. Por hora, fica o orgulho de ser colorado, de ser adepto sentimental desta força avassaladora que esmagou o São Paulo no Beira-Rio. Foi lindo. Ser colorado é lindo. Valeu, Inter. O Morumbi aguarda mais uma epopeia colorada.

É hoje!

Foi uma longa espera. Praticamente dois meses depois da epopeia contra o Estudiantes, finalmente o Inter vai começar a encarar a semi-final da Libertadores. O adversário é o forte São Paulo, tri-campeão da competição. Mas não adianta. Hoje é o dia do Inter. O momento é do Inter. Tem que ser.

É fundamental que o Inter leve uma vantagem para o Morumbi. Sem levar gols, tanto melhor. Mas tem que sair do jogo de hoje com a possibilidade de defender o resultado em São Paulo. O primeiro passo para isso é não levar em consideração o momento das duas equipes no Brasileirão. Libertadores é outra coisa. Tudo o que passou, passou. São estes dois jogos que vão decidir tudo.

Mais do que técnica, mais do que talento, hoje é dia do coração. Cada jogador colorado vai ter que entrar em campo com o corpo e com a alma em sua integridade. O gramado do Beira-Rio não será um campo de futebol. Será um campo de batalha com a bola nos pés. Hoje é dia de jogar a vida. O São Paulo também vai querer muito. Mas o Inter tem que querer o dobro. Só assim as coisas vão dar certo.

Mas não é só o time que terá papel protagônico hoje à noite no Gigante. Cada torcedor nas arquibancadas do Beira-Rio terá que se doar, assim como o time dentro de campo. Nós, colorados, queremos, mais do que ninguém, o Bi da Libertadores. O torcedor tem a obrigação de fazer essa vontade toda se transformar em grito, em berro. Hoje é dia de o Gigante rugir, borbulhar, deixar o time paulista perturbado em cada segundo de bola rolando. É hoje! Não tem como adiar!

terça-feira, 27 de julho de 2010

Imensidão de areia

No deserto estou faminto e com sede.
Meus pés cansados e calejados quase se rendem.
Nessas horas, sempre surge um oásis.
Nessas horas, o oásis sempre some.

Ando de armadilha em armadilha, de ilusão em ilusão.
Continuo de frustração em frustração, de perda em perda.
Mais habituado, sempre, porém, me deixando abalar.
É a fórmula humana que os humanos não mais possuem.

O fluxo das águas não cessa.
Me pergunto se algum dia algo vai permanecer.
Já não sei mais, e acho isso uma estupidez.
Não quero mais ser motivo de chacota.

Não tenho mais surpresas.
Não espero mais nada, mesmo quando um tudo se apresenta.
Caminharei sozinho no deserto até o fim, porque é assim que tem que ser.
É assim que a vida me ensinou que é.

O tempo nunca me pertenceu.
Levo comigo meu coração, apenas ele, e tudo o que ele guarda.
Vou me alimentando de esperanças vãs, matando minha sede com a água de um futuro que não me pertence.
Na realidade, só tenho essa inesgotável imensidão de areia, e nela permaneço enquanto minhas pernas aguentarem.

domingo, 25 de julho de 2010

Cala a boca, Arthur!

Tive o desprazer de agora há pouco ler um texto absolutamente ridículo deste sujeito chamado Arthur Muhlenberg no blog do Flamengo do Globo.com. Para quem quiser ler o festival de imbecilidades, o link é este: http://globoesporte.globo.com/platb/arthurmuhlenberg/. Primeiramente quero dizer que respeito imensamente a torcida do Flamengo. Ao contrário desta mula-sem-cabeça, sou um sujeito que sabe reconhecer a grandeza dos demais clubes. Mas este monte de idiotices que o Arthurzinho escreveu merece resposta.

A primeira delas veio no campo. O time reserva do Inter deu um baile no time titular do Flamengo. O placar de 1 a 0 foi pouco, tamanha a superioridade colorada dentro de campo.

A segunda resposta é minha, mesmo, e aqui vou falar o que não poderia deixar de falar, enquanto torcedor colorado. Ano passado, na Copa do Brasil, este debilóide já escreveu uma série de asneiras em seu blog. O Inter eliminou o clube dele de maneira emocionante. Pensei que depois daquilo este arremedo de gente fosse aprender a lição e ficar quieto para todo o sempre. Ledo engano. Agora, ele torna a escrever bobagens homéricas.

Senhor Arthur: o Inter é clube grande. Gigante. É Campeão de Tudo, coisa que o seu Flamengo não é. Possui um grande estádio próprio, coisa que o seu Flamengo não tem. Possui um quadro de sócios que ultrapassa os 100 mil, número que o seu Flamengo, a despeito de possuir a maior torcida do país, impulsionada por um assustador lobby midiático, sequer chega perto de sonhar em possuir. Então sugiro que o senhor lave muito bem essa sua boca imunda antes de falar do Sport Club Internacional. Você é um ser humano digno de desprezo.

Não entendo como um portal como o Globo.com permite que um sujeito de tão rasteiro nível escreva em nome da maior torcida do Brasil em seu site. Este babaca, além de não entender nada de futebol (seus comentários são tão refinados quanto os de um guri de sete anos de idade), parece sustentar a audiência de seu blog em cima de baixarias e impropérios absurdos contra as torcidas adversárias. Talvez isto remeta a algum traço de seu caráter que, à distância, me parece ser realmente bem duvidoso.

Reitero meu respeito pela torcida e pela instituição do Clube de Regatas Flamengo. Tenho certeza de que este retardado mental envergonha os flamenguistas de verdade, que sabem que o futebol é acima de tudo um lazer, e a paixão clubística deve ser algo saudável, e tratada com civilidade entre as diferentes torcidas.

Massa do mesmo

O GP da Alemanha serviu para eu largar a Fórmula 1 de mão, pelo menos até que surja um piloto brasileiro que tenha condições mínimas de vitória e vergonha na cara. Eu era um admirador de Felipe Massa. Considerava-o um baita piloto, um cara capaz de protagonizar a volta da dignidade brasileira na Fórmula 1. Considerava. Hoje, ele caiu para a vala comum. Reeditou os momentos mais lamentáveis e patéticos de Rubinho Barrichello e Michael Schumacher ao dar passagem para Alonso.

E não adianta colocar o piloto como coitadinho que só tem que seguir ordens da equipe. Há momentos em que a hombridade fala mais alto, e que não devemos nos curvar aos patrões. O que teria acontecido se Massa tivesse se recusado a ceder a posição no mole para o piloto espanhol? Teria sido demitido? E se assim acontecesse, o mundo iria acabar? Respondo: poderia ter sido demitido, sim; mas o mundo não acabaria por causa disso.

Fosse demitido, Massa seria um herói, um mártir histórico de um escândalo de proporções inimagináveis. Pegaria muito mal para a Ferrari. A Fórmula 1 como um todo seria repensada. Para o bem. E, mesmo que nada disso acontecesse, ainda assim, a covardia do piloto brasileiro não se justifica. Pilotos de Fórmula 1 ganham uma grana astronômica. Massa não ficaria pobre. Ainda por cima, vem de uma família que ao que parece é muito bem estruturada financeiramente. Pelo nome que tem, Massa jamais ficaria desempregado. Muito menos viraria mendigo. Uns trocos a mais sobrepujaram a sua dignidade de homem.

No duelo da ousadia, do espírito esportivo de vitória contra a comodidade e o fatalismo, Massa escolheu se entregar à sujeira do mundo da Fórmula 1. Poderia ter peitado a Ferrari e virado um exemplo de amor ao esporte. Não o fez. Seguiu as orientações anti-desportivas da equipe. Preferiu ser um cãozinho adestrado. Infelizmente, hoje Massa mostrou ser mais do melancólico mesmo.

Saudades do Ayrton Senna, dos tempos em que vitórias no automobilismo eram conquistadas no braço, e não em manobras pouco plásticas das cabines e das salas condicionadas dos senhores do dinheiro...

sábado, 24 de julho de 2010

Muricy e a seleção

Fiquei bastante chateado com o desfecho da negociação entre Muricy Ramalho e a CBF. O ex-treinador colorado seria o melhor nome, dos que vêm sendo ventilados, para assumir a seleção brasileira.

Primeiramente, Muricy tem feito por merecer esta oportunidade há algum tempo. É um treinador extremamente trabalhador e competente. Fez bons trabalhos no Náutico, no Figueirense, no Inter, e no São Paulo. Está fazendo belíssimo trabalho no Fluminense. Claro que isso não quer dizer que ele seja perfeito. Possui vários defeitos. Seus times geralmente jogam na base da ligação direta, e quando a coisa aperta, ele demora muito para fazer as substituições. Mas, ainda assim, Muricy é um vencedor.

Além do mais, a contratação de Muricy Ramalho seria uma continuidade da linha de atuação de Dunga. Com Muricy, a imprensa (leia-se principalmente Rede Globo) não teria barbadinhas e oba-oba. Ele é um sujeito sério e disciplinador. Isso me leva inclusive a suspeitar que a CBF- e a Globo, que voltou a ter grande ascendência por lá- de fato não tinham "aquela" vontade política de contratar Muricy. Ninguém vai me convencer que a CBF, com seus patrocínios astronômicos, não teria dinheiro para pagar uma multa rescisória e tirar um treinador do Fluminense.

Parece que Mano Menezes é o nome da hora. Não me agrada. É um treinador arrogante que não ganhou quase nada na carreira. É competente? É. Mas não é um nome vencedor. Ainda tem que comer muito feijão com arroz para isso. Até hoje, ganhou uma Copa do Brasil. Só. E não me venham falar em título da segunda divisão, batalha dos aflitos e esta série de balelas. Aquele episódio só vem a comprovar que o Grêmio de Mano se borrou todo para conseguir um acesso à série A, enquanto outros clubes grandes na mesma situação, como Corinthians, Palmeiras, Vasco, Atlético Mineiro e Botafogo o fizeram com várias rodadas de antecedência, sem sustos, sem batalhas, sem aflições.

Bom... Vamos ver no que vai dar...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

No chão

É meio-dia. Estou caído no meio da rua. Fui atingido por um carro. Foi muito rápido. Do nada, estou no chão. Percebo o movimento ao meu redor. Não consigo me mexer. A vida é engraçada, mesmo. Curiosidade e desespero me cercam. Mas eu não sinto nada. Somente sinto que estou indo. E me vêm, num turbilhão, uma série de lembranças à cabeça. Muito rápidas, mas muito intensas e significativas.

O picolé de laranja na praça. O bolo de aniversário. A bola de futebol vermelha. Minha fantasia de Rambo. O espinafre com farinha da minha avó. O chocolate das dezenove horas que minha mãe sempre trazia do centro. A tevezinha preto e branco. Lá está o Silvio Santos e a musiquinha do Atroveran. O Deli-Crem na geladeira.

Lembro da escola. A primeira professora, e a segunda também. A excursão para o zoológico. A paulada na cabeça. Meus traumas. As paixonites de criança. Sempre havia uma. Os jogos de futebol na praça, logo depois do almoço. O Inter, meu amado Inter, quando não ganhava nada. As chacotas dos colegas gremistas, cheios de si. Jogadores péssimos, sofrimento, mas sentimento forte, cada vez mais. Perder me fazia amar ainda mais o colorado. Os álbuns de figurinhas. Os jogos de bafo, os tazos. O futebol de pedrinha no pátio do colégio.

A juventude, o álcool. Cerveja depois da aula. Sinuca, a linda bunda da minha colega de mini-saia, empinada sobre a mesa, com o taco na mão. Tentação do capeta. As festas, a falta de sentido. Os novos mundos. Os tempos em que eu acreditava no ser humano, e que o meu partido mudaria o mundo. A cachaça pura todas as tardes, complementada pelo vinho vagabundo suave à noite. Os beijos. Os quase beijos. As transas. As quase transas. Eu e ela no ônibus, bêbados. Os novos amores. Ah, eu sempre precisei amar alguém... As expectativas que se evaporaram em dias. Meu dia de redenção, e as esperanças renovadas. O gol do Gabiru. O Fernandão erguendo a taça. O dia mais feliz de todos. Doce sonho, doce realidade. As coisas maravilhosas, o sol, uma vida nova.

Penso em tudo isso ao mesmo tempo, de maneira intensa. Sei que estou me esvaindo. Eu sabia que essa hora seria exatamente assim. Vou apagando, os sons da rua vão diminuindo, o burburinho fica indecifrável, assim como a minha consciência vai desaparecendo, desaparecendo, inelutavelmente. Não há mais o que fazer. Não tenho mais força, o organismo e a mente estão desistindo. Talvez eu vire um anjo, talvez não exista nada, talvez tudo esteja igual. Talvez meu coração finalmente encontre a paz, quando parar de pulsar. Resta só a contagem regressiva e angustiante enquanto vou mergulhando no vazio... 5... 4... 3... 2... 1...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Top Blog 2010

Hoje pela manhã, logo que abri a minha caixa de e-mails, me deparei com um que me surpreendeu deveras, confesso. O Dilemas Cotidianos havia sido indicado para o Prêmio Top Blog 2010. Alguma alma extremamente gentil entrou no site do Top Blog e indicou o DC. A quem quer que seja que fez a indicação, agradeço sinceramente pelo apreço. Agora, quem quiser votar no DC só precisa acessar o Top Blog (cujo ícone está na barra lateral do DC).

Tenho plena consciência de que o DC é um blog muito pequeno. Mas só o fato de alguém considerá-lo bom o suficiente para indicá-lo a um prêmio desse porte, me deixa bastante feliz. Para mim, já é uma vitória.

Provavelmente o DC jamais venha a ser um blog de extrema popularidade. Gosto de dizer que este blog possui poucos e bons leitores. Seu conteúdo não é de fácil digestão, ele não é cheio de videozinhos, figurinhas, piadinhas. Ele é apenas um espaço que utilizo para manifestar minhas opiniões, escrever coisas muitas vezes aparentemente sem sentido, e visualizar o mundo em que vivemos de forma diferente.

Acho que quem lê o DC o faz porque tem algum tipo de empatia e identificação com aquilo que escrevo. Quando estamos na penumbra, não conseguimos ver que há gente no mesmo espaço, sentindo e pensando coisas parecidas. De alguma forma, é um alento saber que não estou sozinho nisso tudo.

Por isso, desde já agradeço do fundo do coração cada leitor deste blog. Vocês são um incentivo muito grande. Sintam-se sempre em casa quando acessarem o DC. Quando quiserem manifestar opiniões, manifestem-se cada vez mais, mandem e-mail (bmellosouza@yahoo.com.br), comentem no blog, mandem sinais de fumaça! Vocês são muito bem-vindos, e cada vez mais é um prazer conhecer e interagir com os leitores do DC.

Mais uma vez, muito obrigado por tudo.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O rock nacional está acabando (?)

Eu fico impressionado quando presto atenção em como o rock brasileiro tem sido degradado rapidamente em um curtíssimo período de tempo. Essa bandas emo, bandas coloridas, o diabo a quatro, só tem servido para destruir e corroer as bases do nosso rock. A "era Restart" parece vir para liquidar de vez com o cenário do rock nacional.

Há ainda alguns pilares que mantêm alguma esperança. Pitty é o principal deles, por ainda conseguir competir dentro deste cenário árido e inóspito. Até agora conseguiu não degringolar, a despeito de namorar com o baterista do NX Zero. Mas, sejamos positivos: ele deve ser muito gente fina. Capital Inicial também faz um som de muita qualidade, há muito tempo, além de O Rappa, CPM 22, dentre outras bandas sobreviventes no cenário nacional. Isso sem contar um cenário que hoje é relegado a segundo plano, que reside aqui no sul do Brasil, que conta com bandas de extrema qualidade e larga rodagem como Engenheiros do Hawaii e Nenhum de Nós.

O grande problema é que com a perda de espaço destas bandas (no cenário de hoje, aparece ainda com nitidez apenas Pitty), a tendência é que haja uma proliferação progressiva destas bandalhocas lixo, até a exaustão. Essa é a certeza alentadora: esse formato tem prazo de validade curto. Vai encher o saco logo, logo.

Mas a questão que fica é: o que substituirá esse formato? O que as novas gerações consumidoras do rock nacional vão esperar? Há esperança de uma reemergência das grandes bandas de outrora, de uma identidade verdadeira do nosso rock? Ou teremos mais do mesmo piorado, como são essas porcarias de bandas coloridas que substituíram o emo, que por sua vez substituíram o hardcore melódico?

Quero ter esperança de que essa fase do rock brasileiro seja um longo e tenebroso inverno. É bem verdade que o underground brasileiro ainda tem muita coisa boa, e não vai parar de produzir boas bandas. Mas aqui estou tratando de um cenário mais amplo. E neste cenário mais amplo, pop por assim dizer, o momento é muito ruim, de doer a alma.

Espero que o estrago feito nos cérebros da juventude que ouve essas coisas escrotas não seja tão forte a ponto de liquidar de vez com o verdadeiro rock brasileiro, tão rico, que já produziu bandas históricas como Legião Urbana, Barão Vermelho, Mutantes, Titãs, Engenheiros, dentre outros tantos. Há de se buscar reposição. E talvez isso tenha que partir do público. Porque os produtores das grandes gravadoras seguem apenas uma lógica: a lógica do lucro. Enquanto estes lixos derem lucro, eles continuarão incentivando e colocando no mercado. Mesmo que o fedor se torne insuportável.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Sobre o direito à morte

Leio no Globo.com que um britânico chamado Tony Nicklinson, depois de ter um derrame, ficar paralítico, sem poder falar e vegetando, está lutando na justiça para conferir à sua esposa o direito de realizar uma espécie de eutanásia (http://g1.globo.com/mundo/noticia/2010/07/britanico-paralitico-busca-na-justica-direito-de-morrer.html). É uma situação delicada, não há dúvidas. Mas não deveria ser tanto. Tony está pedindo para morrer. Ele quer isso. Só não pode fazê-lo com suas próprias mãos.

O direito à vida é lindo na teoria. A esmagadora maioria das pessoas quer viver. Seja porque gosta da vida ou porque ainda tem alguma expectativa, utópica que seja, sobre a mesma. Em suma, o direito à vida deve ser protegido a quem quer viver, por um motivo ou por outro. O que não faz sentido é obrigar uma pessoa que não quer viver a viver.

Exemplo simples de como direito não pode ser transformado em obrigação. Enquanto cidadão brasileiro pleno eu tenho todo o direito, garantido por lei, de assistir a shows do Calypso. Beleza, é bom saber que eu posso ver um show do Calypso, se um dia eu passar a gostar da banda e tiver vontade de assisti-la. Mas eu não quero! Eu não gosto! O fato de eu ter direito a ver um show do Calypso não quer dizer que eu TENHA que ver um show do Calypso. Simples como descascar uma banana.

Com a vida é a mesma coisa. O direito à vida deve ser protegido à medida que presumamos que as pessoas, em geral, não têm vontade de morrer. Não tenho nenhuma restrição em relação a isso. Mas, repito: Tony Nicklinson quer morrer, ele não suporta mais a vida, que tornou-se um fardo insuportável. Por que ele deve passar por todo um trâmite complexo para isso? Não se poderia fazer algo mais simples, arranjar-se um modo de comprovar que ele autoriza e ratifica sua própria morte, e assim, deixá-lo descansar em paz?

Está difundida e confundida uma gama de valores controversos e incongruentes. A sociedade atual é hipócrita, e somente reconhece os valores convenientes para sua subsistência, quando assim o são. Onde estão os valores humanos quando milhões de pessoas passam fome enquanto outras faturam dinheiro que sequer conseguirão gastar em vida, à custa delas? Onde estão os valores humanos quando se espalha para pessoas que não podem ganhar dinheiro a falácia de que a vida foi feita para ganhar dinheiro? Onde estão os valores humanos quando se enfatizam as relações de interesses utilitários e o fanatismo pela superficialidade estética?

Na prática, não há valores sendo prezados. Somente quando se esbarra nesse tipo de burrocracia aé que os "nobres valores humanos" emergem. É a hipocrisia do valor da vida em si mesma. Mas, pergunto, cara-pálida: de que vida estamos falando mesmo?

Uma pessoa que opta por morrer só o faz porque considera a morte menos dolorosa do que a vida. Qual o problema nisso? A vida pode, sim, ser uma imensa porcaria. E as pessoas, podem, sim, ter o direito de morrer a hora que quiserem, desde que assim o queiram. Chegamos a um ponto em que nos imploram que não vivamos para que possamos continuar vivos. Não beba! Não fume! Viva 189 anos de sua vida sem fazer as coisas boas dela. Ainda bem que ainda não se achou nenhum problema em fazer sexo. Ou melhor, se achou, sim. Mas para isso serve a camisinha. Menos mau.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Carta

Bernardo é um amigo de longa data. Sábado, quando abri a caixa de correspondências, me deparei com uma carta justamente dele. Espero que ele não fique chateado, mas tomarei a liberdade de compartilhar o seu conteúdo.

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Olá, Bruno!

Como vão as coisas aí por Porto Alegre? Por aqui está tudo bem, na medida do possível. Sim, sempre estou bem, assim, com asterisco. Você bem sabe como me sinto perante a vida. Os dias chuvosos são sempre iguais. Mesmo que haja sol lá fora, por dentro estou sempre chovendo.

Não tem sido fácil levar a minha vida. Nunca foi. Mas a cada dia isso se torna mais cansativo. Creio que a esperança é apenas um engodo para evitar o suicídio em massa e assim impedir um colapso produtivo global. Mas não consigo abandonar essa tal de esperança. Mesmo sabendo que ela é uma mentira.

Assim, vou seguindo. Todas as manhãs, me encho de expectativas de que as coisas sejam melhores. Me dizem que só depende de mim ser feliz, e baseado nisso acordo de peito aberto. Mas é como se existisse uma barrinha de esperança que vai se esvaziando com o passar do dia. Quando deito à noite, restam-me apenas dor e vazio. Quase toda a noite é assim. Uma ou outra é um pouquinho melhor. Mas são apenas exceções. E as exceções servem tão somente para reforçar a regra.

Sei que tenho ótimos amigos. Você sabe que se inclui dentre eles. Mas sinto falta de algo mais. Tenho necessidades muito peculiares quando se pensa no mundo atual. Gostaria muito de amar e ser amado por alguém. Sei que digo uma besteira sem tamanho, sem sentido para os corridos dias de hoje. Mas também sei que você tem sensibilidade suficiente para me compreender. Ambos somos cancerianos, afinal. Aliás, creio que só não vivemos desde já no Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley por causa dos cancerianos. Somos nós que nos recusamos a enxergar a mecanicidade funcionalística das relações humanas. Nada contra os outros signos. Mas o nosso realmente é um signo demasiado humano e tolo.

Então, como eu ia lhe dizendo, realmente tenho essa lacuna forte na minha vida. Tentam me convencer de outros valores como sucesso, dinheiro, ou mesmo a saúde. Tudo isso é ótimo. Mas de que adianta todo o sucesso do mundo se não temos alguém para quem possamos dizer ou ouvir "eu te amo"? De que adiantam as cifras, os reais, os dólares, os euros, se não podemos gastá-los num singelo buquê de flores com um cartão de coração sem parecermos patéticos e imbecis? De que adiantam os pulmões fortes se não podemos respirar fundo e pensar que há alguém por quem zelar e que nos dará suporte diante das tempestades e trovoadas? De que adianta mesmo ter um coração saudável que não possa bater com segurança por ninguém, e que não possa se dar o direito de transbordar todo o amor que guarda para alguém que nunca chega?

As decepções se sucedem uma após a outra. Sei que o problema é comigo. Você pode rir se quiser, Bruno, mas sou como um cachorrinho vira-latas abandonado na rua. Basta alguém me dar um minuto de atenção, se importar um pouquinho só comigo, que me derreto todo, e balanço o meu rabinho, feliz. Mas o fato é que continuo na rua, levando chuva, revirando as lixeiras para me manter vivo. Eu me entrego demais, sempre. Sou excessivamente idiota, e por isso tendo sempre a acreditar que mostrando o que sinto, as pessoas vão entender. Não entendem nunca! Para elas, é sempre desproporcional.

Sei bem das regras do bom conquistador. Sei que devemos ser frios, não nos envolver afetivamente, deixar as coisas acontecerem com o tempo. Mas não nasci para isso, não tenho esta frieza dos manuais enlatados. Não consigo internalizar essas normas. Por que será que as pessoas que se atrevem a amar são vistas como seres tão repugnantes? Elas são ridicularizadas. São chamadas de melosas e cafonas. Por quê?

O que é o bom? Tratar as pessoas como pedaços de carne que se escolhe num espeto corrido? Chamar as mulheres de cachorras, piranhas, vagabundas? Ou então colecioná-las como se a vida sentimental fosse um grande álbum de figurinhas? Que porcaria é essa? Nunca vou aprender a fazer isso. Infelizmente. Ou felizmente, sei lá.

A verdade é que não encontrei o meu lugar no mundo até hoje. Creio que nunca vou encontrar. Vou alternando os meus momentos entre a fraqueza explícita e a a fraqueza oculta. Ocultá-la, mal e mal, é o máximo que consigo fazer. Sou um sujeito de prioridades erradas, que reza todas as noites por coisas que não existem no mundo real. Sabe, Bruno, isso cansa. Muito.

Te confesso, amigo, que o que me alivia um pouco é a possibilidade do suicídio. Não se assuste, por favor. Não pretendo me matar por agora. Talvez eu nunca venha a me matar. Mas somente o fato de saber que isso é possível me faz respirar mais tranquilo. Sabe aquela poupança que você faz sem saber exatamente em quê e quando vai gastar, mas que você sabe que está lá para qualquer eventualidade? É assim que vejo o suicídio. Quando a vida estiver tão insuportável que eu já não consiga mais ver motivos para nada, ele é a grande possibilidade de me libertar das minhas dores.

Bem, Bruno, acho que já me alonguei demais nesta carta. Só queria mesmo sinalizar como estou levando as coisas por aqui. Espero que você esteja bem, e vamos mantendo nossos contatos pelas cartas. Desculpe-me este desabafo. Só o faço porque sei que temos muitas ideias em comum, e que você realmente me entende quando digo minhas asneiras.

Grande abraço,
Do amigo Bernardo

domingo, 18 de julho de 2010

Depois da Copa, a volta ao Gigante

Pode não ter sido uma atuação brilhante do Inter no reencontro com a torcida, na chuvosa tarde de domingo no Beira-Rio. Mas o colorado fez bem a sua parte, e ganhou ao natural do bom time do Ceará, que vinha invicto no Brasileirão, e tinha levado só um gol até então. Apenas hoje, o time cearense levou o dobro.

Celso Roth pode ser um treinador limitado. Mas tem feito um bom trabalho no Inter, nesta sua terceira passagem. Ao contrário de Jorge Fossati, o técnico caxiense implantou um modo de jogar claro, está dando uma cara para a equipe. E começa a colher bons frutos.

A defesa, por exemplo, não enfrentou maiores contratempos contra o vozão. Levou um gol em frango de Pato Abbondanzieri, e só. De resto, o Ceará não ameaçou em momento algum. O Inter de Roth tem consistência defensiva, muito devido a um meio-campo povoado e pegador. Ainda por cima, os três meias se movimentam intensamente, oferecendo uma interessantíssima gama de jogadas ofensivas.

No ataque, reside a maior preocupação de todas, principalmente quando se projeta os confrontos contra o São Paulo pela Libertadores. Alecsandro não é um péssimo jogador. Mas não é um centroavante confiável. Fez um gol de pênalti, mas falta-lhe presença ofensiva. Para se ter ideia do que falo, ele não finalizou nenhuma jogada, excetuando-se o pênalti, durante a partida. Nenhuma. O time criou pouco? Fato. Mesmo assim, o camisa 9 esteve mal colocado em diversos lances: falta ele ajudar o time a criar chances para si mesmo.

Mas Celso Roth, que pode ser criticado por muitas questões profissionais, jamais poderá ser criticado por uma: falta de trabalho e treinamento. Por isso, tenho certeza de que o técnico fará de tudo para corrigir os detalhes e treinar uma movimentação ofensiva que permita ao colorado ser mais agudo no ataque. É esta a azeitada necessária para tornar a equipe do Inter, de fato, candidata não só ao título da Libertadores, mas também ao título brasileiro. No certame nacional, além disso, Tinga e Sóbis serão acréscimos de qualidade consideráveis.

É fundamental ressaltar que o Inter está em clara evolução tática. E ao mesmo tempo, vem conseguindo as vitórias, o que ajuda a aumentar a confiança do grupo. Ao mesmo tempo, o São Paulo está patinando. É muito forte e tem que ser respeitado. Mas não está bem, e passa longe de ser uma equipe que meta medo. Por isso, mesmo sem o adiantamento da janela, nós, colorados, temos de ter em mente que é pra lá de factível que o Inter se imponha diante do tricolor paulista e chegue à final da Libertadores. Quando a torcida se une ao time, não apenas com a presença física, mas formando uma comunhão de 50 mil almas no Gigante, não tem santo que pare o colorado. Nem o São Paulo.

sábado, 17 de julho de 2010

Assimetria

Muita palha na sua carroça.
Faça o que te mandam, antes que você derreta.
Seja um cubo de gelo e finja saber o que fala.
Sala VIP, são esses os vencedores que poderão cheirar os rabos dos porcos.

Quando mesmo te disseram que a verdade vale a pena?
Esqueça o discurso, fique com a prática.
Todos precisam de um manual para fingir que estão vivos.
Eles estão se engasgando com carne e leite na boca.

Não consigo evitar a risada.
Adote o papel mais ridículo deste espetáculo.
Abaixe as calças e mostre as entranhas para entretê-los.
Esfregue o catarro deles em seu rosto.

Desapareça, vire fumaça, isso tudo já me cansou.
Atingi o limite, me espanque até que eu morra.
Pode ser o seu rito de passagem.
Ninguém esperaria nada diferente.

Siga sua farsa com a certeza dos medíocres.
Você nasceu para eles.
Tomara que seja gostoso.
Submeta-se às regras e à humilhação.

Continue catando os farelos no chão.
O pão eles não vão dividir.
Ora, eu sei que nem precisava avisar.
Estou subestimando sua inteligência.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Benjamin Button e o tempo

Certa feita eu havia tentado assistir ao filme "O Estranho Caso de Benjamin Button". O problema é que eu havia bebido uns tragos a mais, e acabei dormindo, digamos, durante 95% do tempo do filme. Isso criou um certo tabu, e desde então, jamais tinha tentado ver este filme novamente. Mas ontem à tarde resolvi superar o bloqueio psicológico e assisti-lo, agora a valer. Nada como fazer uma bela sessão da tarde num dia frio debaixo de dois edredons. E valeu muito a pena.

A história de Benjamin Button, o homem que nasceu velho e morreu bebê, é absurdamente humana. Sim, porque hoje em dia, numa sociedade em que tudo é nivelado por números e padrões enlatados, coisas humanas são absurdas. A subjetividade é relegada a um segundo plano perante a necessidade de resultados e posturas pragmáticas para alcançar um "sucesso" que nunca é o suficiente quando se vive em busca de um "mais" que jamais foi delimitado. Contrariando esta lógica de desumanização, o filme é lindo e tocante do início ao fim. Apesar de longo, não é enfadonho e cansativo em nenhum momento.

Ali, vemos a incrível capacidade de um homem em amar uma mulher por toda uma vida. E também a reciprocidade desta mulher que, no entanto, hesitou por alguns momentos. Benjamin e Daisy formam um casal real. Não é aquela coisinha água com açúcar feita para afundar o Titanic com perfume de pétalas de rosa. Eles têm problemas, eles possuem controvérsias psicológicas, eles também são capazes de se magoar. Mas Benjamin é um obstinado. Seu coração possui uma pureza comovente. Confesso que fico bastante impressionado com esse tipo de trama. Ainda acredito no amor, ainda acredito que tudo na vida não passa de meio para que possamos amar em paz, conviver com uma alma que nos complete, que nos faça sentir aconchegados e com o coração leve e feliz. Sei que sou piegas e retrógrado, mas sou assim, por isso fico tocado, e confesso, lacrimejei vendo a história de Button e Daisy.

Além disso, "O Estranho Caso de Benjamin Button" é uma lição de vida, com um ingrediente filosófico bastante profundo. Apesar da trama ser completamente inusitada em sua natureza, é exatamente graças a esta natureza que vemos como o tempo é jocoso na lida com o ser humano. O tempo brinca conosco, ele passa solenemente sem nenhuma amarra, ele é um paralelo impossível de desalojar de nossas entranhas. A vida vai correndo com atordoante rapidez. É um padrão que não possui cotação nem variabilidade qualquer. Ele simplesmente é. Dinâmico e estático ao mesmo tempo!

Não nutro muita simpatia por este ente chamado tempo. Sua relação com a dor é intrínseca. Mesmo em sua dimensão positiva, o tempo apenas serva para cicatrizar cortes que um dia arderam, e que portanto foram dor e sempre estarão presentes como lembrança de dor. Na dimensão negativa, ele serve para afastar, esfriar, e com isso, gerar saudade e dor. O tempo é uma régua líquida e infinita, de fluxo permanente. Ele é maior do que tudo, intransponível, imbatível, imparável, determinado e incansável. Talvez por isso ele me dê tanto medo.

Boa noite, Daisy. Boa noite, Benjamin.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Brinde

Cá estamos sentados à mesa.
Só estão os sobreviventes.
Depois de tudo, nada como um pouco de cerveja.
Estamos aqui por acaso, mas somos tão parecidos!

É prazeroso estar agarrado às minhas convicções.
Ninguém aqui se corrompeu, ninguém escorregou.
Cascas de banana, joelhos machucados.
Nosso direito de rir é a coisa mais fantástica.

As almas estão preenchidas e felizes.
Eles estão exorcizados.
A bola, o coqueiro e o porco-espinho estão num quadro jogado no porão.
Implore um pouco mais por umas migalhas de atenção ou amor, enquanto aqui nós nos divertimos.

O nosso mundo é tão melhor que a empáfia!
Você já provou um pouquinho de irresponsabilidade?
O descompromisso nos torna mais humanos, dá mais sentido à vida.
Tire o "n" da tensão e coloque um sorriso no rosto.

Só sente dor de cabeça quem se dá o direito de comemorar.
Um brinde a qualquer coisa, pode ser à nossa liberdade parcial.
Nesta mesa, estamos livres dos livros.
Pode ser politicamente incorreto, mas, só por hoje, convenhamos: é bom demais!

terça-feira, 13 de julho de 2010

A hora da superação

Vejo você fraquejando, meu amigo.
Não se deixe levar pela derrota antecipada.
Levante e ressurja.
Faça tudo valer a pena.

Quando disseram que você cairia, você não se rendeu.
Seja a praga indesejada até o fim.
Só assim poderemos comemorar.
Fique preso só mais um pouco.

Dê apenas um passo de cada vez.
Mas não pare, mesmo em carne viva, você ainda tem pés.
Ninguém disse que não haveria dor.
Tanto já passou, pense que até hoje você resistiu.

Se te deixaram vivo até aqui, agora só resta infestar isso tudo.
Enquanto houver chama, vença os pingos da chuva.
Você é um verme persistente que me deixa orgulhoso.
Tudo isso passará logo, insista em sorrir.

O máximo ainda não chegou.
Vá passando pelos pedregulhos, você pode.
Bata na muralha até sua cabeça abrir e sangrar, mas tente quebrá-la até o seu fim.
No fim das contas, estaremos mortos, mesmo.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Ficou em boas mãos

Como já havia dito ontem, torci pela Holanda na final da Copa. Mesmo assim, não posso deixar de reconhecer que o título mundial ficou em boas mãos com a conquista espanhola.
Não sou chegado no tipo de futebol praticado pela Espanha. Mas a verdade é que, pelas atuações que teve contra Alemanha e Holanda, a fúria mereceu o título. Não há como esconder, por mais que eu tenha discordâncias em termos de estilo de futebol: a Espanha jogou muito na reta final. Sufocou a Alemanha e jogou melhor que a Holanda, tendo constante presença ofensiva e muito mais pulmão na prorrogação.
O mundo conhece um novo campeão. A síndrome de equipe amarelona da Espanha fica no passado. Campeã Europeia e Campeã do Mundo, a seleção espanhola é uma grande força do futebol, de uma vez por todas. E conta com jogadores apreciáveis, principalmente no meio-campo: Xavi e Iniesta realmente jogam muita bola.
Da Holanda, fica a tristeza de uma seleção tri-vice-campeã. É um futebol forte, tradicional, que impõe respeito. Mas ainda falta o "algo mais" dos campeões. O time laranja confundiu raça com violência, perdeu completamente o foco do jogo, e não teve nos seus melhores jogadores, Robben e Sneijder, o suporte esperado para uma decisão de Mundial.
Por fim, gostaria de registrar uma errata, pois ontem afirmei que ambos os capitães do jogo de ontem haviam jogado no Barça na final do Mundial de 2006. Como bem deu para perceber, o capitão da Espanha é o goleiro Casillas, do Real Madrid, e não Puyol, como eu equivocadamente havia dito. De qualquer forma, estiveram em campo ontem nada menos do que quatro jogadores que atuaram contra o colorado em Yokohama: Puyol, Iniesta e Xavi, campeões pela Espanha, e o capitão vice-campeão Van Bronckhorst.

domingo, 11 de julho de 2010

Final da Copa

Hoje à tarde conheceremos o mais novo sócio do seleto clube dos campeões da Copa do Mundo. Holanda e Espanha jogarão com o intuito de entrar para a história. São dois bons times. Mas são dois times que não encantaram nem comoveram em momento algum da competição. Chegaram porque foram competentes. De maneiras diferentes.

A Espanha pratica um tipo de futebol que eu particularmente não gosto. É um time que tenta jogar bonito, fazer golaços, entrar com bola e tudo na goleira adversária. A seleção espanhola é adepta do futebol tico-tico-no-fubá. É um paradoxo, pois, jogando esse futebol pouco objetivo, consegue ser bastante eficiente.

Do outro lado, está a Holanda. Apresenta um futebol muito mais prático. Pratica um futebol ofensivo na medida em que precise de gols. Tendo a vantagem no marcador, não se envergonha de tocar a bola, tocar a bola, tocar a bola, tocar a bola, tocar a bola, tocar a bola, tocar a bola... A seleção holandesa é pragmática. E com este pragmatismo, ganhou todos os seus jogos até agora. É eficiente de forma diferente da Espanha.

Vou torcer pela Holanda. Dentre os dois estilos, é o que prefiro. Não gosto de futebol cheio de floreios e firulas. Sou adepto da praticidade, da marcação, da capacidade de decisão. Além do mais, a Holanda tem mais história nas Copas. Já fez belas campanhas, foi vice-campeã duas vezes, e sempre aparece como equipe de respeito em qualquer competição que dispute. Por seu turno, a Espanha nunca fez grandes campanhas, a despeito de sempre ser apontada como favorita das Copas. Mesmo com a Espanha sendo tecnicamente mais apreciável, a Holanda tem um merecimento histórico muito maior.

Por fim, uma curiosidade. Qualquer que seja a seleção que ganhe a Copa, o capitão que venha a erguer a taça será um dos derrotados pelo Inter no Mundial Interclubes. O espanhol Puyol era o capitão daquele Barcelona versão 2006, enquanto o holandês Van Bronckhorst era o lateral esquerdo titular daquela equipe. Esta final, com qualquer desfecho, trará doces lembranças para a torcida colorada.

sábado, 10 de julho de 2010

O gato

David e Maria formavam o casal mais conhecido daquela faculdade. Andavam para lá e para cá de mãos dadas, eram verdadeiramente unha e carne. O amor dos dois chamava a atenção, o carinho mútuo parecia muito forte. Eram feitos um para o outro, destilavam felicidade por todos os cantos.

De repente, Maria passou a comportar-se estranhamente. Parecia alheia ao mundo real. Andava sempre acompanhada por um gatinho, e parecia ser somente aquele felino a companhia desejada por ela. David estava desnorteado com a forma abrupta e inexplicável com que ela afastara-se dele. E Maria andava pelos corredores como um zumbi.

Ele não se conformava com aquela situação. Sentia-se profundamente perturbado com o que estava acontecendo. Os olhos de Maria, a cada dia que passava, estavam mais vidrados. E o gatinho, companheiro fiel e leal, sempre à frente de seus passos. Era muito estranho.

Vez por outra David, em atos de descalabro, pegava a garota pelo braço para perguntar o que estava ocorrendo com ela. As respostas eram sempre evasivas, e ela rapidamente se desvencilhava. Assim, foram se passando as semanas. Sem respostas. Como um imenso e inexplicável pesadelo.

Certo final de tarde, quando andava pelos corredores da faculdade, David deparou-se com aquele gato numa sala vazia. Da porta, ele observou o gato, que respondeu com um olhar absurdamente demoníaco. Ali estava o mal. Um tanto apavorado e perturbado com a cena, David saiu tomado de horrorosa sensação. Logo ali, no corredor vazio, vislumbrou Maria, tentou falar sobre o que havia visto, mas a moça apenas ridicularizou a situação, pediu que ele a deixasse em paz, e saiu correndo em disparada.

Passaram-se dois dias da semana, e Maria estranhamente deixara de aparecer naquela faculdade, não atendia o celular, e ninguém sabia dar notícias dela, nem seus próprios pais, quando atendiam o telefone residencial.

David, preocupado, voltou a circular por aquele corredor cheio de salas vazias, na esperança de encontrar Maria. Chovia muito, e a faculdade estava erma e inóspita, como nunca antes visto. Mesmo as luzes pareciam enfraquecidas, a atmosfera estava pesada, o silêncio era absoluto. O cenário não era nem um pouco convidativo.

Ele olhava sala por sala em busca de Maria, e, naquela sala em que encontrara o gato no outro dia, tornou a encontrá-lo. Desta vez, estava espatifado no chão. Os olhos, ainda diabólicos, saltados da face semi-destruída, junto àquele monte de patê misturado com pêlos, configuravam uma cena chocante.

Em desespero, David novamente viu Maria, que repentinamente aparecera, já dirigindo-se à saída do prédio. Era um alívio imenso. Correu para vê-la, entender a situação, perguntar se ela estava bem. De costas, ela não o via e parecia não ouvi-lo. Ela não respondia de forma alguma, e continuava a caminhar, com passos calmos e marcados. David pegou-a pelo braço, como da outra vez. Ela virou a cabeça muito rapidamente, e olhou-o com um rosto fantasmagórico, esbranquiçado, desfigurado, assustador. Estava com aquele olhar diabólico. Sorriu satanicamente, e miou. Disto, em fração de segundos, seguiram-se urros e escuridão total.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Sozinha e mal-acompanhada

Encontro você em algum canto chuvoso.
Você desvia seus passos, finge que não está em meio ao caos.
É muito mais cômodo fazer de conta que sabe o que faz.
Agora você age como um fantasma dono de si.

Sei que não sou o que você quer que eu seja, baby.
Você sabia que sinto orgulho disso?
Ainda estou vivo, ainda tenho meus motivos.
Enquanto isso, seus sorrisos gelados direcionam-se para as carrancas hipócritas.

Quando estiver sozinha, faça o favor de não chorar.
Não era para ser o melhor para você?
Não seja patética, e mantenha suas convicções.
Você é muito maior, vai ficar bem.

Apenas não brinque de ir e vir.
Isso pode ser perigoso.
Mantenha-se longe de qualquer sentimento.
Você está aqui para jogar... Ou realmente acredita neles?

Por favor, mantenha sua imagem.
Vá mostrando sua face e suas cicatrizes.
Caminhe rumo ao abismo na minha frente.
E lá de baixo, me diga se valeu a pena.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Como arruinar sua carreira de jogador de futebol em 10 passos

1. Estabeleça um caso extraconjugal com uma Maria Chuteira.

2. Seja descuidado, ou burro mesmo, e engravide esta Maria Chuteira.

3. Chame a Maria Chuteira para "conversar", e mesmo sabendo que ela tem muito pouco a perder, agrida ela, e obrigue-a a ingerir substâncias abortivas, fazendo com que ela procure as autoridades e a imprensa.

4. Não esqueça de, nesse meio tempo, dar declarações que denunciem seu machismo e potencial violento, coisas do tipo "quem nunca saiu na porrada com uma mulher uma vez na vida?"

5. Com a criança já nascida, chame de novo a moça, na companhia de seus amigos barra pesada.

6. Agrida a moça mais um pouco, junto com os seus amigos barra pesada.

7. Diga para seus amigos barra-pesada "resolverem a situação". O pacote pode incluir esquartejamento e alimentação de rottweilers com pedaços da carne fresca.

8. Aproveite e tente, com a parceria da atual esposa, dar um sumiço no bebê indesejado.

9. Continue se fazendo de louco por mais um tempo, até que a situação fique insustentável e você tenha que se entregar à polícia.

10. Pronto! Pode esquecer seleção brasileira, futebol europeu, fama e glamour: você conseguiu acabar com uma vida, arruinar sua carreira de jogador de futebol, e provavelmente vai passar uns bons anos da sua vida vendo o sol nascer quadrado! Parabéns!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Uruguai

Foi comovente a atuação da seleção uruguaia contra a Holanda, na primeira semifinal da Copa. Torci bastante pelos nossos irmãos sul-americanos, e senti profundo pesar com a derrota ao final do jogo, derrota um tanto injusta, na minha modestíssima opinião. A Holanda foi beneficiada com um gol em impedimento, num momento em que a partida estava empatada em 1 a 1, o Uruguai estava seguro, e não oferecia chances para a equipe laranja. Depois desse gol, a coisa desandou, e a celeste levou o terceiro. Ainda houve um último suspiro com o segundo gol uruguaio, mas, apesar da pressão maluca de cerca de dois minutos, os destinos das equipes já estavam selados. Holanda finalista. O bravo Uruguai buscará agora a honrosa terceira colocação no certame.

Gostei muito da participação da celeste olímpica nesta Copa. O desacreditado Uruguai voltou às cabeças, se superou num dos grupos mais complicados da primeira fase, passou de forma espetacular pela seleção de Gana em jogo que parecia perdido, e só caiu nas semifinais, contra a forte Holanda, por causa de um erro comprometedor do bandeira. O Uruguai foi gigante, teve alma guerreira, jogou com o coração.

Como é bom ver a volta triunfal do futebol de uma seleção tradicional, bicampeã do mundo e bicampeã olímpica, que estava esquecida, amargurada, largada a um papel de melancólica coadjuvante nos últimos anos! Confesso que fiquei emocionado com a campanha uruguaia nesta Copa. Víamos em campo um time coeso, unido, batalhador, que se não tinha muitas fontes de qualidade técnica (que se resumiam aos ótimos Forlán e Luis Suárez), dividia cada bola como se fosse a última, e mostrava que entregaria tudo em campo pelas vitórias.

Domingo, a Copa terá um campeão. Algo me diz que será a Holanda, embora eu ache que a seleção que pratica o melhor futebol, disparado, é a da Alemanha. Há ainda a Espanha, que eu defino como irritantemente eficiente. Um destes três times conquistará a taça no próximo final de semana. Mas o grande vencedor desta Copa, já é, para mim, o Uruguai. Que esta campanha lhe dê força para se firmar novamente, e de uma vez por todas, entre os grandes do futebol.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Fora da toada

É rápido, é atordoante.
A passagem da vida me esmaga, bate o vento na minha cara.
Com uma ponta de receio, ando a passos curtos.
São novidades que não acabam mais.
Aquilo que um dia foi esperança, hoje é pó.
Quadros amarelados me fazem ver que não sou nada.
E assim continuará sendo até o dia em que alguém me acorde.
É o ciclo, o nascimento, a reprodução, a morte.
Uma vez dançamos com os pés descalços sobre o asfalto quente.
Ora, eu não flutuava: apenas rasgava o couro da minha sola.
Era só por isso que você sorria.
Eu guardei seus badulaques em minha carteira.
Leve de uma vez por todas a velha lição em sua mente.
Jamais demonstre afeto em território de zumbis.
Eles devorarão suas expectativas.
Você não foi feito para isso.
Enquanto ele chora, você cavalga e enche a cara.
Não finja que sabe lidar com seus desafios.
A beleza tende a murchar, e fazer com que nada sobre além do que já foi feito.
Eu aplaudo este espetáculo, sou apenas expectador.
Não esqueça de gravar sua felicidade em algum lugar.
Faça a digestão lentamente, e registre de todas as formas.
No fim, meus ossos quebrarão facilmente.
E tudo que sonhei, vivi, chorei, tudo que amei, estará esquecido, resumido a um epitáfio insosso e pré-fabricado.
Os recomeços já não são mais novos.
Meu corpo e minha alma estão mal costurados.
Traga-me mais um café com fé.
Minha xícara está vazia de novo...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Chegadas inúteis

Ele está cercado. Ruma para sua casa. Mas os sanguessugas não deixam. Envenenam tudo, riem com prazer sádico. Não há mais respeito, não há mais humanidade. Restam apenas mesquinharias.

Aquele homem só quer descansar. Está em farrapos, está sujo, está ensanguentado. A piedade, o orgulho, o reconhecimento da luta, tudo isso é vão. São valores que não valem nada por esta cidade.

É muito fácil ser oportunista. Eles produzem nossas mentes, eles querem brincar com nossas ideias. Tudo se resolve com uma pilha de papéis. A ganância esmaga o amor, trucida as esperanças de quem apenas quer viver em paz.

A vida pode ser um pesadelo. O ciclo da vida é uma farsa. Os vencedores são iludidos que postergam a dor que hoje sentimos. Eles também a sentirão. Todos estamos expostos.

A vergonha assola o espírito daquele homem que apenas quer dormir um pouco. Essa vergonha é apenas o massacre imposto por quem pensa diferente. A verdade não passa de uma grande mentira. Ou você pensa que estes sorrisos cínicos resistirão ao fim e ao cabo? Ou você acha que alguém vai lhe abraçar quando mergulhar no inferno?

Se ele soubesse o que se passa em volta, estaria mais tranquilo. Mas as risadas espalhafatosas confundem sua cabeça. A alegria é cômoda e previsível. Ser mais um do rebanho é fácil e sem graça. Somente quando a alma chora e sangra é que nos encontramos. É aí que medimos o significado de todas as farsas que nos fizeram caminhar até aqui e não enfiar uma faca no peito. Só então percebemos que não adianta correr, nem caminhar: amanhã e lá não existem. Estamos sempre estacionados no hoje e no aqui. Estaremos sempre no mesmo ponto. Estaremos sempre com nossa única e finita certeza: essa tal de vida, breve, sorrateira, ordinária e enganadora...

Mas o show tem que continuar, apesar de mim, de você, dele, de nós e de vós... Eles ainda têm muito por ganhar. E continuarão a ganhar, às nossas custas ou às custas de quaisquer outros tolos. Os tolos sempre existirão, afinal. Palmas para os vencedores. Dêem a descarga, por favor.

domingo, 4 de julho de 2010

Deserto

As pessoas estão enganadas por aqui.
Pedem pão, pedem circo, pedem piedade.
Sobra a vontade de cegueira.
O que os olhos não vêem, o coração não sente.

Elas adoram ser esmagadas.
O prazer está em colocar as coleiras, latir e correr.
Os olhos abertos são incomodados pela maldita luz.
Me sirva mais cogumelos, por favor.

Voltam os zumbis e suas velas.
Corro deles, não quero que matem minha essência.
Estão famintos por mentiras e banalidades.
Eles sabem bem o que querem.

Enquanto sonho com ela, mastigam meus sonhos.
Salivam cada vez mais.
Estou tomado pela obsessão.
Cravo o punhal nos seus corações, e não encontro nada.

A sede se confunde com o deserto.
Aquilo à minha frente é um oásis ou a boca dela?
Joelhos arrebentados, uivos, queda evidente.
Essa doença não tem cura.

Agora sou apenas ossos.
Tudo se ressecou antes que eu tivesse esperança.
Vontades são venenos.
Tudo está em seu lugar.

sábado, 3 de julho de 2010

O que fica da passagem de Dunga pela seleção?

É óbvio que não foi o desfecho esperado. A eliminação do Brasil contra a Holanda ocorreu de forma triste, melancólica, num jogo que parecia na mão e escorreu pelos dedos. Mas, no fim das contas, futebol é isso. O Brasil enfrentou um grande adversário (e aqui já deixo um cutuque que me acompanha há algum tempo, e que tenho relatado a amigos: a Holanda será campeã desta Copa), parelho com ele, e caiu fora da Copa. Simples como comer um brigadeiro. Caiu como antes haviam caído de maneira muito mais lamentável França, Itália e Inglaterra. Caiu como hoje cairá outra gigante, Argentina ou Alemanha.

Li, por exemplo, de uma jornalista covarde e oportunista chamada Marília Ruiz, palavras como "fiasco", num artigo raivoso e recalcado, direcionado claramente a colocar a torcida contra o treinador (http://g.br.esportes.yahoo.com/futebol/copa/blog/damarilia). Que fiasco é este, dona Marília, de uma seleção que chega entre as oito melhores de uma Copa, perde por 2 a 1 para um adversário de respeito, e com um jogador a menos? É muita falta de caráter transformar a derrota de ontem numa tragédia, e Dunga num abominável vilão.

O Brasil não ganhou a Copa, da mesma forma que 31 seleções, ao seu final, não a terão ganho. E ganhe quem ganhar, a seleção brasileira permanecerá sendo a única pentacampeã. Talvez Dunga tenha cometido equívocos pontuais, em termos de convocação e escalação (e não me falem, pelamordedeus, em meninos da vila ou em Ronaldinho: só Ganso não seria uma convocação tão descabida, e ainda assim, jamais foi testado no "pega-pra-capar"). Mas dirigiu uma seleção de caráter, de fibra. Em nenhum momento os jogadores deixaram de correr. Mesmo nas piores circunstâncias, eles jamais deixaram de lutar (Felipe Melo, aliás, levou esta expressão excessivamente ao pé da letra). Podemos questionar alguns destes atletas tecnicamente, mas jamais poderemos dizer que eles não se entregaram, que não fizeram tudo que era possível dentro de suas limitações.

As lágrimas de Júlio César, os olhos inchados de Kaká, foram reveladores. Tudo passou muito longe do cinismo nojento de 2006. Dunga conseguiu resgatar o orgulho dos atletas em vestirem a camisa canarinho. Jogar na seleção brasileira deixou de ser um compromisso enfadonho, a prestação blasé de um favor. Esta seleção, apesar de todos os problemas, apesar da derrota, reabilitou uma verdadeira empatia com a torcida, uma identificação que estava esquecida dentro de algum bolso de algum abrigo da Nike.

Dunga deixa um legado importante de profissionalismo e correção. Com ele não teve regalias, chacrinha, oba-oba. Nós vimos um Brasil que teve muita transpiração, apesar de pouca inspiração, em alguns momentos cruciais. Dessa vez, a seleção pecou pelo excesso de sangue nos olhos. Mas, se é para perder, que se perca com dignidade: e dignidade, tenham certeza, caros leitores, não faltou a esta seleção.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Olhos

Aqueles olhos já não olham mais para mim.
Eles são fugidios e angustiantes.
Aqueles olhos já não são os olhos que conheci.
Estão frios, distantes, sem brilho.

Os olhos dela me evitam, me desprezam.
Sei para onde eles olham, e conheço bem o fim dessa história.
Talvez sejam olhos de raiva ou mágoa.
E tudo o que os meus oferecem é amor e ternura.

Onde estarão aqueles olhos outrora carinhosos?
Em que canto se esconderam os luminosos olhos que me davam força, vida, acolhida e esperança?
É notável o afastamento sobre o qual sequer pude opinar.
Sinto falta daqueles olhos, e de quando ela era um pouco minha.

Meus olhos pediram muito pela volta daqueles olhos.
Mas eles se mantêm irredutíveis.
Meus olhos enchem d'água, mas, orgulhoso, disfarço.
Estes meus olhos estão fartos de ver sempre as mesmas cenas.

Os mesmos olhos que sorriam, hoje são carranca.
Seus olhos serão mesmo tão insensíveis?
Mas não se preocupe: meus olhos não tornarão a olhar os seus.
Eles ainda têm um pingo de dignidade.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Choradeira

Estou verdadeiramente comovido com a choradeira do superintendente de futebol do São Paulo, Marco Aurélio Cunha, sobre um suposto favorecimento da CBF ao Inter, no caso do eminente adiantamento da janela, que possibilitará ao colorado inscrever na reta final da Libertadores os reforços Renan, Tinga e Rafa Sóbis.

Primeiramente, gostaria de um dia entender, sinceramente, a verdadeira função deste senhor no departamento de futebol são-paulino. Pelo que vejo, o seu papel é meramente o de falar besteiras em público, participar de programas humorísticos, e ficar de briguinhas infantilóides contra dirigentes e jogadores não menos caricatos de outros clubes paulistas.

Só que por aqui, isso não vai colar. O discurso moralista de Cunha, dizendo, com lágrimas nos olhos, que o São Paulo é ético, respeita regras, e blá blá blá não condiz, definitivamente, com a prática. O tricolor paulista tem se notabilizado, nos últimos anos, por ser o maior pirata de atletas do futebol brasileiro. Seus dirigentes, éticos, corretos, honestos, que rezam o Pai Nosso e a Ave Maria todas as noites antes de dormir, se atravessam em todos os negócios que lhes convêm atravessar. Basta lembrar dois jogadores que estavam acertados com o Inter, e na última hora foram para o São Paulo, seduzidos por propostas oportunistas e eticamente contestáveis: Miranda e Dagoberto. Dizem que Jorge Wagner estava acertado com o Grêmio quando e chegou o São Paulo e... zapt! Onde estava a moralidade nessas horas? Guardada numa gaveta cheia de cupins?

Então, o Inter tem, sim, a obrigação de usar todos os dispositivos legais para inscrever seus reforços, e vencer o São Paulo nas semifinais da Libertadores. Se é ético, não sei, mas o fato é que todo mundo faz. O Flamengo usou deste mesmo artifício para inscrever Adriano no Brasileirão do ano passado. E está com a taça no armário. O Grêmio, quando recontratou Tcheco em 2008, fez o mesmo. Por que logo o Inter teria de bancar o Joãozinho do Passo Certo num momento tão importante? Sejamos menos hipócritas, por favor...