quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sala de espera

Aquele rapaz é o primeiro da fila. O primeiro a chegar àquela sala de espera. Ali, são distribuídos remédios para problemas de coração. Uns parentes que já haviam passado pelo mesmo tipo de enfermidade indicaram-lhe o local. Ágil, rápido, fácil. Cada um da fila preenche um cadastro bastante simples com a recepcionista. O rapaz posta-se, confiante, numa das cadeiras, bem à frente do balcão central. Chamariam cada um pelo nome.

Era bastante gente. Mas, como havia sido o primeiro da fila, aquele moço estava absolutamente tranquilo. Ele era prevenido, sabia de toda a necessidade de ter aquelas pílulas, que seriam a sua grande chance de sobrevivência. Por isso, adiantou-se.

De forma muito rápida, coisa de 15 minutos, já começaram a chamar os sujeitos. Ele não foi o primeiro a ser chamado, a despeito de ter sido o primeiro a ter chegado. Deixou passar. Não entendia muito bem do funcionamento das coisas por ali. A recepcionista chamou então o segundo, o terceiro nome. Nada do dele. Então, ele reivindicou:

- Moça, perdão, mas gostaria de saber porque outras pessoas estão passando na minha frente se fui o primeiro a chegar. Inclusive, acredito ser um dos casos de maior urgência.- disse, com falsa paciência e incompreensão no tom de voz.

- Acalme-se, já, já o senhor será atendido. Tudo depende de uma triagem interna que define a ordem de chamada.- respondeu ela.

Ele tornou a se sentar. Mais nomes eram chamados. E as pessoas iam saindo com um imenso sorriso no rosto. Num mundo de tão poucas oportunidades, ali estavam elas em uma quase redenção, de alguma forma. Aqueles remédios significavam muito para muitas delas. É bem verdade que sempre há os trambiqueiros, que não precisam daquelas pílulas, burlam as regras e saem feito comerciantes. Utilitarismo extremado, talvez um tanto covarde. Dizem que havia muitos destes por ali. Mas, enfim, quem saía dali, saía satisfeito, feliz. Pela sobrevivência ou pela contravenção malandra.

O rapaz observava. A manhã ia passando sem ser chamado. Voltava ao balcão, e tudo o que a moça lhe respondia é que seria atendido, na hora certa. Ela fazia questão de deixar claro que ele não estava esquecido. Mas ele se sentia, sim, esquecido.

Ao final daquela manhã, todos os rostos que haviam adentrado o recinto com ele, atrás da fila, já haviam saído dali. Chegavam outros, e outros, e outros. E iam passando à frente. E iam saindo satisfeitos. E o rapaz permanecia sentado, bem em frente ao balcão central.

O rapaz, àquela altura dos acontecimentos, já estava deveras angustiado. Por que sua vez nunca chegava? O que havia de errado? Tornou a falar com a recepcionista, que disse que falaria com o pessoal de lá de dentro para resolver a situação. Na volta, ela fez um sinal de positivo, dizendo que ele já iria ser atendido.

Não foi, porém, o que aconteceu. A tarde virou noite. Havia mais umas três pessoas. Todas foram chamadas e atendidas. Eram oito da noite, e a recepcionista pediu que ele se retirasse, pois era hora de fechar o estabelecimento. Perplexo, o rapaz perguntou:

- Mas... e eu? Fui o primeiro a chegar, estou aqui desde as primeiras horas da manhã, e todo mundo passou na minha frente. Por quê?

- Desculpe, senhor. É chegada a hora de fecharmos. Volte aqui amanhã, que certamente você será devidamente atendido.

Então, conformado e esperançoso do dia vindouro, saiu. Sequer voltou para casa. Dormiu ali, pela rua mesmo, na frente do local. Na manhã seguinte, de novo era o primeiro da fila, com o brilho da expectativa pelo novo nos olhos. E o roteiro permaneceu o mesmo.

Foram tantos os dias, que se tornaram meses, que se tornaram anos, naquela espera pelo remédio que nunca veio, que certa feita morreu ali, na fila mesmo, no primeiro lugar dela, para variar, ironicamente pelo mal que afetava seu coração, e cuja solução estava exatamente dentro daquele estabelecimento.

Quem foi que disse que a vida é justa?



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